Teoria do Design 2

Profª Fabiane Lima
fabianelim@gmail.com

Universidade Tecnológica Federal do Paraná — 2017

Artefatos têm política?

As 3 leis da robótica

Slogan da National Rifle Association

"O sistema fabril, o automóvel, o telefone, o rádio, a televisão, o programa espacial, e, é claro, o poder nuclear, todos estes foram em algum momento descritos como democratizadores, libertadores de forças. [...] É raro que surja uma nova invenção e que alguém não a proclame como a salvação de uma sociedade livre."

(WINNER, 1986)

Visão ingênua/determinista social: "O que importa não é a tecnologia em si, mas o sistema social ou econômico no qual ela está inserida."

  • Culpar as coisas parece ainda mais despropositado do que culpar as vítimas quando se julga as condições da vida pública.
  • Sugere que as coisas técnicas não importam em nada em si mesmas.

Arranjos técnicos
e ordem social

Artefatos condicionam a ordem social

Robert Moses [...] construiu esses viadutos segundo especificações que evitassem a presença de ônibus nas vias do parque. [...] Uma conseqüência foi limitar o acesso das minorias raciais e grupos de baixa renda a Jones Beach, o parque público mais largamente aclamado de Moses."

(WINNER, 1986 — grifo meu)

"Por gerações após a morte de Moses e o desmantelamento das alianças que ele construiu, seus trabalhos públicos, especialmente as estradas e pontes que ele construiu para favorecer o uso do automóvel sobre o desenvolvimento dos transportes de massa continuarão a moldar essa cidade."

(WINNER, 1986)

Tecnologias incluem propósitos além de seus usos imediatos.

"Mudanças tecnológicas expressam uma vasta gama de motivações humanas, dentre as quais o desejo de alguns de dominar outros, mesmo que isso exija um ocasional sacrifício na redução de custos e alguma violação do padrão normal do se tentar obter mais do menos."

(WINNER, 1986 — grifo meu)

Máquinas ao custo de US$ 500 mil, ainda não propriamente testadas, abandonadas depois de 3 anos de uso por dar prejuízo. Único objetivo: acabar com o sindicato dos trabalhadores da fábrica.

Movimento luddista: contexto do surgimento do movimento sindical

Nem todas as consequências políticas do uso dos artefatos são intencionais.

Movimento dos deficientes nos anos 1970: nem tudo é teoria da conspiração; nesse caso, era pura negligência.

Colheitadeiras mecânicas de tomates: compatíveis com um tipo muito específico de produção, acabou com os pequenos produtores da Califórnia.

"Quando São Paulo elegeu um rinoceronte"

"As coisas que nós chamamos tecnologias são formas de construir ordem em nosso mundo. Muitos dispositivos ou sistemas técnicos importantes na vida quotidiana contém diversas possibilidades de ordenar a atividade humana. Conscientemente ou inconscientemente, deliberadamente ou inadvertidamente, as sociedades escolhem tecnologias que influenciam, por um longo tempo, como as pessoas vão trabalhar, se comunicar, viajar, consumir, e assim por diante."

(WINNER, 1986 — grifo meu)

Tecnologias inerentemente políticas

Algumas tecnologias necessariamente levam a certos efeitos sociais


Existem pelo menos duas manifestações dessa idéia:

  • "a adoção de um dado sistema técnico exige a criação e a manutenção de um conjunto particular de condições sociais como ambiente operacional do sistema"
  • "um dado tipo de tecnologia é fortemente compatível com relações sociais e políticas de um dado tipo, mas não as exige"

Se examinarmos os padrões sociais que caracterizam os ambientes de sistemas técnicos, descobriremos que certos dispositivos e sistemas quase sempre se ligam a formas específicas de organização de poder e autoridade. A questão importante é: essas formas derivam de uma inevitável resposta social a propriedades intratáveis das coisas em si, ou, em vez disso, essas formas são um padrão imposto independentemente por um corpo governante, pela classe dominante, ou alguma outra instituição social ou cultural para atender seus próprios propósitos?

(WINNER, 1986 — grifos meus)

O primeiro bombardeiro do mundo.

Tecnologias de transporte e comunicação dos séculos XIX e XX: organizações grandes, centralizadas e hierarquicamente administradas por gerentes altamente especializados.

"A evidência disponível tende a mostrar que muitos sistemas tecnológicos grandes e sofisticados são de fato altamente compatíveis com controle gerencial hierárquico e centralizado. A questão interessante, no entanto, tem a ver com o seguinte. É esse padrão, em algum sentido, um requerimento dos sistemas ou não?"

(WINNER, 1986 — grifo meu)

Outras possibilidades:

  • É bom para um marinheiro participar do comando de um navio?
  • Trabalhadores têm o direito de se envolver nas tomadas de decisões de uma fábrica?

"Em muitos casos, dizer que algumas tecnologias são inerentemente políticas é dizer que certas razões de necessidade prática, amplamente aceitas – especialmente a necessidade de manter os sistemas tecnológicos cruciais como entidades que funcionam regularmente – tendem a eclipsar outros tipos de raciocínio moral e político."

(WINNER, 1986)

Ambos os tipos de entendimento podem ser aplicáveis em circunstâncias diferentes.

"Entender quais tecnologias e quais contextos são importantes para nós, e por que, é um empreendimento que precisa envolver tanto o estudo do específico sistema técnico e sua história, assim como uma completa compreensão dos conceitos e controvérsias da teoria política."

(WINNER, 1986)

Qual a história das coisas à sua volta?

"A História das Coisas"

Referência

WINNER, Langdon. “Do Artifacts have Politics?” The Whale and the Reactor – A Search for Limits in an Age of High Technology. Chicago: The University of Chicago Press, 1986. p. 19-39. Disponível em português em: link