Resenha: A Arma Escarlate

Desde pelo menos o século XIX os escritores brasileiros têm procurado, com níveis variados de sucesso, encontrar uma identidade nacional na literatura. Um dos primeiros movimentos a tentar isso foi o Romantismo, numa época em que não apenas o Brasil, mas outros países também buscavam uma voz que os caracterizasse. O Romantismo, no entanto, utilizava fórmulas e arquétipos já altamente desgastados (ou consagrados, a depender do otimismo do leitor), como por exemplo a figura do índio de moral irrepreensível fazendo as vezes de cavaleiro andante, já que o Brasil, por assim dizer, não possui um passado medieval.

Mais algumas décadas adiante no tempo, outros artistas resolveram que também eles se lançariam na busca por uma identidade cultural brasileira, com incursões em pintura, prosa e verso: os Modernistas. De certa forma atingindo seus objetivos — quem pode negar que eles obtiveram sucesso? —, a proposta moderna era deglutir a arte vinda da Europa, absorver o que ela tivesse de melhor, misturar com a arte produzida no país e regurgitar uma arte genuinamente brasileira. O problema era fazer isso num país majoritariamente agrícola povoado por analfabetos, mas os Modernistas não se deixaram intimidar. Eles sabiam o que estavam fazendo, e mesmo que não soubessem, podiam aprender. Eles eram viajados, cosmopolitas, seus pais tinham-lhe pago os estudos nas melhores cidades do Velho Continente. Os Modernistas embarcaram em expedições pelo interior e viram com seus próprios olhos, e com uma visão de mundo sua, as realidades do Brasil. Voltaram cheios de idéias, que imediatamente colocaram no papel e nas telas.

Quase cem anos depois de um dos mais importantes movimentos artísticos brasileiros ter feito sua famosa semana de arte, alguns escritores com características semelhantes o suficiente para serem agrupados sob uma mesma categoria começaram a publicar seus livros. Eles escreviam sobre elfos, vampiros, fadas e batalhas sangrentas entre senhores de castelos, mas com uma voz bastante singular. Em um primeiro momentos pagando as impressões do próprio bolso, mas à medida em que iam caindo no gosto popular, passaram a ser convidados por selos editoriais grandes para publicar suas histórias. Surgia, assim, a Nova Literatura Fantástica Brasileira. O termo foi emprestado de um artigo publicado no site Papo de Homem (perdoem o link, mas era necessário), que apresenta os expoentes dessa turma com interessantes argumentos como:

Acontece que, a crítica literária no Brasil, embora comece a apresentar sinais de mudança, ainda é bastante engessada no academicismo. Ela costuma considerar como “boa literatura” apenas aquelas obras feitas por – ou referendadas por – gabaritados professores universitários.

No meio do presente ano eu, que já tinha tido contato com algumas dessas obras e esporadicamente fazia críticas jocosas e despretensiosas a respeito delas em minha conta no Twitter, resolvi criar uma página no Facebook, porque qualquer coisa que eu transforme em hobby logo se torna uma espécie de obsessão. Para alimentar tal página, fui atrás de ler pelo menos os primeiros capítulos de autores como Carolina Munhoz, Leonel Caldela, Eduardo Spohr — que, inclusive, foi muito gentil, aceitando minhas mini-críticas muito bem, apesar de eu desconfiar seriamente que ele anotou meu nome no caderninho preto —, Raphael Draccon — este não muito gentil —, entre outros.

Não me lembro exatamente como me caiu às mãos uma amostra do livro “A Arma Escarlate”, de Renata Ventura, que eu logo tratei de destacar alguns trechos e postar na página. Não demorou muito, a fúria dos fãs foi despertada e centenas deles invadiram a página, o que me proporcionou certa diversão. Os fãs, em sua maioria bem jovens, me desafiaram a ler o livro todo, o que me propus a fazer quase que imediatamente por pura curiosidade mórbida aliada à proximidade de minha banca de defesa do mestrado e a necessidade de ocupar a cabeça com alguma bobagem leve antes que ela entrasse em combustão espontânea.

À primeira vista, o livro de Renata parece ser uma fanfic de Harry Potter cujos fatos transcorrem de maneira concomitante aos dos livros de J. K. Rowling, com a diferença que se passavam no Brasil. Uma Elsewhere Fic. A leitura mais atenta confirma a impressão, e a própria autora mais ou menos admite isso na introdução, ainda que tenha dito que fica triste quando alguém chama seus livros de fanfics — até o momento, dois foram publicados.

A preocupação de Renata com a valorização da cultura brasileira é bastante visível ao se pesquisar sua produção ficcional e acadêmica. Nascida no Rio, a autora morou alguns anos nos Estados Unidos, onde iniciou uma graduação não concluída em Comunicação Social na Universidade de Houston, e mais tarde se formou em Jornalismo pela PUC-Rio. Em 2006 ela concluiu a graduação com a monografia “100% off: Manual do Colonizado”, onde discorre sobre a colonização cultural de que sofre o brasileiro médio. No mestrado, soube que ela estudou transposição cultural, mas não descobri muita coisa pois ela não atualiza o currículo Lattes desde 2010.

Em “A Arma Escarlate” acompanhamos a história de Idá, que mais tarde assume o nome de Hugo Escarlate. Ele é um garoto recém-admitido nos esquemas de tráfico de drogas do morro Dona Marta, no Rio de Janeiro, que descobre que é um bruxo e que foi chamado para estudar em uma escola de magia em regime de internato, a Nossa Senhora do Korkovado. A história então segue acompanhando a adaptação do menino àquele novo mundo, desconhecido para Idá/Hugo, mas muito familiar para os fãs da série da autora escocesa, ainda que a versão brasileira insista em mudar os nomes e alterar — de leve — alguns conceitos do universo Potter.

Não consegui, porém, terminar a leitura. O problema não era exatamente não ser uma história completamente original que tem como base uma série que cresceu comigo e com muitos de minha geração. Também não era a linguagem adotada por Renata, mais leve e menos pretensiosa que a de seus outros colegas de “movimento”, que tentam emular seus mestres enchendo páginas e páginas de descrições detalhadas intermináveis de batalhas épicas cheias de termos rebuscados e verbos no pretérito mais-que-perfeito. Não era nem mesmo a apropriação e a modificação a bel-prazer de um universo consagrado, o que pode levar os fãs mais antigos como eu à loucura (eu não chego a tanto).

O problema era… eu nem sei por onde começar!

Existe uma diferença bastante grande entre se propor a fazer algo e efetivamente conseguir. O que Renata intentou — e aqui estou me baseando em entrevistas, vídeos e postagens que ela própria fez em meu perfil pessoal do Facebook — foi algo louvável: criar um punhado de personagens adolescentes, brasileiros, com quem outros adolescentes pudessem se identificar vivendo uma história empolgante e pontuada de referências à cultura popular nacional e estrangeira, e cujos acontecimentos pudessem remeter diretamente à nossa história como nação. Dada a reação de seus fãs, ela de certa forma conseguiu. Mas a meu ver o objetivo foi atingido de maneira meio torta.

O livro faz uso freqüente de regionalizações estereotipadas nas falas dos personagens. Chega ao ponto de o garoto mineiro se parecer com uma versão Chico Bento de Colin Creevey. Apesar de a maioria dos falantes do Português Brasileiro não pronunciarem a letra “o” aberta, o “e” se assemelhar mais a um “i” em alguns casos, e raramente alguém se dar conta de que talvez possa existir um “r” no final de algumas palavras na fala cotidiana, o texto faz questão de apontar estes “erros” nas falas dos personagens pobres e/ou ditos mais ignorantes. E nem me arrisco a comentar qualquer coisa a respeito da forma como a mitologia indígena e afro-brasileira foi utilizada, porque pelo menos eu admito que nem sete anos de estudo me possibilitarão ter uma visão que não seja “antropológica” do assunto. Outras pessoas, porém, me revelaram seu incômodo quanto a isso nas redes sociais.

Talvez por eu ser uma historiadora frustrada e Renata fazer parte de uma categoria profissional que me provoca sentimentos contraditórios — nada contra jornalistas, tenho até amigos que são —, me incomodou bastante a forma como a escritora faz uso dos acontecimentos históricos. Numa tentativa de ser didática e provocar curiosidade no leitor adolescente sobre sua própria história, Renata cita fatos de uma forma um tanto amadora. Não que eu espere que um livro que se apóia em história alternativa para construir seu universo ficcional seja exato do ponto de vista histórico, mas afirmar que D. João VI provocou a derrocada de Napoleão ao fugir com a corte portuguesa para o Brasil de maneira bastante ufanista é um pouquinho demais. Até Laurentino Gomes ficaria envergonhado.

Quanto à forma, já comentei aqui que a prosa de Renata Ventura é leve e despretensiosa. Ela faz uso freqüente de recursos gráficos ao longo do texto — versaletes, itálicos etc —, algo que não condeno de pronto, visto que a fala de um dos meus personagens favoritos em “Discworld” é destacada desta maneira. Mas em “A Arma Escarlate” o uso desses recursos é um tanto exagerado, de modo que poucas páginas se passam sem pelo menos uma vez eles aparecerem. Há também um exagero recorrente dos sinais de pontuação: ou as interrogações e exclamações são usadas quase que de maneira abusiva, ou os personagens passam boa parte do tempo gritando uns com os outros. Talvez essas coisas impressionem o jovem leitor e eu já esteja velha demais pra isso…

Renata Ventura é, e eu nem por um segundo duvidei disso, uma pessoa muito bem intencionada. Segundo ela, foram sete anos de estudo para compor o universo de Hugo Escarlate, misturando mitologia indígena, afro-brasileira e cultura popular à base original de J. K. Rowling. Mas quando argüida a respeito das escolhas artísticas, conceituais e narrativas de sua obra, no entanto, Renata não parece muito aberta a críticas: na defensiva, ela recorre constantemente ao argumento de que há muita gente que gosta, que há gente de calibre estudando e recomendando seus livros, e que ela jamais foi preconceituosa em qualquer de suas caracterizações pois houve pesquisa exaustiva e nenhuma intenção de ofender. O que Renata esquece — e pode ser que também disso tenham se esquecido os Modernistas —, é que sua produção está inevitavelmente contaminada por sua visão de mundo, e aí não há boas intenções que dêem jeito.

Sua visão do menino pobre mulato da favela, do mineirinho simpático, do pai de santo, sem dúvida vai estar acompanhada de suas próprias percepções estereotipadas, ainda que ela não pense que os veja através dessas lentes. É claro que se pode livremente escrever sobre estes temas, mas uma pessoa cuja própria formação e contexto social validam essa visão distorcida — ou, pelo menos, parcialmente distorcida — precisa ter cuidado redobrado para não criar novas versões do Bom Selvagem. Me traz um certo desconforto fazer essa crítica por estar muito mais próxima da realidade de Renata que da de Hugo/Idá — branca, classe média, acadêmica —, mas acho necessário apontar isso.

Para encerrar, mais uma vez admito o fracasso de não ter conseguido concluir a leitura e cumprir o desafio proposto pelos fãs de “A Arma Escarlate”. Há muitos livros para ler e pouco tempo disponível, então faz-se necessário escolher. À Renata desejo apenas mais sorte da próxima vez.