Teoria do Design 2

Profª Fabiane Lima
fabianelim@gmail.com

Universidade Tecnológica Federal do Paraná — 2016

Ulm e seu legado

Contexto

Finda a guerra na Europa, e com o território alemão dividido entre capitalistas [EUA] e socialistas [URSS], surge a necessidade de reconstrução.

  • Redirecionamento da capacidade produtiva das fábricas: em vez de equipamento bélico, itens de consumo
  • Auxílio do Plano Marshall para reconstrução da Alemanha
  • Fundação Scholl: mantenedora e suporte para Ulm

"It's toasted", Mad Men (2007)

"Para manter as altas taxas de produtividade desejadas, era preciso então estimular os consumidores a trocarem os seus aparelhos antigos por novos. Era preciso que o consumidor consumisse por opção e não apenas por necessidade [...] Contudo, não bastava querer comprar; era preciso que o consumidor possuísse o poder de compra, o qual havia sido o grande fator limitador durante a Grande Depressão. A solução encontrada no período pós-Guerra foi a ampliação quase irrestrida do crédito ao consumidor."
(CARDOSO, 2008 – grifo meu)

É sob a influência do funcionalismo, do tecnocientificismo e das tendências da escola suíça que é criada a Hochschule für Gestaltung Ulm, ou a Escola Superior da Forma de Ulm.

Inicialmente pensada como uma herdeira direta de Bauhaus, a Escola de Ulm funcionou de 1953 a 1968 teve como fundadores e colaboradores Max Bill, Inger e Otl Aicher e Walter Zeischegg.

Max Bill

"O consumo é mais rápido e assim, automaticamente, se abusa da forma, convertendo-a em um fator de incremento de vendas. Este perigoso desenvolvimento se manifesta claramente no estilo streamlining, que hoje ocupa o lugar antes ocupado pela ornamentação. Por isso, se hoje reclamamos de novo as belas formas, por motivos estéticos, não queremos ser mal interpretados: tratam-se sempre de formas vinculadas à qualidade e à função do objeto. Tratam-se de formas honestas, não de invenções para aumentar as vendas de produtos de caráter instável, sujeitos à moda".
Max Bill

Transparência (1953–54)
: Josef Albers, professor; Ingela Alberts estudante

Jogo de louças

Bomba de gasolina, projeto acadêmico (1964–65). Professores: Bonsiepe and P. Raacke e estudantes

Relógio de cozinha (1956-57): Max Bill com Ernst Möckl

Em 1955, a convite de Max Bill, o argentino Tomás Maldonado passou a ensinar em Ulm, e em 1957 tornou-se diretor da escola. Sob sua regência, houve um grande foco na visão racionalista e tecnocientífica aplicadas ao design.

Entre 1958 e 1962, no entanto, a ênfase foi mudada para campos como Ergonomia, Economia, Física, Psicologia, Semiótica e Sociologia.

Apesar de vista como herdeira direta de Bauhaus, os ulmianos tinham posturas bem diferentes em relação à sua antecessora:

  • Rejeição de disciplinas como pintura e escultura, presentes no currículo original de Bauhaus
  • Arte e design vistos como domínios estéticos complementares, e não separados
  • Rejeição da composição baseada na geometria euclidiana [quadrado, círculo e triângulo], com o argumento de que isso não tinha fundamentos funcionais

Tomás Maldonado

Departamentos de Ulm

  • Formação básica: Fundamentos gerais de composição, cor, forma, métodos de representação e maquetaria.
  • Comunicação visual: Estudos em comunicação de massa, tipografia, fotografia, desenvolvimento de sistemas de signos, embalagem.
  • Desenho de Produto: Estudo de métodos de projeto focados em economia, função, materiais, cultura, tecnologia, com foco na produção industrial em larga escala.
  • Informação: Voltado aos campos profissionais ligados à imprensa e comunicação, como cinema, rádio e tv.
  • Construção: Focado na criação de habitações populares modulares, de forma econômica.

Projeto de moradias populares (1961): Herbert Ohl

Capa de disco, trabalho acadêmico (1962–63
): Tomás Maldonado e Hansrudolf Buob (
estudante)

Protótipo do Autonova Fam (1965): Michael Conrad, Pio Manzoni, B. Busch

A Escola de Ulm tinha uma relação muito próxima com empresas como a alemã Braun, que produzia eletroeletrônicos, e absorveu muitos de seus alunos. Essa parceria praticamente definiu o conceito de "design alemão" como funcional, racional, econômico e neutro.

  • Formas sóbrias
  • Pouca variação de cor
  • Forma buscando traduzir a função do produto

Barbeador da Braun

Radio da Braun

Radio da Braun

Radio da Braun x Apple iPod

O currículo em Ulm acabou servindo de modelo para a criação de outras escolas de design, como a Oficina Nacional de Desenho Industrial de Cuba, o National Institute of Design em Ahmenabad e a Escola Superior de Desenho Industrial, no Rio de Janeiro, Brasil [1963].

Antes da ESDI, outras tentativas de se implantas escolas técnicas e de esino superior de design no Brasil aconteceram:

  • Instituto de Arte Contemporânea do MASP — São Paulo [1951]
  • Escola Técnica de Criação do MAM — Rio de Janeiro [1959]
  • Desenho Industrial vinculado ao curso de Arquitetura da FAU — São Paulo [1962]

Solenidade de assinatura da constituição da ESDI, com a presença do governador Carlos Lacerda e o Secretário de Educação Carlos Flexa Ribeiro — 1963

"A centralidade do ensino para a constituição de uma narrativa histórica do design é um fato de importância determinante para contextualizar grande parte dos debates políticos e ideológicos que têm regido o campo [...]"
(CARDOSO, 2008)

Outros cursos pioneiros, não necessariamente reconhecidos como parte da história do ensino do design no Brasil:

  • SENAI [1942]
  • Escola Técnica Nacional [1942]
  • Curso de Desenho e Artes Gráficas da FGV [1946]
  • Escola Técnica IDOPP [1949]
  • Liceu de Artes e Ofícios [século XIX]
  • Escola Técnica de Curitiba [1942]

Dinâmica

Exercício: Imagine que é o ano de 1963, e que você é um/a designer. Você foi convocado/a junto com um seleto grupo de profissionais para um concurso e vai criar um logotipo para a Escola Técnica Federal do Paraná, mesma instituição onde você se formou.

Para entrar no clima:

Em pequenos grupos, produzam um logotipo e uma justificativa curta para seu projeto. Na apresentação, transfiram o desenho para o quadro e apresentem para os colegas.

  • Materiais necessários: papel e caneta
  • Tempo de execução: 40 minutos
  • Apresentação: 7 minutos

Referências

  • CARDOSO, Rafael. Uma Introdução à História do Design. São Paulo: Blucher, 2004.
  • MEGGS, Philip. Historia del Diseño Gráfico. México: Trillas, 2010.