Reinaldo manda nudes

Diz que ontem o Reinaldo Azevedo publicou um texto naquele blog dele e falou não sei o quê do Laerte. Parece que era algo sobre o Laerte mijar em pé ou sentado, não me lembro bem. O Laerte respondeu dizendo que tem tara no Reinaldo, e todo mundo achou genial. Ai, ai, Laerte! Só você, mesmo…

Laerte não nasceu Laerte. Ele se tornou aquilo lá que ele é. Cada vez que ele estremecia arrastando um dedo por uma superfície lisa, ele se tornava um pouquinho mais esse negócio aí. Cada salto em que ele subia, ficava um pouquinho mais perto do objetivo. E aí ele conseguiu esse negócio, que é justamente o tipo de negócio que eu nunca vou conseguir na minha vida toda*.

Laerte estava sendo queer em sua mais autêntica manifestação. O queer, pra quem não sabe, é aquele negócio que foi inventado no início dos anos 90, quando tava todo mundo mais ou menos assim que nem a gente tá hoje: de saco cheio de tanto patinar. Laerte é o cúmulo da obra de arte contemporânea. É pós-moderno até o osso. Ele é a própria obra de arte, e por isso as luzes têm de estar nele. Porque é exatamente isso o que Laerte é, la merde d’artiste.

Interessante pensar nesse cansaço. A gente, que tá aqui na influência do Ocidente, não entende muito bem — principalmente se for de classe média e com curso superior — porque o mundo é assim desse jeito que ele é. Poxa, o mundo de hoje é horrível! O mundo de hoje prometia carro voador e elevador espacial. O mundo de hoje chegou e acontece que a gente ainda tá aqui, brigando com bactéria, porque a vida é exatamente isso: uma grande disputa por energia.

E aí que o Laerte estava no meio dessa disputa por energia — como todos nós — e resolveu que ele precisava de mais. Ele acabou conseguindo, botou um monte de flashes sobre si pra conseguir aquela fotossíntese toda.

Onde eu estava? Ah, sim! No Laerte homenageando Reinaldo Azevedo.

Engraçado quando a gente descobre que alguém tá gamado na gente. Eu acho, pelo menos. Fico muito desconfortável se o negócio não é recíproco, mas teve uma época em que eu achei que tinha que reagir a todo assédio da maneira mais de boinha possível. É um elogio, ora bolas! Você não estava ainda agorinha reclamando que era feia? Tem alguém que gosta de você! Aceita esse cara aí, ó, que é o melhor que você faz.

Reinaldo Azevedo retribuiu. Na tréplica, mandou fotinhas para o Laerte se descabelar. “É o jeitinho dele de mandar nudes”, disse uma amiga que eu não lembro quem é. Olha só que jovenzinho maroto ele era na juventude! Dava mesmo um caldo, não dava?

Dava sim. Tem época em que a gente não pode escolher muito, né?


*Talento artístico. O cara desenha bem pra caramba, não? Você achou que fosse o quê?

Problemão de Gênero, parte II, volume 3: corpo e alma

Finalmente retornando com mais uma parte da série Problemão de Gênero. Dessa vez vou analisar o subcapítulo As ruínas circulares do debate contemporâneo — título que faz referência a um conto de Borges do livro Ficciones, coisa que eu nem tinha captado e quem me alertou para isso foi a @juliana_m —, onde a Judith Butler vai falar dos significados do feminino e da construção de gênero na teoria feminista; ou melhor, na teoria de duas mulheres (que sequer utilizam a palavra “gênero”): Luce Irigaray e Simone de Beauvoir.

Antes de prosseguir, gostaria de dizer que, para tentar entender o que caralhos está havendo na teoria feminista hoje por causa da influência do livro Gender Trouble, fui ler algo que falasse especificamente do pós-modernismo, esse negócio meio amorfo e sem sentido que ninguém sabe exatamente o que é, mas sabe exatamente como identificar pois é inconfundível. É o Explicando o Pós-Modernismo, de Stephen R. C. Hicks. O livro é muito interessante e muito bem escrito, e dá pra ter uma ótima noção de porque essa galerinha toda pensa o que pensa, e de onde vem todas essas ideiazinhas mirabolantes que eles propagam.

Muito bem, apertem os cintos! E não esqueça que você pode ler todos os textos da série clicando aqui.

As ruínas circulares do debate contemporâneo

Butler inicia esse segundo item perguntando se gênero é algo que a pessoa tem, se é algo essencial que faz parte da pessoa, e quando feministas dizem que gênero é uma construção social como é feita a sua construção. Ela também pergunta se a construção do gênero é determinista socialmente de modo a impedir que essa construção seja feita de forma diferente. “Que sentido podemos fazer”, ela pergunta, “de uma construção que não pode assumir um construtor humano anterior a essa construção?”

A autora então afirma que alguns estudos — que ela não vai citar quais são — vêem a construção do gênero como determinista, de modo que os significados dos gêneros não mudam, e que as pessoas são recipientes passivos dessa lei cultural inexorável, e que afirmar que a cultura é determinista a esse ponto é o mesmo que acreditar que biologia é destino. Não sei que estudos são esses a que ela se refere, mas não me lembro de ter visto nada assim na teoria feminista, e principalmente nunca vi nada assim na teoria radical, que é a que ela critica desde o início, ainda que não cite nomes. O que as feministas têm dito a respeito da construção social do gênero é que trata-se de um processo que serve à manutenção de uma hierarquia social específica. Ou seja, enquanto for conveniente para quem detém o poder, ele vai se manter da forma que está; se não for, algumas práticas obviamente vão mudar [1].

É nesse momento que Butler dá um passo ousado, citando “O Segundo Sexo” e a famosa frase que todo mundo (inclusive ela) adora citar fora de contexto: “ninguém nasce mulher”. Butler afirma que, nessa sua formulação, Beauvoir dá a entender que nessa construção de gênero existe uma mente — um cogito — que pensa e se apropria do gênero, e que o gênero seria variável e volúvel. Para Butler, no texto de Beauvoir o gênero não provém do sexo, e não há nada ali que garanta que a pessoa que “se torna” mulher é uma fêmea.

O problema aqui é que a Beauvoir nunca disse isso, não da forma que Butler está propondo em seu próprio livro. Primeiro, porque quando ela escreveu O Segundo Sexo sequer existia essa conceituação abstrata chamada “gênero”, que justamente faz essa separação do que é cultural e do que a corporal; sequer existia uma teoria feminista empenhada em destrinchar as origens e métodos da opressão e da exploração das mulheres pelos homens. Isso só foi feito depois dela, na Segunda Onda do movimento feminista, justamente da qual seus livros são um marco. Segundo, que apesar de a teoria feminista de Simone de Beauvoir apontar especificamente para a artificialidade das estruturas que mantém as mulheres hierarquicamente abaixo dos homens, ela diz especificamente que essa construção artificial tem sim um propósito — um cogito? — e é feita tendo como base as funções biológicas dos humanos na reprodução sexuada da espécie [2]. O que se diz a respeito das fêmeas de nossa espécie é uma mentira vil, mas continuamos sendo fêmeas. É nesse sentido que o sexo não têm relação com significado que lhe atribuem na sociedade: porque o que se diz a respeito das mulheres trata-se de uma ficção.

Butler retorna, então, à questão do duelo entre o livre arbítrio e o determinismo, e do corpo como mero vaso receptor [3] dos significados culturais. Ela diz que o corpo não pode ser considerado como algo que existe antes das marcas do gênero pois existe uma miríade de corpos, e, logo, existiria uma miríade de gêneros. “Como”, ela pergunta, “reconceituamos o corpo não mais como meio passivo ou instrumento esperando a capacidade vivificadora de uma vontade imaterial distinta?” Para ela, que gênero ou sexo sejam fixos ou livres é uma função do discurso que limita a análise, e que esses limites são afixados dentro de um discurso cultural hegemônico e binário. “A coação é então construída no que aquela linguagem constitui como o domínio imaginável do gênero”.

Ora, que as normas do que se chama gênero são limitantes é justamente a razão porque se introduziu esse conceito na teoria feminista, pra começar! Que o gênero trata-se de uma arma cultural para se manter uma hegemonia específica que organiza a sociedade em uma hierarquia de castas que restringe comportamentos, ações e pensamentos é justamente o motivo que leva as feministas (não só as radicais) a buscarem se libertar desses padrões prescritivos. Se gênero não for isso, se gênero não for nada mais que uma expressão da identidade e dos desejos de fundo sexual [4] das pessoas, então gênero — que já é uma categoria problemática, é bom lembrar — é, essencialmente, uma categoria inútil.

Butler começa a partir daqui a falar de como o gênero é utilizado na teoria social e no feminismo: como marca de diferença, como em relação a um outro, como um conjunto de relações (e não um atributo individual). Ela vai então falar de como a Luce Irigaray vê “mulher”. Para a Irigaray, mulher seria um paradoxo, uma contradição dentro do discurso identitário, porque é uma ausência linguística. Logo, mulher não é um sexo, mas vários, porque tanto o sexo masculino quanto o Outro são constituídos por um pensamento masculinista, e não serviriam para representar as mulheres, uma vez que toda a estrutura de representação seria inadequada. Para Butler, essa interpretação bate de frente com a mulher como o Outro da Beauvoir. Concordo com isso. Mas esse modo de pensar da Irigaray é, nada mais nada menos, que uma forma de colocar logicamente o que todas nós, enquanto feministas, já sabemos desde quando ainda dávamos os primeiros passos no movimento das mulheres: que o que os homens definiram como “feminino” não nos representa; ao contrário, nos restringe.

Butler continua:

A circularidade problemática de uma investigação feminista do gênero é sublinhada pela presença de posições que, por um lado, presumem que gênero é uma característica secundária das pessoas, e aquelas que, por outro, argumentam que a própria noção de pessoa, posicionada na linguagem como um “sujeito”, é uma construção masculinista e prerrogativa que efetivamente exclui as possibilidades estruturais e semânticas do gênero feminino. A consequência de discordâncias tão agudas sobre o significado do gênero […] estabelece a necessidade de uma repensada radical das categorias de identidade dentro do contexto de relações de uma assimetria radical de gênero.

Ou seja: por causa da assimetria nas relações entre homens e mulheres há uma discordância bastante grande na forma como as teóricas feministas definem gênero, uma contradição que ela mesma vai se propôr a resolver. É uma discordância meramente conceitual, no entanto. Ambas as feministas citadas por ela (Beauvoir e Irigaray) reconhecem a flagrante diferença nas relações entre homens e mulheres, ambas têm formas diferentes mas muito interessantes de pensar essas relações, e cada uma dessas formas de pensar são não contraditórias, mas complementares. Para mim, pelo menos, parece que sim [5].

Mas continuemos. Para Beauvoir, o sujeito é masculino e universal, diferenciando-se do Outro, que é particular e específico. Isso implica, pra Butler, uma crítica fundamental à separação do corpo e da alma, porque o feminino está, nessa concepção, preso ao corpo, e o masculino significaria a verdadeira liberdade porque suas ações não estariam limitadas pela corporalidade como no caso das mulheres. Aquela coisa de imanência e transcendência. Beauvoir propõe então que o corpo feminino deve ser a situação e o instrumento da liberdade das mulheres na sua luta por se livrar das amarras do patriarcado, e não algo que defina e limite sua essência. Faz muito sentido se você pensar que o corpo das mulheres em uma sociedade que as limita de todas as formas possíveis é tudo que elas têm.

Butler vai criticar esse posicionamento porque, segundo ela, Beauvoir estaria mantendo a velha ideia cartesiana do dualismo corpo/alma, onde o corpo está sujeito à alma, e a alma é superior e o campo masculino de atuação por excelência. Butler vai achar essa associação problemática, mas poxa! Quem faz essa associação são os partidários do masculinismo, do patriarcado, não a Beauvoir, que está justamente criticando esse dualismo! Para Beauvoir, as mulheres têm de se apropriar dos seus corpos — que, numa sociedade patriarcal, é de propriedade dos homens —, e não se circunscrever dentro de uma lógica da qual querem se libertar, é justamente o contrário!

Depois de ter lido um terço do livro do Hicks sobre o pós-modernismo, eu cheguei à conclusão de que as escorregadas interpretativas da Butler são sim propositais, e que ela usa justamente a lógica pós-moderna de que nada é verdade e nenhuma interpretação é definitiva para justificar as distorções que faz nos textos alheios sem culpa.



Notas

[1] Um exemplo disso é a indústria da beleza se voltando aos homens e ao mercado gay. Homens mais poderosos que esses homens consumidores decidiram que agora que os movimentos sociais levaram a uma maior aceitação dos homens gays, homens em geral agora também fazem parte desse mercado. Apesar dessa ressignificação, os homens continuam sendo detentores do poder, independente do fato de serem gays ou heterossexuais. Não é porque alguns homens estão em desvantagem em relação a outros homens que eles são necessariamente um grupo oprimido enquanto classe. Podem ser oprimidos enquanto gays, enquanto negros, enquanto proletários, mas jamais enquanto homens. Essa mudança em momento algum trouxe qualquer é resultado positivo para as mulheres. Pelo contrário, serviu apenas para reforçar as bases do poder de uma indústria misógina.

[2] Beauvoir usa a palavra “fêmea” mais de duzentas vezes ao longo dos dois volumes de sua obra máxima.

[3] Interessante notar que as mulheres é que sempre foram vistas como vasos receptores, seja dos filhos ou das ações dos homens.

[4] Sexual, aqui, apenas no sentido fornicatório da palavra, porque para Butler sexo é gênero, e gênero é o que você quiser que ele seja.

[5] Li Beauvoir, mas tudo o que conheço de Luce Irigaray é o que é citado pela Butler em seu livro, então é uma impressão pessoal não muito bem fundamentada, já que deu pra perceber que Butler não tem lá muito forte em si o compromisso de respeitar o contexto dos textos que cita. Deve ser alguma mania pós-moderna, já que a verdade não existe, tudo é subjetivo, todas as interpretações são igualmente válidas, etc… Se a verdade e o autor, por definição, não existem, por que se comprometer com citar o autor direitinho, não é mesmo?

Psi

Certa vez, quando ainda era muito pequena, levei uma surra tão eficiente que seus efeitos duraram quase vinte anos. Passei quase vinte anos sem questionar qualquer figura de autoridade. As poucas vezes em que o fiz foi debaixo de muita culpa e de certeza absoluta de que não seria pega. Até que chegou um momento em que pensei: “para que ter medo do inferno se eu já o estou vivendo?”

Tive uma educação que acredito ter sido excessivamente rígida, mas não culpo meus pais: eles fizeram o melhor que puderam com as informações que tinham. O resultado foi desastroso, é claro, mas resultamos em três adultas mais ou menos funcionais. Ela funcionou de acordo com o que pregava muito bem durante muito tempo: “Eduque a criança no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer, não se desviará dele”. Isso está no capítulo vinte e dois do livro de Provérbios.

Apesar de ter rompido com a religião, levei muito tempo para me dar conta de que não tinha rompido com a ideia de que deveria confiar cegamente em figuras de autoridade. Demorei para perceber que o lugar para onde eu direcionava minha admiração tinha que ser tão pesado e avaliado quanto a ideia de colocar minha confiança em um conceito abstrato em que eu tinha que fazer força para não negar.

E a necessidade de uma validação externa independente da minha própria avaliação — porque ela já não parecia segura o suficiente — começou a crescer cada vez mais. A autoestima — que eu já não tinha, mas me era um tanto “indiferente”, por falta de palavra melhor — foi ao chão, e tudo que eu fazia não parecia mais suficiente. Eu me sentia a baleia Keiko, que quando finalmente ganhou a liberdade não estava mais apto a desfrutá-la.

Foi assim que eu entrei em depressão.

Caros* amigos,

Nos últimos dias muitos amigos meus vieram me procurar para saber o que eu pensava de certos aspectos de um determinado assunto, partindo de um viés feminista. Achei engraçada essa coincidência e resolvi escrever esse texto que, apesar disso, não é pessoalmente direcionado a nenhum desses amigos especificamente. Este texto é direcionado aos homens. A todos eles mas, principalmente, aos caras realmente legais, aqueles caras com quem eu deveria me importar e que merecem o meu respeito.

Vou partir, nesta missiva, do princípio de que vocês já sabem que o mundo é machista e estão tentando, com a mais sincera das boas vontades, lutar para que ele deixe de ser. Vocês sabem que o machismo não é — como acreditam os partidários da teoria queer — um simples aspecto da cultura. Vocês sabem que o machismo está entranhado em tudo, da infraestrutura à superestrutura, não importando sua posição no Diagrama de Nolan. Vocês sabem. Vocês têm consciência. E vocês estão tentando. Eu acredito. Juro.

Vocês provavelmente já passaram da fase a-culpa-do-estupro-não-é-dela-em-hipótese-alguma; na verdade, isso é menos que “Introdução ao Feminismo” para vocês. Vocês já estão mais adiantadinhos. Vocês sabem, apesar de ainda terem algumas dúvidas — como, por exemplo, “se o homem ajudou a fazer com seu esperma, por que não deve ter direitos sobre o filho?” —, que os direitos reprodutivos têm de ser a pedra fundamental sobre a qual se baseia qualquer feminismo, seja ele radical ou não. Vocês sabem que esse negócio aí que vocês mantém é nossa prisão, e que o que as mulheres realmente precisam é botar esse edifício abaixo. Vocês sabem coisas muito mais avançadas sobre as coisas que a sua classe impõe à minha, e é por isso que (por enquanto) vocês ainda têm o meu respeito. É um privilégio seu falar comigo de igual pra igual. Cuidem para não perdê-lo.

Mas quero falar agora de um negócio mais sério, das suas atitudes. Sabe as suas atitudes? Eu não me importo com elas. Fodam-se as suas atitudes. Eu não tenho como saber delas, como confirmá-las, muito menos tenho a obrigação de ficar fiscalizando as suas vidas. Não me importa se o que vocês fazem é bom ou ruim. A vida é de vocês e vocês fazem o que vocês quiserem com ela. A culpa nunca é minha, em hipótese alguma, se um dia vocês decidirem enfiar qualquer protuberância do seus corpos em qualquer orifício do meu corpo sem eu ter qualquer meio efetivo de decidir se quero ou não. Isso é decisão sua, e o fato de eu não ter como opinar em um assunto que é inteiramente de sua responsabilidade encerra a questão. É claro que vocês nunca vão chegar em um extremo desses, é claro que não. Vocês são bons moços e nunca fariam esse tipo de coisa. Podem vacilar aqui e ali, mas no fundo, bem lá no fundo vocês são gente boa.

O caso é que eu não tenho nenhuma obrigação de saber se vocês são mau-caráteres. Em um mundo como o nosso, vocês não têm o direito de exigirem isso de mim, ou de qualquer mulher. Não importa se entrei numa roubada de livre e expontânea vontade: a questão não é se eu estava ou não querendo, vocês já são bem grandinhos e sabem das coisas. Se vocês não sabem, vocês perguntam. Se não lhe respondem, vocês levantem esses traseiros do sofá e vão estudar por conta própria, seus pôia.

Uma vez que a vida de vocês é de vocês e não tenho como receber um relatório completo de suas reais intenções e de seus verdadeiros anseios, eu não tenho como ter certeza se vocês são caras realmente legais, caras que realmente merecem o meu respeito. Simplesmente não tenho como fazer isso, sinto muito. Eu realmente gostaria de ter certeza, mas vocês também não têm como me provar isso, e exigir que eu acredite em vocês e me importe com o fato de que vocês possam ou não saírem ofendidos depois de uma conversa comigo é coisa demais para se pedir. Trata-se de uma questão de fé, e vocês não são deuses; quanto aos homens, sou atéia. E eu não quero apostar a minha vida nessa roleta-russa nível hard, em que há apenas uma bala faltando no tambor.

O que vocês realmente acreditam lá no fundo do âmago dos seus corações? Caguei.


*Só os que me são caros, mesmo; os demais eu quero é que se explodam.

Memento mori

Ultimamente a coisa que mais tem causado culpa em mim é o banho. Depois que a religião parou de fazer esse papel na minha vida, eu fiquei um bom tempo meio perdida, não sabendo como era exatamente lidar com sentimento de culpa. Às vezes eu sentia culpa e não sabia porque estava sentindo. Outras vezes havia situações em que eu tinha mesmo culpa, mas em que eu colocava uma carga de culpa muito maior do que deveria. Cada vez que eu encontrava um lugar da minha vida onde eu não sentia culpa, eu ia lá e colocava a porra da culpa. Eu me culpava e me desculpa o tempo inteiro. Na verdade, acho que eu ainda faço isso; na verdade, acho que estou fazendo isso agora mesmo.

Mas voltemos ao banho. A água e a luz subiram muito nos últimos seis meses, o que significa que morar aqui tem sido muito caro. Mas eu já decidi que é em Curitiba que quero fincar minhas raízes. Eu estava sentindo muita culpa e me sentindo uma inútil nos últimos tempos, e descobri que grande parte dessa culpa surgia na hora do banho. Afixei um limite de tempo e todo dia, quando ligo o chuveiro, coloco um timer para correr. Meu objetivo é alcançar a meta de quinze minutos e não ultrapassar o máximo tolerável de vinte. Se possível — e isso ia depender de um eficiente gerenciamento do tempo — tomar um banho de 10 minutos. Dez minutos: este seria o tempo ideal.

O grande problema é que eu amo tomar banho. Tomar banho é a minha droga. Sou solteira, e apesar de não necessariamente não estar chovendo na minha horta, quando eu tomo banho é a única hora do dia em que sinto algum tipo de prazer. É a única hora do dia em que eu me sinto verdadeiramente bem. Eu tenho tido bem pouco divertimento na minha vida. E parece que qualquer tipo de divertimento significa dinheiro sendo tirado do bolso, nem que seja um mísero centavo. E essa é outra área da minha vida em que sinto muita, muita culpa.

Acho que ganho o mesmo que a média das pessoas da minha idade, talvez um pouco abaixo porque não tenho ambições — ou pelo menos não as coloco em prática — e não faço freelas nem qualquer outra coisa para ter uma renda extra. Me sinto muito incompetente, e é culpa da culpa: ela me pegou de jeito quando fiz um trabalho de freelance e acabei não dando conta da encomenda. Desde então nunca mais fiz um freela. Tenho horror a passar vexame.

Falando em vexame, outras coisas que me causam muito mal são os sentimentos de “por que ninguém me avisou, caralho?!”, de “como assim eu não sabia? É minha obrigação saber! Como eu sou burra!” e o de “a quem estou querendo enganar? É tudo culpa minha! E o motivo é que eu sou burra mesmo!” Antigamente, para alguma coisa ir de um extremo ao outro, demorava bem mais. Hoje, eu já assumo que é tudo culpa minha mesmo e fico me sentindo um lixo durante dias e dias e dias.

Parece que da forma que eu descrevi, a culpa é algo ruim por definição, quando não o é. Mas culpa não é somente a responsabilidade de quem cometeu um erro. Para ser uma pessoa realmente boa, é sua obrigação reconhecer a culpa e se sentir horrível; se você não se sentir horrível, não é uma pessoa boa de verdade. Em qualquer coisa que seja tudo provavelmente é sua culpa, e se não for, você é parceiro do culpado e tem sua parte no caso também. Se você não se sentir o pior pecador do mundo, de nada vale a sua bondade. Você tem que parar tudo que estiver fazendo e se dedicar somente à culpa.

Às vésperas do meu vigésimo oitavo aniversário identifiquei algo crucial a respeito da minha personalidade, e agora preciso ter sabedoria para decidir o que fazer com isso. Parabéns para mim!

Desvio padrão

Quando eu estava na faculdade, a palavra da moda era “lúdico”. Tudo era, ou tinha que ser, lúdico. Todo projeto levava essa palavra em sua conceituação, todo mundo buscava encaixar o projeto direitinho no que significa ser a ideia que essa combinação de letras quer transmitir.

Confesso que nunca fui atrás de saber o que exatamente significa “lúdico”, ou qual a origem desse termo e em qual idioma essa palavra primeiramente se manifestou. Eu criei na minha cabeça um conceito da palavra baseado nos contextos onde já vi ela sendo usada. Desse modo, lúdico para mim é algo referente à criança, à brincadeira, à lazer e à diversão. Ela diz respeito também à jogo, ou seja: montar um universo particular com regras específicas e viver sob essas regras durante um tempo determinado. Tudo isso pra mim é lúdico*.

Mas na época em que conheci a palavra, apesar de ela parecer significar todas essas coisas, ela era aplicada a coisas que não tinham nada a ver com seu significado. Nada a ver a ponto de causar constrangimento embaraçoso** no boletim do aluno.

Outra palavra que aparece sazonalmente e também é carregada de constrangimentos em seu uso é “brasilidade”. Tinha muita gente usando “brasilidade” nessa época. Nem sabíamos que o Brasil seria sede da Copa do Mundo ainda, mas fazíamos produtos para gringo cheios de brasilidade, fosse lá o que isso significasse. Essa eu nunca fui no dicionário olhar porque tenho a certeza absoluta de que a minha definição é muito melhor que a deles. Brasilidade é um conjunto amorfo de estereótipos sobre o Brasil, unidos pela vontade de agradar e o medo de passar vexame. Ginga, malemolência, samba no pé. Sol, calor, praia, Floresta Amazônica. Capoeira, candomblé, acarajé.

Todas essas coisas não têm qualquer relação com o sul do Brasil (se você desconsiderar o litoral de Santa Catarina, claro). O sulista em geral se orgulha disso, boa parte tem delírios gravíssimos de classe média e se vê como uma etnia injustiçada, e alguns até instalariam eles mesmos o arame farpado para delimitar as novas fronteiras da América Latina. Apesar disso, algumas vezes demonstram que gostariam de ser representados entre os brasileiros. E por vezes, também, acabam vergonhosamente se identificando com os brasileiros em aspectos que repudiam — e é daí que vem a individualidade crônica do sulista***.

O sulista é um sujeito estranho. Ele olha muito à sua volta ao mesmo tempo em que não presta atenção em nada. Ele vive em lugares onde chove a maior parte do ano e ainda não descobriu como faz para usar guarda-chuva nem lidar com toda essa molhaceira. Ele não olha nos olhos de ninguém porque todo mundo parece olhar para ele o tempo todo, e isso o deixa maluco porque é o combustível perfeito para sua paranóia engatilhar (mais) uma crise de auto-estima. O sulista prepara suas cidades para o turismo, mas odeia receber visita. Ele fica o tempo inteiro se indagando se aquela pessoa estava sendo sincera mesmo ou não. Mas o sulista bate no peito e diz: “eu sou assim mesmo!”, e torce para que todos interpretem aquilo como orgulho e superioridade. Todo mundo apenas acha… tosco.

Mas o paranaense é um outro tipo de sulista. Ele é aquele bebê-urso cuja placa de gelo onde estava se desgrudou da placa de gelo da mãe, está sendo arrastado pela correnteza e não sabe muito bem o que fazer agora. O paranaense está ali: no limite entre a brasilidade e a falta de identidade. Se o Paraná pudesse, ele parava o tempo para dar tempo de estabelecer seus próprios limites, mas é tanta gente entrando e saindo desse estado o tempo todo que fica difícil. É por isso que o Paraná fica brincando de ser uma e outra coisa o tempo inteiro e nunca é nada. Assim, de uma maneira bem lúdica.


*Nesse ponto do texto eu parei de escrever e fui ver no Google o significado de “lúdico”. É aquilo que é referente ao jogo, e que se faz pelo prazer de fazer. Acho que não passei muito longe.

**”Constrangimento embaraçoso” é uma hipérbole ou uma redundância?

***Isso também acontece com São Paulo, acho.

Problemão de gênero, parte II, volume 2: Sexo e gênero

Este é mais um post da minha série “Problemão de Gênero”, onde faço uma leitura crítica da mais famosa obra de Judith Butler praticamente parágrafo a parágrafo. Os textos anteriores podem ser lidos aqui e aqui. Como já disse anteriormente, essa crítica segue a minha visão pessoal, que é materialista e usa como ponto de partida o feminismo radical. Puxa uma cadeira e senta, porque lá vem lorota!

A Ordem Compulsória do Sexo/Gênero/Desejo

Este é o segundo subcapítulo do capítulo “Sujeitos do Sexo/Gênero/Desejo”. É bem curtinho, e Butler não vai discorrer muito sobre o assunto, talvez porque ela não tenha muito o que falar. Aqui ela vai fazer uma série de afirmações que eu achei um tanto bizarras — principalmente porque ela não firma o argumento em lugar algum; você lê e fica se perguntando de onde ela tirou isso tudo, apesar de conseguir captar algumas referências.

Butler vai iniciar o texto dizendo que a categoria “não problematizada” de mulher sofreu uma quebra com a introdução do conceito sexo/gênero. Ela não vai dizer quando, porque, nem quem fez isso, então faço eu: era 1972 quando Ann Oakley, uma feminista britânica, escreveu o artigo entitulado “Sex, Gender and Society” (a introdução em inglês desse artigo pode ser encontrada aqui), onde discorria sobre até que ponto as diferenças entre os homens e as mulheres eram naturais ou fruto da sociedade. Três anos depois, a Gayle Rubin vai usar este mesmo conceito no seu famoso “Traffic on Women”, e é a partir daí que ele vai fazer sucesso e tomar de assalto a teoria feminista. Isso aconteceu porque a mulherada ficou realmente muito empolgada por finalmente ter encontrado um bom argumento [1] contra a naturalização das diferenças sociais. A princípio, Butler concorda com isso.

O problema é que o argumento não é tão bom assim, como bem avisa a Maria Mies, ao afirmar que homens e mulheres interagem com a natureza com corpos qualitativamente diferentes, mas que (2014; tradução livre):

Essa distinção de categorias entre sexo como biológico, e gênero como sócio-cultural, pode à primeira vista parecer útil, porque remove a irritação de que a opressão das mulheres é atribuída o tempo todo à sua anatomia. Mas essa distinção segue o padrão bem conhecido de separar a ‘natureza’ da ‘cultura’ (…). Para as mulheres essa divisão tem uma tradição longa e desastrosa no pensamento ocidental porque as mulheres têm sido colocadas ao lado da natureza desde o surgimento da ciência moderna (…). Se as feministas agora tentam sair dessa tradição definindo sexo como algo puramente material e biológico, e gênero como a expressão mais alta, cultural e humana desse algo, então elas continuam o trabalho daqueles filósofos e cientistas idealistas patriarcais que dividiam o mundo em matéria crua ‘ruim’ (a ser explorada e colonizada) e espírito ‘bom’ (a ser monopolizado por padres, mandarim e cientistas). [2]

Butler vai dizer que gênero é sim socialmente construído, e não um resultado causal do sexo, porque o gênero não vem exatamente do sexo, mas vai além dos limites do corpo. Até aí, todas as feministas concordam: gênero define uma série de práticas e marcadores culturais de diferença entre homens e mulheres, que inclui (mas não se restringe a) vestimenta, comportamentos etc. A Lierre Keith nos ajuda a entender:

Gênero não é binário. Ele é uma hierarquia. Ele é global em seu alcance, é sádico em sua prática, e assassino em sua realização. Assim como raça, e assim como classe. O gênero demarca os limites geopolíticos do patriarcado — o que quer dizer, nos divide ao meio. Essa metade não é horizontal — ela é vertical. E caso você tenha perdido essa parte, os homens estão sempre no topo. [3]

Esse não é, obviamente, o caminho que a Judith Butler vai seguir, porém. Ela diz que “homem” não se aplica só a corpos machos, assim como “mulher” não se aplica sempre a corpos fêmea [4]. E é bem aqui que o argumento dela parece cada vez mais fruto de um matinho mágico suspeito desses que a gente arranja por aí: ela vai falar que nem o dimorfismo sexual pode ficar sem ser problematizado (coisa que, se não me engano, ela vai fazer mais adiante no livro). Achar que o gênero é binário é achar que o sexo também é restrito por esse dimorfismo, segundo ela.

A autora aqui está provavelmente partindo da idéia de construção social da sexualidade [5]. Esse é um assunto que ultimamente, pelo menos nas discussões internéticas, tem dado muito pano pra manga. Isso porque as pessoas entendem essa expressão das mais variadas formas possíveis. Algumas pessoas têm uma compreensão muito parecida com a de Butler, e alguns ainda parecem soltar essa expressão nas discussões sem fazer a menor noção do que ela significa exatamente, apenas para tentar argumentar contra a idéia do que chamam de essencialismo biológico.

Vou tentar explicar aqui como é que as feministas materialistas vêem esse conceito. Tudo em que os humanos colocaram a mão desde que se organizaram em grupos é, obviamente, socialmente construído. A forma como encaramos a sexualidade, não só a nossa mas até mesmo a de outros animais, [6] não fica de fora dessa. Nós inventamos regras específicas para seres de tal e tal sexo — que é, aliás, o significado original para que o conceito de “gênero” foi concebido, veja bem —, inventamos regras e contratos sexuais específicos para situações específicas, inventamos formas de controlar nossa fertilidade, inventamos práticas sexuais variadas… A lista é literalmente sem fim. Isso não significa, porém, que as nossas funções biológicas deixem de existir por causa disso; o fato de algumas dessas normas e costumes existirem inclusive atestam que essas funções biológicas existem.

Butler vai continuar dizendo que o gênero é independente do sexo e que se trata de “um artifício que flutua livremente” (free-floating artifice). Então ela questiona como é feita a atribuição do sexo a alguém, e segue fazendo um monte daquelas perguntas retóricas que ela adora:

  • “Afinal, o que é sexo?”
  • “Sexo é natural, anatômico, cromossômico, hormonal, e como é uma crítica feminista para se acessar esses discursos científicos que se propõem a estabelecer tais ‘fatos’ para nós”?
  • “Existe uma história de como a dualidade do sexo foi estabelecida, um genealogia que possa expôr as opções binárias como uma construção variável?”
  • “Existem fatos ostensivamente naturais do sexo discursivamente produzidos pelos vários discursos científicos a serviço de interesses políticos e sociais alheios?”

Apesar do blablabla anterior e da forma como a frase foi composta, essa última pergunta é muito válida, na verdade. É a pergunta que basicamente toda a crítica feminista de ciência já fez muitas décadas atrás. Investigar como a ciência pode ser usada para validar pressupostos mentirosos e preconceituosos a respeito das pessoas foi (e ainda é) uma tarefa do feminismo que ajudou a desvelar muitas das formas como as mulheres foram (e ainda são) subjugadas ao longo da história. Eu mesma estudei isso, mais especificamente na área da Computação. Não é uma pergunta boba.

O problema é que, diferente das críticas feministas às ciências e à produção tecnocientífica — que estavam preocupadas com a negligência médica em relação às mulheres, com a exclusão das mulheres dos campos do saber que possibilitavam melhores oportunidades de trabalho ou uma investigação mais específica sobre como tal e tal procedimento afeta especificamente as mulheres e coisas do tipo —, a Butler vai envenenar essas perguntas. Na verdade verdadeira mesmo, ela sequer vai tentar dar uma resposta satisfatória a elas. Ela vai apenas dizer que o sexo é tão culturalmente construído quanto o gênero. E que talvez o sexo sempre foi gênero, de modo que não há distinção entre sexo e gênero, porque segundo ela “Não faria sentido então definir gênero com uma interpretação cultural do sexo, se o sexo mesmo é uma categoria gendrada”! [7]

Esse raciocínio dela leva a noção de construção social da sexualidade às últimas consequências. O que Butler diz, para resumir, é que uma vez que as práticas sexuais e a forma com entendemos o sexo é socialmente construída, e uma vez que o gênero também o é, então não precisa haver uma distinção entre sexo e gênero, porque sexo e gênero seriam necessariamente a mesma coisa e não importariam para uma análise feminista. Ela deixa de considerar — e aqui me adianto, porque nada mais me lembro da primeira leitura que fiz desse livro então não sei dizer se ela vai fazer isso futuramente, mas de qualquer forma até o momento ela deixa de considerar — os motivos que levaram à dominação masculina, e isso porque ela não acredita em uma dominação masculina a nível estrutural.

Ela diz:

Sexo não deve ser concebido puramente como a inscrição cultural de significado em um sexo pré dado (uma concepção jurídica); gênero deve também designar o próprio aparato de produção através do qual o sexo propriamente dito é estabelecido. Como resultado, o gênero não está para a cultura como o sexo para a natureza; gênero é também os significados discursivos/culturais pelos quais “a natureza sexuada” ou “sexo natural” é produzido e estabelecido como “pré-discursivo”, antes da cultura, uma superfície politicamente neutra na qual a cultura age. (BUTLER, 1999)

Butler encerra esse capítulo com mais uma pergunta: “como então o gênero precisaria ser reformulado para englobar as relações de poder que produzem o efeito de um sexo pré-discursivo e então abarcar as operações próprias da produção discursiva?”

Ou seja: além de pegar uma categoria que em si já tem problemas o suficiente (vide a citação da Maria Mies), ela ainda vai desconsiderar completamente a realidade material, como se nosso corpo físico não tivesse qualquer peso na forma como interpretamos e interagimos com o mundo e entre nós mesmos; isto é, não é uma superfície politicamente neutra. Além disso, ela ainda vai tentar reformular essa categoria problemática de uma forma que tampouco resolve seus problemas.

Fiquei realmente impressionada com o tanto de bobagem que ela consegue colocar dentro de tão pouco texto!


Notas


[1] Porque nós ficamos tão preocupadas com a melhor maneira de responder questões idiotas que os homens nos colocam, e ainda por cima nos termos deles, é algo que não consigo entender, principalmente porque eu mesma também faço isso.

[2] Tradução livre de: MIES, Maria. Patriarchy and Accumulation on a World Scale: Women in the International Division of Labour. Londres: Zed Books, 2014.

[3] Tradução livre de: KEITH, Lierre. Patriarchy vs. Planet Earth. RadFem Reboot 2012. Portland, 2012.

[4] O que até faz sentido, se você pensar em figuras de linguagem, como por exemplo quando uma mulher diz “sou mais macho que muito homem”. “Macho”, nesse caso, significaria “forte”, “corajosa”. Não significa, no entanto, “ser humano do sexo masculino”. E, olha só que interessante: funciona direitinho dentro da lógica do gênero como marcador de diferença e hierarquia.

[5] Confesso que esse é um assunto que me interessa apenas superficialmente. É um debate meio infrutífero, na verdade, que surgiu provavelmente com o Michel Foucault questionando de que forma se dá a orientação sexual das pessoas, de onde ela vem, porque algumas pessoas são héterossexuais e outras não. O Foucault era completamente contra a idéia de que a orientação sexual é inata, aquela coisa de “baby, I was born this way” (um discurso que está muito em voga hoje): para ele, são as experiências das pessoas que podem levá-las a tal e tal comportamento/desejo. Algumas pessoas ainda dizem que a orientação sexual é uma escolha — e qual seria o problema se fosse, não é mesmo?

[6] Vide a notícia do inseto fêmea encontrado no Brasil que se dizia que tinha um pênis porque era ela quem penetrava o macho de sua espécie, e não o contrário, como normalmente se espera (“normalmente”, aqui, pode ser interpretado no sentido de “norma” mesmo) de uma relação sexual macho/fêmea. Tal notícia foi amplamente celebrada pelos transativistas, como sendo uma prova de que fêmeas também têm pênis. Alguns biólogos desmentiram essa idéia: há muita (muita mesmo) variedade genital entre os insetos, e que uma protuberância por onde a fêmea busca o material genético do macho não pode ser simplesmente chamada de pênis; sequer faz sentido comparar a fisiologia dos invertebrados e dos mamíferos nesse sentido.

[7] Socorro!!

Problemão de gênero, parte II, volume 1: “Mulheres”?

Antes de começar esse meu fichamento, vou esclarecer aqui que, antes de tudo, essa é uma leitura minha. Isso significa dizer que o que estou usando aqui pra confrontar o livro da Butler é o meu próprio repertório, e ele pode ser falho ou incompleto. Entretanto, tento fazer com que minha argumentação seja o mais clara e o mais coerente possível (já estou melhor que a Judith Butler, veja bem). Então, se surgir alguma dúvida, sugestão de leitura, ou se você também leu e notou que eu deixei escapar alguma coisa, não se acanhe de fazer um comentário. E se você caiu aqui de para-quedas, sugiro ler a primeira parte da série. :)

Outra coisa: o exemplar que estou usando de base é um PDF que foi transformado em Mobi para que eu pudesse ler no Kindle. Ele até tem as marcações de página originais, mas achei desnecessário colocá-las no corpo do meu próprio texto porque as seções do livro são bem curtinhas e, na transposição do PDF pro Mobi a coisa toda ficou um pouco cagadinha. Nada que impeça a leitura, no entanto; se você quiser uma cópia, podemos providenciar.

Mas vamos lá!

A Butler inicia o texto citando uma série de epígrafes. São textos que dizem basicamente que mulher não existe. Aí tem lá a Julia Kristeva dizendo que não dá pra se dizer que mulher exista, a Irigaray dizendo que mulheres não têm um sexo, a Wittig falando que sexo é uma categoria que estabelece a sociedade como heterossexual. O complicado é saber se essas citações realmente dizem o que a Butler está querendo que digam, porque ela cita aquela famosa frase da Simone de Beauvoir, inclusive. Essa (mas só aquela parte):

quote-beauvoir

E aí já viu, né.

“Mulheres” como sujeitos do feminismo

Esse é o primeiro item do capítulo “Sujeitos do Sexo/Gênero/Desejo”. Butler o começa dizendo que o feminismo entende mulher com uma categoria dada, uma identidade de onde partem os interesses feministas. Segundo ela, apesar de as mulheres serem pouco ou sequer representadas, essa assunção pode distorcer o que está abarcado na categoria mulher. Ela diz que na época — fins dos anos 1980 — havia muito debate sobre o que era mulher exatamente, o que ser mulher significava, e que, portanto, “mulher” não é uma categoria estável. Ela fala que tem “muito material” que questiona a mulher como sujeito do feminismo, mas ela não cita ninguém para saber em que termos esse questionamento é feito.

Então, Butler vai dizer que é preciso chegar num acordo primeiro antes de se conseguir a tal representatividade que querem as mulheres [1], e a partir daí, ela começa a teorizar sobre como se constituiu essa categoria “mulher” partindo de Foucault. Ela diz que o “Foucault aponta que os sistemas jurídicos de poder produzem os sujeitos que subsequentemente vão representar”, e que “Noções jurídicas de poder regulam a vida política puramente em termos negativos”, ou seja: limitação, proibição, regulação, controle etc. Os sujeitos regulados nessas estruturas, porém, são sujeitados a essas estruturas, e a linguagem jurídica que representa as mulheres como sujeito do feminismo tem essa carga, segundo ela. [2]

Ela vai dizer, pra resumir, que o sujeito do feminismo é constituído discursivamente dentro do sistema político do qual quer se emancipar, e que a categoria “mulher” estaria contaminada pelas estruturas de poder por causa disso e, portanto, não seria suficiente para definir nada. Isso porque, de acordo com ela, “os sujeitos jurídicos são invariavelmente produzidos através de certas práticas exclusionárias” que não revelam suas políticas; “O poder jurídico inevitavelmente ‘produz’ o que diz meramente representar”. Então essa categoria seria contaminada por definição.

Diz a Butler que a questão da mulher como sujeito do feminismo levanta a possibilidade de que não exista um sujeito antes da Lei [3]. Ela continua dizendo que assumir uma integridade ontológica do sujeito antes da Lei é um traço contemporâneo da hipótese do estado natural, que ela chama de “fábula fundacionalista constitutiva das estruturas jurídicas do liberalismo clássico”. Traduzindo: ela já assume por princípio que essa premissa de que existe uma realidade material que existe independente do discurso é falsa, e justifica isso dizendo que essa premissa que ela chama de fundacional garante que as pessoas consintam em ser governadas. Como exatamente assumir que existe uma realidade independente de haver humanos ali para dar nomes aos bois facilite a governabilidade desses mesmos humanos é algo que realmente foge à minha compreensão.

Ela aponta também o que considera ser um outro “problema político que o feminismo encontra em assumir que o termo mulher denota uma identidade comum”: ser rotulada como mulher, ser colocada nessa categoria, segundo ela, causa ansiedade. Isso porque o termo falharia em abarcar o que ser mulher significa sob diferentes contextos históricos, de raça, classe, localização geográfica etc. Aí ela diz que é impossível separar o gênero desses contextos, que é simplesmente impossível definir gênero e definir mulher.

Então ela continua dizendo que assumir que existe uma “base universal” pro feminismo acompanha a noção de que existe uma opressão masculina. Ou seja: a noção — já bastante estudada no feminismo — de que existe um patriarcado. Aí ela vai falar que assumir que exista um patriarcado é deixar de notar todas as especificidades culturais, como se… bem, como se todas as teóricas [4] que fizeram esse resgate não tivessem pelo menos dois neurônios para conceber o óbvio, tivessem deixado de considerar particularidades e não passassem páginas e páginas explicando que não, o patriarcado não se manifesta da mesma forma em todos os lugares, mas que em todos esses lugares cada uma dessas manifestações têm uma coisa em comum: a dominação das fêmeas da espécie humana pelos machos da espécie humana, com o propósito de explorar seu trabalho e seu potencial reprodutivo. Ela fala que a noção de patriarcado é uma invenção ocidental, basicamente, e que apesar da noção de patriarcado universal não ter mais tanta credibilidade (há controvérsias), a noção de mulher ainda tá aí firme e forte [5].

Dia desses eu postei no Twitter um trecho de uma crítica que a Denise Thompson fez a respeito desse trecho específico, e que eu estava traduzindo. Vou deixar ela falar por mim:

thompson-x-butler

Segue-se então uma série de perguntas que, pela própria lógica do argumento dela e dos pontos de partida de seu raciocínio, são virtualmente irrespondíveis, afinal, o que é respondível teria que seguir outra lógica, que ela imediatamente descarta. Por exemplo, ela questiona se “há alguma comunalidade entre as ‘mulheres’ que preexiste sua opressão ou as ‘mulheres’ têm um laço em virtude da opressão?”, e também pergunta se “Há uma região do ‘especificamente feminino’ que é ao mesmo tempo diferenciada do masculino e reconhecível em sua diferença não marcada por uma não notada e, logo, presumida universalidade das ‘mulheres’?”.

Porém, Butler vai negar completamente qualquer que seja o argumento em favor dessa comunalidade, porque para que seu argumento possa funcionar conforme o exposto até aqui, aceitar tal comunalidade seria ceder ao “fundamentalismo da diferença sexual” que de que ela fala em um dos prefácios do livro. Ela defende que as supostas (para ela) especificidades reconhecíveis entre as mulheres — e, consequentemente, entre os homens — são nada mais que criações de um sistema binário e exclusionário, que separa os indivíduos em categorias discretas, masculino e feminino.

Ela diz também que essas especificidades são descontextualizadas de suas intersecções com outros “eixos de poder” que “constituem a identidade”, tais como classe, raça e etnia. O problema aí é que ela até se preocupa em citar essas possíveis intersecções, mas parece não se dar conta de que nascer mulher, nascer em um corpo de fêmea também é um fator bastante importante (decisivo até) entre essas intersecções, e inclusive modifica a forma como tais intersecções se dão. [6]

Aí ela vai dizer que não dá para presumir a universalidade e a unidade do sujeito do feminismo uma forma efetiva. Para Butler, insistir numa categoria estável de sujeito do feminismo — ou seja, insistir que mulheres existem e têm uma realidade material — gera uma recusa em aceitar essa categoria. Ela diz que a categoria mulher é coercitiva e regulatória, e que, portanto, vai de encontro aos propósitos emancipatórios do feminismo. Aí ela vai dizer que a recusa de algumas mulheres em participar do feminismo indica que esses limites são limitantes (!), e que é uma consequência irônica que essa representação estreita possa quem sabe “fracassar o feminismo” por ele se recusar em levar em conta “os poderes constitutivos de suas próprias reinvindicações representacionais”. [vide nota 1]

E então, Butler diz que o feminismo precisa de uma crítica radical [7] e cita Marx de um jeito que não entendi e parece só estar ali para fazer figuração: “O ponto de partida crítico é o presente histórico, conforme Marx coloca”. Aí ela diz que se tem que formular uma crítica a essas estruturas jurídicas que engendram e imobilizam, de dentro do sistema. Ela tá certa ao afirmar que não dá pra sair de dentro do sistema — quantas de nós não batemos cabeça diariamente tentando abolir hábitos e costumes que o patriarcado ensinou para nós, muitas vezes sem sucesso? Mas ela está bem errada em dar a entender que é impossível mudar esse sistema, e que o melhor a fazer é uma revolta conformada, “in trouble. Se ela partisse da história poderia ver que transformações sociais são possíveis e acontecem o tempo todo. Mas é como ela disse no prefácio: se não dá pra vencê-los, junte se a eles e tente conviver da melhor forma possível.

A autora fala que esse período, chamado de pós-feminismo, é uma oportunidade de se repensar e construir o sujeito do feminismo [8], porque se precisa de uma repensada radical na construção ontológica de identidade dentro da prática política feminista. Ela fala que talvez seja a hora de uma crítica radical [vide nota 7] que procure libertar a teoria feminista da necessidade de se construir uma categoria incontestável que exclua aqueles que ela mantém de fora [9]. E aí ela faz outra pergunta (ela adora fazer perguntas): “As práticas exclusionárias que permeiam a teoria feminista na noção de ‘mulher’ como sujeito paradoxalmente minam os objetivos feministas no sentido das suas reivindicações de ‘representação’?” [vide nota 1]

Butler faz mais uma pergunta interessante: se a categoria “mulher” for tão estável como advoga o feminismo, isso não seria uma reificação [10] das relações de gênero? Para ela, “mulher” é uma categoria tão opressora e normatizadora que não são as mulheres que sofrem as normatizações de comportamento, opressões, e explorações de sua sexualidade e de seu trabalho. Não! Para Butler o grande problema é o fato de o feminismo deixar de fora quem não é mulher, porque achar que mulheres existem e são um grupo de pessoas com necessidades e especificidades próprias é se conformar à matriz heterossexual!

Ela vai dizer, então, que um novo tipo de política feminista é desejável (para quem?) para contestar a reificação do gênero, e que “traçar as operações políticas que produzem e escondem o que qualifica como sujeito jurídico do feminismo é precisamente a tarefa de uma genealogia feminista da categoria das mulheres” [grifo dela], que ela vai se propôr fazer. Diz também que não questionar a categoria “mulher” pode impedir a possibilidade de o feminismo ser uma política representacional [Já sabe, né? Vide nota 1].

Aí ela faz uma nova pergunta — naquele jeitinho de retórica dela com o qual já fiquei bem acostumada e que mais afirma que questiona —, querendo saber que relações de dominação e exclusão estão sustentadas nesse foco de representatividade nas mulheres. É no mínimo engraçado que no único momento de que me recordo ver Butler usando uma palavra mais incisiva para caracterizar a sujeição de um grupo por outro ela escolha justamente dominação para caracterizar mulheres estabelecendo as fronteiras de sua luta por libertação.

Ela encerra esse subcapítulo com uma afirmação categórica que resume muito bem tudo o que ela papagaiou até aqui:

A identidade do sujeito do feminismo não deve ser o fundamento das políticas feministas, se a formação desse sujeito tem lugar dentro de um campo de poder coberto regularmente pela afirmação desse fundamento. […] ‘representação’ só irá fazer sentido para o feminismo quando o sujeito ‘mulher’ não for presumido em lugar algum.

Interessante uma mulher que definitivamente não se mostra feminista de modo algum dizendo que faz uma crítica ao feminismo “de dentro” do próprio feminismo, que não usou até agora nenhum embasamento feminista, apontar com tanta certeza assim o que o feminismo deve fazer. Interessante também é notar a misoginia internalizada dela — que nem é difícil, porque é bastante visível —, ao enfatizar uma separação tão grande dela mesma do grupo “mulher” e ao sempre usar o termo entre aspas, ou meio que com desdém. Chego a ter pena, mas a verdade é que essa mulher provavelmente nunca leu uma linha de teoria feminista.


Notas

[1] Espera aí, Butler, vamos por partes para ver se eu entendi: 1) mesmo que o feminismo seja bastante variado, você jamais em tempo algum define o que exatamente você chama de feminismo; 2) ao mesmo tempo, você diz que não vai partir de nenhum feminismo específico porque isso seria muito normativo e limitante para o tipo de crítica que você pretende fazer aqui; 3) então, pelo seu texto, dá pra concluir que você acha que o objetivo do feminismo é uma representatividade emancipatória?! Mas o que exatamente seria isso?

[2] Na segunda nota de rodapé ela diz que o “sujeito diante da lei” é uma referência à interpretação do Derrida a Before the law do Kafka.

[3] Ela tá partindo daquela noção idealista de que a realidade se produz através do discurso; “penso, logo, existo”. Ao mesmo tempo, lembro do que ela disse a respeito do gênero que se faz no fazer, aí cruzo com Engels falando em Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem que “a mão não é apenas o órgão do trabalho; é também produto dele”, e minha mente dá um nó.

[4] Algumas das mulheres maravilhosas que vêm estudando este assunto desde o final dos anos 60: Mary Daly, Maria Mies, Rosalind Miles e Merlin Stone. No Brasil, temos a Heleieth Saffiotti. Recomendo dar uma olhadinha em todas elas, garanto que são bem mais fáceis de entender que a Butler; elas não acham chique escrever difícil.

[5] Deve ser culpa das TERFs.

[6] Isso é algo que nem Butler nem os seus discípulos parecem se importar: aparentemente, ser uma fêmea da espécie humana e tudo o que vem de brinde com essa característica pré-discursiva — a menarca, a menstruação, a relação com o corpo e com seus fluídos, a sombra constante do assédio sexual e do estupro, a possibilidade de uma gravidez indesejada e a impossibilidade de se optar pelo aborto… — não faz, para essa galera, a menor diferença. O corpo da mulher, mesmo quando significado pela cultura, aparentemente não existe.

[7] Tadinha… Miga, vem cá, vamos conversar.

[8] “Pós-feminismo” é um termo que em geral descreve exatamente o período de onde Judith Butler escreve esse texto, onde muitas críticas ao feminismo surgiram. Alegadamente, essas críticas têm a intenção de corrigir falhas do movimento, mas geralmente só tacando-lhe o pau mesmo. A Susan Faludi descreve bem o espírito de época desse finalzinho dos anos 1980 e início dos 1990 em seu ótimo Backlash. Mas já aviso que o livro é mó bad vibes: dá um belo de um desânimo.

[9] Mas pensa comigo: pra luta feminista dar certo em favor das mulheres, alguém vai ter que ficar de fora dessa construção, certo?

[10] Note a palavra: “Reificar” significa, num sentido mais amplo, tornar algo real, palpável, material. No Marxismo, reificar é tomar uma abstração ou um objeto e considerá-lo como possuindo existência viva. A qual desses sentidos Butler se refere? Reificação não deveria ser “o fazer que faz o gênero”, ou para Butler esse fazer não precisa de uma manifestação material? Ou, para ela, o problema com a existência material é o que ela chama de “ficção da existência pré-discursiva fundacionalista”? Será que o problema é a coisa (qualquer coisa!) já estar ali antes, e para sua existência ser válida essa coisa precisa ser construída através do discurso? Dúvidas…

Problemão de gênero, parte I: os prefácios

Faz já algum tempo que venho pensando em ler o Gender Trouble, que é basicamente a bíblia do movimento queer hoje. Esse livro surgiu de uma tese de doutorado escrita por Judith Butler em fins dos anos 80, e é seu trabalho mais conhecido, citado e reverenciado. Curiosamente, esse é um livro que, apesar de ser bastante citado nos chamados Estudos de Gênero, é muito provável que se alguém leu, o fez somente por trechos selecionados e xerox.

Sempre que falo desse texto, aponto para a ótima resenha do Rodrigo do Ó, que resume muito bem o ponto central discutido na obra e ainda dá uma contextualizada nos autores citados para sustentar o argumento. Se você ainda não leu o livro e pretende ter uma noção geral do que trata ali, sugiro que leia a resenha do Rodrigo, antes mesmo até de ler esse texto aqui. Vai lá, eu espero. :)

Confesso que, apesar de ter lido uma boa porção dele quando comecei o mestrado, ainda não tinha a carga de leitura que tenho hoje e, na época, não entendi metade do que foi dito e mal consegui contextualizar. É justamente por causa disso — e da sua influência (e dos embates que provoca) nos estudos feministas — que resolvi lê-lo de cabo a rabo e, ao mesmo tempo, ir fazendo uma leitura crítica por escrito dele. É disso que vai tratar essa série de posts que começo hoje e que não tem data ou periodicidade definidas, mas cuja leitura certamente vai acontecer nas minhas tediosas madrugadas insones e pode ser acompanhada on the fly no Twitter através da hashtag #livereadingGT.

Esse texto especificamente vai tratar dos dois prefácios do livro: o primeiro, escrito em 1999, fala das influências, reações e críticas que o livro provocou desde que foi publicado pela Routledge em 1990; o segundo, de 1990, é mais curto e serve mais para apresentar o conteúdo da obra propriamente dita. Já aviso que minha leitura crítica vai partir da minha própria orientação teórica, então deixo de sobreaviso ao eventual leitor ou leitora que aqui é feminismo radical, meu bem!

Prefácio (1999)

Então vamos lá: no primeiro prefácio (segundo na ordem de escrita), a autora vai falar de como ela não imaginava que sua tese seria tida como algo “inovador” na academia e, mais precisamente, na teoria feminista quando do envio dos originais à editora. Ela deixa meio implícito, acho eu, que sua intenção era exatamente essa: Butler afirma que o que queria com esse trabalho era combater algumas formas de teoria feminista, ela mesma se situando como parte do feminismo, olhando de dentro [1]. Ela usa o termo “embattled“, aliás.

Ela continua, então, dizendo que quando começou a escreveu sua tese de doutorado, incomodava bastante a ela o fato de que as noções de masculinidade e feminilidade serem tão exclusionárias e fechadas. Do seu ponto de vista, que enxerga gênero como uma expressão identitária, esse desconforto é até compreensível: se tais coisas fazem parte da expressão do ser das pessoas, e as pessoas acabam sendo punidas caso queiram se expressar de outra forma, é óbvio que se vai frustrar quando se mija fora da bacia. Porém, quando se estuda as formas como se deram essas construções da masculinidade e da feminilidade — que podem ser variar bastante de uma cultura para a outra, mas que são semelhantes o suficiente para serem definidas como duas categorias sociais bastante distintas e hierarquizadas, com uma dominando sobre a outra com base no papel que a pessoa desempenha na reprodução sexuada na espécie humana —, a gente entende que, apesar desses signos acabarem sendo adotados pelas pessoas como expressão de identidade, eles são frutos de um sistema que tem outra intenção. Aliás, ser adotado voluntariamente como parte de si mesmo, tanto pelos dominadores quanto pelos dominados, é justamente onde está a graça e a genialidade desse sistema de opressão, e é justamente o motivo porque é tão difícil se desvencilhar dele.

Butler, no entanto, não entra nessas questões. Ela acha que a estratégia mais apropriada pra lidar com esses “problemas de gênero” é justamente multiplicar as suas formas de expressão de modo a libertar as pessoas dessas amarras. Pensei comigo enquanto lia essa parte que a idéia dela é muito semelhante a tentar evoluir uma espécie que no momento se encontra envenenada por seus próprios hábitos hiperpoluindo seu meio ambiente [2]!

A autora vai ser bastante enfática ao falar de algumas teorizações feministas. Ela defende que algumas críticas feministas tendem à homofobia, mas mais adiante dá para entender que, ou ela entendeu errado o que essas feministas escreveram, ou ela deliberadamente se recusa a se ater ao ponto central do que essas feministas dizem. Butler defende que é preciso ser livre ao se falar de gênero, mas ela mesma diz o assunto não deveria ser tratado da forma como essas feministas o fazem. Ela inclusive usa a expressão “fundamentalismo da diferença sexual” (!). O problema é que ela não se dá ao trabalho de citar essas mulheres todas as vezes, e aí fica complicado saber exatamente do que ela está falando e o que exatamente ela está criticando.

Então, Butler vai falar da sua fundamentação teórica. Ela usa uma expressão que me fez parar para pensar no quanto eu era verde e absolutamente sem repertório algum quando entrei na academia: “Feminismo Francês”. Há algum tempo venho lendo vários livros mais ou menos ao mesmo tempo e, em um deles (Radically Speaking) há uma seção destinada a falar desse tal de Feminismo Francês e do pós-modernismo em geral: o que se costuma chamar de Feminismo Francês é um amálgama americano de alguns autores homens e mulheres que a) sequer são feministas ou têm qualquer relação com o feminismo, b) sequer “conversam” entre si, e, c) sequer são lidos e usados na teoria francesa feminista. A própria Butler vai reconhecer isso, dizendo que assim se corre o risco de ser franco-eurocêntrica, mas que na verdade isso pode ser tomado, segundo ela, como uma americanização da França, uma apropriação subversiva [3].

Ela vai assumir que vai fazer uma reformulação do feminismo dentro dos moldes pós-estruturalistas — feminismo este que ela nunca vai definir ou delimitar, ou seja… —, mas se justifica dizendo que o pós-estruturalismo não é mais formalista porque a teoria crítica rompeu com os estudos culturais, mas que isso ainda não é o suficiente pra dizer que se tratam de escolas diferentes [4]. Como, segundo ela, se apoiar na História não torna uma teoria generalizável, ela vai se apoiar em quê? Isso mesmo, nessa salada de autores franceses: Lacan, Foucault, Lévi-Strauss, Julia Kristeva, e Monique Wittig, principalmente.

Judith Butler vai partir, então, de taras e subversões sexuais para fazer a teoria dela, e não da existência material das mulheres — que foi o que de fato revolucionou os estudos das mulheres nos anos 1970, deu base e fundamento para se montar uma plataforma política de luta, e ajudou a estabelecer as prioridades nessa luta, coisa que, se for ver, hoje se perdeu muito por causa dessas contribuições que teóricos como a Butler deram. Ela cita, então, aquele artigo famoso da Gayle Rubin como ponto de partida. Veja bem: o artigo trata de tráfico de mulheres de um ponto de vista antropológico (isso está no título dele e do livro onde ele se encontra, caso não tenha ficado claro). Ou seja, “práticas sexuais”, nesse contexto, é tráfico e exploração sexual de mulheres! [5]

Aí ela vai falar de como algumas pessoas “expressam gênero” de forma diferentes, questionando, inclusive, “Quando e por quê […] algumas lésbicas butch quando têm filhos, se transformam em ‘pais’ e outras se transformam em ‘mães’?”. Ela acha um paradoxo uma mulher se masculinizar em busca de um status social mais elevado. Já eu acho bastante compreensível [6].

Butler cita Catherine MacKinnon para dizer que as diferenças sociais entre os sexos [ou seja, o gênero] são o que provocam as desigualdades entre os sexos. Esse texto é de 1987 (Feminism Unmodified), e eu mesma o cito em minha dissertação, tanto que o reconheci imediatamente quando li a versão parafraseada de Butler, e sei dizer até mesmo em que página ele se encontra. A MacKinnon trata de gênero como uma forma de hierarquizar as pessoas socialmente a partir de seu sexo, e o que ela está querendo dizer aí é que “a diferenças que atribuímos aos sexos são linhas desenhadas pela desigualdade” (p. 8): as diferenças biológicas não explicam a opressão das mulheres, porque sua opressão não é porque elas são inferiores, mas sua inferioridade é um efeito posterior de uma divisão social que as coloca para baixo na hierarquia.

Butler, por sua vez, vai pegar esse texto para dizer que MacKinnon comete uma tautologia: segundo Butler, o que MacKinnon quis dizer é que o gênero produz o gênero! Ela basicamente iguala sexo a gênero, sendo que — pelo amor da deusa! — a MacKinnon nunca fez isso; o que ela fez foi usar gênero em uma relação de correspondência ao sexo, que é basicamente a forma como a Gayle Rubin propôs a coisa toda quando formulou o sistema sexo/gênero.

É aqui que a coisa toda fica mais clara, e que a gente vai se dar conta de como é que a Judith Butler vai encarar a situação das mulheres na sociedade: ela já parte do pressuposto de que gênero é identidade. O fato de as divisões gendradas existirem, para ela, não significa que gênero seja necessariamente algo hierárquico, porque ela vai pegar o gênero — um conceito usado no feminismo para descrever e desnaturalizar a opressão das mulheres; eu falo um pouco disso neste texto aqui — e vai separá-lo do que ela chama de “discriminação sexual”. Para ela, hierarquia de gênero é basicamente fiscalização de cu [7], e não, como disseram as feministas, uma estrutura social organizada.

A expressão “discriminação sexual” é reveladora aqui, porque mostra que a autora não acredita em opressão/exploração estrutural das mulheres [vide nota 5]. Para a Butler, o machismo é apenas mais um preconceito bobo que existe só na esfera cultural da sociedade, que não tem uma origem, uma história ou um porquê. Ela afirma que não é o fato de marcarem as mulheres numa casta separada/gendrada que as coloca em sujeição aos homens [8], e que por isso não dá pra assumir que gênero é necessariamente hierárquico e, portanto, necessariamente opressivo, porque segundo ela “a performance de subversão de gênero não dá nenhum indício a respeito da sexualidade ou da prática sexual”; de acordo com a Butler, esse é o motivo de porque o argumento da MacKinnon é homofóbico (!).

Butler então vai dizer que tirou sua idéia de performatividade do Derrida, e vai dizer, citando Derrida citando Kafka, que esperar que uma “lei de gênero” funcione acaba produzindo a lei de gênero, numa espécie de self fulfilling profecy: gênero seria performativo no sentido de que a tal essência do gênero é fabricada através de atos gendrados que estilizam o corpo. Ou seja, ela diz que é no fazer que o gênero é feito. Como ela não se apóia na história, ela tá basicamente cometendo a tautologia que lá atrás ela acusou a MacKinnon de fazer! Que é no fazer que o gênero é feito é óbvio, qualquer coisa é feita no fazer [9]. Mas é preciso saber como isso é feito, e pra isso é preciso historicizar a parada. Mas ela escolheu justamente não fazer isso, então…

Ela fala que esse livro não é fruto somente dos estudos acadêmicos dela, mas de sua militância na Costa Leste. Ela diz que foi “em vários encontros, bares e marchas” e que viu “muitos tipos de gênero”. Ela parece buscar legitimizar seu texto falando em militância presencial talvez por causa do seu caráter completamente teórico, mas a mim pareceu como se eu dissesse “vivo dando rolê na Trajano e na São Francisco, sou muito militante, acreditem em mim!” Ela não descreve em nenhum momento o caráter dessa militância. Faz sentido, feminismo virou rolê, né?

Mas divago. Voltando para o texto, Butler dedica um bom pedaço desse prefácio às críticas ao seu estilo de escrita. Segundo ela, não é que ela escreva mal, são as pessoas que subestimam o público. Ela diz que “aprender as regras que governam o discurso inteligível é uma inculcação à linguagem normalizada” e que (se eu entendi e consegui traduzir de forma satisfatória) “os que não se conformam pagam o preço de uma perda para a própria inteligibilidade”. Ela diz que contestar a gramática faz parte de contestar o gênero propriamente dito. Mais adiante: “O que está escondido por trás da insistência em modelos paroquiais de transparência como requisito para todas as comunicações? O que a ‘transparência’ esconde?” A impressão que deu é que ela ficou ofendidíssima com as críticas e está realmente dizendo que a gramática é malvada, tudo isso pra se defender de quem disse que ela escreve mal. Só posso concluir que ela escreve mal de maneira deliberada porque acha chique.

Então, ela fala um pouco sobre o preconceito que sofreu por ser lésbica. Ela não atribui a lesbofobia sofrida ao fato de ser mulher, pelo contrário: ela vai desvincular completamente a sexualidade dela do fato de ser mulher. O que é bem contraditório. Me pareceu aquela coisa do “Não sou uma mulher como as outras” [vide nota 6]. Ela não se vincula às mulheres como sendo parte de uma classe porque isso seria admitir que se está numa posição subalterna na sociedade; isso pra galera liberal é um pecado (“Onde já se viu? Eu, uma mulher sofrida? Não! Eu tenho agência!”).

Butler diz que a premissa do texto dela não é apontar a nenhum feminismo específico [vide nota 1], porque aparentemente usar uma visão feminista para falar de feminismo é normativo demais. Isso talvez explique a ânsia dela de se desvincular de qualquer coisa que a coloque na mesma categoria que as mulheres. Para ela, do drag à transexualidade, é impossível determinar se alguém é homem ou mulher, porque usar vestimenta ou anatomia como critério não dá a ninguém certeza nenhuma [10]. “Quando se questiona tais categorias a realidade do gênero também entra em crise: se torna incerto como se distingue o real do irreal”. O que se tem como real, para ela, “invoca o conhecimento naturalizado do que gênero é”. Ela diz que a missão do livro é “insistir na extensão da legitimidade de corpos que têm sido tomados como falsos, irreais e ininteligíveis”.

Ela continua dizendo que reconsiderou e estendeu alguns pontos do que escreve em Gender Trouble em obras posteriores. Por exemplo, ela diz que algumas pessoas interpretam o modo como ela fala de gênero como sendo algo inventado na cabeça das pessoas, ou algo superficial. Ela justifica essas interpretações como sendo fruto de limitações da linguagem, que a impediram de ser clara o suficiente, porque “o discurso não pertence exclusivamente nem à representação corpórea nem à linguagem” [11]. Diz então que, se fosse reescrever o livro, incluiria discussões a respeito da transgenereidade, da intersexualidade, da sexualidade racializada (tabus contra miscigenação, sexo interracial etc).

Butler encerra o prefácio dizendo que acha muito precipitado reduzir poder à hierarquia, e que isso seria recusar suas dimensões políticas positivas, porque não existiria, segundo ela — e aqui acho que ela faz alusão à Foucault —, posição política sem poder. Eu, pessoalmente, acho que essa é que é uma visão reducionista: só alguém em coma seria vítima por direito (!).

Prefácio (1990)

Aí vamos então ao segundo prefácio, o prefácio original do livro, publicado em 1990. Ela começa dizendo os debates da época acerca da definição do que era gênero eram tão bizarros que não definir gênero parecia que poderia “eventualmente culminar no fracasso do feminismo”. Então ela vai falar de trouble: as normas são um problema, e se rebelar contra elas também causa problemas para o rebelde; já que esses problemas são inevitáveis, ela propõe que o jeito é arranjar a melhor forma de se estar “in trouble” [12].

Depois ela cita Beauvoir para dizer que ser mulher numa cultura masculinista é ser um mistério para os homens. Butler diz que Sartre confirma isso falando que todo desejo é masculino e heterossexual, logo trouble. E se uma mulher, objeto desse desejo, responde ou contesta a autoridade masculina, ela também tá encrencada.

Aí ela vai afirmar que uma vez que o “Outro” fêmea é dependente do macho nessa relação masculinista, a autonomia dela é ilusória, e que é dessa relação de poderes que se vai construir o binário “homem/mulher”, e que tal binário consequentemente se conforma à matriz heterossexual. Então, questiona: “Qual a melhor forma de perturbar as categorias que sustentam a hierarquia de gênero e a heterossexualidade compulsória?”

Então ela vai dizer que o “gênero é um tipo de personificação que passa por real”, e pergunta se o drag, em sua performance, imita o gênero ou “dramatiza os significantes pelos quais o gênero é estabelecido?”. Essa parte é bem interessante porque mostra duas coisas: que o gênero, como teorizado anteriormente pelas feministas dos anos 1970, é uma coisa artificial “que passa por real”, ou seja, sustenta a tese do domínio masculino de que se as mulheres parecem fracas com essas coisas delicadas e saltos altos que usam, então elas são de fato fracas e acabam ficando fracas de fato por internalizarem essas coisas; e que essas “personificações temporárias” do estereótipo feminino, ao mesmo tempo em que faz uso de significantes que não representam a “realidade” da mulher, mas algo que “passa por real”, acabam fazendo uma representação fajuta do real e do que se tem por real. Ou, pra tentar deixar mais claro onde eu quero chegar: esses estereótipos fazem uma imitação da imitação even better than the real thing, mas não chegam a sequer se aproximar minimamente da coisa em si, porque é uma ficção em cima de outra! Porém, a Butler não vai se alongar muito sobre isso aqui — acredito que ela o faça no último capítulo do livro —, e vai se perguntar se ser fêmea é um fato natural ou se sua natureza é construída discursiva e performativamente [13].

Ela explica então que vai usar a genealogia de Foucault/Nietzche para analizar sexo, gênero e desejo como efeitos de uma relação de poder. Segundo ela, esse método se recusa a buscar nas origens dessas coisas seus motivos e meios de funcionamento, porque tá mais preocupada com os efeitos dessas instituições/práticas/discursos, porque segundo ela, eles têm origens muito diversas. Fiquei me perguntando como se faz uma pesquisa dessas sem situar as coisas historicamente, porque a mim me parece impossível, mas vamos lá.

Butler parte do falogocentrismo e da heterossexualidade compulsória, e vai dizer que até mesmo a noção de “fêmea” é problemática. Segundo ela, “fêmea” e “mulher” não têm mais significados estáveis porque são termos relacionais, que só têm significado em relação a outros termos. Ela faz alguns questionamentos que tive que ler umas quinze vezes para entender, mas que dizem basicamente que afirmar que as mulheres têm alguma coisa em comum que as une enquanto classe é limitante. Uma vez que ela não acredita em opressão estrutural e que tudo não passa de uma “discriminação sexual” boba, e não está preocupada com história, origens, desenvolvimentos, e estratégias de ação baseadas nessa realidade de classe, ela provavelmente não espera que as mulheres se unam e lutem juntas por uma causa comum. A questão, pra ela, é individual.

Então ela vai fazer uma apresentação das três partes do livro: no primeiro capítulo, ela vai “reconsiderar o status de ‘mulheres’ enquanto sujeitos do feminismo e a distinção sexo/gênero”, porque segundo ela, sexo é uma “construção fictícia” que “sustenta esses vários regimes de poder”; no segundo, ela vai pegar estruturalismo, psicanálise e estudos feministas acerca do tabu do incesto para mostrar como as categorias discretas de gênero são reforçadas (o famoso “binarismo”); e, finalmente, no terceiro, ela vai usar a Kristeva para mostrar “normas implícitas que governam a inteligibilidade cultural do sexo e da sexualidade”. Ela diz que o livro foi construído pra facilitar convergência do feminismo, do pós-estruturalismo e das perspectivas de gênero gays e lésbicas, e diz que gênero é interdisciplinar demais pra ficar confinado aos estudos de gênero ou estudos das mulheres. Butler afirma que quer radicalizar a crítica feminista [14].

Ela encerra agradecendo os financiamentos aos seus estudos, e falando dos seminários e orientações que recebeu de gente muito fora da casinha durante o doutorado. Os três nomes que conheço da lista: Joan Scott, Donna Haraway (doida) e Linda Nicholson (acha que se você criar seu filho direitinho, ele pode passar pelas mesmíssimas experiências de uma menina [15]).

Enfim, é isso. Vamos ver se dessa vez vou aguentar ler esse delírio todo até o fim.


Notas

[1] Apesar disso, ela não define, até o momento, o que ela tem por feminismo, então fica bastante confuso saber a que ela se refere quando usa esse termo, e até mesmo quais os posicionamentos políticos dela em relação ao feminismo. Os posicionamentos políticos dela, independentemente do que ela considera feminista, ficam bastante claros só de ler esse prefácio, mas é bem complicado chamar isso de feminismo.

[2] Um amigo fez um comentário bastante pertinente no Twitter: “clássico pensamento neoliberal norte-americano, achar que liberdade é ter várias opções de consumo”. Se for pensar em toda a indústria que está por trás da manutenção dessas “categorias de gênero”, faz muito sentido. Vide o que Janice Raymond (1979) chama de “império transexual“, e todo o dinheiro que se movimenta na manutenção de um ideal de beleza feminino.

[3] Eu quase cochilei quando li isso.

[4] Confesso que sei bem marromeno o que todas essas coisas significam, mas deixei essa parte aí caso algum leitor saiba melhor que eu e queira dar umas diquinhas nos comentários. Eu devia ter prestado mais atenção nas aulas de “Fundamentos em Interação”, mas tergiverso.

[5] O jeito que a Butler escreve leva a crer que ela não acredita que as mulheres sejam exploradas, oprimidas, e parte de uma casta inferior na sociedade. Isso vai ficar muito claro mais adiante no texto, porque a autora é culturalista e não materialista: pra ela, as mulheres sofrem, sim, mas apenas porque são diferentes. Para mim isso deixa bastante claro que o tal feminismo da Butler é puramente nominal, porque ela não parece se importar nem um pouco com mulheres e sua situação enquanto mulheres.

[6] A velha história do “ah, você não é como as outras” é uma estratégia de sobrevivência, e uma forma de se masculinizar dentro da própria feminilidade. É uma forma de fugir da feminilidade aprovada pelos homens e, portanto, com menos chances de a mulher em questão sair perdendo individualmente (mas ela pode sair perdendo no contexto geral, ou mais adiante): se sua estratégia é não entrar em confronto direto com os detentores do poder — ou seja, os homens — você vai acabar usando ferramentas do próprio patriarcado para tentar se libertar dele individualmente. Essa libertação individual é uma característica bem marcante do feminismo liberal, e explica porque ele se deu tão bem com a teoria queer.

[7] Os leitores que me desculpem, mas não encontrei expressão mais apropriada.

[8] De fato não é a separação propriamente dita que oprime as mulheres. Essa separação, no entanto, foi necessária para que um sistema de opressão e exploração pudesse funcionar de forma mais eficiente e surgiu junto com ele. Mas vai explicar isso pra quem não gosta de estudar história?

[9] Doh!

[10] Eu tenho alguns critérios para saber se alguém é homem ou mulher. Um deles é se a pessoa me ameaça com estupro.

[11] Tudo é muito ambíguo, nada é real, não se pode ter certeza de nada, a linguagem não ajuda, tudo é ilusão… Que cômoda e muito boa forma ela encontrou de justificar a própria incompetência!

[12] Não dá pra lutar contra o sistema, então conforme-se de outra forma.

[13] Me pergunto se essa mulher nunca sofreu de cólicas menstruais na vida…

[14] Tadinha…

[15] Sério.

Petshop Boys

Quem governa entre os meus gatos hoje é o ruivo gordinho. Já faz um bom tempo que ele tem a preferência em qualquer coisa na casa e, principalmente, na hora de receber a comida. Só hoje, porém, notei essa mudança na pequena política interna da sociedade felina formada em minha casa. Nunca fui atrás de estudar direito como os gatos se organizam socialmente, mas sei o suficiente a respeito deles para saber que é mito a história de que gatos não são seres sociais. Gatos se organizam socialmente sim, e geralmente o fazem de forma estritamente hierárquica.

O líder do bando.

O líder do bando.

Em um bando de gatos é muito comum haver um líder, que subordina outros gatos e os mantém sob seu comando. Qualquer gato (ou gata) pode desafiar o gato chefe, tomar seu lugar, ou até mesmo romper com aquele bando específico e formar seu próprio bando. Um gato, no entanto, não domina somente pela força. Ele podem subordinar outros gatos pelo charme, por ter uma personalidade forte, por humilhação pública… Todas formas de subordinação a que humanos estão bastante bem habituados. Nesse sentido, somos, então, muito parecidos com os gatos.

Gatos podem trabalhar em conjunto sem que estejam subordinados a outro gato, no entanto. A dominação violenta não é a única forma de organização social que os felinos conhecem. Eles podem sim cooperar, e o fazem sob as mais diversas circunstâncias. O fazem por respeito ou simples amizade, e pagam dívidas morais com toda a fidelidade.

Os gatos são muito mais fiéis que os cachorros. É aqui talvez que a maioria das pessoas discorde de mim. Não se engane: eu amo cachorros. Eu possuo a honra de ter a guarda compartilhada do cachorro mais legal do mundo, um adorável beagle de seis anos de idade, sem o qual a vida lá em casa seria muito mais triste. E sendo o tipo de cachorro “mais cachorro” que existe, posso usar o Buddy como referência.

Ao contrário de um gato, um cachorro faz coisas escondidas e tenta enganar seu dono de forma tão frequente, mas ao mesmo tempo encantadora, que não se vê a maior parte das “artes” que um cachorro faz como deliberadas, como frutos de uma mente pensante e consciente. É só um cachorro, coitado! Ele não fez por mal.

O gato não. O gato usa a arma da sedução de outra forma. Quando um gato faz uma travessura, quebra alguma regra, ele se defende do jeito que dá: corre, esperneia, arranha. O gato não usa seu charme para se safar, entretanto. Ele geralmente o usa para obter vantagens, tanto entre os humanos quanto dentro da própria micro sociedade felina onde ele está. Mais comida, mais carinho, um lugar melhor para espreguiçar no sofá da sala… É por causa dessa diferença na hora de gerenciar conflitos e obter vantagens que o gato é visto como falso, como não confiável, como traiçoeiro — apesar de ser absolutamente honesto.

Meu gato laranja nunca dominou nada, e eu duvidava que um dia ele pudesse entrar na disputa. E principalmente porque meus outros gatos têm forças muito evidentes, coisa que o gato laranja não tem. Mas ele abraçou a majestade de um jeito que eu jamais imaginei que um slumdog como ele faria.