A construção da verdade em vídeo

O texto abaixo foi escrito como parte da avaliação da disciplina “Design e Epistemologia”, dada em conjunto pelos programas de Pós-Graduação em Design da ESDI/UERJ e UFPR. Na revisão por pares, um dos professores elogiou e recomendou publicação; o outro, achou “superficial a ponto de ser irritante”. Tendendo a concordar com o professor mais rigoroso, portanto, só me resta publicá-lo no veículo mais apropriado — minha própria plataforma.

introdução

O cinema em particular e o audiovisual em geral são — como algumas outras áreas do fazer profissional, como o design, a publicidade, o jornalismo… — frutos do que se convencionou chamar Modernidade, ao mesmo tempo em que produzem leituras sobre ela [1]. Através da sua linguagem, construída sobre limitações e possibilidades científicas da técnica que a produz, o vídeo possibilitou a criação de modos de ver próprios desse modelo de sociedade. Esse artigo busca refletir e discutir formas de construção da realidade e da verdade através da linguagem do vídeo, considerando as presentes possibilidades dessa linguagem trazidas pelas suas formas de captação, pela alta resolução das imagens e pela inteligência artificial.

No que diz respeito à produção artística e de entretenimento, as possibilidades construtivas dessa linguagem audiovisual, já consolidada em seus anos de história, são usadas de maneira deliberada de modo a construir determinadas narrativas e possibilidades de leituras dessas obras. Mas uma das ideias que emergem da possibilidade de se reproduzir tecnicamente imagens da realidade é a de que o vídeo proporciona um meio fidedigno de representar essa realidade. Essa não é necessariamente uma ideia adotada de forma geral dentro da variada comunidade dedicada a esse tipo de produção, mas é especialmente comum no que diz respeito ao jornalismo e ao vídeo documental.

Como toda linguagem, a linguagem audiovisual é ela também uma espécie de caixa de ferramentas para determinado tipo de construção artificiosa, seja essa construção uma tentativa de retrato da realidade ou uma criação artística. A produção de ficções ou de reportagens [2] com o vídeo se utiliza essencialmente das mesmas ferramentas e são constituídas de blocos construtivos de mesma natureza.

isenção, ilusão & ficção

A partir da breve discussão anterior, é possível entender que mesmo a produção audiovisual mais pretensamente desinteressada ou neutra/isenta — como se posicionam alguns dos “produtores de realidade” do jornalismo — não escapa de ser construída com as mesmas ferramentas e possibilidades usadas na ficção. Sendo assim, construídas da mesma substância, a verdade e a ficção podem, pelas suas próprias possibilidades técnicas e narrativas, se entrelaçarem ou, até mesmo, sequer se distinguirem. A verdade no vídeo surge desse seu lugar na vida social (FOUCAULT, 2002) — como meio informativo e, ao mesmo tempo, lúdico.

Existe uma anedota a respeito de uma das primeiras projeções cinematográficas da história, realizada pelos irmãos Lumiére em Paris em 1896 (GRUNDHAUSER, 2016). Conta-se que, ao enxergar diante de si um trem a vapor se aproximando em alta velocidade, o público do cinema assustou-se, e algumas pessoas fugiram desesperadas com medo do iminente atropelamento. A colisão impossível certamente não aconteceu, mas a sua possibilidade só pôde existir para aquela audiência — ou para os ouvintes da anedota — pelas ilusões que essas projeções imagéticas causam. Desde os inícios do vídeo, portanto, a discussão a respeito do ilusionismo possível através das suas imagens existe.

Figura 1: “The Arrival of a Train” (1897).

Como discurso, o vídeo produz também efeitos no mundo, dado que é ele mesmo um modo de olhar, um modo literal de se elaborar visões de mundo — Flusser fala em “biombos” (1985. P. 7). É antiga já a discussão do vídeo como meio de agitação e propaganda, como forma de estabelecer certos tipos de representações e leituras sobre certos tipos de personagens, lugares, indivíduos e coletivos de pessoas pela organização dos modos de falar (EISENSTEIN, 1990). Porém, as possibilidades técnicas e científicas que se colocam atualmente e se somam ao seu conjunto de ferramentas exigem a continuidade dessas discussões, pertinente precisamente pelas possibilidades de reprodução ilusória da realidade que o vídeo possui.

Essas possibilidades não capacitam a técnica a fazer uma cópia exata da realidade — a coincidência do mapa com a realidade que busca representar é tida como a perfeição cartográfica em um pequeno conto de Jorge Luis Borges [3] —, mas cria uma aproximação com ela que é real o suficiente. Essa possibilidade é circunscrita por recortes, edições e enquadramentos, criando ficções mesmo quando a intenção dos emissores é em direção a uma tentativa de re-produção da realidade.

as possibilidades de verdade do vídeo

Sendo de natureza fictícia, as verdades produzidas pelo vídeo, como modos de falar, permitem uma inteligibilidade comum e atuam na construção identitária não só daqueles que constituem a sua audiência, mas também daqueles que o produzem, que o circulam, ou até mesmo que se mantém alheios, sendo indiretamente afetados por eles. Ainda que as suas tentativas documentais sejam também fictícias, fabricadas, entre as possibilidades do vídeo está o contato para além das fronteiras de tempo e espaço — aprofundadas ainda mais pela disseminação do acesso à internet. É, portanto, falsa a oposição entre uma verdade que é construída pela linguagem e uma verdade independente da linguagem, que emerge da natureza e não é influenciada pelas ações humanas (FOUCAULT, 2007); toda verdade necessita da linguagem para ser articulada, para se fazer construir e se fazer entender.

Uma das formas de produção da realidade muito difundidas atualmente é o uso massivo de câmeras de segurança, principalmente nos ambientes urbanos públicos. Deslocadas de sua utilização comum no cinema e na TV, as câmeras de segurança têm como objetivo o monitoramento da realidade que se observa através de suas lentes. Sua forma de captação, que resulta em uma sequência linear direta de imagens, sugere que não existe ali uma construção narrativa intencional, apenas o monitoramento das atividades em um dado local de forma impessoal e isenta. É essa percepção de retrato da realidade das imagens por elas captadas que as legitima como provas documentais em processos criminais e as estabelece como ferramentas discursivas de poder.

Figura 2: Frame de “Security Cameras”, comercial da Coca-Cola que faz uso de imagens reais e reconstruídas de câmeras de segurança, com intenções dramáticas.

A câmera de segurança produz imagens com qualidade relativamente inferior à de outros equipamentos de mesma função. Ela funciona como uma tentativa de ampliar o alcance da vigilância realizada por olhos humanos, sem no entanto permitir ao observado identificar seu observador. Como o panóptico prisional idealizado por Bentham e comentado por Foucault (1987), as câmeras de segurança criam não só a armadilha da visibilidade, mas também modos de compreender e experienciar a realidade por aqueles que se valem de suas imagens: ao mesmo tempo em que elas auxiliam na construção de uma “sensação de segurança” através da tentativa de inibição da atividade criminosa (CARDOSO, 2013), elas também permitem a domesticação dos espaços público e privado e de seus ocupantes.

As características imagéticas próprias das produções realizadas através de câmeras de segurança — com suas resoluções mais modestas, cheias de ruídos e, muitas vezes, sem a informação de cor — possibilitam que se aflore a partir delas uma linguagem reconhecível, reprodutível e ressignificável. O emprego de imagens similares às produzidas pelas câmeras de segurança no campo da ficção — simulando as suas deficiências técnicas e as suas características estéticas mais evidentes [4] — estabelecem, por exemplo, um modo de narrar que se apropria dessas características e busca, também no espaço da criação artística, efeitos de significação similares ao que as imagens “autênticas” produzidas por estes aparatos transmitem. O reconhecimento dessas imagens enquanto linguagem depende, portanto, dos seus modos de representação.

O vídeo documental, por sua vez, é um gênero do audiovisual que se coloca como crônica não-ficcional. Ainda que alguns autores o identifiquem como um tipo de interpretação subjetiva da realidade, por vezes se afirma em seguida que esse gênero “tem por característica sustentar-se em acontecimentos reais”, tratando “efetivamente daquilo que ocorreu”, “e não daquilo que poderia ter acontecido” (PUCCINI, 2009. P. 24). É na possibilidade reprodutiva imagética propiciada pela técnica que a “realidade” — ou seja, a “verdade” — do documentário é construída: a noção do documentário como um recorte ou enquadramento próprio do diretor é às vezes bastante explícita na literatura da área do Cinema e da Comunicação (NICHOLS, 2012), mas não resolve o paradoxo das afirmações de credibilidade daqueles que capturam imagens com esse propósito.

Pode-se pensar que documentários naturalistas, por exemplo, se aproximem de um discurso científico: eles advogam um determinado acesso privilegiado a natureza — inacessível às pessoas comuns — quando buscam, através do uso de altas resoluções, captar a realidade de forma fidedigna em suas cores, sons, contextos, texturas, lugares e composições. Muitas dessas expedições para captar imagens na “natureza selvagem” se valem da consultoria ou da parceria com cientistas. É o caso de alguns dos documentários produzidos pela Natural History Unit, divisão do canal de televisão britânico BBC.

Figura 3: Equipe da Natural History Unit da BBC nos anos 1950.

Criada em 1957, a NHU alega “revelar a audiências ao redor do mundo as maravilhas extraordinárias da natureza por meio de narrativas excepcionais, imagens de cair o queixo e ciência de ponta” (BBC STUDIOS, s.d.) [5]. A BBC é uma rede de broadcasting estatal que enuncia certo discurso a respeito da cultura britânica dentro do seu próprio território e também no exterior. Esses enunciados têm muito a ver com a validação de um projeto moderno que em certa medida foi capitaneado pela Grã-Bretanha e a Revolução Industrial: de que as sociedades ocidentais seriam um tipo especial de civilização, que rompeu com o passado através da promoção de valores universais e pela aplicação do método científico (LATOUR, 1994).

Algumas formas de captar essas imagens dos documentários produzidos pela NHU usam truques que brincam com a percepção e a cognição animal, no intuito de manter cinegrafistas e cientistas afastados dos assuntos retratados e não inibir a aproximação dos animais. Por vezes, ao mesmo tempo em que se usam as técnicas clássicas da fotografia — como teleobjetivas, câmera lenta e lentes especiais —, câmeras escondidas são inseridas em bonecos mecatrônicos animados e controlados a distância (BBC, 2017) [6]. Esses aparatos são modos de organizar a realidade de que se valem esses documentaristas, são truques usados para tentar uma aproximação da realidade da natureza ao mesmo tempo em que se mantém o distanciamento necessário para não se perturbar a natureza observada.

Esse é mais um exemplo que demonstra que não existe, na prática, uma oposição real entre verdade e ficção. É interessante, portanto, compará-lo com o anterior, das câmeras de segurança: tratam-se de dois modos diferentes de se construir a realidade através do vídeo. Discursivamente, a câmera de segurança constrói sua versão de verdade a partir dos efeitos visuais e dos defeitos inerentes à seu modo de produção, imbricados nas imagens produzidas. Já os documentários da BBC se valem justamente do oposto: a História Natural retratada pelo canal se faz a partir de imagens de altíssima resolução e capturadas por lentes poderosas, produzidas com o melhor que a tecnologia fotográfica possui no presente. Mesmo que câmeras de segurança e documentários naturalistas construam visões da realidade através de técnicas de mesma natureza, tratam-se de duas formas diferentes de se construir fidedignidade.

A rede necessária a se mobilizar e efetivamente produzir um documentário como esses da divisão de História Natural da BBC exige articular cientistas, fotógrafos, cinegrafistas, editores, comunidades, instituições, infraestruturas (logística, comunicação etc), e uma série de pessoas e seres não humanos (naturais e fabricados). Todos esses atores estão, conscientes ou não de seus papéis, empenhados em uma atividade que se constitui basicamente em tradução (LATOUR, 2005): eles traduzem a audiências do mundo todo — ou, pelo menos, do mundo alcançável pela influência do canal britânico — visões da natureza sob um dado ponto de vista. Essas visões nem sempre são povoadas por seres humanos, em geral posicionados atrás das câmeras manipulando equipamentos, e distanciados da natureza que retratam.

Como as câmeras de segurança e as imagens documentais em alta resolução, o deepfake pode também ser entendido como uma forma de criar imagens que podem ser tomadas por realidade. Mas as imagens produzidas através dessa técnica de síntese computacional são, por princípio, ilusórias; só é possível tomar as imagens de deepfake por realidade ao ser deliberadamente enganado por elas. Bastante difundida na criação de filtros para vídeos e fotos em redes sociais que alteram as características do rosto dos seus usuários, essa técnica usa aprendizagem de máquina para mapear um rosto e reproduzi-lo sobre outro, gerando resultados em vídeo. Algumas das primeiras e mais populares aplicações dessa técnica têm sido a criação de vídeos de caráter pornográfico, como aconteceu com a atriz norte-americana Kristen Bell; os vídeos falsos com seu rosto estão ainda hoje em circulação em sites pornográficos (REDAÇÃO, 2020).

Figura 4: Frames de um vídeo de sátira produzido por Bruno Sartori com deepfake, usando imagens de Bolsonaro e Lula sobre imagens da novela mexicana A Usurpadora.

A diferença do deepfake para outras técnicas de manipulação digital de vídeo é que ele permite simular expressões faciais de forma muito realista. Usando técnicas de deepfake e atores que interpretem razoavelmente bem os gestuais de uma pessoa, é possível criar imagens falsas, mas coerentes e convincentes de alguém. Mesmo que essa mentira possa ser desmentida mais tarde, a verdade por trás dela pode não ser suficiente para convencer aqueles por ela enganados — vide a contínua propagação de fake news já desmentidas (ESTADÃO VERIFICA, 2018).

Como as primeiras e mais comuns aplicações da técnica atestam, o deepfake tem sido extensivamente usado para a criação de pornografia, a ponto de fóruns de programadores precisarem se posicionar nominalmente como estudantes da técnica que não intentam produzir esse tipo de imagem, como atesta a página “Deepfakes that are Safe for Work” no Reddit (2021). Esse uso levanta questões de consenso, de ética, de arruinamento de reputações, mas também aquelas relativas à exploração sexual das mulheres e da construção contínua da imagem delas enquanto objetos sexuais. Ele também reitera um certo discurso sobre o sexo que é estruturado e propagandeado pela pornografia, atuando na própria construção do que é o sexo propriamente dito.

Entre essas imagens fictícias do sexo geradas por manipulação digital está um caso recente, que vitimou o então candidato ao governo do estado de São Paulo, João Dória. Em 2018, às vésperas da eleição, um suposto vídeo íntimo do candidato circulou pela internet e foi por ele imediatamente desmentido. O laudo da análise independente encomendada pela revista Veja não cita deepfake (QUINTELLA, 2018), mas esse caso provocou discussões na época sobre o potencial de destruição que essas novas possibilidades de manipulações em vídeo permitem.

Por outro lado, alguns estudantes da técnica passaram a utilizá-la no desenvolvimento de memes com crítica política: é o caso do jornalista Bruno Sartori, que disse em entrevista que seu trabalho humorístico pode ajudar a desmistificar a tecnologia e identificar seus usos (GLOBOPLAY, 2019). Geralmente o que leva alguém a perceber que um vídeo pode ter sido gerado com deepfake são os glitches e os “erros de percurso” da técnica (LATOUR, 2016) — como quando ela não compõe direito os rostos e a imagem se desloca um pouco, ou quando as expressões faciais acabam gerando imagens que são conflitantes para a nossa interpretação cognitiva e acabam caindo no chamado Vale da Estranheza (CABALLAR, 2021). É, então, nesses desvios que a realidade da mediação do deepfake aparece e se evidencia.

As técnicas de rede generativa e inteligência artificial que compõem a caixa de ferramentas do deepfake não são usadas só por curiosos para fazer vídeos bizarros e arruinar reputações, no entanto. Elas também são empregadas em filtros de redes sociais e engines de reconhecimento facial, a princípio para aplicações lúdicas e meramente de entretenimento. No entanto, as discussões éticas que esse uso suscita não são menos complexas do que no que diz respeito à produção de pornografia falsa: pode-se discutir aqui os possíveis danos à saúde mental dos usuários desses filtros — como os distúrbios de imagem corporal provocados pelo uso excessivo de redes sociais — e o uso dessas imagens por governos e sistemas de vigilância, fazendo uma ponte com o primeiro tema tratado neste subitem.

considerações finais

Existem inúmeras formas de se construir verdades e mentiras através do audiovisual. Se antes os limites técnicos impediam um realismo representacional nas narrativas de fantasia e forçava algumas delas aos domínios da animação em duas dimensões [7], hoje eles não são um entrave tão grande da criatividade no que diz respeito a obras de ficção. Quanto às possibilidades de captura do real, aparentemente se trata apenas de uma questão de quantidade de pixels: a mais alta resolução de imagem atingida até o momento foi em uma imagem produzida pela empresa chinesa Jingkun Technology, que possui 195 bilhões de pixels [8].

São infinitas as possibilidades de falar de verdade e mentira, de mentir com imagens legítimas, de montar a verdade com imagens em movimento. Com a profusão do vídeo na vida comum trazida pela internet, essa linguagem só se expande. Esse artigo tentou articular modestamente três dessas possibilidades, de modo a encontrar entre elas formas de discutir os temas na disciplina de Design e Epistemologia, seus pontos de contato e suas especificidades. A principal conclusão referente a esses estudos e leituras é a de que usar a linguagem é mentir (ou criar) usando uma convenção compartilhada (NIETZSCHE, 2009).

Os pensadores da área do audiovisual em geral parecem estar conscientes do caráter artificioso das técnicas do vídeo. Desde os seus princípios históricos em shows de ilusionismo, antes mesmo do estabelecimento de uma linguagem reconhecível, o cinema e o vídeo fazem parte desse universo das ilusões imagéticas: sua linguagem é toda no sentido de uma construção compositiva com imagens, seja essa uma construção interpretativa e subjetiva da verdade ou uma narrativa com tendência representativa realista da ficção.

A linguagem audiovisual, como toda linguagem que permite a construção de discursos e enunciados em invólucros coerentes, é flexível, adaptável e também generativa. A verdade e a mentira são construídas de forma semelhante pelos instrumentos compositivos do vídeo pela simples impossibilidade de se estabelecer uma linguagem própria da verdade em vídeo: a linguagem da verdade e da isenção pode sempre ser apropriada como recurso narrativo.

O que condiciona certas leituras enviesadas da realidade em vídeo é justamente os modos de representação empregados na sua produção, a linguagem propriamente dita que realiza essa mediação; mas sem linguagem, a mediação e o entendimento simplesmente não acontecem. O fato de os próprios pensadores do vídeo não conseguirem às vezes se desfazer desse paradoxo entre subjetividade e realidade demonstra que o cerne do problema não é a falta de acesso direto à realidade e à “coisa em si”, dado que esse acesso é sempre intermediado pelo castelo de cartas da linguagem. O filtro da verdade é a mente humana, e esse filtro não tem como ser driblado.


notas

[1] Walter Benjamin discute isso a partir do ponto de vista da escola de pensamento em que se inseria, a Teoria Crítica, comentando a possibilidade de reprodução técnica como um desenvolvimento moderno em seu ensaio mais famoso (BENJAMIN, 1987), publicado originalmente em 1936.

[2] “Reportagem” descreve um gênero jornalístico de caráter informativo, mas a palavra foi escolhida propositalmente aqui por sua ambiguidade e pela possibilidade de significar uma tentativa de estabelecer uma relação com a realidade.

[3] Originalmente publicado em uma revista argentina em 1946, “Del Rigor de La Ciencia” pode ser lido em quatro idiomas neste link.

[4]  Além da propaganda da Coca-Cola, um outro exemplo é o programa de TV americano de 2010 chamado Look: The Series, que simula em suas imagens os defeitos e efeitos da transcodificação de vídeo com objetivo de criar um efeito dramático narrativo (LOOK, 2010). Uma discussão sobre câmeras de segurança, bem como a sua articulação com o texto Vigiar e Punir (op. cit.) de Foucault a partir de exemplos como esses, foi desenvolvida em maior extensão e profundidade em um artigo ainda não publicado, escrito por mim e outros dois colegas da PUCPR.

[5]  Tradução livre do original: “reveal to audiences around the world the extraordinary wonders of nature through exceptional storytelling, jaw dropping imagery and cutting-edge science.”

[6]  Alguns desses robôs espiões têm como propósito atrair animais em períodos de acasalamento para registrar seus processos e ritos de reprodução — o que lembra um pouco o mito de Pasífae e o touro de Creta…

[7]  Diz-se ser o caso de The Lord of The Rings, a animação (1978).

[8] A imagem produzida retrata uma vista panorâmica interativa da cidade de Xangai.


referências

BBC. “Making a wildlife documentary using robot spies | Spy in the Wild – BBC”. YouTube.com. Acesso em 2 de julho de 2021.

BBC STUDIOS. “Natural History Unit”. BBC Studios Productions. Acesso em 2 de julho de 2021.

BENJAMIN, Walter. “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”. In: _________. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 1987.

CABALLAR, Rina Diane. “What Is the Uncanny Valley?IEEE Spectrum, 2 de novembro de 2019. Acesso em 2 de julho de 2021.

CARDOSO, Bruno. “Câmeras legislativas: videovigilância e leis no Rio de Janeiro”. Revista Brasileira de Ciências Sociais. V. 28. N. 81, 2013. P. 49-62. Acesso em 30 de junho de 2021.

EISENSTEIN, Sergei. O Sentido do Filme. São Paulo: Zahar, 1990.

ESTADÃO VERIFICA. “‘Mamadeiras eróticas’ não foram distribuídas em creches pelo PT”. Estadão Política, 28 de setembro de 2018. Acesso em 2 de julho de 2021.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Tradução do autor. São Paulo: Editora Hucitec, 1985.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.

________________. “Conferência 1”. A Verdade e As Formas Jurídicas. 3ª edição. Rio de Janeiro: NAU, 2002. P. 7-27.

________________. As palavras e as Coisas. Tradução de Salma Tannus Muchail. 9ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

GLOBOPLAY. “Bruno Sartori fala sobre a origem do deepfake e comenta algumas reações ao seu trabalho”. Conversa com Bial, 11 de dezembro de 2019. Acesso em 2 de julho de 2021.

GRUNDHAUSER, Eric. “Did a Silent Film About a Train Really Cause Audiences to Stampede?Atlas Obscura, 3 de novembro de 2016. Acesso em 30 de junho de 2021.

LOOK, The Series. Direção de Adam Rifkin. EUA: CapturedTV, 2010. Série de TV, 1 temporada.

THE LORD of The Rings. Direção de Ralph Bakshi. EUA: Fantasy Films, 1978. 2h12m.

LATOUR, Bruno. Jamais Fomos Modernos: ensaio de antropologia simétrica. Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1994.

_______________. Reassembling the Social: An Introduction to Actor-Network-Theory. Nova York: Oxford Press, 2005.

_______________. Cogitamus: seis cartas sobre as humanidades científicas. Tradução de Jamille Pinheiro Dias. São Paulo: Editora 34, 2016.

NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. São Paulo: Papirus, 2012.

NIETZSCHE, Friedrich. “Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral (1873)”. In: Antologia de Textos Filosóficos. Curitiba: Secretaria de Estado da Educação do Paraná, 2009. P. 530-541.

PUCCINI, Sérgio. Roteiro de documentário. São Paulo: Papirus, 2009.

REDAÇÃO. “Kristen Bell desabafa sobre uso de imagem em pornô deepfake: ‘Chocada’”. Isto É: Gente. Acesso em 2 de julho de 2021.

REDDIT. “Deepfakes that are Safe for Work”. Reddit. Acesso em 2 de julho de 2021.

QUINTELLA, Sérgio. “Perícia revela laudo sobre vídeo íntimo atribuído a João Doria”. Veja São Paulo: Poder SP. Acesso em 2 de julho de 2021.

E a série da Butler, hein?

Pois é, tirei do ar. Eram minhas notas pessoais, muito marcadas pelo meu próprio desconhecimento, de uma leitura que não consegui continuar — e a culpa disso não foi apenas o estilo pouco apreciado da escritora —, na qual não tive paciência de me aprofundar e que ficava por aqui ocupando espaço sob o rótulo de uma promessa. Esse ano de merda está chegando ao fim e tá na hora de resolver os assuntos inacabados.

Um número significativo de mulheres já me contatou para agradecer e dizer que meus textos serviram para que elas pudessem compreender melhor do que se trata o livro. Algumas chegaram na graduação ou na pós e se depararam com aquele texto hermético e ficaram injustamente se sentindo burras por não compreendê-lo; outras, atormentadas pelas questões recentes e prementes dos movimentos de mulheres, queriam compreender melhor porque havia tanto auê no entorno dessa escritora específica; outras, compreendendo a situação crítica na qual se encontra a noção das mulheres enquanto sujeitos de seu próprio movimento, buscavam se armar de argumentos para quando enfrentassem as infindáveis e desonestas discussões sobre “gênero”. Muita gente que, como eu, não têm origens tão nobres nem pais com formação superior e chega meio analfabeto de capital cultural na cidade grande quando vai pra universidade, acaba patinando muito na linguagem e nos jargões dos cursos superiores. É quase como adentrar uma sociedade secreta/discreta onde você precisa reproduzir e repetir os ensinamentos e rituais que são passados, às vezes sem muita reflexão crítica — que é justamente o oposto do objetivo de uma universidade! Minha realidade e experiência vivida não me permitiram ler Butler e tomar aquilo como uma teoria que reflete experiências de mulheres e contribui na sua emancipação, seja na minha primeira tentativa imatura de ler o livro, seja na leitura que gerou essa série e que já era mais informada.

Algo que passou a me incomodar a respeito da série ao longo dos anos (o primeiro post é de 2015) foi a forma como minha escrita dessa época envelheceu mal. Eu não tinha nem mesmo a disciplina que tenho hoje para escrever, e estava ainda seriamente prejudicada pelo péssimo hábito do Twitter. Além disso, tem a retórica tosca e a falta de embasamento em algumas afirmações que fiz que, ainda que eu tenha deixado claro o tamanho de minha ignorância, hoje são dúvidas sanadas ou ao menos assuntos melhor compreendidos. Para ficar satisfeita com esses textos, teria de reescrevê-los todos inteiramente, coletar mais referências e cruzar mais leituras, e acho que tem livros melhores para ler nesse mundo disputando minha atenção de peixinho dourado — alguns, inclusive, cujas séries estão paradas aqui também e são material de muito melhor qualidade que minhas interpretações do que Butler escreveu, ou mesmo muito melhores que o próprio Problemas de Gênero.

Não pretendo mais terminar o fichamento desse livro porque já queimei neurônios o suficiente com ele para precisar dar-lhe ainda mais atenção. Tem mulheres maravilhosas e muito mais instruídas que eu por aí falando dessa viragem queer no feminismo com referências muito melhores — aqui um exemplo, aqui outro, aqui outro, e aqui outro. Isso não significa que esses textos não vão mais estar disponíveis. Em algum dia que ainda não se sabe perdido no futuro, pretendo talvez quem sabe publicar essas minhas notas como e-book com alguma revisão. Isso vai depender da demanda, claro: me avise aí se você acha interessante que algo assim realmente veja a luz do dia, ou se não é melhor mesmo eu ir caçar outra coisa para fazer com meu tempo além de construir má fama perante meus pares nessa grande loja maçônica que é a academia.

Tecnologia e ideologia

O texto abaixo foi escrito originalmente como parte de um projeto de pesquisa para a seleção do doutorado em Ciência Política da UFPR em 2018. Bati na trave no processo seletivo, mais ainda gosto muito do que produzi e deixo aqui para apreciação de quem, como eu, se interessa por esses temas. Outro pedaço dele pode ser acessado aqui.


A tecnologia, como processo e produto das interações sociais em um dado tempo e lugar, manifesta-se material e imaterialmente através de seus processos, artefatos e redes de interações entre indivíduos e aparatos. Refletindo os valores de seus produtores e meios, ela pode ser compreendida de forma acrítica — como mero modo de produção de objetos, como suas manifestações materiais propriamente ditas, e como um conjunto de técnicas de que dispõe um povo em um dado contexto.

Entretanto, é preciso também compreendê-la de forma crítica, para além de suas ocorrências óbvias. Assim, a tecnologia também pode ser entendida como um constructo social complexo, que constitui e é constituída pela sociedade. Desse modo, é possível compreender a tecnologia como uma rede que envolve sistemas, artefatos e pessoas, e que tem imbricada em si mesma não apenas as ideologias de seus produtores e interatores, mas sendo ela própria uma ferramenta de construção ideológica (VIEIRA PINTO, 2005. p. 219-225).

Para compreender a tecnologia como ferramenta ideológica, é preciso compreender o significado desse adjetivo. Pode-se entender “ideologia” como um processo material geral de produção de ideias direcionadas à ação que refletem, promovem e legitimam certas “visões de mundo” relativas a conflitos de poder social. Esse processo envolve a promoção de crenças e ideias ilusórias que, ainda que não necessariamente sejam falsas, podem se valer de dissimulação e distorção de fatos reais para se mostrarem plausíveis (EAGLETON, 1999).

A ideologia, por si só, não serve tanto como mecanismo de controle social, mas como consolidadora de poderes através das disputas no campo do significado. O consentimento dos dominados se dá mais pelas suas condições materiais de existência do que por um convencimento genuíno deles de que as ideias a eles expostas são legítimas. Mas é através da disputa ideológica pelos significados que se encobrem os sistemas materiais de opressão: “Dominação deve incluir o controle sobre o significado se as relações de governo forem disseminadas enquanto interesses de todos. É o significado que pode estar comprometido com a dominação, não a verdade” (THOMPSON, 2001. p. 31. Tradução livre).

Os processos ideológicos de legitimação de poder envolvem também o descolamento das ideias e valores propagados por eles de seus contextos históricos, levando à naturalização dessas ideias e à identificação dos dominados com o poder dos dominantes, e convertendo, assim, o controverso em óbvio:

O estudo da ideologia é, entre outras coisas, um exame das formas pelas quais as pessoas podem chegar a investir em sua própria infelicidade. A condição de ser oprimido tem algumas pequenas compensações, e é por isso que às vezes estamos dispostos a tolerá-la. O opressor mais eficiente é aquele que persuade seus subalternos a amar, desejar e identificar-se com seu poder; e qualquer prática de emancipação política envolve portanto a mais difícil de todas as formas de liberação, libertar-nos de nós mesmos. (EAGLETON, 1999. p. 13)

Enquanto batalhas travadas no campo do significado, as disputas ideológicas operam diretamente na vida cotidiana, através de experiências e em cenários familiares ao público ao qual esses enunciados se destinam. Essas estratégias têm como intenção o direcionamento da ação coletiva e da opinião pública e, como finalidade, o estabelecimento da hegemonia em um dado contexto social. Observar essas disputas deve, portanto, partir de um ponto de reconhecimento da existência desses conflitos, o que implica que essa observância não se dá de forma neutra. Para uma análise desse tipo, portanto, é necessário estipular parâmetros relativos à forma como esses discursos são codificados e entender as formas, linguagens, e filtros pelos quais a informação passa, do processo de sua configuração até que seja decodificada dentro dos limites das definições dominantes na tentativa de cumprir os propósitos de seus enunciadores.

A questão da “estrutura dos discursos em dominância” é um ponto crucial. As diferentes áreas da vida social parecem ser dispostas dentro de domínios discursivos hierarquicamente organizados através de sentidos dominantes ou preferenciais. Acontecimentos novos, polêmicos ou problemáticos que rompem nossas expectativas ou vão contra os “construtos do senso comum”, o conhecimento “dado como certo” das estruturas sociais, devem ser atribuídos ou alocados aos seus respectivos domínios discursivos, antes que “façam sentido”. A maneira mais comum de “mapeá-los” é atribuir o novo a algum domínio dos “mapas existentes da realidade social problemática”. Dizemos dominante e não “determinado”, porque é sempre possível ordenar, classificar, atribuir e decodificar um acontecimento dentro de mais de um “mapeamento” (HALL, 2003. p. 374).

Ainda que a forma distribuída e descentralizada de criação e difusão de conteúdo própria da internet tenha colaborado para a criação de uma “mística” em que suas redes pudessem servir como uma possibilidade de emancipação social e política, tornando ultrapassadas algumas das análises a respeito da cultura e das mídias de massa, essa previsão não se concluiu. Ao contrário: as grandes plataformas de usuários, quando não disputam a hegemonia dos mass media em moldes semelhantes, têm sido usadas por eles como mais um canal de atuação.

Ainda que a difusão da infraestrutura de internet tenha permitido aos usuários da rede a criação de suas próprias plataformas, manter um sistema desses no ar exige um investimento mínimo e algum conhecimento técnico, o que acaba encorajando o uso das plataformas privadas. Assim, as mecânicas de criação de consenso, propagação ideológica e hegemonia, conforme descritas e teorizadas por estudiosos desses temas, ainda se mostram ferramentas de análise úteis no sentido de identificar a ação desses discursos.

Um conceito útil para esse tipo de análise é o de indústria cultural, cunhado por Adorno e Horkheimer (1985). Entendido como a expansão do capitalismo sobre a cultura, o conceito ressalta o papel das grandes corporações na industrialização de vários — senão todos — aspectos da vida cotidiana. Uma vez que transforma toda a dimensão da atividade humana, da arte até as relações, em produtos a serviço do sistema de produção que busca preservar e do qual depende para continuar existindo, a indústria cultural teria, portanto, um caráter mistificador da realidade e objetificador das relações humanas [1]. A legitimação dessa mercantilização da vida se dá por propagação ideológica através dos próprios produtos que tal indústria visa circular, implicando não somente na perda da “aura” de autenticidade dos produtos culturais (BENJAMIN, 2018), mas também comprometendo a própria autonomia das pessoas coisificadas nesses processos.

Em “Manufacturing Consent”, Herman e Chomsky (2008) apresentam um modelo de propagação ideológica pelas mídias de massa e imprensa. Os autores destacam que, em ambientes políticos onde não existe censura formal dos meios de comunicação, a atuação dessa propaganda é ainda mais velada e sutil que em contextos onde há clausura. Segundo o modelo, a aquiescência da população aos interesses de grupos dominantes e em choque direto com os seus próprios se dá pela manipulação da informação circulante a partir da passagem desta por cinco grandes filtros. O primeiro deles tem relação com o fenômeno da “industrialização da imprensa”, que aconteceu a partir do século XIX, ganhou força com a televisão e atingiu ponto crítico com o advento da internet e das companhias de TV a cabo no século XX. A manutenção de uma estrutura de mídia que atinja grandes audiências depende de grandes investimentos, o que acaba por comprometer a independência e a isenção dos veículos de mídia. O segundo filtro, diretamente relacionado com o primeiro, trata da necessidade de financiamento da mídia através da venda de tempo e espaço para anunciantes publicitários, que buscam grandes audiências com poder de compra e custeiam conteúdos conforme a possibilidade de retorno financeiro. O terceiro e quarto filtros dizem respeito às disputas pela narrativa das informações circulantes propriamente ditas, seja pela criação de fontes “oficiais” que “facilitam” o trabalho dos profissionais de mídia no momento da cobertura dos fatos (terceiro filtro), seja pela coação e punição desses profissionais e veículos por seus patrocinadores e opositores caso as histórias publicadas por eles porventura fujam da narrativa preferencial (quarto filtro). O quinto filtro caracteriza a demarcação de um “inimigo comum”, através do ocultamento de informações, demonização de discursos de oposição e criação de “espantalhos”.

O modelo proposto por Herman e Chomsky é interessante por levar em conta muitos dos fatores-chave necessários para entender os mecanismos sócio-políticos em que operam as ideologias e pode contribuir bastante para uma discussão que abarque o cenário em rede, mas é incompleto dada sua especificidade. Assim, essa compreensão teórica pode ser complementada com outras visões. Raymond Williams (1979), baseando-se no conceito de hegemonia de Antonio Gramsci, assinala três processos diferentes e complementares no campo das disputas ideológicas: a ideologia dominante, a ideologia residual e a ideologia emergente. O primeiro corresponde aos sistemas de crenças vigentes, responsáveis pela manutenção da ordem social tal como ela se encontra e é o tipo mais difícil de ser desafiado, dada sua pregnância na vida social. As ideologias residuais correspondem a crenças e práticas derivadas de estágios sociais anteriores, que fizeram parte de ideologias anteriormente dominantes e têm sua sobrevivência manifestada principalmente nas mitologias e tradições que ainda governam o presente. Já as ideologias emergentes dizem respeito aos valores e práticas que disputam a hegemonia com as ideologias dominantes na intenção de reorganizar a ordem social.

Baseando-se em algumas dessas teorias e autores, Nescolarde-Selva et al (2017) propõem um modelo matemático que sistematiza essas relações a partir de uma compreensão relacional dos componentes que constituem uma ideologia e suas variáveis, e concebe essas relações enquanto um sistema impuro [2]. Seu modelo toma como princípios constituintes de uma ideologia o seu sistema de valores e crenças, o comportamento e a linguagem usadas pelos seus partidários, as suas perspectivas e recomendações de conduta e o aparato organizacional de ativismo que uma ideologia faz uso para atingir seus objetivos. Considera, também, como variáveis ideológicas os graus em que as crenças substanciais que compõem as ideologias relacionam-se umas às outras, sua relevância empírica em face da realidade, a tolerância da ideologia a ideologias concorrentes e às inovações dentro de seu próprio corpo de crenças, o grau de comprometimento dos componentes do veículo social em que uma dada ideologia circula, e a percepção de seus adotantes de que aquele sistema de crenças representa uma “verdade eterna”. Esses parâmetros partem de uma compreensão dos mecanismos ideológicos que leva em conta as interações entre a ideologia dominante em um determinado contexto, os mitos que originam as ideologias em voga e as utopias que direcionam a ação dos adeptos.


Notas

[1] Referência ao conceito de “fetiche da mercadoria” utilizado por Marx em O Capital (2011).

[2] Sistemas impuros são aqueles cujos elementos são objetos e sujeitos, sendo os sujeitos os seres humanos imbricados no sistema, e os objetos as significações e interpretações originárias das crenças perceptuais dos sujeitos e suas relações. Se diferem dos sistemas puros/abstratos por não possuírem entidades e relações puramente matemáticas e abstratas.


Referências

ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Tradução de Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

BENJAMIN, Walter. A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica. São Paulo: LP&M, 2018.

EAGLETON. Terry. Ideologia, uma introdução. Segunda edição. São Paulo: Fundação Editora UNESP, 1999.

HALL, Stuart. Da Diáspora: Identidades e mediações culturais. Org. Liv Sovik. Tradução por Adelaide La Guardia Resende et al. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

HERMAN, Edward S.; CHOMSKY, Noam. Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media. Londres: The Bodley Head, 2008.

MARX, Karl. O Capital. Livro I. Tradução de Rubens Enderle. Segunda edição. Coleção Marx & Engels. São Paulo: Boitempo Editorial, 2011.

NESCOLARDE-SELVA, Josué Antonio; USÓ-DOMÉNECH, José-Luis; GASH, Hugh. “What Are Ideological Systems?”. Systems. V. 5. N. 1. 2017. Disponível aqui — Acesso em 19 de junho de 2018.

THOMPSON, Denise. Radical Feminism Today. Londres: SAGE Publications, 2001.

VIEIRA PINTO, Álvaro. O Conceito de Tecnologia. v. 1. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005.

WILLIAMS, Raymond. Marxismo e Literatura. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

Resenha: World War Z (2006)

Quando iniciou a pandemia, resolvi ler o World War Z do Max Brooks. Não é o tipo de literatura que costumo ler — não que eu tenha lido muita literatura nos últimos anos, e ainda houve um momento na última década que eu não conseguia ouvir a palavra “zumbi” sem revirar o zoinho —, mas justamente isso, somados a elogios de amigos e o fato de o autor ser filho daquele outro Brooks me motivaram. Aliás, o fato de estarmos em uma pandemia sem precedentes de proporções globais e esta entrevista do autor também influenciaram a decisão.

A ideia geral do livro é bastante interessante, resumida no subtítulo: consiste em uma história oral da guerra zumbi, uma coletânea de entrevistas com depoimentos dos mais variados agentes que tiveram algum papel na contenção daquela pandemia. É uma extensão de um livro anterior, uma aplicação prática do Zombie Survival Guide que o autor publicou em 2003. Apesar da proposta e do formato interessante, tive trabalho pra terminar a leitura, e a culpa nem foi dos zumbis.

Depois que o plot inicial (bom, por sinal) se exaure, tudo fica muito chato — a pandemia começa na China, que treta com Taiwan e a porra toda explode em países subdesenvolvidos através de tráfico de órgãos; qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Toda a narrativa parece existir em função de exibir os conhecimentos bélicos e geopolíticos do autor — veículos de terra e ar, rifles, bases, armas e equipamentos em geral, a posição estratégica de sei o que lá etc. A premissa dos conflitos políticos e até a crítica social foda acaba se perdendo no meio dessa nerdarage tediosa.

O problema principal, imho: não existe voz, todos os personagens soam iguais. Complicado de resolver, dado que o livro consiste dessas centenas de depoimentos e é realmente difícil individualizar personagens desse jeito [*]. Depois do primeiro parágrafo de cada depoimento, que existe ali mais pra contextualizá-lo, tudo parece muito mais do mesmo, independente de o fato narrado ter se passado na China ou em uma base militar na Sibéria. O uso de termos específicos de algum idioma não salva o texto dessa voz mono, o que me fez adotar a estratégia da “leitura dinâmica” (hehe!) para me forçar a terminar o negócio; chegar ao fim foi questão de honra mesmo.

Brooks é mais um daqueles autores que conseguem criar um mundo bem interessante, mas na hora de povoá-lo com personagens a coisa não anda. Talvez a versão cinematográfica (2013) seja melhorzinha nesse sentido de construção de personagens: Hollywood tem ferramentas razoavelmente competentes para esse tipo de adaptação, vamos ver se tenho saco pra ver no que deu.


[*] Um livro do escritor chileno Roberto Bolaño conseguiu essa proeza, de certa forma, em um formato semelhante e sem deixar o texto maçante: a sátira La Literatura Nazi en America usa o formato de “enciclopédia” para contar a vida de uma série de personagens.

Dados, algoritmos, termos de uso e jardins murados

O texto abaixo foi escrito originalmente como parte de um projeto de pesquisa para a seleção do doutorado em Ciência Política da UFPR em 2018. Bati na trave no processo seletivo, mais ainda gosto muito do que produzi e deixo aqui para apreciação de quem, como eu, se interessa por esses temas. Em breve publico mais um pedaço dele.


Os últimos dez anos foram decisivos para a consolidação da internet como recurso de uso cotidiano. Pesquisas recentes mostram que, ainda que o crescimento da venda de computadores tenha desacelerado, os brasileiros têm estado cada vez mais conectados, principalmente por meio de dispositivos móveis. No início de 2017 havia mais de um celular por habitante no país, e mesmo no ano anterior mais de 90% dos domicílios brasileiros contava com pelo menos um smartphone.

Conforme essa integração da internet móvel se expandiu e se normalizou, ela trouxe consigo mudanças de hábito na vida de seus usuários: eles mesmos constroem ideias e imagens de si e do seu entorno para si e para os outros — em plataformas online de discussão — e todas essas construções, espontâneas ou provocadas, geram dados. Uma vez que as dimensões do “real” e do “virtual” não são facilmente dissociáveis (LÉVY, 1997), as atividades dos usuários acontecidas nessas plataformas e os dados que produzem geram traços e podem dizer muito sobre a realidade social em que cada usuário se insere.

Se o usuário não é uma peça passiva nas relações sociotécnicas em rede, tampouco são as plataformas por onde ele navega. Projetadas por humanos, o funcionamento desses sistemas estão de acordo com políticas de uso que muitas vezes não são claras em suas intenções e consequências. Os algoritmos que governam suas ações são formas abstratizadas de se resolver problemas complexos ou criar ordem em um conjunto de dados, dividindo sua atividade em uma série de passos ou etapas lógicas. Os dados gerados pelos usuários alimentam modelos matemáticos dos comportamentos e atitudes individuais com aplicações amplas o suficiente para preocupar governos e organizações [1].

De usos mais “inofensivos”, como no caso da arte generativa e de projetos que analisam dados abertos governamentais, como a Operação Serenata de Amor, essas técnicas de coleta e análise de dados também podem alimentar bases de ferramentas para reconhecimento facial que podem ter propósitos militares e comprometer liberdades civis, ou ainda gerar algoritmos que herdam os vieses e preconceitos de seus criadores e emitem julgamentos tão falhos quanto os de seus espelhos humanos.

Outra dimensão da complexidade desses sistemas sociotécnicos são as suas repercussões legais. No final de 2017, foi aprovada no congresso americano uma lei que modificava as antigas regras de tráfego de dados e dava às operadoras a possibilidade de cobrar dos usuários de forma diferente conforme a origem e a quantidade de dados que utilizassem em seus planos de assinatura. Caso ainda estivesse em vigor, essa lei poderia permitir a restrição de certos tipos de conteúdos mediante pagamento e a possibilidade de que grandes conglomerados midiáticos pudessem pagar mais para que seus conteúdos tivessem preferência na rede [2]. Dadas todas as suas implicações, ela foi revogada em maio de 2018, mas as discussões a respeito continuam, pois não existe ainda uma legislação satisfatória. No Brasil, é a lei n. 12.965 do Marco Civil da Internet, que regula esse tráfego de dados — e também outros temas, como a liberdade de expressão e a retirada de conteúdo difamatório do ar — e substitui a lei antiga, inespecífica.

A preocupação com a criação de “jardins murados” [3] na internet a partir do controle da circulação de dados não se restringe às operadoras de serviços de conexão, no entanto. Não muito diferente são as abordagens de algumas grandes empresas como Facebook e Google a situações de diferentes naturezas, mas com implicações semelhantes. No caso do Facebook, sua estratégia para penetração em “mercados periféricos” foi a de permitir o acesso gratuito a sua plataforma sem cobrança pelo plano de dados dos usuários. O Google, por sua vez, faz uso da tecnologia AMP na tentativa de tornar o carregamento das páginas mais rápido em ambiente móvel e, com isso, acaba ele mesmo decidindo o que será ou não exibido online. A empresa acabou abrindo o código do projeto e passou a discretamente se desassociar dele em seu site, mas é seu principal incentivador. Em ambos os casos, essas empresas acabam atuando como “a internet propriamente dita” para alguns usuários, criando um ambiente controlado restritivo, uma vez que é a partir de seus filtros que o acesso à rede acontece.

Quando a internet comercial começou a atingir grandes populações através de aumento do acesso, flexibilidade e barateamento da conexão e dos aparatos que a tornam possível (computadores, telefones móveis), fenômenos de movimentação política como a chamada “Primavera Árabe” [4] e projetos como WikiLeaks [5] começaram a despontar. Alguns estudiosos da Comunicação interpretaram essas manifestações como representantes legítimos de um poder popular de resistência a governos opressores e a favor da livre circulação de ideias (LEVY, 1997; MALINI e ANTOUN, 2013). Eles não puderam, no entanto, prever alguns dos desdobramentos das forças em “contra-revolução”. Os sistemas sociotécnicos onde essas tecnologias de informação e comunicação existem e atuam possuem como vantagem justamente o fato de serem sistemas fechados — “caixas-pretas” (FLUSSER, 1985) —, inacessíveis a usuários em geral, e a leigos em particular.

Se antes se achava que a distribuição de conhecimento e as trocas culturais seriam dinamizadas, aceleradas e democratizadas através das redes pelo efeito da “cauda longa” [6], casos como o da Cambridge Analytica [7] e outros onde houve o uso dos dados dos usuários para criar consenso, manipular a opinião pública e mobilizar massas mostram desafios ainda mais complexos. O poder dos conglomerados de mídia pode ter se tornado objeto de disputa, mas ele não se perdeu totalmente: antes, tem sido repartido entre novas e antigas organizações, que têm como fator de sucesso principal a ignorância dos usuários diante das plataformas.

A forma como os dados circulam na rede nessas plataformas depende de alguns fatores. Um deles são os Termos de Uso (ou Termos de Serviço), documentos com especificações legais que regulam o uso das plataformas e que, em caso de aceite, determinam que os usuários voluntariamente cedam algumas de suas informações à plataforma. Muitas vezes, isso é feito sem que haja uma leitura cuidadosa desses documentos, seja por causa de sua extensão textual ou do uso que fazem de linguagem jurídica obscura. Aliadas às APIs (Application Programming Interfaces) de desenvolvimento — ferramentas que permitem a criação de aplicações externas que funcionam a partir das possibilidades dessas plataformas, e alimentadas por elas —, o ambiente para que usuários sejam objetos das transações no comércio de dados está montado. Uma API como a do Facebook, por exemplo, permite integrações com hardware e software que possibilitam a coleta em massa de dados e seu uso em propósitos genéricos, que vão desde a observação de comportamento de consumidor até a difusão de conteúdo de origem duvidosa [8].

Alguns projetos, porém, visam usar os dados disponíveis nessas plataformas para conduzir pesquisas na área da ciência de dados. É o caso do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados, do Monitor do Debate Político no Meio Digital e do LABIC da Universidade Federal do Espírito Santo. As análises conduzidas por esses grupos e organizações têm como objetivo a criação de cartografias e grafos das discussões online e de seus principais temas. Eles fazem uso de técnicas como processamento de linguagem natural (PLN) — apropriado para encontrar polaridades nos enunciados discursivos dos usuários —, e a relação dessas informações com sua fonte geográfica/geolocalizada, quando disponível — útil como camada complexa de informação que pode permitir a criação de mapas e o encontro de sutilezas que a PLN sozinha não é capaz de proporcionar.


Notas

[1] Uma dessas aplicações é a possibilidade de criar robôs que imitam o comportamento dos usuários. Sistemas de aprendizagem de máquina, dentro de certos contextos, podem se fazer passar por usuários legítimos em experimentos como o Teste de Turing (SAYGIN et al., 2000).
[2] Táticas de priorização de dados na tentativa de otimizar o uso da banda são relativamente comuns. Conhecidas como traffic shaping, essas práticas são condenadas por alguns órgãos de defesa do consumidor, uma vez que restringem o uso da rede de forma irregular.
[3] “Walled gardens” é uma expressão que tem sido usada no jornalismo de tecnologia para sinalizar sistemas fechados de software que têm alto controle sobre as possibilidades de ação do usuário na plataforma, e também a respeito do que fazer com os dados gerados pelos usuários nesses ambientes.
[4] “Primavera Árabe” é uma expressão usada para designar os movimentos civis acontecidos a partir do final de 2010 em países do Oriente Médio e norte da África que tiveram como ponto de partida a Tunísia e se espalharam pela região. Organizados e mobilizados através da internet, esses movimentos foram combatidos violentamente pelos governos estabelecidos. Alguns deles resultaram em conflitos armados, governos substituídos ou instabilidade política (HUSSAIN; HOWARD, 2013).
[5] A WikiLeaks é uma organização especializada em análise e publicação na internet de dados governamentais restritos relacionados a corrupção, guerra e espionagem. Fundada em 2006 por Julian Assange, a organização esteve envolvida em vários casos de vazamentos de dados que ocasionaram conflitos diplomáticos. Um desses conflitos, envolvendo dados sobre a Guerra do Afeganistão, culminou em um mandado de extradição de seu fundador para a Suécia, através de uma acusação de assédio sexual e estupro. Crimes graves, mas que em geral não mobilizam forças internacionais caso não haja outros interesses vinculados na acusação.
[6] “Cauda Longa” designa distribuições estatísticas decrescentes cujas representações gráficas seguem o padrão da curva de Pareto. O termo foi usado por Chris Anderson na primeira metade da década de 2000 para descrever as mecânicas de distribuição cultural em rede que poderiam concorrer diretamente com as grandes mídias (ANDERSON, 2006). No entanto, ainda que a princípio esses conglomerados da indústria cultural tenham sofrido certa desestabilização, sua adaptação ao novo contexto tem sido bastante bem sucedida (SLEE, 2017).
[7] Cambridge Analytica foi uma empresa especializada em marketing digital com fins eleitorais e comerciais que fazia uso de dados disponíveis em grandes plataformas sociais online. Em maio de 2018, a empresa foi alvo de uma investigação envolvendo a disseminação de notícias falsas no Facebook e o uso de dados de dez milhões de seus usuários de forma irregular, no intuito de influenciar as opiniões e os resultados de disputas políticas nos Estados Unidos, Reino Unido e mais uma série de outros países. O escândalo veio a público após Christopher Wylie, ex-funcionário da empresa, vazar informações sobre as operações de seus empregadores.
[8] A despeito das tentativas frustradas de combater a difusão de boatos na plataforma Facebook, seu criador segue tentando: em março de 2018, Mark Zuckerberg anunciou uma série de medidas e parcerias com agências de fact checking para melhorar a qualidade do conteúdo que circula na rede social.


Referências

ANDERSON, Chris. A Cauda Longa: a nova dinâmica de marketing e vendas. 1ª edição. São Paulo: Elsevier, 2006.

FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. São Paulo: Editora Hucitec, 1985.

HUSSAIN, Muzammil M.; HOWARD, Philip N. “What Best Explains Successful Protest Cascades? ICTs and the Fuzzy Causes of the Arab Spring”. In: International Studies Review. V. 15, N. 1. 1 March 2013. P. 48–66. Disponível neste link — Acesso em 6 de junho de 2018.

LÉVY, Pierre. Cibercultura. Tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1997.

MALINI, Fábio; ANTOUN, Henrique. A Internet e a Rua: ciberativismo e mobilização nas redes sociais. Porto Alegre: Sulina, 2013.

SAYGIN, Ayse P.; CICEKLI, Ilyas; AKMAN, Varol. “Turing Test: 50 years later”. In: Minds and Machines. V. 10. N. 4. Novembro de 2000. p. 463-518. Disponível neste link — Acesso em 18 de junho de 2018.

SLEE, Tom. Uberização: a nova onda do trabalho precarizado. São Paulo: Editora Elefante, 2017.

Compreendendo o Feminismo: THOMPSON, 2001

A autora Denise Thompson

O texto abaixo é um fichamento para uso pessoal que fiz de duas pequenas seções do livro Radical Feminism Today, de Denise Thompson. É um livro curto, claro e bem escrito, direto ao ponto e, provavelmente, um dos meus livros feministas favoritos. Me foi apresentado anos atrás em um grupo de estudos independente do qual participei e que infelizmente teve vida curta. As seções fichadas abaixo são os capítulos 1 e 4. As citações estão no original em inglês, mas é possível encontrar uma tradução do capítulo 1 aqui, e do capítulo 4 aqui. Boa leitura!


Referência bibliográfica

THOMPSON, Denise. Radical Feminism Today. Londres: SAGE, 2001.


Introdução (P. 1-4)

A rotulagem de abordagens e a separação do feminismo em “vertentes” abre espaço no movimento para que linhas de pensamento — que não identificam a dominação masculina e nem a combatem — possam se autoidentificar como feministas. Essa tendência a uma recusa de se identificar a dominação masculina é observada principalmente na academia, um espaço tradicionalmente masculino de pensamento que não abre espaço para posições mais críticas, principalmente quando essas críticas abordam a dominação masculina dentro do campo propriamente dito. Os trabalhos feministas que mais diretamente identificam a dominação acabam sendo classificados de forma pejorativa dentro do pensamento acadêmico.

O trabalho da Denise Thompson não tem a intenção de separar quem é feminista e quem não é. Mas definir o que é feminismo é importante principalmente porque não dá para o feminismo continuar se desenvolvendo enquanto movimento se ele continuar a ser definido implicitamente como qualquer coisa que diga qualquer pessoa autoidentificada como feminista.

A autora vai apontar que a teoria feminista emerge da prática política das mulheres. Ela especifica aqui o feminismo radical, mas no pensamento dela “feminismo radical” é feminismo propriamente dito. Por causa disso, a teoria em si não é explícita, e também por causa disso ela não é bem-vinda na academia — e nem tem a pretensão de ser bem recebida por lá. O objetivo da teoria feminista é expor as práticas da dominação masculina, e não criar teoria em função de teoria.

“[…] feminism as a moral and political struggle of opposition to the social relations of male domination structured around the principle that only men count as ‘human’, and as a struggle for a genuine human status for women outside male definition and control.” (P. 4)

Definindo o feminismo (P. 5-21)

Existe muita hesitação na teoria feminista em se definir o feminismo, de modo que muita coisa contraditória e até mesmo anti-feminista acaba ficando mascarada como parte do movimento. A autora argumenta que definir os termos auxilia no desenvolvimento do debate, porque permite ao leitor também fazer parte dele e construir significado. Definir, segundo ela, não limita algo de forma definitiva, mas permite que as autoras assumam a responsabilidade pelo que estão dizendo.

Existe uma ênfase na teoria feminista de se definir a posição das mulheres como “socialmente construída”, na busca por combater as explicações que naturalizam a opressão. Thompson argumenta que este é um uso limitado dessa ideia — que nem é exatamente nova e vem da sociologia — se ela não estiver associada a uma análise que aponte de que tipo de sociedade nós estamos falando. Ela também argumenta que o feminismo está no campo da moral e da ética porque visa a mudança social. Além disso, a política feminista é diferente do uso tradicional da palavra “política” (genérica), porque aponta as interseções entre o público e o privado e as formas como a opressão e a exploração das mulheres acabam não reconhecidas por estarem no domínio privado, e questiona essa dicotomia.

“Women cannot be ‘equal’ with men as long as there is no equality among men. In feminist terms, what women want is a human status where rights, benefits and dignities are gained at no one’s expense, and where duties and obligations do not fall disproportionately on the shoulders of women. Such a project promises to transform politics altogether.” (P. 8)

O desafio do feminismo é a dominação masculina: identificar como ela funciona e combatê-la. A dominação masculina, por sua vez, é um processo social que não torna os homens beneficiários dela totalmente poderosos em relação as mulheres, bem como não torna as mulheres seres totalmente incapazes sob seu domínio. Mas, como se trata de uma estrutura social, ela está incrustada na realidade cotidiana e na mente das pessoas, tanto dos dominadores quanto das dominadas. Além disso, a dominação masculina não é um sistema monolítico e hegemônico, mas se adapta conforme o contexto e as ações dos indivíduos em sociedade.

A autora discute algumas formas de teorizar o “poder”, que o enxergam como “restrições” e “habilitações” socialmente negociadas no sentido de cumprir objetivos coletivos (poder-enquanto-capacidade). Mas ela questiona isso como uma visão que indica um ethos masculino, que assume maior liberdade de ação social, porque não enxerga o poder como uma ferramenta de dominação quando mal distribuído (poder-enquanto-dominação). Uma perspectiva feminista deve levar em conta as formas sutis e não deliberadas de exercício desse poder, e a manutenção da ignorância das dominadas no sentido de não se verem como subordinadas e contribuírem para sua própria dominação.

“Because women are not human within the terms and under the conditions of male supremacy, they are not allowed access to the rights and dignities of being human. Because women are not recognized as human, they can be treated with contempt. What happens to them does not matter, their needs do not have to be considered, their interest can be trivialized and denied. Because women are not human they become nothing but objects for men’s use. This creates a contradiction at the heart of the world order that is male supremacy. The chief contradiction structuring and rupturing male supremacist conditions is the existence of women which continually gives the lie to the male as the standard of ‘human’ existence, a lie which is managed by acknowledging women only to the extent that they serve men’s interests.” (P. 12)

A autora também argumenta que a desumanização das mulheres também desumaniza os homens, porque a tirania da dominação corrompe o caráter humano dos homens. Ela continua dizendo que o aspecto que mais recebeu atenção dentro do feminismo é o seu foco na mulher e na busca por sua humanização; isso leva a discussões infinitas e inúteis sobre o que está envolvido na categoria “mulher”, o que também leva à divisão das mulheres em múltiplas e incompatíveis categorias sociais. Ainda que o centro e o ponto de partida do feminismo sejam as mulheres, é a sua oposição à dominação masculina que o caracteriza como relevante às mulheres.

Thompson fala um pouco sobre o lesbianismo no feminismo como uma forma das mulheres se reconhecerem entre si como humanas sem o homem como referente ou ponto de partida. Ela também fala sobre como o lesbianismo como prática sexual foi sequestrado pelos liberais, que colocaram o sexo em termos de “corpos e prazeres”, longe da crítica política, definindo o lesbianismo meramente como uma preferência sexual de uma minoria de mulheres individuais. O lesbianismo, no entanto, questiona a natureza do desejo heterossexual, que coloca a excitação e a realidade na subordinação das mulheres pelos homens.

A partir da discussão do lesbianismo ela entra na discussão do separatismo, como sendo uma forma de política que envolve a recusa de participar das relações de dominação dentro da supremacia masculina. Trata-se de uma necessidade estratégica para se organizar de forma independente dos propósitos dos homens, e não um fim em si mesmo; a dominação masculina é uma forma de organização social que envolve homens e mulheres, e se isolar do convívio com homens é bem pouco realista.

“Women’s exclusion from positions of power and influence has a purpose — to keep the majority of women tied to men, promoting male interests, nourishing and fostering male subjectivities, doing the work and providing the ground from which men can launch themselves into those projects so highly valuable within male supremacist conditions.” (P. 15)

O campo de ação do feminismo é o significado. Uma vez que o significado está em toda parte, também está a luta feminista. Assim, o feminismo pode acontecer onde quer que as mulheres estejam, e avançar onde quer que as mulheres avancem. A autora defende que a definição de feminismo apresentada por ela é a definição de feminismo, sendo ampla o suficiente para incluir várias formas de políticas feministas, e também suficientemente específica para identificar e excluir argumentos anti-feministas. Ela também diz que se referir a feminismo no plural é uma evasiva frente às contradições das asserções que competem entre si, muitas vezes anti-feministas, feitas em nome do feminismo.

Thompson vai argumentar que o feminismo acontece a partir de um ponto de vista feminista, que precisa ser especificamente feminista para não incluir as formas como as mulheres abraçam sua própria opressão, e excluir as formas mais essencialistas/particularistas de se enxergar as ações das mulheres (empatia, cuidado, vivência etc). O ponto de vista feminista identifica, questiona e se opõe a dominação masculina; essa consciência parte do reconhecimento da posição social das mulheres enquanto estruturada pela dominação masculina.

“Feminism is a thouroughgoing critique of male domination wherever it is found and however it is manifested. It is a working towards ending male impositions of whatever form, in the creating of a community of women relating to women and creating our own human status that is unencumbered by meanings and values which include women in the human race on men’s terms or not at all. That can only be done from a standpoint which recognizes the existence of the social order of male supremacy which allows a ‘human’ status only to men, a standpoint which involves a struggle to reinterpret and rearrange the world so that women can be recognized as human too.” (P. 21)

Feminismo indefinido (P. 53-58)

Nessa parte, autora vai buscar definições de feminismo, começando por dicionários feministas. Como a maior parte desses dicionários não especifica o termo ou o define de forma muito vaga em função de uma certa diversidade de abordagens, Thompson vai partir do próprio entendimento das autoras de suas intenções e objetivos com essas obras. Ela chega à conclusão que, apesar de as autoras terem clara para si a ideia de feminismo enquanto oposição das mulheres à dominação masculina, isso aparece apenas nos textos introdutórios ou de apresentação, e não no texto propriamente dito.

A maior parte das definições que ela encontra define o feminismo como uma preocupação das mulheres no exercício de sua cidadania ou baseada na sua experiência. A definição de Karen Offen aborda a dominação masculina como ponto crucial da política feminista, mas se preocupa com o feminismo como força antagônica, propondo um “feminismo relacional” que reconheça as contribuições próprias das mulheres, que somente elas podem prover (gestar, nutrir etc). Thompson aponta que a autora falha em reconhecer de onde vem o antagonismo direcionado ao feminismo: o problema do feminismo não é que as mulheres exerçam determinadas atividades (caso exerçam), mas sim o papel de subserviência que as mulheres exercem aos homens pela realização dessas atividades, nutrindo-os sem esperar reciprocidade.

Thompson questiona também os trabalhos que pensam a dominação masculina como uma forma de dominação não universal/generalizável na vida social humana, denominada por vezes de forma eufemística como “sistema sexo/gênero”. Aqui ela aponta também o trabalho de Judith Butler e sua acusação de que as teorias feministas que apontam muito claramente a opressão das mulheres são generalizantes ou visões coloniais sobre culturas não-ocidentais. Enquanto a maioria dos trabalhos evita o assunto da dominação masculina como sendo o principal antagonismo do feminismo, Butler vai além, se opondo inclusive à ideia de que existe uma dominação dos homens sobre as mulheres. Thompson critica o argumento de Butler, dizendo que ela não apresenta nenhuma evidência de sua acusação de “falso universalismo”, e que apenas adjetiva de forma pejorativa certas formas teóricas (que ela não identifica) como “noções altamente ocidentais”. Butler, por vezes, reconhece que a dominação masculina também existe no “Ocidente”, mas aparentemente ela não vem de lugar algum.

Identificar a causa da subordinação das mulheres na dominação dos homens não significa universalizar uma noção ocidental. Mesmo no ocidente, a dominação masculina assume as mais variadas formas, mas sempre acontece às custas das mulheres. A autora explica que essa relutância em nomear e identificar a dominação dos homens acontece porque essas autoras querem evitar caracterizar as mulheres enquanto “vítimas”. Identificar as mulheres como vítimas dos homens poderia, na visão dessas autoras, fazer as mulheres se sentirem aprisionadas e passivas diante da violência. Algumas obras do “feminismo acadêmico” afirmam que caracterizar as mulheres como vítimas inocentes e destituídas de poder seria uma forma de “generalizar a experiência das mulheres brancas”, mais uma vez sem apresentar nenhum trabalho feminista que utilize um argumento desse tipo desse modo como exemplo.

O problema com essa recusa de se apontar o antagonismo do feminismo é que ela (a recusa) interpreta a dominação masculina como inevitável e monolítica. Se a busca do feminismo é por acabar com essa dominação e por formas diferentes de ser humanas, fica claro que ele não define as mulheres somente enquanto vítimas. Esses argumentos também falham em ver que o apontamento da opressão ajuda as mulheres a se livrarem desse papel perpétuo de vítimas, identificando a opressão enquanto tal e não como algo pessoal ou próprio das condições daquela mulher específica.

A dor não vai ser diminuída utilizando eufemismos ou mostrando mulheres como poderosas quando elas não o são. Nomear a dominação dos homens é reconhecer os pontos de resistência e colaboração que as mulheres têm com essa dominação. Nomear a dominação dos homens também ajuda a quantificar o tamanho do dano causado às mulheres.

Operação Fura-Catraca: alguns números do transporte coletivo de Curitiba

Na tentativa de preencher o tempo vago que me sobra enquanto desempregada e estudar temas que podem me ser úteis no futuro, resolvi dar uma olhada nos dados de transporte urbano da URBS pra ver se dava pra dar uma penteada neles no intuito de encontrar informações interessantes. O problema é que a instituição praticamente não disponibiliza nenhum dado: tudo o que há lá são estatísticas genéricas, como quilometragem rodada e quantidade média de passageiros diária. Respirei fundo e fui fazer outra coisa.

Entre as outras coisas que eu tenho para preencher o tempo estava um curso de capacitação em uma universidade no centro. Saindo do biarticulado na Estação Central, recebo o flyer da fotografia abaixo.

Resumindo para deixar anotado aqui: segundo o folheto, aproximadamente 4 mil pessoas furam catraca todos os dias no transporte urbano de Curitiba. Parece muito jogado assim, mas a título de comparação, entre 2015 e 2018 a Rede Integrada de Transporte carregou em média entre 1,6 e 1,3 milhão de passageiros por dia. Estes são apenas os números de Curitiba, porque desde 2015 não existe integração com o transporte urbano da região metropolitana — o que significa também uma falta de integração no que se refere aos dados que essas empresas recolhem e divulgam. Aliás, não se diz em lugar algum — seja no folheto, nas mídias oficiais, ou nas reportagens dos últimos tempos sobre a operação — como esse dado é calculado, mas acredito que seja um saldo dos dados coletados pelas próprias catracas que controlam entrada e saída de pessoas nos ônibus e nos terminais.

O folheto continua dizendo que a cidade perde [note o uso do termo] R$ 6 milhões por ano “com esse tipo de atitude”, o que, segundo eles, “é o valor de 5 biarticulados novinhos”. Esse valor é uma média do valor bruto que a URBS deixa de arrecadar com essas por volta de 4 mil pessoas que não pagam os R$ 4,50 da passagem todos os dias.

No meu entender [1], visto que não há depredação do patrimônio especificamente no que diz respeito ao ato de pular catraca, não é exatamente um prejuízo direto. Mas também não estou querendo dizer que a empresa de transporte não tenha motivos para deflagrar as operações que julgue necessárias para coibir atitudes que prejudiquem o pleno funcionamento do sistema; a segurança em algumas linhas de ônibus daqui é um problema real. Essa operação em específico é que provavelmente é um erro. O que estou realmente querendo dizer é que furar catraca não é o X dessa questão.

Se você fizer uma conta simples como uma regra de três vai descobrir que o número de passageiros que pula catraca corresponde a 0,3% dos usuários de transporte urbano de Curitiba. Sinceramente, não sei dizer se este é um número razoável ou alto; a princípio me parece pouco para justificar uma operação tão propagandeada na mídia (em várias mídias), e mais adiante explico porquê, o tal X da questão. Não encontrei números de outras cidades para poder realizar uma comparação. No Google, só achei notícias sobre esta mesma operação em Curitiba e sobre tentativas semelhantes de aplicar políticas de vigilância/segurança em Belo Horizonte, mas sem estimativas ou dados do tipo.

Agora, por que este me parece um número quase ridículo para justificar uma operação desse porte? Saca só o gráfico abaixo:

Os números são exibidos somente com rollover, e por isso não aparecem no print.

Vamos considerar apenas os dados a partir de 2015, por motivos óbvios. Naquele ano, 1.619.647 passageiros passaram pelos ônibus curitibanos. No fim do período grafado, em 2018, foram 1.365.615 passageiros. Isso quer dizer que 254.032 pessoas simplesmente pararam de utilizar o transporte urbano todos os dias em Curitiba, uma variação percentual de -15,68%. Isso equivale a R$ 1,14 mi a menos nos cofres da URBS todos os dias desde 2015 — cinco biarticulados novos por semana! O preço da tarifa sofreu um aumento de 22,35%, indo de R$ 3,30 a R$ 4,25. Todos os números sobre uso divulgados pela URBS apontam queda, com exceção do número de usuários do cartão transporte, que se manteve estável e foi ligeiramente puxado pra cima pela abolição dos cobradores nos ônibus troncais amarelos. O curitibano está pagando mais para viajar menos, em menos ônibus, por um trajeto menor.

Do ano de 2017 pra 2018, essa queda no número de usuários representou uma variação negativa de 2%, menos que o número alegado de usuários não pagantes. Mas entre 2016 e 2017, a queda no número de passageiros foi de quase 8%, e de quase 7% no período anterior a este. Isso significa que, depois de um período de quedas significativas em sequência, o número de usuários acabou se estabilizando, ainda que em tendência de queda — não é todo mundo que pode aderir ao Uber [2], ainda que muitas de suas viagens custem tanto quanto ou menos que uma passagem de ônibus.

A forma de funcionamento da Operação Fura-Catraca — equipes de homens armados e motorizados vigiando estações-tubo, “devidamente identificados, para orientar sobre o modo correto de utilizar o sistema de transporte” — me parece, como usuária de ônibus da capital paranaense há mais de uma década, no mínimo ineficiente. Ações para a melhora do sistema, que de fato estimularia mais gente a fazer uso dele, nunca se estendem para além da substituição obrigatória dos veículos antigos. Em compensação, grades horrorosas para atrapalhar o embarque pelas portas 2 e 4 dos biarticulados — e atrapalhar o desembarque —, vez em quando aparecem por aí, principalmente naquelas estações próximas a escolas.

Segundo o material de divulgação da URBS, a operação não faz uso de recursos públicos para funcionar e é, antes, uma ação em consórcio entre as várias empresas que atuam no transporte. Isso pode parecer um alívio, mas o que pega nisso tudo, o que me deixou incrivelmente incomodada, o que realmente me colocou em movimento para chegar a esses dados (além da experiência como infografista) é a forma como essa campanha foi codificada. Toda a linguagem da campanha parece culpabilizar justamente o lado mais prejudicado nesse aspecto do urbanismo: quem de fato faz uso do transporte público e paga por ele. Tomando a forma de uma operação de vigilância, a ideia por trás da Pula-Catraca é nos fazer agradecer de joelhos à URBS pelos R$ 4,50 da passagem, porque a passagem poderia ser muito, muito mais cara.


Notas

[1] Não que eu seja algum tipo de autoridade, mas pelo menos sou curiosa.

[2] O Uber começou a operar em Curitiba em 2016 e pode ter sido um dos responsáveis pela queda no uso do transporte urbano. Mas o uso do Uber não seria necessário ou tão crescente com transporte coletivo de qualidade. O Uber em si é todo um outro problema social complexo por si só.

Fichamento: Making News (1978) — Capítulo 6

Continuando o fichamento do livro Making News. A numeração de páginas entre colchetes acompanha imediatamente cada um dos parágrafos; caso um parágrafo não a contenha, é porque a citação abarca também o parágrafo seguinte. Há uma pequena intervenção minha para marcar quando uma citação se prolonga por mais de uma página. Boa leitura!


Referência bibliográfica

TUCHMAN, Gaye. Making News: A Study in the Construction of Reality. Nova York, Londres: The Free Press, 1978.


Chapter 6: Representation and the News Narrative

“Attributing to news narratives the power to raise certain questions and to ignore others may seem to digress from this book’s argument. Rather than demonstrate that news is a product of specific ways of organizing newswork, it suggests that the formal characteristics of the product of newswork guide inquiry. The power of forms cannot be dismissed.” [P. 104]

“To newsworkers, the ability to build narratives is a professional skill, learned in an earlier day through years of craft apprenticeship. [P. 105] […] the proof of skill is the ability to rise above accepted narrative forms, such as the inverted-pyramid or block styles, and still create a story that maintains the web of facticity and builds drama. Creative professionals writting may be represented by a lead sentence that backs into inverted pyramid. Omitting the “what” and “when” from the lead may serve to whet the reader’s curiosity. Professionalism may mean breaking those rules that serve as bibles for hacks.

For some reporters, professionalism means lightly edited copy. For others, or means rarely reading their published articles, since they find editing either offensive to their autonomy or destructive to their intent. Editors see their professionalism as their ability to rework reporters’ sentences so as to improve upon their intent and to locate still unanswered questions. For both editors and reporters, professionalism means following the dictates of the organization’s style, sometimes formalized in an style book, as at the New York Times.

What makes the news narrative intrinsically different from other narrative forms? Some characteristics of news writing are obvious. Stories are written in the past tense, headlines in the present. Paragraphs are short, perhaps one to three sentences. Sentences generally contain fewer than twenty words and avoid words of more than two syllables. Word order is different from that of spoken language” [P. 106]

“Yet, clearly, the language of news prose contains a special relationship to the everyday world, for like any other language, each both frames and accomplishes discourse. It is perception and it guides perception; it reconstitutes the everyday world.” [P. 107]

“Unlike written copy, film and videotape maximize the reporters’ and cameramen’s intent. One two and the written word, but cannot easily alter the recorded spoken words to insert a new phrase. Nor can one change the distance between camera and speaker, the framing of the picture, short of filming again. Some alteration is, of course, possible. One can reorder sequences of film to create an argument unintended by the person filmed or the one filming. But there are distinct limits to the alternatives possible without refilming. Those limits mean that the rules governing the visual language of news film must be more explicit and hence more accessible than the rules governing the reading and spoken word.” [P. 107]

“[…] news film presents itself to us as actual representations, not as symbols and signs manipulated by set conventions. These self-presentation is specifically contained in the word used by newsworkers and filmmakers to indicate film taken of events in progress. Applied to demonstrations, wars, public meetings, [P. 108] and other sorts of seemingly nonstaged gatherings, that term is “actuality”. […] To paraphrase Goffman (1974: 450), the acceptance of representational conventions as facticity makes reality vulnerable to manipulation. Identifying those conventions as artful manipulations enables one to regard filmed events as social accomplishments — the product of newswork.” [P. 109]

“News film casts an aura of representation by its explicit refusal to give the appearance of manipulating time and space. Instead, its [P. 109] use of time and space announces that the tempo of events and spatial arrangements have not been tampered with to tell this story. By seeming not to arrange time and space, news film claims to present facts, not interpretations. That is, the web of facticity is embedded in a supposedly neutral — not distorted — synchronization of film with the rhythm of everyday life. Like the construction of a newspaper story, the structure of news film claims neutrality and credibility by avoiding conventions associated with fiction.” [P. 110]

“News film’s arrangement of space also eschews dramatic conventions to create an aura of facticity.” [P. 111]

“For a news cameraworker, facticity is produced by meeting and event “head on,” with camera placement fixed to simulate the angle of a person of average height confronting another person eye to eye. All else is condemned as “distortion,” and the team responsible for the affronting footage is likely to receive an official reprimand.” [P. 112]

“In filming one person, the head-on perspective is maintained. Neither the dignitary nor the newsworkers are transformed it into a tornadolike mass. Filming the newsworkers-as-mass would show that newsworkers (not the flow of occurrences) create views, and so would challenge the credibility of news. Such an overview would reveal that much of the excitement of the event has been generated by newsworkers. And just as newspapers reporters use quotation marks to claim impartiality and credibility, so, too, news footage must avoid implying that newsworkers and organizations generate both occurrences and their rendition as events. Supposedly, to imply involvement is to undermine the web of facticity.” [P. 115]

“In general, news film’s adaptations of social roles stress neutrality. By news neutrality I do not mean the refusal to take sides in a dispute, for the anchoring of the newsnet in time and space necessarily involves the news organization in the process of legitimation. Rather, I mean that the visual portrayal of roles [P. 115] stresses noninvolvement: Reporters filmed at the scene of a story are clearly portrayed as being removed from, and uninvolved in, the action sequences. Both reporters and newsmakers are framed as officials and professionals, as one would see them if one set in front of their desks. These social meanings — seeming representations — are achieved by filmic conventions regarding camera range. The framings are designed to be neither intimated nor distant.” [P. 116]

“The distinction between cinematic detachment and participation connotes neutrality.” [P. 121]

“To state that television newsworkers customarily use certain framings to convey social roles is to suggest that television news film employs a lexicon of standard shots. […] Such limitation strongly suggests that television news speaks through codes. The visual detachment of reporters from the phenomena placed in the background may be seen as a code for detachment. Additionally, news film codifies places and events.” [P. 121]

“Consider some standard shots commonly used in television footage to claim representational facticity. First, by framing reporters in front of easily identified symbolic locations, news film informs viewers that the reporter is actually at the scene of the story. […] [P. 121]

Second, events are coded by the supposed sense of the ongoing activity. […]

Third, people are presented symbolically. Not only are they garbed in the clothing appropriate to their occupation, but also nonlegitimated individuals are made to typify all members of their particular group or class.” [P. 122]

“Said to lend drama and human meaning to the news (E. J. Epstein, 1973), symbols accomplish two factors associated with the web [P. 122] of facticity. They provide “actual” supplementary evidence: People as symbols tell of the impact of news events upon their lives so that the reporter need not present interpretations. The symbols thus “protect” reporters from presenting themselves as being involved in the story. And the use of symbols strengthens the distinction between legitimated newsmakers and “just plain folks.” […] Although they are said to be representatives of the people by dint of their legitimated positions and power, they speak for themselves. But symbols are only symbols: people with ideas and opinions are not news in and of themselves. They are not representatives but assumed to be representations of others who are coping with a mutual dilemma. When the dilemma has passed — the strike has ended or the town has started to recover from the hurricane — the symbol loses all news value, and once again is merely an ordinary person undifferentiated from the mass of ordinary people, i.e., a member of the public.” [P. 123]

“Facing ideosyncratic material, film and videotape editors and those supervising their work would have to spend more time than usual working on the material; they would have to decipher the crew’s version of the story and match the decoding to their own version of what the story should be.” [P. 124]

“A television crew that turned in ideosyncratic material would risk seeing its conception of the story transformed by editors facing a crush of stories to be edited and aired. Taking extra time to work on the ideosyncratic footage, the technician assigned the material might develop a backlog of work. In both cases, the film crew and technician face organizational problems.” [P. 125]

“Film or videotape that conforms to the accepted narrative forms facilitates work by other staff members.” [P. 125]

“The usual narrative form is associated with professionalism, satisfies organizational needs, and is familiar to the average Western television viewer.” [P. 127]

“For the television staff, professionalism connotes following the narrative forms in a way that satisfies notions of continuity and variation, each of which has technical and contextual applications. That is, the staff wants to present a story that is both technically and textually continuous, but they wish the story to have sufficient filmic variation to interest the viewer.” [P. 128]

“[…] visual variation as framing device leads film crews and other personnel to “think visually,” as they put it. The newsworkers dislike running too many stories comprised of talking heads. To avoid such visual boredom, they introduce other visual elements whenever possible.” [P. 129]

“The invocation of visual variation relies upon the lexicon of television news framings, any of which, if shown long enough (at least ten seconds), can register its claim to represent the web of facticity.” [P. 130]

“Newspaper feature stories require more careful editing then hard news because they are frequently built upon twists in newspaper narrative style. On television, too, soft news requires more editorial work, because features often aim to incorporate a poetic, not a narrative, vision. The use of narrative forms applied to hard news is suspended.” [P. 131]

“[…] the news narrative raises some questions and ignore others specifically because its style and format are visual incorporations of themes dominating the organization of newswork.

The news media’s bureaucratic organization of time and space is reified in the news narrative’s organization of frames of film. And the use of filmic conventions and narrative forms enables reporters to ensure that their rendition of stories will not be mauled by editors. It facilitates the news organization’s ability to be flexible, to move reporters from story to story during the day. It enables film crews to cover any assignment, to be generalist who can transform any idiosyncratic occurrence into a conventional news event.” [P. 132]


Obras citadas

EPSTEIN, Edward Jay. News From Nowhere: Television and the News. Nova York: Random House, 1973.

GOFFMAN, Erving. Frame Analysis. Filadélfia: University of Pennsylvania Press, 1974.

Fichamento: Making News (1978) — Capítulo 5

Esta é mais uma postagem da série de fichamentos/transcrições do livro Making News, de Gaye Tuchman. A primeira parte da série com os capítulos 1 e 2, bem como uma pequena contextualização do porquê a estou fazendo, você pode encontrar aqui. O capítulo 3 foi publicado aqui, e o quarto aqui. A numeração de páginas entre colchetes acompanha imediatamente cada um dos parágrafos; caso um parágrafo não a contenha, é porque a citação abarca também o parágrafo seguinte. Há uma pequena intervenção minha para marcar quando uma citação se prolonga por mais de uma página. Boa leitura!


Referência bibliográfica

TUCHMAN, Gaye. Making News: A Study in the Construction of Reality. Nova York, Londres: The Free Press, 1978.


Chapter 5: The Web of Facticity

“By “facts” I mean pertinent information gathered by professionally validated methods specifying the relationship between what is known in how it is known. Order sort of inquiry, such as philosophy and science, are also concerned with the relationship between phenomena and knowing. But news procedures are neither contemplatively nor geared toward determining essense. Nor are they able to predict axiomatic statements. Unlike more rigorous and reflective approaches to facticity, newswork is a practical activity geared to deadlines. Facts must be quickly identified. But for newsworkers (as for scientists), having witnessed an occurrence is not sufficient to define [P. 82] one’s observation as factual. In science, the problem of facticity is embedded in processes of verification and replication. In news, verification of facts is both a political and a professional accomplishment.” [P. 83]

“In contrast, newsworkers state that finding facts entails demonstrating impartiality by removing one self from a story. Impartiality includes demonstrating that one does everything possible to be accurate so as to maintain credibility and avoid both reprimands from superiors and the omnipresent danger of libel suits.” [P. 83]

“Libel suits, a hazard of the trade, cost money. Although they are relatively rare, when they occur they may place the news organization in financial jeopardy. Equally important, the invocation of libel expresses a concern with the paper’s reputation for maintaining credibility. If libel suits become widely known, they may endanger an organization’s credibility and so potentially decrease sales and profits. The need to maintain credibility explains why most libel suits are settled out of court, even if the news organization believes it could prove its innocence. Additionally, a libel suit disrupts newsroom routine by requiring some staff members to appear in court, thus depleting the news net.” [P. 84]

“”source,” […] a font or point of origin. One may ask how one determines the appropriate point of origin of information — the particular social location that deserves characterization as a source. And how can such sources enable the rapid identification of fact so that deadlines can be met?

Viewing all sources as questionable, news reporters must spend time verifying their statements.” [P. 84]

“Clearly, identifying the appropriate source of information and deciding whether verification is necessary are situationally determined.” [P. 85]

“Rules requiring unimpeachable sources and indentifying those sources are embedded in socially structured understandings of the everyday world and its institutions.” [P. 85]

“Put somewhat differently, to flesh out any one supposed fact one amasses a host of supposed facts that, when taken together, present themselves as both individually and collectively self-validating. Together, they constitute a web of facticity by establishing themselves as cross-reference to one another: A fact justifies the whole (the story is factual), and the whole (all the facts) validates this fact (this particular referent).” [P. 86]

“[…] reporters are engaged in the theoretic activity of making sense of the world by constructing meanings.” [P. 87]

“[…] facts are held necessary to maintain credibility and to meet deadlines.” [P. 87]

“Facts about the powerful are treated with more care than those about the powerless. Rather (1977: 119) recalls covering the death of John Kennedy: “What did I have? Well, I had a doctor at the hospital who said the President was dead. A priest who said, definitely, he was dead. And the hospital’s chief of staff, who had told Eddie Baker [a colleague] he was dead. If you were working the cop shop in Houston, Texas… what you had was a dead man.” But talking to CBS headquarters in New York, Rather had second thoughts about disseminating that news on national radio and television. He continues, “But this [allegedly that man] was the President of the United States… If I had been given, say, two seconds to think about it, if someone had asked, “Do you want us to announce that the President is dead and play the national anthem?” I would have said, woah, better run that past someone else.” [Nota 4, P. 87]

“Taken by itself, a fact has no meaning. Indeed, even “two and two equals four” is factual only within certain mathematical systems or theories. It is the imposition of a frame of other ordered facts that enables recognition of facticity and attribution of meaning.” [P. 88]

“The emphasis on accumulating facts also presupposes that facts can be verified. […] But newsworkers must also cope with nonverifiable facts, facts that could be verified in theory but not in practice — and certainly not in time for deadlines. Dealing with this problem in the approved and [P. 89] professional manner, newsworkers explicitly recognize the mutual embeddedness of fact and source. For rather than recognize a nonverifiable statement as fact, they intermesh fact and source. In the course of accomplishing this copresentation, newsworkers create and control controversies as news.” [P. 90]

“[…] by presenting both truth-claims, the professional [P. 90] reporter theoretically allows the news consumer to decide who is telling the truth. Like doctors who offer a service by telling patients the probable success of different medical options, reporters absolve themselves of responsibility by structuring the alternatives. As previously argued, that necessary framework is implicit in the context of assumed legitimacy.” [P. 91]

“Editors are particularly apt to invoke the distinction between legitimation and quasi legitimation. For instance, during the social ferment of the 1960s editors asked one another, “How many people [P. 91] does that guy represent?” as they purposedly played down coverage of some civil-rights leaders and antiwar groups. […] The editors’ model for determining quasi legitimacy depended upon numerical accretion: the more members, the more legitimate their spokesperson.” [P. 92]

“Most important, in all the time I’ve spent observing reporters and editors, I’ve never heard them challenge the right of an elected or appointed official to make news. Rather, the assumption is that the holder of a legitimate status speaks for the government. All others must demonstrate their relationship to a more amorphous entity — the public.” [P. 92]

“Working distinctions among legitimate newsmakers, quasi-legitimate newsmakers, and the amorphous public imply gradations in whose truth-claims may be reported and framed as fact. Again the power of legitimate sources comes into play.” [P. 92]

Imputing Facts: Located in an institutionalized news net, reporters and editors accumulate experience with complex organizations and interorganizational relationships. On the basis of that experience, identified as the arcane knowledge implicit in news judgment, newsworkers make three generalizations:

  1. Most individuals, as news sources, have an axe to grind. To be believed, an individual must prove his or her reliability as a news source.
  2. Some individuals, such as committee heads, are in a position to know more than other people in an organization. Although they may have an axe to grind, their information is probably more “accurate” because they have more “facts” at their disposal.
  3. Institutions and organizations have procedures designed to protect both the institution and the people who come into contact with it. The significance of the statement or a “no comment” must be addressed according to the newsworker’s knowledge of institutional procedures.

Each generalization emphasizes a key assumption about the organization of newswork and finding facts. The first generalization, proven by reliability of sources, necessarily favors sources met through institutionalized beats. To prove reliability one must at some time have an ongoing contact with reporters. The second generalization, that some sources have more facts than others, draws on the professional assumption that facts are mutually self-validating. The more facts one has access to, the better one’s chances of knowing what is going on. The third generalization, built upon the other two and, additionally, assumes the inherent rectitude of legitimated organizations.

Newsworkers lump these three generalizations together, speaking of how “something makes sense” intuitively.” [P. 93]

The Judicious Use of Quotation Marks: Utimatelly, the use of graded sources who may be quoted as offering truth-claims is converted into a technical device designed to distance the reporter from phenomena identified as facts. Quotations of other people’s opinions are presented to create a web of mutually self-validating facts.” [P. 95]

“Adding more names and quotations as mutually determining facts, the newsworkers may achieve distance from the story by getting others to express desired opinions. For example, the reporters may remove their own opinions from the story by getting others to say what they themselves think.” [P. 95]

“Quotation marks do more than remove the reporter’s voice from a story and signal “This statement belongs to someone other than the reporter.” They also may be used to indicate “so-called”. For instance, in the 1960s the New Left (without quotation marks) was the name of a specific group. The “New Left” (with quotation marks) indicated a group calling itself the New Left; in this case the legitimacy of the group is questioned.” [P. 96]

“A professional’s technical device, quotation marks, made the story factual and protected the reporter from his superiors.” [P. 97]

“Of course, the use of quotation marks is embedded in the news net. It presupposes having a source to quote. Yet just as facts may be nonverifiable, so, too, sources may not produce appropriate quotations. Additionally news organizations may wish to present analyses of the facts, stories sustaining an argument independent of an interlocking web of mutually validating facts. The bureaucratic dispersion of newsworkers through time and space, formalize it as a feature of the news product, permits explicitly interpretive analysis to be accomplished.” [P. 97]

“The dispersion of reporters by territory, institucional specialization, and topic is formalized in the division of a newspaper or newscast. A newspaper is divided into sections and pages. Its first pages contain factual (objective) general stories potentially drawing from anywhere and everywhere in the news net. Specialized topical subjects, such as sports, women’s, and financial news, appears on clearly delineated pages placed together in separate sections. General stories in which the reporter standa as the source of facts are placed on [P. 97] either the editorial or the “op ed” page (the page opposite the editorial page). On newspapers there are only two exceptions to this rule. One is the soft-news feature story explicitly immune from the professional requirement of presentation through a web of facticity. On some newspapers the feature story is only a partial exception. […] The other exception is the “news analysis” that may be published on the general pages, if accompanied by the distinct formal label “news analysis”.” [P. 98]

“Television news shows contain similar formal distinctions. Local news shows schedule specific time slots for sports and weather. […] Nacional telecasts also use timing as a formal device. For instance, the evening news (like some local programs) frequently end with a “kicker,” a feature story designed to keep the audience smiling. […] Special labels may identify stories in which the reporter is presented as the source.” [P. 98]

“Just as quotation marks theoretically establish a distance between the reporter and a story, signaling that the materials enclosed may be problematic, the label “news analysis” indicates that the material neither represents the opinions of the management or is necessarily “true”. The presentation is the reporter’s interpretation of the “facts”. Readers or viewers should trust and accept the reporter’s information according to their assessment of his or her qualifications and attitudes, as revealed in the reporter’s general work and previous news analyses. Labeling some items as other than “objective facts” also reinforces the claim that most stories present facts, for it signals, “This news organization is seriously concerned with distinctions between factual and interpretive materials.”” [P. 99]

“As with the distinction between hard and soft news, newsworkers find it difficult to distinguish between fact and interpretation.” [P. 99]

“It is not surprising that newsworkers found the “intuitively obvious” distinction between fact and value judgment difficult to explain. First, facing the problem means considering how much all identification of facts is embedded in specific understandings of the everyday world. As we have seen, those understandings presupposes the legitimacy of existing institutions and are the basis of the news net. To examine the distinction between fact and value judgment, then, is to be willing to examine seriously the indexical and reflexive nature of news as knowledge. It is to acknowledge that news frames strips of everyday occurrences and is not a mere mirror of events. […] [P. 99] It is also to cast aside the identification of news as a crusade for truth.

Second, examining the distinction between fact and value judgments challenges existing professional techniques for telling stories. Those techniques simultaneously confirm the existence of a distinction and enable a of distinction to be made. Newsworkers identify facts with hard news and one mode of storytelling. They associate soft news with quite a different mode.” [P. 100]

“The stories may also be viewed as formal narratives. Although popular culture uses “narrative” to refer to a fictional account, any story is necessarily a narrative exposition as it structures items and has a beginning, middle, and end.” [Nota 18, P. 100]

“The soft-news genre, nonscheduled news, is presented in a more varied narrative, divorced from the lead-documentation structure. The lead sentence made turn on a twist of words. It may back into a story by presenting an unattributed quotation or generalization that is subsequently specified. The article may have a surprise ending, like a short story by Edgar Allan Poe. It may attribute motivation or human qualities two animals and inanimate objects. It may parody. It may move from one narrator to another, building suspension and leading to a denouement. In short, eschewing the mode of lead documentation, the mode of facticity, such an article may be difficult to edit. These pieces are often removed from the routines associated with deadline journalism and demand nonscheduled editorial care. Significantly, because feature stories evoke a different mode of narration, they are set to require special professional skills, particularly a light touch as opposed to the heavy hand of amassed facts. [P. 101]

“The notion of different modes of narrative serves as a method of guiding reporters to locate appropriate facts. Questions to be [P. 101] asked are contained in the form of presentation.” [P. 102]

“As known story forms (lead-documentation) demanding facts and sources, “the fire,” “the trial,” “the political convention,” “the lost child,” “the death of the president” reduce the idiosyncrasy of occurrences as news. Accepted as professional tools and extensions of news typifications, the different approaches to set story forms may, of course, lead the reporter to the wrong conclusions, and so hamper coverage.” [P. 103]

Fichamento: Making News (1978) — Capítulo 4

Esta é mais uma postagem da série de fichamentos/transcrições do livro Making News, de Gaye Tuchman. A primeira parte da série com os capítulos 1 e 2, bem como uma pequena contextualização do porquê a estou fazendo, você pode encontrar aqui. Já a segunda parte foi publicada aqui. A numeração de páginas está entre colchetes e acompanha imediatamente cada um dos parágrafos; caso um parágrafo não a contenha, é porque a citação abarca também o parágrafo seguinte. Há uma pequena intervenção minha para marcar quando uma citação se prolonga por mais de uma página. Referências bibliográficas utilizadas pela autora estão ao final do texto, em formato ABNT. Boa leitura!


Referência bibliográfica

TUCHMAN, Gaye. Making News: A Study in the Construction of Reality. Nova York, Londres: The Free Press, 1978.


Chapter 4: Flexibility and Professionalism

“Sociologists studying organizations and professions tell us that the variability of materials, organizational flexibility, and professionalism are interrelated. Briefly put, the greater the variability of raw materials, the greater the organizational flexibility and, accordingly, the greater the professionalism of workers. Here, professionalism connotes the exercise of autonomy, the right of workers to control their own work (Freidson, 1971), frequently by reference to norms developed by professional agencies external to the organizations in which they work (E.C. Hughes, 1964).” [P. 65]

“Direct supervision of the work process (rather than the product) would require an expensive organizational investment in more editorial personnel. News organizations maintain flexibility and save money by discouraging a more complex bureaucracy than already exists, and by and encouraging professionalism among [P. 65] reporters. Among reporters, professionalism is knowing how to get a story that meets organizational needs and standards.” [P. 66]

“Some reporters resist promotion to an editorial position, such as assistant city editor, because it decreases their association with sources. The longer someone has served as an editor, the less familiarity he or she has with the news sources. However, promotions to managing editor and the even higher echelons of newswork bring familiarity with the very powerful.” [Nota 2, P. 65]

“One crucial finding emerges from watching the reporters work: Specialties are ignored when necessary. Everyone must be capable of doing everyone else’s work. […] The ultimate aim of the bureau, like that of the newspaper, is to get its work done. If everyone stuck to his or her specialty, there might sometimes be a gap in the news net. For all recognizably newsworthy stories to be covered, each specialist must be a generalist, and vice versa. To quote several reporters, each must “be a professional” capable of covering everything and anything, because it may be a sign of anything at anytime.” [P. 67]

“Being a reporter means knowing how to find stories pertinent to one’s placement in the news net.” [P. 68]

“By knowing enough sources, reporters can maximize their ability to file a story everyday and thus demonstrate their competence. That having a story is a matter of competence becomes clear early in the day.” [P. 68]

“The higher the status of sources and the greater the scope of their positions, the higher the status of the reporters. As is well known, news stories, news sources, and reporters are hierarchically arranged.” [P. 69]

“Gaining more sources works similarly to the distribution of honors in science. To use Merton’s (1973) description, the “Mathew Effect” is in operation: The more one has, the more one gets. “Big stories” go to the height status reporters, even if that means breaching current specialties.” [P.70]

“Knowing sources brings participation in a common reportorial culture.” [P. 71]

“Being a participant in the press room culture brings increased familiarity with sources. Accepted into the culture, reporters may wander over to greet a source who drifts into the room.” [P. 71]

“Athough reporters tend to be liberal, the atmosphere in the newsroom it’s not liberal. In every newsroom I have visited, political stickers are affixed to desks. Generally they have indicated past support for the Vietnam war, opposition to gun control, and other conservative leanings. I have never seen a liberal sticker on a desk.” [Nota 8, P. 71]

“Finally, knowing sources simply enables reporters to do their work adequately.” [P. 72]

“That some reporters have more sources than others also means that some reporters may work in others’ specialties, for any privately generated idea or information is the explicit property of its originator.” [P. 73]

“Of course, while colleagues assist one another, the possibility that someone may poach on one’s territory intensifies the competition to maintain one’s private bank of sources. When a source has given a story to someone else, even a colleague from the same organization [P. 73], a reporter will ask “Why didn’t you give that to me?” or complain, “I thought you were going to give that to me”. […] Although employed by a news organization, the reporters presented themselves as autonomous professionals when dealing with sources. Indeed, for one reporter to ask another the name of a concealed source was to violate professional norms […]. I subsequently noted that reporters did not ask colleagues the name of a source when one visited the bureau. Nor did a reporter necessarily introduce the source to his colleagues. Similarly, if a competitor from another organization knew the source, he might say to the visiting source, with a tinkle in his eye, “How are you doing, John?” thus displaying his own professional contacts.” [P. 74]

“Merely concluding that reporters express their professional autonomy from editorial supervision by hoarding sources and sharing information with bureau colleagues is to understate the matter. Relatively free from editorial supervision, reporters have evolved a complex code that may contravene organizational dictates. If reporters were merrily bureaucratic employees operating according to the rules and needs of their organization, they might be expected to hoard information from reporters working for competing media and share with all reporters from their own company. Instead, exercising their autonomy, they may share with competitors and hoard information from other bureaus within their own organization. Identification of information as either bureau or personal property is determined by the reporters need to maintain control of his or her work.” [P. 74]

Sharing Information with Competitor’s Reporters: Discarding the organizational dictate not to share with competitors, reporters invoke collegiality to exchange some kinds of information with competitors. Readily available information is shared; privately developed information rarely is. Reporters consider it I’ll mannered either to request privately developed information or to refuse easily accessible material.” [P. 75]

“Reporters from competing news organizations see one another day after day. Together, they participate and construct a daily [P. 76] work life. They see members of their own organization more rarely…” [P. 77]

“Reportorial cooperation must be attributed to more than proximity. In part, mutual assistance is a case of mutual back scratching. […] But more general principles of collegiality are also involved.” [P. 77]

“In the course of their careers, reporters, like other professionals, move from one organization to another to obtain promotions, [P. 77] raises, and increased status. Socializing with one another, attending some of the same parties, reporters know one another by reputation, if not by face-to-face contact. Having a reputation for professional sharing enhances one’s occupational mobility and the warmth with which one is greeted by new colleagues. Reporters working out of city rooms share information when they meet competitors at the scene of a story. After returning to their desks, they may telephone one another to seek limited help. And, when all are faced with a dearth of information they may pool their “facts”. […] Ultimately of course search professional cooperation enhances adherence to the prime organizational requirement: getting the story in time to disseminate it.” [P. 78]

“When one reporter enterprises a story in another’s specialty, the plandered party is expected to follow professional protocol — to approve and to help — just as a replaced doctor is expected to transmit case records willingly to an ex-patient’s newly selected physician. Other forms of cooperation are ongoing and informal. […] locating minor “facts” takes time and only breaks the rhythm of writing. And for a reporter, writing is only too often a race against deadlines. Collegial exchange of middle initials and spellings serves the organizational needs of getting work done on time.” [P. 78]

“Utimatelly, though, reporters preserve their professional autonomy by jealously protecting their private sources and specialties from others’ encroachment — while trying to poach others’ material.” [P. 78]

“Although grounded in professional understandings, this cooperation also aids the organization. […] Whether such contracts qualify as professional courtesy or organizational exchange, these exchanges demonstrates that reporters and bureaus must be flexible. The news net must be flexible if the news organization is to locate occurrences qualifying as news events. Reporters must be capable of covering everything and anything while [P. 80] meeting deadlines. They must know where to get information as expediently as possible.” [P. 81]

“Clearly, whom one asks for information influences what information one receives. Throughout this chapter I have implied that the bureau reporters seek out centralized sources, politicians, and bureaucrats. I never observed reporters contacting the leaders of social movements. Nor did they search out grass-roots leaders, preferring instead the leaders of local political clubs. They distinguished among political clubs by pointing to the actual power each wields. They contacted the powerful, the politician with the resources to accomplish his or her ambitions, not the merely dissident or dissatisfied. That people with power serve as sources bears consequences for the information newsworkers uncover […]” [P. 81]

“Additionally, of course, reporters must know what questions to ask the source, what “facts” to find. Without having some idea of what might be the heart of the matter, the story to be told, each occurrence could maintain its claim to idiosyncratic treatment and thus increase the variability of occurrences as the raw material of news. Knowing what to ask influences whom one asks: The choice of sources and the search for “facts” mutually determine each other.” [P. 81]


Obras citadas

HUGHES, Everett C. Men and Their Work. Nova York: Free Press, 1964.

FREIDSON, Eliot. Profession of Medicine: A Study in the Sociology of Applied Knowledge. Nova York: Dodd, Mead, 1971.