Resenha: Mad Men

Mad Men

Foi dificíl terminar Mad Men, mas eu sabia que evetualmente acabaria acontecendo. Tenho postergado esse evento o máximo possível: desde 2013, quando comecei a ver a série, tenho tentado prolongar o ato de assisti-la o máximo possível. Pense, como no famoso slogan publicitário de uma famosa marca de cigarros cujo nome agora não me recordo, que assistir a série de Matthew Weiner era um raro prazer. Acompanhar uma série é um empreendimento custoso, demanda tempo e desgaste emocional, duas coisas que não tenho sobrando e que me sinto desperdiçar quando gasto com produções culturais medianas. E se há algo que Mad Men passa longe é da mediocridade.

Mad Men tem o protagonista mais odioso de que tenho notícia. Seu charme não me atinge [1], mas atinge a todos que conheço que acompanharam a série, sejam homens ou mulheres. Don Drapper é o cara de passado sofrido e presente atribulado por sua incrível capacidade de fazer bosta. Na minha humilde opinião, ele é apenas uma desculpa para a série existir. Ainda assim, a trama revolve no entorno de seu personagem de forma única. Ele próprio não é raso — ser odioso nunca impediu um personagem de ser interessante, afinal — e, ainda que seja uma máquina de fazer merda, é capaz de alguns atos nobres, que por vezes chegam tarde demais. Os defeitos de caráter de Don, no entanto, nos colocam diante dos nossos próprios. Don frequentemente se sabota no que diz respeito a timing: ele faz coisas imbecis em horas inapropriadas e é tão autocentrado que esquece que as relações à sua volta podem se deteriorar a ponto de o perdão já não ser mais possível. Mesmo porque “perdão” para ele consiste em uma indulgência que o permite, tão logo a poeira baixe, cometer os mesmos erros de sempre.

Mas uma série acontece para além de seus protagonistas, e é quase um pecado considerar os personagens que existem na história de Don meros coadjuvantes. O percurso que a série faz em suas trajetórias ao longo de dez anos — sete, em termos de temporadas — é progressivamente construído de forma coesa, mas imprevisível [2]. Mesmo quando o público tem evidências bastante explícitas dos rumos de um personagem, é possível se chocar e se surpreender quando a pista se torna fato. Exemplos são o suicídio de Lane Pryce e o crescimento exponencial da personagem de Elizabeth Moss, Peggy Olson — uma de minhas favoritas, principalmente por causa da identificação quase imediata que tenho com ela.

Assim que subiram os créditos do décimo quarto episódio da sétima temporada, tive dificuldade para entender que havia acabado. Veja, comecei a ver a série em 2013, houveram alguns percalços aí no que diz respeito ao meu compromisso comigo mesma de consumir produtos culturais, mas houve também um esforço deliberado de ir degustando tudo muito devagar. Eu teria terminado de ver tudo muito antes se o Netflix tivesse disponibilizado todos os episódios da última temporada de uma só vez, mas a AMC só havia liberado os sete primeiros, sem previsão alguma de quando chegariam os restantes. Uma amiga, que acompanhou a série na mesma época que eu e quase na mesma velocidade, chegou a esse limite e foi ver os demais episódios de forma, digamos, pouco oficial. Eu resisti e fui cuidar da vida — e desde então se passou algum tempo, pelo menos um ano. Quado retornei — e isso já era 2016, tempo considerável depois que a AMC já havia largado tudo no catálogo do Netflix —, decidi que precisaria de mais contexto para entender a trama, e resolvi assistir tudo de novo. E entre fruição irregular esporádica intercalada com outras séries que foram entrando na fila, levei quase um ano para (re)ver tudo. Foi a melhor coisa que eu poderia ter feito.

Por tudo o que é e significa, por sua profundidade narrativa que eu, espectadora pouco dedicada de produções audiovisuais em geral, e por fazer um retrato tão impactante de uma era, lugar e contexto histórico tão específicos, Mad Men é, de longe, a melhor série que já assisti em todos os meus quase trinta anos de vida, e duvido muito que possa ser superada. Pretendo assistir outras obras dos mesmos criadores, roteiristas, produtores, diretores e atores em busca do mesmo tipo de riqueza que é possível encontrar aqui. Não sou uma pessoa de eleger favoritos — não tenho livros, bandas ou filmes favoritos, apenas uma lista de referências que me marcaram e fazem parte do meu repertório cultural —, mas posso dizer que Mad Men ganhou meu coração. <3

Finalizo essa resenha com uma citação da resenha do Film Crit Hulk, livremente traduzida no bloco abaixo, e que também recomendo a leitura:

A vida inteira de Don é construída ao redor da mentira. Ele faz parecer que a elegância é fácil. Ele consegue falar através do silêncio. Ele consegue manipular e ver as pessoas a partir do que falta a elas. Ele transborda carisma. Resumindo: Don Drapper é a personificação de tudo o que é terrível a respeito da Publicidade… Mas não é só isso. Afinal, mesmo que a existência de Don Drapper seja uma realidade cínica — seu mantra não é sobre cinismo, é? Todo mundo pensou a respeito de porque Don é bom em Publicidade, mas ninguém realmente se perguntou porque ela é tão importante para ele. Por que ele é tão estranhamente apaixonado por ela? Por que ele consegue fazer as pessoas chorarem? Sério, por que Publicidade? […]

A razão porque Don Drapper é tão bom em Publicidade é porque ele precisa do que ela oferece mais do que qualquer um. E de fato, ele também acredita nela mais do que qualquer um.


Notas

[1] Me sinto insuficientemente heterossexual para isso.

[2] Mad Men é mestre na imprevisibilidade: nunca se sabe quando alguém pode perder o pé com um cortador de grama no alto de um edifício em Manhattan.

Pareidolia

Antigamente, a melhor forma de se saber a classe social de uma pessoa sem fazer muitas perguntas era perguntar quantos televisores ela tinha em casa. Com essa simples pergunta era possível descobrir se ela morava na zona rural ou urbana, se tinha eletricidade em casa, as religiões a que ela talvez pertencesse, sua classe social e até o tamanho aproximado de sua residência. Sozinha, essa pergunta pode ou não fazer muito sentido a depender do caso, mas ela só comprova uma tendência se acompanhada de outras perguntas que abordem a questão por outros viéses.

É dos padrões que extraímos informação. É por isso que somos viciados neles: nosso cérebro se alimenta das conexões que as informações que jogamos dentro dele fazem. Se tais conexões são aleatórias a ponto de não fazerem sentido, pode ser pareidolia ou proposital nonsense. Há quem mapeie o céu e o relacione ao momento do nascimento, há quem brinque de só pisar na lajota preta, há quem desenvolva transtornos e não consiga fazer certas coisas sem a presença de certas condições aparentemente não relacionadas. Há quem desenvolva idiomas inteiros a partir dessa lógica.

Homens de chapéu têm 50% mais chances de serem babacas: nada mais anacrônico que um homem de chapéu.

Gente que tem exaustor em casa é rica: “bem de vida” para mim é qualquer um que ganhe o suficiente para pagar o próprio aluguel, independente de onde more. Se alguém pode se dar ao luxo de não empestear a casa com a fritura do último bife, essa pessoa é rica.

Canhotos são gente fina: canhotos têm o mundo todo contra eles. Canhotos entendem como a vida pode ser difícil nas pequenas coisas do dia a dia. Outra hipótese é que eu fico embasbacada com algo que eu acho impossível de ser feito: dominar a mão esquerda. Mas já ensinei a minha a pintar as unhas (não as dela mesma, claro).

Não confio em quem numera séculos com algarismos indo-arábicos: é uma tendência moderna, e como algumas tendências modernas — como por exemplo suprimir o trema da língua portuguesa —, são de muito mal gosto estético no que diz respeito ao desenho e às formas das letras, dos diacríticos e, conseqüentemente, ao desenho e ao entendimento das abstrações que chamamos “palavras”. Quem não liga pra esse tipo de coisa não merece falar comigo e nem com o meu anjo.

´Etz HaDa`at Tov V’Ra`a

A categoria “Textinhos Para Ler no Celular” trocou de nome e agora se chama “Mobile First“. Não que alguém se importe. Para acessar todos os dois post disponíveis até o fechamento desta edição basta clicar naquele link lá, ó.

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Não lembro muita coisa do meu Ensino Médio no que diz respeito a “Conteúdo Programático”, mas se lembro alguma coisa — como por exemplo agora, vendo aulas de nível avançado em Algoritmos no Coursera, entendendo lhufas, mas tendo altos flashbacks de situações traumáticas em provas —, os créditos vão para José Lauro, meu professor de Matemática do primeiro ano, e pra Jô, minha irmã mais velha, provavelmente a pessoa mais paciente (pelo menos comigo) desse mundo.

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Por que o brasileiro faz pós-graduação no Brasil? Uma das respostas a essa pergunta é certamente poder pagar as contas. Uma pós-graduação não quer dizer nada a seu respeito enquanto pessoa na maior parte das vezes, mas mostra para quem paga seu salário que você se esforçou um mínimo possível para consegui-la. Mesmo que isso se resuma apenas a 1) conseguir comparecer às aulas sem ser reprovado por falta, e 2) ter conseguido manter dignidade suficiente para estar em dia (ou não) com os seus credores a ponto de não ter ido parar na cadeia (ainda).

Ter feito apenas este mínimo, no entanto, não significa que o pós-graduando é um folgado incapaz. “Apenas sobreviver” é um motivo bom o suficiente para qualquer ser humano realizar qualquer ação de qualquer natureza, dado o caráter da Vida, do Universo e Tudo o Mais em perspectiva na relação com o Grande Esquema das Coisas. “Apenas sobreviver” pode ser ótimo enquanto motivador. Eu, pessoalmente, acho que isso é algo que as pessoas deviam tentar fazer mais vezes.

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Pra eu gostar de uma pessoa ela tem que gostar do mesmo imperador romano que eu.

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Voltei com meu propósito de escrever um mínimo de 500 palavras por dia, e na segunda-feira bati a meta com folga: mais de 2 mil palavras, entre escrita em meio eletrônico e à mão. Obviamente, nos dias que se seguiram, a motivação arrefeceu.

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Uma coisa que me incomoda sobremaneira é não ter um checklist de habilidades quando estou aprendendo alguma coisa nova, principalmente em se tratando de tecnologia. É aquela coisa: “OK, aprendi e solidifiquei conhecimento básico em X, agora faço o quê? Parto para onde? Como sei que estou seguindo um bom caminho? Quando vou saber se aprendi o suficiente? Que outras coisas preciso priorizar, e o que posso deixar de lado por enquanto, no meio de tanta linguagem, biblioteca e framework com documentação porca que surge todo dia?” Me sinto, na falta de uma palavra melhor, overwhelmed pelo tanto de coisa que me sinto incapaz de fazer em comparação com o tanto de coisa que faço com o pé nas costas.

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E falando nisso, procurando por uma luz a respeito desse mesmo assunto no Google, me deparo com uma série de respostas-padrão dizendo que, quanto a ser mestre em uma habilidade específica, das duas uma: a) ninguém é bom o suficiente, e b) posso estar sofrendo da Síndrome do Impostor. Já fui informada a respeito dessa possibilidade, mas essa resposta nunca me agradou porque, bem, ela não me diz nada. A tal da Síndrome do Impostor diz basicamente que se você não se vê como bom o suficiente em algo, logo você só pode ser bom. Não importa que eu me sinta a própria definição de “estrangeiro em terra estranha” — ou “peixe fora d’água”, ou ainda “completamente ignorante” mesmo — em relação a determinado assunto. E se minha avaliação de mim mesma for acertada? Não existe um parâmetro, nenhuma evidência a que se agarrar para ter essa certeza, e sendo assim, para mim não passa de uma falácia assumir que sou boa em algo simplesmente porque não acho que sou. Essa, para ser mais específica.

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O melhor texto que acabei eventualmente encontrando sobre tudo isso foi esse.

¡Happy Birthday, Guadalupe!

Essa semana foi meu aniversário de vinte e nove anos. É o último dos “vinte e”, e tá me assustando menos do que eu achava que ia assustar. Os últimos dez anos me fizeram muito bem, independente das cagadas que aconteceram pelo percurso. O progresso que fiz de 2006 para cá é, fazendo a comparação agora, a melhor parte da minha vida. Não sei se sou uma pessoa melhor, mas eu gosto muito mais disso aqui que daquilo lá.


Estou inaugurando neste exato momento a série “Textinhos para ler no celular“. São um conjunto de textinhos de curta e curtíssima metragem feitos para… er… ler no celular. Aprecie-os durante aquela engarrafada no trânsito naquele trajeto que você faria em meia hora, no máximo, de bike, e que você não faz porque é meio perigoso ou pode chegar fedendo no trabalho.


Li recentemente o livro da Aline Valek. “As Águas Vivas Não Sabem de Si” é lindo. Tem horas que você está lá lendo e pensa: “Aline, você é espetacular escrevendo, minha filha. Continua assim que você vai longe”. O problema do livro é que não me senti cativada por nenhum personagem — o que, se for pensar bem, não é um problema que invalida uma obra: existem vários ótimos livros com personagens nem tanto assim. O livro me foi oferecido pela Sharon, uma amiga de Pato Branco. Surgiu bem na hora que resolvi dar uma olhada no que o mercado editorial brasileiro anda lançando por aí além de Nova Literatura Fantástica Brasileira.


O espanhol é um idioma de ansiosos. Todos os tipos de ansiedade ficam muito bem representados em língua espanhola.


Estava lendo o El País e me deparei com uma palavra que fez tudo finalmente fazer sentido quando se trata de nomes estranhos de iguarias de se comer em feriados específicos: “rebanada” significa “fatia” em espanhol.


Tem uma galera que sugere o fim da previdência pública porque hoje as pessoas vivem mais que na época em que o conceito de aposentadoria foi criado — fins do século XIX por Otto Von Bismark. Acredito que provavelmente vou trabalhar até morrer dada minha classe social, e é exatamente por isso que quero ir para o magistério. Não é mais fácil, mas até agora tem sido bem legal. 🙂


“We tested the levels of the pH this morning. Only Pee, no H.” — SOUTH PARK. “Pee“. S13E14, 2009.


A segunda melhor parte do inverno é poder se embolar sob duas toneladas de cobertas e fingir que está de volta ao útero, aquele momento primordial em que nada em nossa vida era objeto de preocupação e você mal se dava conta de que existia. Nada pode se comparar em prazer diante disso. Nada.


Uma teoria de mulheres que fale que mulheres são subjugadas em função de seu papel na reprodução sexuada da espécie humana — cujas potencialidades têm sido sequestradas por uma ideologia que foi uma das responsáveis pela estruturação da sociedade tal como ela é hoje — não é feminismo radical. É só “feminismo”, mesmo.


O feminismo radical é a prova cabal de que resignificar palavras não dá certo nem garante que alguma coisa vai mudar na sociedade pelo simples ato de as pessoas pararem de usar certos termos ou trocar o significado de outros: “feminismo” foi um apelido de tom pejorativo empregado pelos jornalistas franceses para se referirem às mulheres que lutaram pelo sufrágio universal naquele país; e “radical” é um termo pejorativo usado para se referir às feministas queimadoras de sutiã dos anos 1960. Ambos os termos são usados para se referir a mulheres, essa persona indefinida mas circunscrita em um papel social bem específico, e que está ao alcance de qualquer um poder encarnar.

O problema de focar na linguagem é que ela é muito fácil de manobrar, se você for esperto.


Como sexo pode ser libertador para mulheres em uma sociedade em que ele próprio é ferramenta de dominação?

ENIAC Girl

Me desespero muito quando vejo que estou demorando demais para aprender alguma coisa. Entro em pânico e começo a duvidar da solidez de todo o conhecimento que adquiri até aqui. Como consequência, hesito em botar mais qualquer outro tijolinho nessa obra bamba.

Com programação foi assim comigo, até que muito recentemente — semana passada? — me dei conta de que se eu parar e prestar a atenção devida no conceito sem perder o controle e pirar louca na ansiedade, eu até que aprendo direitinho e relativamente bem rápido. Pode parecer óbvio para a maioria das pessoas, mas para mim tem sido libertador conseguir parar por alguns minutos e só pensar… nisso: o problema abstrato que está diante de mim neste exato momento. Isso é apenas impossível para alguém que tem atenção deficitária, como eu.

Sim, arranjei um novo emprego. Estou fazendo quase que exatamente a mesma coisa que fazia na Gazeta do Povo, mas sem a parte do impresso e nem a das enguias1. Depois de oito meses parada, percebi que finalmente desacelerei e descansei. Parece que finalmente consegui enxergar a vida sem todo aquele estresse — coisa que nunca tinha conseguido antes, considerando qualquer uma das “férias” que tirei desde que me tornei uma trabalhadora assalariada.

E desde que me tornei uma trabalhadora assalariada, o último período de grande estresse para mim foi o mestrado, onde pesquisei sobre mulheres na ciência em geral e na computação em particular. Nas entrevistas que fiz para essa pesquisa, as gurias falavam muito que quando elas estavam tentando aprender a programar, às vezes chegavam nuns momentos de desespero. Até que dava o click: de algum modo o seu cérebro entra no Vórtice da Perspectiva Abstrata Total Necessária à Compreensão Daquele Problema de Lógica, você finalmente entende como funciona aquela máquina e porque você está conversando com ela daquele jeito tão esquisito.

Essa foto é tão linda! <3

Essa foto é tão linda! ♥

É bem verdade o que aquelas meninas doidas2 falaram: fazer programa dá dinheiro mesmo. Estou pagando minhas contas assim. Infelizmente — para o desconsolo da assombração que habita a cabecinha delas, é claro —, não é aquele tipo de programa, é outro.

Antigamente isso era coisa de mulher, depois virou coisa de nerdão que anda com a calculadora no bolso, e no futuro todo mundo vai precisar saber pelo menos o básico da lógica. Também está afim? Sugiro começar por aqui.


1. Piada interna. Não tente entender. Pelo amor do Altíssimo, não!

2. Não!

Dormientibus non sucurrit jus

Foi notícia em vários jornais de alcance nacional: ex-colegas de trabalho da Gazeta do Povo foram processados trinta e sete vezes este ano por duas matérias que saíram em fevereiro sobre o salário médio de magistrados em comparação com o teto da categoria. Dizendo-se ofendidos, os magistrados já obrigaram os profissionais a conhecer todo o estado do Paraná, viajando mais de seis mil quilômetros para comparecer às dezenove audiências que já ocorreram, em que a presença deles é compulsória. O conteúdo das ações, segundo matéria da segunda edição do Paraná TV de hoje, dá a entender que os caras apenas copiaram e colaram o texto uns pros outros e entraram na justiça de forma individual, para não parecer (muito) suspeito.

As organizações de imprensa do Brasil e do Paraná já se manifestaram em repúdio, enquanto que as associações dos magistrados e do Ministério Público soltaram notinhas irônicas e debochadas — eu, pelo menos, vi muito deboche em “apenas 2% dos associados entraram com ações” —, dizendo que qualquer um tem direito de processar quem quiser pois este é um direito constitucional. A melhor parte dessa história é que dois dos processados eram meus colegas de baia, e certamente eu estaria envolvida nisso se não tivesse sido demitida do jornal no penúltimo Passaralho, em agosto de 2015.

Na meleca em estamos enterrados até o pescoço desde as eleições passadas, quem vigia os vigilantes se a imprensa está de mãos atadas? E a vingança pra lá de sádica de fazer de bobos em viagens inúteis cinco trabalhadores que, juntos, não devem ganhar o que essa galera dá de mesada para os filhos?

Tweet do "responsável pelo visual gráfico das matérias"

Mudando um pouco de assunto — mas só um pouco —, as redes sociais ferveram na semana passada.O motivo foi a falta de noção e de senso de ridículo de um colunista do Diário do Centro do Mundo, por conta de um texto absurdo, seguido de atitudes ainda mais absurdas do responsável pela conta do jornal [jornal? portal?] no Twitter.

Ou seja: se por um lado não podemos confiar na imprensa por conta da pauperridade com que é feito muito do jornalismo em alguns de seus veículos, por outro é muito melhor com eles que sem. Como disse o Rodrigo:

Se não for pela mídia burguesa, por onde poderemos nos informar sobre acontecimentos além dos que podemos ver com os nossos próprios olhos?

[…] A ideia de “não acreditar na imprensa burguesa” é inevitavelmente ligada a teorias da conspiração. Ela depende da ideia de que alguma agência da burguesia, a CIA ou qualquer outra, pode controlar toda a mídia burguesa por trás dos panos e, ao mesmo tempo, fornecer à burguesia os fatos reais.

Só sei que depois dessa tamancada, o Guilherme vai trocar a bio do Twitter para “o responsável pelo visual gráfico das matérias”.


Falei sobre os perigos de se fazer jornalismo neste blog em outubro do ano passado. Só abobrinha, como de costume.


UPDATE: Atualizando este post apenas para colar o print do post do Galindo no Facebook.

Webmaster

As plataformas venceram — prova maior disso é a imprensa pedindo penico ao Facebook. A minha sorte, por ora, é que este blog que você está lendo não tem qualquer pretensão (nem de ser lido) e o Manual encontrou alguns leitores que entenderam o recado e veem, como eu, a beleza de não estar e não depender de uma rede social, de uma plataforma controlada por gente que não está muito preocupada com o que eu escrevo nem com as pessoas que me leem e que frequentam aquele espaço.

Leia o texto completo no blog do Ghedin.

Problemão de Gênero, parte II, volume 5: o Verbo se faz carne

Desde o último texto publicado na série “Problemão de Gênero”, resolvi instituir um cronograma para, até julho de 2016, conseguir terminar de ler e analisar todo o “Gender Trouble”. Tem sido um desafio, principalmente pelo fato de que, bem, há muita coisa que quero ler, há muita coisa a se estudar, e o fato de eu discordar diametralmente da autora e ter ojeriza de seu estilo de escrita também não ajudam. O caso é que ler esse livro e escrever essa série tem me dado uma base teórica muito boa para entender não só a teoria feminista em voga atualmente na academia e sua manifestação mainstream, mas também como anda o mundo e como tudo isso tem se construído ideologicamente nos últimos séculos.

A partir do estudo independente desse livro — coisa que jamais me seria possível fazer sob o selo institucional do departamento de “estudos de gênero” de uma universidade —, estou estudando uma série de assuntos que me interessam, ajudando pessoas a entender melhor o que raios anda acontecendo no feminismo, e de que forma rebater esses argumentos. Se isso algum dia vai me trazer algum tipo de fruto que eu possa ostentar no meu currículo Lattes já é outra história, mas divago.

Identidade, Sexo, e as Metafísicas da Substância

A autora começa esse subcapítulo abordando a noção de “identidade”, e o que as formulações comuns a respeito desse conceito têm a dizer sobre o que ela chama de “identidade de gênero”. Essa parte específica do texto é bastante truncada e confusa, apesar de sua conclusão poder ser resumida em menos de 140 caracteres, mas vamos lá.

Butler questiona o que pode ser entendido como “identidade”, e em que sentido as identidades podem ser entendidas como internamente coerente, fixas, idênticas entre si, e o que essas assunções dizem sobre “identidade de gênero”. Ela diz que seria errado imaginar que a discussão sobre identidade propriamente dita vem antes da discussão sobre identidade de gênero pelo simples fato de que pessoas só são entendidas através do processo de engendramento em padrões de conformidade. Isso porque a “coerência” e a “continuidade” da “pessoa” não são características lógicas e analíticas da personalidade, mas normas de inteligibilidade instituídas e mantidas socialmente — de modo que a “pessoa” em si deixaria de existir se não estivesse nos conformes, e apareceria apenas como uma perversão ou impossibilidade lógica. [1] As normas de gênero buscariam assegurar uma interpretação única dos conceitos de sexo, gênero e sexualidade, e dentro dessa noção de igualar [identidade de] gênero à personalidade é “a heterossexualização do desejo” que cria oposições entre “feminino” e “masculino”.

Se, por um lado, esse argumento parece bom porque considera as pessoas como indivíduos com sentimentos e características próprias inseridas em um contexto de práticas opressivas com o intuito de os manipular em função de poderes superiores, ele deixa de levar em consideração alguns fatores essenciais para compreender porque essas “normas gendradas” existem, pra começar. Butler não considera que esses poderes que regulam as práticas sexuais dos indivíduos possuem vetores de ação e finalidades bastante específicas; se estamos realmente falando de feminismo — e Butler afirma em um momento anterior do texto que é esse o assunto (ou, pelo menos, um dos assuntos) que ela aborda no livro — isso significa dizer que esse objetivo é o controle do potencial reprodutivo das mulheres. Mas uma vez que a autora desconsidera a própria existência evidente do patriarcado — uma “noção altamente ocidental” —, é por outro caminho que ela vai seguir.

A partir daqui ela vai discorrer sobre o que ela chama de “matriz de inteligibilidade” do gênero, e de que modo o gênero, enquanto “efeito das práticas discursivas” da relação entre sexo, gênero, práticas sexuais e desejo, resulta na heterossexualidade compulsória [2]. Ela também questiona como a “heterossexualidade compulsória meramente toma o lugar do falogocentrismo como causa monolítica da opressão de gênero” [3]. Para isso, ela vai se voltar novamente ao tal do “feminismo francês” [4] e às teorias pós-estruturalistas para explicar como regimes de poder produzem as identidades sexuais, e suas contradições. Ela lista a seguir o argumento de sexo único da Irigaray — o masculino, o feminino seria o “Outro”, indefinível e irrepresentável; o conceito do Foucault de que “masculino” e “feminino” seriam resultados da “difusa economia regulatória da sexualidade”; e o argumento da Wittig de que dentro da idéia de heterossexualidade compulsória, o único sexo que existe é o feminino, pois o masculino seria o universal não marcado/estabelecido, e que o sexo desapareceria sem essa regulação. Uma vez que haja tanta variância conceitual a respeito do sexo, Butler argumenta que o sexo vai ser entendido de formas diferentes de acordo com o campo onde o poder é articulado.

Ela vai dizer que todas essas conceituações têm em comum a noção de que o sexo aparece na linguagem como substância através de uma torção no discurso: “ser” um sexo ou um gênero seria impossível, e as noções de “masculino” e “feminino” seriam frutos de um discurso falogocêntrico hegemônico que abafaria a expressão das múltiplas sexualidades.

Butler faz, então, uma breve análise do argumento de Monique Wittig:

Para Wittig, a restrição binária do sexo serve aos objetivos reprodutivos de um sistema de heterossexualidade compulsória […]. Em outro momento textual parece que “a lésbica” emerge como um terceiro gênero que promete transceder a restrição binária do sexo imposta pelo sistema de heterossexualidade compulsória. Em sua defesa do “sujeito cognitivo”, Wittig parece não ter qualquer discordância metafísica com os modos de significação ou representação […]. Ela não critica “o sujeito” como invariavelmente masculino de acordo com as regras de um Simbólico inevitavelmente patriarcal, mas propõe em seu lugar o equivalente a um sujeito lésbico como usuário da linguagem.

A identificação da mulher com o “sexo”, tanto para Beauvoir quanto para Wittig, é a fusão da categoria mulher com as características ostensivamente sexualizadas de seus corpos e, consequentemente, uma recusa em se conceder às mulheres liberdade e autonomia da mesma forma que ela é supostamente desfrutada pelos homens. (p. 26. Tradução livre)

Me parece que Butler ficou ul-tra-ja-da com a sugestão de Wittig de se destruir o sexo como hierarquia, e do “ponto de vista feminino” como uma possibilidade discursiva. A impressão que tive quando li esse trecho foi que ele foi escrito por um Ativista dos Direitos dos Homens [5] indignado com o fato de as mulheres estarem conseguindo mais direitos civis, porque senão — imagine! — vai chegar uma hora em que isso aqui vai se tornar um matriarcado, onde já se viu! Dá pra notar também o quanto ela nega de todas as formas possíveis a materialidade do sexo feminino: a menor sugestão de sua existência é vista por ela como um exagero, uma fantasia, quase como a Vênus de Willendorf, cujos atributos sexuais bem marcados representam — heresia! — um culto ao potencial reprodutivo das fêmeas.

Vênus de Willendorf

Butler continua dizendo que a lésbica proposta por Wittig “confirma, mais que contesta, a promessa normativa dos ideais humanistas pressupostos na metafísica da substância” — grifo meu [6]. As idéias da Irigaray, segundo Butler, também vão se encaixar nessa idéia de metafísica da substância, mas vão divergir das de Wittig no sentido de que a primeira separa em conceitos diferentes a “lésbica” da “mulher”, enquanto Irigaray defende a existência de uma “pessoa” antes do gênero. De acordo com ela, isso “confirma o modelo normativo do humanismo como estrutura para o feminismo”, e só contribui para a “própria produção e naturalização da categoria do sexo” [7].

A partir daí, o texto discorre sobre as análises gramaticais do gênero na língua francesa feitas pela Wittig, que defende que o gênero gramatical não só designa pessoas, mas é a ferramenta através da qual o gênero se universaliza. Butler lembra que o francês é uma língua latina, onde tudo tem gênero, mas destaca que a Wittig diz que análises semelhantes poderiam se aplicar à língua inglesa. Ela rebate esse argumento dizendo que a visão da Wittig corrobora a idéia de que as pessoas “são” gêneros, ou são suas sexualidades em virtude de seus sexos de nascimento, e que isso seria confundir sexo e gênero — que, vamos lembrar, ela disse em outra ocasião que não faz sentido separar um conceito do outro — o que, segundo ela, ajudaria a manter uma estrutura que exige coerência entre sexo, gênero e desejo. Isso porque, segundo a autora, afirmar-se homem ou mulher implica necessariamente uma diferenciação de seu “gênero oposto”, o que restringiria tudo a um par binário de “ser”.

O argumento de Judith Butler aqui é que o gênero só designaria uma “unidade de experiências” em relação a sexo e desejo quando ele está de acordo com as exigências da heterossexualidade, criando uma relação de oposição entre os gêneros que se desejam, algo que a “heterossexualidade instituída” requer e exige.

A instituição de uma heterossexualidade compulsória e naturalizada requer e regula o gênero como uma relação binária na qual o território [8] masculino é diferenciado do território feminino, e essa diferenciação é conseguida através das práticas do desejo sexual. O ato de se diferenciar esses dois momentos opostos do binário resultam em uma consolidação de cada território, a coerência interna respectiva de sexo, gênero, e desejo. (p. 30. Tradução livre)

Até aí, lendo esse parágrafo isolado, tudo muito bom, tudo muito que bem. Sim, a heterossexualidade compulsória exige que, bom, que a norma sejam os relacionamentos heterossexuais. Se é “compulsória”, significa que é obrigatória e normativa; se é “heterossexualidade”, significa que regula relações sexuais entre homens e mulheres, e consequentemente seus desejos e práticas sexuais. Que gênero ou sexo — principalmente quando dentro do que ela chama de “matriz heterossexual” — não sejam suficientes para designar a experiência de se ser uma pessoa completa, isso ninguém questiona. Butler, no entanto, não se dá ao trabalho de investigar o porquê de isso ser assim. O termo “instituição” demanda que alguém tenha instituído a heterossexualidade como norma, e essa institucionalização, independente de ter sido feita de forma consciente ou insconsciente, deve ter um objetivo. Ela também não se preocupa em investigar de que lado essas forças de poder vêm, como exatamente atuam — que tipo de normas de comportamento a heterossexualidade compulsória exige de machos e fêmeas? As mesmas normas se aplicam a um e outro grupo? Por quê? —, e nem que lado se beneficia do quê em função de quem. Butler apenas atesta que o poder existe e atua por aí, cerceando as taras da galera.

Ela então continua o texto afirmando que categorias como “homem”, “mulher”, “macho” e “fêmea” são produzidas dentro dessa estrutura binária heterossexual. Citando “A História da Sexualidade” de Foucault, ela afirma que casos como o de Herculine Barbin — uma intersexual francesa que foi designada como sendo do sexo feminino, e que posteriormente foi “diagnosticada” como homem — sugerem que a diferença sexual surge não do sexo propriamente dito, mas de formas específicas e históricas de se encarar a sexualidade. Herculine seria uma impossibilidade identitária, dentro da noção apresentada por Butler. Segundo a autora, a própria existência de Herculine ferra com as convenções de inteligibilidade, porque convergiria a hétero e a homossexualidade em um mesmo indivíduo.

Isso mesmo que você leu: um caso limítrofe serve muito bem como prova de que sexo não importa, ou pelo menos seria irrelevante no processo de significação. Não me entenda mal: a diferença sexual é irrelevante quanto aos significados atribuídos a machos e fêmeas, sim. Os atributos culturalmente considerados femininos não têm, realmente, qualquer relação com a realidade de se ser uma mulher, um ser humano do sexo feminino; mulheres não são fracas, submissas, sentimentais, ou burras por natureza. Mas que sequer lhe tenha passado pela cabeça em nenhum momento que sexo entre homens e mulheres pode produzir gente, e que o controle da produção e reprodução de gente possa ter motivado a instituição de normas para o comportamento sexual é algo que realmente me incomoda. Não! Jamais! Isso é coisa de feminista radical essencialista de teorias ultrapassadas, certamente. Não importa que seja a própria Butler que tenha assumido, no início de sua argumentação, que “homem” e “mulher” sejam tidos como expressões de uma substância, de uma personalidade, e tenha partido daí para criar um espantalho argumentativo contra o qual ela iria duelar ao longo desse subcapítulo inteiro. O que importa é que o argumento que ela criou dá margem a entender que atribuir o termo “homem” ou “mulher” a um ser é uma “construção fictícia” porque em alguns casos isso não necessariamente se aplica [9].

Finalizando, Butler escreveu tudo isso apenas para dizer que o gênero seria, então, puramente performativo porque constitui a própria identidade do indivíduo. Mas aí vem a pegadinha: “Não há identidade de gênero por trás da expressão de gênero; porque a identidade é performativamente constituída pelas suas próprias ‘expressões’ que são tidas como sendo seu resultado”. Se eu entendi bem, gênero seria a expressão do gênero em si mesma, sem nada por trás. Nada: nenhum contexto, nenhum motivo, nenhuma origem e nenhum fim.

Gênero é o que as pessoas quiserem que ele seja. Não é à toa que algumas feministas advogam parar de usar esse termo.


Notas

1. Aquela zoeirinha que os críticos mais perspicazes dos Social Justice Warriors fazem ao dizer que o pessoal do Tumblr se acha um bando de “floquinhos de neve especiais” porque gostam de uma determinada tendência da moda é extremamente acertada, se for assim. Lembrando que as críticas que páginas do Facebook como “Aventuras na Justiça Social” e assemelhadas fazem não são nem um pouco perspicazes. Se aproximam em grande medida, aliás, das da galera masculinista.

2. “Heterossexualidade compulsória” é um conceito desenvolvido pela Adrienne Rich no que acredito ser seu trabalho mais famoso. Nele, Rich enfatiza o caráter sexual da exploração patriarcal e usa, inclusive, exemplos de práticas como a mutilação genital feminina para mostrar como a alienação que o patriarcado inflige sobre as mulheres funciona. Se você é feminista de qualquer vertente e ainda não leu esse artigo, não perca mais tempo. Sério.

3. Me pergunto de onde foi que ela tirou que certas feministas dizem que é a “centralidade no pau” que causa a opressão das mulheres. O que causa a opressão das mulheres, nós, feministas radicais, já dissemos um milhar de vezes. Não vou repetir aqui porque eles se ofendem facilmente e podem transformar a seção de comentários do meu blog numa sucursal do inferno, mas vocês sabem de quem estou falando.

4. Sim, eu também estou incomodada com tantas notas de rodapé no mesmo parágrafo, mas essa é necessária: “feminismo francês” é um conjunto de autores e autoras não exatamente relacionados, não exatamente feministas, e não exatamente as principais referências da teoria feminista produzida na França, sendo uma invenção de intelectuais americanos. Butler admite isso já nos prefácios. “A única forma objetiva de definir [o ‘feminismo francês’] é dizer que se trata de um corpo de comentários feito por escritores anglo-americanos sobre uma seleção de escritores franceses e não franceses: Lacan, Freud, Kristeva, Cixous, Derrida e Irigaray são o grupo central. Mas há outros. ‘Feminismo francês’ é então uma corrente da produção intelectual dentro do contexto anglo-americano” (Tradução livre de: DELPHY, Christine. “French Feminism: An Imperialist Invention”. In: BELL, Diane; KLEIN, Renate (org). Radically Speaking: Feminism Reclaimed. North Meolbourne: Spinifex Press, 1996).

5. Sim, eles existem.

6. “Metafísica da substância” seria uma armadilha filosófica em que alguns argumentos acabariam presos, por confundir a formulação gramatical dos conceitos com sua realidade ontológica. Envolve aquela noção de “em que medida uma mulher é do sexo feminino?”, porque a formulação “mulher” não seria suficiente para abarcar o ser que essa formulação busca representar. Esse texto aqui tem uma explicação bem de acordo com o pensamento de Judith Butler, mas ajuda a entender o que raios é isso.

7. Porque, como todo mundo sabe, sexo não existe. Nós surgimos nesse mundo trazidos por uma cegonha, que nos cultiva ela mesma em pés de repolho, que brotam e têm em seu miolo os bebês humanos. Agora, como as plantas se reproduzem, aí já é outra história. Mas uma coisa é certa: nunca vi um pé de repolho inserindo suas protuberâncias dentro de outro para gerar novas plantas, que saem inteiras de dentro do repolho impregnado. Isso é obviamente um conceito ridículo; logo, terei de concordar com Butler.

8. A palavra que ela usa no original é “term”, que pode significar “período”, “lógica”, “relação entre dois grupos”. Traduzi como “território” pois me lembrei que “terms” também pode designar fronteiras de um país ou pedaço de terra. Se você tiver uma sugestão melhor, deixe nos comentários.

9. Segundo Anne Fausto-Sterling, numa estimativa bastante otimista que agrega os mais diferentes e variados tipos de alterações no desenvolvimento embrionário, em torno de 1,7% da população manifestaria algum tipo de intersexualidade, arredondando para cima. Isso seria, segundo ela, mais ou menos a quantidade da população que tem albinismo. (FAUSTO-STERLING, Anne. Sexing The Body: Gender politics and the construction of sexuality. Nova York: Basic Books, 2000.)

Problemão de Gênero, parte II, volume 4: o universal e o específico

Finalmente mais um pedaço da minha grande e pretenciosa análise da obra de Judith Butler vê a luz do dia. Neste trecho — que é bem pequeno no livro, mas que rendeu um texto relativamente substancioso —, analiso o subcapítulo Teorizando o binário, o unitário e além, onde nossa teórica queer favorita desce o pau nas perspectivas ditas universalizantes. Para ler os outros textos da série, clique aqui.

Teorizando o binário, o unitário e além

Butler inicia esse item do seu texto dizendo que Simone de Beauvoir e Luce Irigaray vão discordar em pontos fundamentais acerca de como funciona a assimetria entre os gêneros: segundo ela, Beauvoir vê os gêneros como categorias dialéticas assimétricas, e Irigaray, de um modo mais amplo em alguns sentidos, como uma dialética elaborada pelo que ela chama de “economia masculinista”. Só que Butler diz que o enfoque dado por Irigaray é monolítico e universalizante, e que por isso sua teoria falharia em captar cada uma das especificidades culturais; Butler vai inclusive chamar isso “imperialismo epistemológico”.

A autora vai usar termos ainda mais fortes: de acordo com ela, essa tática equivale a usar as armas do inimigo, mimetizando as estratégias do opressor. Apesar de em certo ponto Butler dizer algo que faz muito sentido e até que bastante óbvio, ou seja, que as estruturas de opressão atuam para muito além da opressão sexual, seu texto dá a entender que as feministas têm os mesmos poderes e as mesma condições de atuar em um mundo onde impera a dominação masculina [1].

É aí que vem a deixa para questionar certas feministas que ela chama de “essencialistas”, e suas “alegações universalizantes”. Nos termos de Butler, essas teóricas acreditam na existência de uma identidade própria e única das mulheres. Mas tirando algumas correntes ecofeministas — que, e me contestem nisso se eu estiver errada, acreditam em um poder quase divino intrínseco à concepção e aos ciclos do corpo feminino [2], o que é bem diferente de se afirmar que exista uma essência feminina —, não tenho conhecimento de qualquer corrente feminista que advogue que todas as mulheres, sem exceção, compartam universalmente de uma mesma cultura/identidade unificada cujo ponto de partida seja sua materialidade corporal. Butler diz que essas “alegações universalizantes” partem de um ponto de vista epistemológico compartilhado que torna a categoria “mulher” algo normativo, exclusionário, e que não dá conta de abarcar as tais intersecções de raça, classe etc [3].

O que me leva de volta a um texto muito bom da Denise Thompson que já citei nesta série [4]”. Colo aqui uma parte que, a meu ver, mata a charada do tal “imperialismo epistemológico” do qual Butler acusa certas feministas. O trecho é um pouco longo, mas garanto que vale a pena a leitura:

Seu argumento é uma instância da acusação de ‘falso universalismo’, e funciona da mesma maneira que todas as acusações do tipo contra a teoria feminista funcionam, ou seja, negando a dominação masculina. Ela [Butler] caracteriza o ‘patriarcado’ como uma ‘noção altamente ocidental’. Ela insiste que ele não é apropriado quando aplicado às ‘atuações da opressão de gênero’ e ‘experiência de subjugação das mulheres’ em culturas diferentes das ‘ocidentais’, negando assim que o conceito de ‘patriarcado’ é relevante para culturas outras que não do ‘ocidente’. No entanto, ela reconhece que a ‘opressão de gênero’ e ‘subjugação das mulheres’ existe em culturas outras que não do ‘ocidente’. Mas se a subjugação das mulheres não é resultado da dominação masculina, de onde ela vem? Parece que o ‘universalismo’ só é falso quando o que está sendo ‘universalizado’ é a dominação masculina. Não há problema, ao que parece, em ver a opressão das mulheres como ‘universal’ no sentido de que ela existe em outras culturas que não o ‘ocidente’. O que é proibido sob o risco de ser acusado de ‘falso universalismo’ é nomear o inimigo.

Localizar a causa da subordinação das mulheres na dominação masculina não é ‘universalizar’ uma noção peculiar do ‘ocidente’ e aplicá-la a ‘outras culturas’. Identificar a dominação das mulheres pelos homens (e de alguns homens sobre outros homens) não é afirmar que há somente uma forma singular de dominação masculina. Mesmo no ‘ocidente’, ela tem a multiplicidade de diferentes formas. Onde quer que os interesses dos homens prevaleçam às custas das mulheres, e os interesses de alguns homens prevaleçam sobre os de outros homens, a dominação masculina existe, seja que forma tome. Enquanto algumas vezes ela é violenta e descaradamente desumanizadora, ela também é multifacetada e pervasiva na vida cotidiana. Ela toma diferentes formas em diferentes culturas sob diferentes condições históricas, contanto que a existência ‘humana’ continue a ser definida nos termos dos homens, e que a existência ‘humana’ de alguns homens exista às custas de outros homens, ela continua sendo dominação masculina, em todas as suas ‘infinitas variedades e monótonas similaridades’ […].

Butler continua dizendo que alguns esforços têm sido feitos no sentido de fazer uma política que não assuma uma forma pré-definida de “mulher”, mas que abarque as várias identidades das várias mulheres em variados contextos, de modo a não se assumir uma unidade, e que ao mesmo tempo abrace as contradições. Só que, logo a seguir, ela diz que “[a] própria noção de ‘diálogo’ é culturalmente específica e historicamente fundada, e enquanto um falante pode sentir-se seguro de que a conversa esteja acontecendo, outro pode ter a certeza de que não está”, e que faz-se necessário questionar as condições em que este diálogo ocorre. Que as questões de raça, classe, etnia, orientação sexual etc não podem ser simplesmente adicionadas à condição “mulher” para que a “categoria mulher” seja de fato completa — como ela diz a seguir — é algo bastante razoável. Mas a recusa de Butler em reconhecer a existência, a materialidade, e tudo o que implica viver em um corpo de fêmea, como a autora fez até aqui sob o temor de se cair em uma análise essencialista, é simplesmente estranho, na falta de uma palavra melhor.

O que Butler propõe é que se assuma uma “incompletude definicional”, porque segundo a autora afirma em mais uma pequena série de perguntas retóricas, é a insistência em se encontrar uma unidade que causa os rachas na ação política e estabelece uma “norma exclusionária de solidariedade a nível de identidade”. De acordo com ela, o fato de não existir uma identidade unificada a respeito de quem é o agente do feminismo pode fazer com que um maior número de “mulheres” [5] possam ser incluídas no feminismo, tornando a luta feminista mais efetiva, porque a própria noção de “identidade” não é algo fundacional e/ou estático.

Mas Butler esquece que o que unifica as mulheres no feminismo não é sua identidade enquanto mulher. Mesmo as feministas radicais advogam que a identidade feminina é algo que depende de significantes culturais; ser mulher no Brasil é diferente de ser mulher em Angola, bem como ser mulher no Norte do Brasil é bem diferente de ser uma mulher sul-brasileira, bem como ser uma mulher negra brasileira no sul do Brasil é bem diferente de ser uma mulher indígena lésbica no Oeste americano. Só que o feminismo não é uma disputa para ver quem grita mais alto. O que pega nessa questão — e que Butler ou não se informou direito a respeito, ou deliberadamente distorceu, nunca saberemos — é que o objetivo do feminismo não é ser uma luta pela representatividade identitária das mulheres no âmbito cultural, mas uma luta das mulheres contra a dominação masculina partindo do fato de que as mulheres se encontram em uma posição de subjugação pelos homens — que estão com elas em uma relação de parasitismo que apropria econômica, cultural e socialmente em amplas esferas as funções sexuais e reprodutivas das mulheres. E mulher, fêmea, que dentro do contexto da reprodução da espécie tem um papel bem específico, tem no mundo todo. Não sei se Butler notou este pequeno detalhe, mas aguardemos com paciência o desenrolar do argumento.


Notas

1. Não que Butler acredite que exista uma dominação masculina, mas enfim…

2. E, sinceramente, em um mundo que demoniza, erotiza e objetifica o corpo feminino, e ainda prega e incentiva a total ignorância das mulheres a respeito de seus próprios corpos, não consigo, por mais que tente, ver muito problema nisso. Até vejo alguns, mas isso eu conto para quem quiser me pagar uma cervejinha. 🙂

3. Para entender melhor a origem, o que significa exatamente, e quais os problemas e limites dessa abordagem chamada “interseccional”, recomendo a leitura de um texto de Danièle Kergoat, “Dinâmica e consubstancialidade das relações sociais“.

4. Tradução livre de: THOMPSON, Denise. Radical Feminism Today. Londres: SAGE, 2001. p. 53-58.

5. Aspas da autora.

Update

As gurias do Radfem.info acabaram de publicar na íntegra o texto da Denise Thompson que é citado aqui. Por favor, leiam!

Privishing

Uma coisa que acho que gostaria muito de fazer é criar uma editora. Sempre gostei da idéia de preparar e selecionar material para publicação, e trabalhar em editora — não como designer de capa e miolo, mas com criação ou auxílio para produção de conteúdo — é algo que sempre quis fazer.

Desde criança eu fantasiava com a idéia de ter uma publicação periódica para leitura em que também se disponibilizasse atividades lúdicas, como jornais e revistas fazem com os quadrinhos e as palavra-cruzadas. Minha prima Aline, por exemplo, recebia em Curitiba pelo correio diretamente de Maringá o meu almanaque, com curiosidades, jogos e caça-palavras. E mesmo quando não tinha almanaque, minhas cartas tinham formas de leitura e formatos diferentes, brincadeiras com cores, eram muito lúdicas.

Já tendo trabalhado de fato em uma editora — a Gazeta do Povo — que publica* periódicos, acredito que sei pelo menos por alto como funciona o processo de criar, selecionar, editar e publicar conteúdo e estava pensando em fazer isso de uma forma bem independente. Alternativa, hipster no sentido absoluto da coisa mesmo: ninguém nunca vai ouvir falar nisso, mas o registro estará lá caso alguém queira citar.

Pois então é isso: enquanto todo mundo está aí tirando MEI e virando PJotinha, eu estou querendo ISSN. Já dei uma lida bem mais ou menos em como funciona o processo para registro de um periódico, e estou pensando seriamente** no assunto.


*Ou, pelo menos, publicava: soube que recentemente o formato do jornal mudou de standard para berliner, economizando muitos metros quadrados de papel e litros de tinta em sua publicação.

**Isso significa que na prática pouca coisa substancial será concretizada, mas isso será um pensamento recorrente meu.