Problemão de gênero, parte II, volume 2: Sexo e gênero

Este é mais um post da minha série “Problemão de Gênero”, onde faço uma leitura crítica da mais famosa obra de Judith Butler praticamente parágrafo a parágrafo. Os textos anteriores podem ser lidos aqui e aqui. Como já disse anteriormente, essa crítica segue a minha visão pessoal, que é materialista e usa como ponto de partida o feminismo radical. Puxa uma cadeira e senta, porque lá vem lorota!

A Ordem Compulsória do Sexo/Gênero/Desejo

Este é o segundo subcapítulo do capítulo “Sujeitos do Sexo/Gênero/Desejo”. É bem curtinho, e Butler não vai discorrer muito sobre o assunto, talvez porque ela não tenha muito o que falar. Aqui ela vai fazer uma série de afirmações que eu achei um tanto bizarras — principalmente porque ela não firma o argumento em lugar algum; você lê e fica se perguntando de onde ela tirou isso tudo, apesar de conseguir captar algumas referências.

Butler vai iniciar o texto dizendo que a categoria “não problematizada” de mulher sofreu uma quebra com a introdução do conceito sexo/gênero. Ela não vai dizer quando, porque, nem quem fez isso, então faço eu: era 1972 quando Ann Oakley, uma feminista britânica, escreveu o artigo entitulado “Sex, Gender and Society” (a introdução em inglês desse artigo pode ser encontrada aqui), onde discorria sobre até que ponto as diferenças entre os homens e as mulheres eram naturais ou fruto da sociedade. Três anos depois, a Gayle Rubin vai usar este mesmo conceito no seu famoso “Traffic on Women”, e é a partir daí que ele vai fazer sucesso e tomar de assalto a teoria feminista. Isso aconteceu porque a mulherada ficou realmente muito empolgada por finalmente ter encontrado um bom argumento [1] contra a naturalização das diferenças sociais. A princípio, Butler concorda com isso.

O problema é que o argumento não é tão bom assim, como bem avisa a Maria Mies, ao afirmar que homens e mulheres interagem com a natureza com corpos qualitativamente diferentes, mas que (2014; tradução livre):

Essa distinção de categorias entre sexo como biológico, e gênero como sócio-cultural, pode à primeira vista parecer útil, porque remove a irritação de que a opressão das mulheres é atribuída o tempo todo à sua anatomia. Mas essa distinção segue o padrão bem conhecido de separar a ‘natureza’ da ‘cultura’ (…). Para as mulheres essa divisão tem uma tradição longa e desastrosa no pensamento ocidental porque as mulheres têm sido colocadas ao lado da natureza desde o surgimento da ciência moderna (…). Se as feministas agora tentam sair dessa tradição definindo sexo como algo puramente material e biológico, e gênero como a expressão mais alta, cultural e humana desse algo, então elas continuam o trabalho daqueles filósofos e cientistas idealistas patriarcais que dividiam o mundo em matéria crua ‘ruim’ (a ser explorada e colonizada) e espírito ‘bom’ (a ser monopolizado por padres, mandarim e cientistas). [2]

Butler vai dizer que gênero é sim socialmente construído, e não um resultado causal do sexo, porque o gênero não vem exatamente do sexo, mas vai além dos limites do corpo. Até aí, todas as feministas concordam: gênero define uma série de práticas e marcadores culturais de diferença entre homens e mulheres, que inclui (mas não se restringe a) vestimenta, comportamentos etc. A Lierre Keith nos ajuda a entender:

Gênero não é binário. Ele é uma hierarquia. Ele é global em seu alcance, é sádico em sua prática, e assassino em sua realização. Assim como raça, e assim como classe. O gênero demarca os limites geopolíticos do patriarcado — o que quer dizer, nos divide ao meio. Essa metade não é horizontal — ela é vertical. E caso você tenha perdido essa parte, os homens estão sempre no topo. [3]

Esse não é, obviamente, o caminho que a Judith Butler vai seguir, porém. Ela diz que “homem” não se aplica só a corpos machos, assim como “mulher” não se aplica sempre a corpos fêmea [4]. E é bem aqui que o argumento dela parece cada vez mais fruto de um matinho mágico suspeito desses que a gente arranja por aí: ela vai falar que nem o dimorfismo sexual pode ficar sem ser problematizado (coisa que, se não me engano, ela vai fazer mais adiante no livro). Achar que o gênero é binário é achar que o sexo também é restrito por esse dimorfismo, segundo ela.

A autora aqui está provavelmente partindo da idéia de construção social da sexualidade [5]. Esse é um assunto que ultimamente, pelo menos nas discussões internéticas, tem dado muito pano pra manga. Isso porque as pessoas entendem essa expressão das mais variadas formas possíveis. Algumas pessoas têm uma compreensão muito parecida com a de Butler, e alguns ainda parecem soltar essa expressão nas discussões sem fazer a menor noção do que ela significa exatamente, apenas para tentar argumentar contra a idéia do que chamam de essencialismo biológico.

Vou tentar explicar aqui como é que as feministas materialistas vêem esse conceito. Tudo em que os humanos colocaram a mão desde que se organizaram em grupos é, obviamente, socialmente construído. A forma como encaramos a sexualidade, não só a nossa mas até mesmo a de outros animais, [6] não fica de fora dessa. Nós inventamos regras específicas para seres de tal e tal sexo — que é, aliás, o significado original para que o conceito de “gênero” foi concebido, veja bem —, inventamos regras e contratos sexuais específicos para situações específicas, inventamos formas de controlar nossa fertilidade, inventamos práticas sexuais variadas… A lista é literalmente sem fim. Isso não significa, porém, que as nossas funções biológicas deixem de existir por causa disso; o fato de algumas dessas normas e costumes existirem inclusive atestam que essas funções biológicas existem.

Butler vai continuar dizendo que o gênero é independente do sexo e que se trata de “um artifício que flutua livremente” (free-floating artifice). Então ela questiona como é feita a atribuição do sexo a alguém, e segue fazendo um monte daquelas perguntas retóricas que ela adora:

  • “Afinal, o que é sexo?”
  • “Sexo é natural, anatômico, cromossômico, hormonal, e como é uma crítica feminista para se acessar esses discursos científicos que se propõem a estabelecer tais ‘fatos’ para nós”?
  • “Existe uma história de como a dualidade do sexo foi estabelecida, um genealogia que possa expôr as opções binárias como uma construção variável?”
  • “Existem fatos ostensivamente naturais do sexo discursivamente produzidos pelos vários discursos científicos a serviço de interesses políticos e sociais alheios?”

Apesar do blablabla anterior e da forma como a frase foi composta, essa última pergunta é muito válida, na verdade. É a pergunta que basicamente toda a crítica feminista de ciência já fez muitas décadas atrás. Investigar como a ciência pode ser usada para validar pressupostos mentirosos e preconceituosos a respeito das pessoas foi (e ainda é) uma tarefa do feminismo que ajudou a desvelar muitas das formas como as mulheres foram (e ainda são) subjugadas ao longo da história. Eu mesma estudei isso, mais especificamente na área da Computação. Não é uma pergunta boba.

O problema é que, diferente das críticas feministas às ciências e à produção tecnocientífica — que estavam preocupadas com a negligência médica em relação às mulheres, com a exclusão das mulheres dos campos do saber que possibilitavam melhores oportunidades de trabalho ou uma investigação mais específica sobre como tal e tal procedimento afeta especificamente as mulheres e coisas do tipo —, a Butler vai envenenar essas perguntas. Na verdade verdadeira mesmo, ela sequer vai tentar dar uma resposta satisfatória a elas. Ela vai apenas dizer que o sexo é tão culturalmente construído quanto o gênero. E que talvez o sexo sempre foi gênero, de modo que não há distinção entre sexo e gênero, porque segundo ela “Não faria sentido então definir gênero com uma interpretação cultural do sexo, se o sexo mesmo é uma categoria gendrada”! [7]

Esse raciocínio dela leva a noção de construção social da sexualidade às últimas consequências. O que Butler diz, para resumir, é que uma vez que as práticas sexuais e a forma com entendemos o sexo é socialmente construída, e uma vez que o gênero também o é, então não precisa haver uma distinção entre sexo e gênero, porque sexo e gênero seriam necessariamente a mesma coisa e não importariam para uma análise feminista. Ela deixa de considerar — e aqui me adianto, porque nada mais me lembro da primeira leitura que fiz desse livro então não sei dizer se ela vai fazer isso futuramente, mas de qualquer forma até o momento ela deixa de considerar — os motivos que levaram à dominação masculina, e isso porque ela não acredita em uma dominação masculina a nível estrutural.

Ela diz:

Sexo não deve ser concebido puramente como a inscrição cultural de significado em um sexo pré dado (uma concepção jurídica); gênero deve também designar o próprio aparato de produção através do qual o sexo propriamente dito é estabelecido. Como resultado, o gênero não está para a cultura como o sexo para a natureza; gênero é também os significados discursivos/culturais pelos quais “a natureza sexuada” ou “sexo natural” é produzido e estabelecido como “pré-discursivo”, antes da cultura, uma superfície politicamente neutra na qual a cultura age. (BUTLER, 1999)

Butler encerra esse capítulo com mais uma pergunta: “como então o gênero precisaria ser reformulado para englobar as relações de poder que produzem o efeito de um sexo pré-discursivo e então abarcar as operações próprias da produção discursiva?”

Ou seja: além de pegar uma categoria que em si já tem problemas o suficiente (vide a citação da Maria Mies), ela ainda vai desconsiderar completamente a realidade material, como se nosso corpo físico não tivesse qualquer peso na forma como interpretamos e interagimos com o mundo e entre nós mesmos; isto é, não é uma superfície politicamente neutra. Além disso, ela ainda vai tentar reformular essa categoria problemática de uma forma que tampouco resolve seus problemas.

Fiquei realmente impressionada com o tanto de bobagem que ela consegue colocar dentro de tão pouco texto!


Notas


[1] Porque nós ficamos tão preocupadas com a melhor maneira de responder questões idiotas que os homens nos colocam, e ainda por cima nos termos deles, é algo que não consigo entender, principalmente porque eu mesma também faço isso.

[2] Tradução livre de: MIES, Maria. Patriarchy and Accumulation on a World Scale: Women in the International Division of Labour. Londres: Zed Books, 2014.

[3] Tradução livre de: KEITH, Lierre. Patriarchy vs. Planet Earth. RadFem Reboot 2012. Portland, 2012.

[4] O que até faz sentido, se você pensar em figuras de linguagem, como por exemplo quando uma mulher diz “sou mais macho que muito homem”. “Macho”, nesse caso, significaria “forte”, “corajosa”. Não significa, no entanto, “ser humano do sexo masculino”. E, olha só que interessante: funciona direitinho dentro da lógica do gênero como marcador de diferença e hierarquia.

[5] Confesso que esse é um assunto que me interessa apenas superficialmente. É um debate meio infrutífero, na verdade, que surgiu provavelmente com o Michel Foucault questionando de que forma se dá a orientação sexual das pessoas, de onde ela vem, porque algumas pessoas são héterossexuais e outras não. O Foucault era completamente contra a idéia de que a orientação sexual é inata, aquela coisa de “baby, I was born this way” (um discurso que está muito em voga hoje): para ele, são as experiências das pessoas que podem levá-las a tal e tal comportamento/desejo. Algumas pessoas ainda dizem que a orientação sexual é uma escolha — e qual seria o problema se fosse, não é mesmo?

[6] Vide a notícia do inseto fêmea encontrado no Brasil que se dizia que tinha um pênis porque era ela quem penetrava o macho de sua espécie, e não o contrário, como normalmente se espera (“normalmente”, aqui, pode ser interpretado no sentido de “norma” mesmo) de uma relação sexual macho/fêmea. Tal notícia foi amplamente celebrada pelos transativistas, como sendo uma prova de que fêmeas também têm pênis. Alguns biólogos desmentiram essa idéia: há muita (muita mesmo) variedade genital entre os insetos, e que uma protuberância por onde a fêmea busca o material genético do macho não pode ser simplesmente chamada de pênis; sequer faz sentido comparar a fisiologia dos invertebrados e dos mamíferos nesse sentido.

[7] Socorro!!

Problemão de gênero, parte II, volume 1: “Mulheres”?

Antes de começar esse meu fichamento, vou esclarecer aqui que, antes de tudo, essa é uma leitura minha. Isso significa dizer que o que estou usando aqui pra confrontar o livro da Butler é o meu próprio repertório, e ele pode ser falho ou incompleto. Entretanto, tento fazer com que minha argumentação seja o mais clara e o mais coerente possível (já estou melhor que a Judith Butler, veja bem). Então, se surgir alguma dúvida, sugestão de leitura, ou se você também leu e notou que eu deixei escapar alguma coisa, não se acanhe de fazer um comentário. E se você caiu aqui de para-quedas, sugiro ler a primeira parte da série. :)

Outra coisa: o exemplar que estou usando de base é um PDF que foi transformado em Mobi para que eu pudesse ler no Kindle. Ele até tem as marcações de página originais, mas achei desnecessário colocá-las no corpo do meu próprio texto porque as seções do livro são bem curtinhas e, na transposição do PDF pro Mobi a coisa toda ficou um pouco cagadinha. Nada que impeça a leitura, no entanto; se você quiser uma cópia, podemos providenciar.

Mas vamos lá!

A Butler inicia o texto citando uma série de epígrafes. São textos que dizem basicamente que mulher não existe. Aí tem lá a Julia Kristeva dizendo que não dá pra se dizer que mulher exista, a Irigaray dizendo que mulheres não têm um sexo, a Wittig falando que sexo é uma categoria que estabelece a sociedade como heterossexual. O complicado é saber se essas citações realmente dizem o que a Butler está querendo que digam, porque ela cita aquela famosa frase da Simone de Beauvoir, inclusive. Essa (mas só aquela parte):

quote-beauvoir

E aí já viu, né.

“Mulheres” como sujeitos do feminismo

Esse é o primeiro item do capítulo “Sujeitos do Sexo/Gênero/Desejo”. Butler o começa dizendo que o feminismo entende mulher com uma categoria dada, uma identidade de onde partem os interesses feministas. Segundo ela, apesar de as mulheres serem pouco ou sequer representadas, essa assunção pode distorcer o que está abarcado na categoria mulher. Ela diz que na época — fins dos anos 1980 — havia muito debate sobre o que era mulher exatamente, o que ser mulher significava, e que, portanto, “mulher” não é uma categoria estável. Ela fala que tem “muito material” que questiona a mulher como sujeito do feminismo, mas ela não cita ninguém para saber em que termos esse questionamento é feito.

Então, Butler vai dizer que é preciso chegar num acordo primeiro antes de se conseguir a tal representatividade que querem as mulheres [1], e a partir daí, ela começa a teorizar sobre como se constituiu essa categoria “mulher” partindo de Foucault. Ela diz que o “Foucault aponta que os sistemas jurídicos de poder produzem os sujeitos que subsequentemente vão representar”, e que “Noções jurídicas de poder regulam a vida política puramente em termos negativos”, ou seja: limitação, proibição, regulação, controle etc. Os sujeitos regulados nessas estruturas, porém, são sujeitados a essas estruturas, e a linguagem jurídica que representa as mulheres como sujeito do feminismo tem essa carga, segundo ela. [2]

Ela vai dizer, pra resumir, que o sujeito do feminismo é constituído discursivamente dentro do sistema político do qual quer se emancipar, e que a categoria “mulher” estaria contaminada pelas estruturas de poder por causa disso e, portanto, não seria suficiente para definir nada. Isso porque, de acordo com ela, “os sujeitos jurídicos são invariavelmente produzidos através de certas práticas exclusionárias” que não revelam suas políticas; “O poder jurídico inevitavelmente ‘produz’ o que diz meramente representar”. Então essa categoria seria contaminada por definição.

Diz a Butler que a questão da mulher como sujeito do feminismo levanta a possibilidade de que não exista um sujeito antes da Lei [3]. Ela continua dizendo que assumir uma integridade ontológica do sujeito antes da Lei é um traço contemporâneo da hipótese do estado natural, que ela chama de “fábula fundacionalista constitutiva das estruturas jurídicas do liberalismo clássico”. Traduzindo: ela já assume por princípio que essa premissa de que existe uma realidade material que existe independente do discurso é falsa, e justifica isso dizendo que essa premissa que ela chama de fundacional garante que as pessoas consintam em ser governadas. Como exatamente assumir que existe uma realidade independente de haver humanos ali para dar nomes aos bois facilite a governabilidade desses mesmos humanos é algo que realmente foge à minha compreensão.

Ela aponta também o que considera ser um outro “problema político que o feminismo encontra em assumir que o termo mulher denota uma identidade comum”: ser rotulada como mulher, ser colocada nessa categoria, segundo ela, causa ansiedade. Isso porque o termo falharia em abarcar o que ser mulher significa sob diferentes contextos históricos, de raça, classe, localização geográfica etc. Aí ela diz que é impossível separar o gênero desses contextos, que é simplesmente impossível definir gênero e definir mulher.

Então ela continua dizendo que assumir que existe uma “base universal” pro feminismo acompanha a noção de que existe uma opressão masculina. Ou seja: a noção — já bastante estudada no feminismo — de que existe um patriarcado. Aí ela vai falar que assumir que exista um patriarcado é deixar de notar todas as especificidades culturais, como se… bem, como se todas as teóricas [4] que fizeram esse resgate não tivessem pelo menos dois neurônios para conceber o óbvio, tivessem deixado de considerar particularidades e não passassem páginas e páginas explicando que não, o patriarcado não se manifesta da mesma forma em todos os lugares, mas que em todos esses lugares cada uma dessas manifestações têm uma coisa em comum: a dominação das fêmeas da espécie humana pelos machos da espécie humana, com o propósito de explorar seu trabalho e seu potencial reprodutivo. Ela fala que a noção de patriarcado é uma invenção ocidental, basicamente, e que apesar da noção de patriarcado universal não ter mais tanta credibilidade (há controvérsias), a noção de mulher ainda tá aí firme e forte [5].

Dia desses eu postei no Twitter um trecho de uma crítica que a Denise Thompson fez a respeito desse trecho específico, e que eu estava traduzindo. Vou deixar ela falar por mim:

thompson-x-butler

Segue-se então uma série de perguntas que, pela própria lógica do argumento dela e dos pontos de partida de seu raciocínio, são virtualmente irrespondíveis, afinal, o que é respondível teria que seguir outra lógica, que ela imediatamente descarta. Por exemplo, ela questiona se “há alguma comunalidade entre as ‘mulheres’ que preexiste sua opressão ou as ‘mulheres’ têm um laço em virtude da opressão?”, e também pergunta se “Há uma região do ‘especificamente feminino’ que é ao mesmo tempo diferenciada do masculino e reconhecível em sua diferença não marcada por uma não notada e, logo, presumida universalidade das ‘mulheres’?”.

Porém, Butler vai negar completamente qualquer que seja o argumento em favor dessa comunalidade, porque para que seu argumento possa funcionar conforme o exposto até aqui, aceitar tal comunalidade seria ceder ao “fundamentalismo da diferença sexual” que de que ela fala em um dos prefácios do livro. Ela defende que as supostas (para ela) especificidades reconhecíveis entre as mulheres — e, consequentemente, entre os homens — são nada mais que criações de um sistema binário e exclusionário, que separa os indivíduos em categorias discretas, masculino e feminino.

Ela diz também que essas especificidades são descontextualizadas de suas intersecções com outros “eixos de poder” que “constituem a identidade”, tais como classe, raça e etnia. O problema aí é que ela até se preocupa em citar essas possíveis intersecções, mas parece não se dar conta de que nascer mulher, nascer em um corpo de fêmea também é um fator bastante importante (decisivo até) entre essas intersecções, e inclusive modifica a forma como tais intersecções se dão. [6]

Aí ela vai dizer que não dá para presumir a universalidade e a unidade do sujeito do feminismo uma forma efetiva. Para Butler, insistir numa categoria estável de sujeito do feminismo — ou seja, insistir que mulheres existem e têm uma realidade material — gera uma recusa em aceitar essa categoria. Ela diz que a categoria mulher é coercitiva e regulatória, e que, portanto, vai de encontro aos propósitos emancipatórios do feminismo. Aí ela vai dizer que a recusa de algumas mulheres em participar do feminismo indica que esses limites são limitantes (!), e que é uma consequência irônica que essa representação estreita possa quem sabe “fracassar o feminismo” por ele se recusar em levar em conta “os poderes constitutivos de suas próprias reinvindicações representacionais”. [vide nota 1]

E então, Butler diz que o feminismo precisa de uma crítica radical [7] e cita Marx de um jeito que não entendi e parece só estar ali para fazer figuração: “O ponto de partida crítico é o presente histórico, conforme Marx coloca”. Aí ela diz que se tem que formular uma crítica a essas estruturas jurídicas que engendram e imobilizam, de dentro do sistema. Ela tá certa ao afirmar que não dá pra sair de dentro do sistema — quantas de nós não batemos cabeça diariamente tentando abolir hábitos e costumes que o patriarcado ensinou para nós, muitas vezes sem sucesso? Mas ela está bem errada em dar a entender que é impossível mudar esse sistema, e que o melhor a fazer é uma revolta conformada, “in trouble. Se ela partisse da história poderia ver que transformações sociais são possíveis e acontecem o tempo todo. Mas é como ela disse no prefácio: se não dá pra vencê-los, junte se a eles e tente conviver da melhor forma possível.

A autora fala que esse período, chamado de pós-feminismo, é uma oportunidade de se repensar e construir o sujeito do feminismo [8], porque se precisa de uma repensada radical na construção ontológica de identidade dentro da prática política feminista. Ela fala que talvez seja a hora de uma crítica radical [vide nota 7] que procure libertar a teoria feminista da necessidade de se construir uma categoria incontestável que exclua aqueles que ela mantém de fora [9]. E aí ela faz outra pergunta (ela adora fazer perguntas): “As práticas exclusionárias que permeiam a teoria feminista na noção de ‘mulher’ como sujeito paradoxalmente minam os objetivos feministas no sentido das suas reivindicações de ‘representação’?” [vide nota 1]

Butler faz mais uma pergunta interessante: se a categoria “mulher” for tão estável como advoga o feminismo, isso não seria uma reificação [10] das relações de gênero? Para ela, “mulher” é uma categoria tão opressora e normatizadora que não são as mulheres que sofrem as normatizações de comportamento, opressões, e explorações de sua sexualidade e de seu trabalho. Não! Para Butler o grande problema é o fato de o feminismo deixar de fora quem não é mulher, porque achar que mulheres existem e são um grupo de pessoas com necessidades e especificidades próprias é se conformar à matriz heterossexual!

Ela vai dizer, então, que um novo tipo de política feminista é desejável (para quem?) para contestar a reificação do gênero, e que “traçar as operações políticas que produzem e escondem o que qualifica como sujeito jurídico do feminismo é precisamente a tarefa de uma genealogia feminista da categoria das mulheres” [grifo dela], que ela vai se propôr fazer. Diz também que não questionar a categoria “mulher” pode impedir a possibilidade de o feminismo ser uma política representacional [Já sabe, né? Vide nota 1].

Aí ela faz uma nova pergunta — naquele jeitinho de retórica dela com o qual já fiquei bem acostumada e que mais afirma que questiona —, querendo saber que relações de dominação e exclusão estão sustentadas nesse foco de representatividade nas mulheres. É no mínimo engraçado que no único momento de que me recordo ver Butler usando uma palavra mais incisiva para caracterizar a sujeição de um grupo por outro ela escolha justamente dominação para caracterizar mulheres estabelecendo as fronteiras de sua luta por libertação.

Ela encerra esse subcapítulo com uma afirmação categórica que resume muito bem tudo o que ela papagaiou até aqui:

A identidade do sujeito do feminismo não deve ser o fundamento das políticas feministas, se a formação desse sujeito tem lugar dentro de um campo de poder coberto regularmente pela afirmação desse fundamento. […] ‘representação’ só irá fazer sentido para o feminismo quando o sujeito ‘mulher’ não for presumido em lugar algum.

Interessante uma mulher que definitivamente não se mostra feminista de modo algum dizendo que faz uma crítica ao feminismo “de dentro” do próprio feminismo, que não usou até agora nenhum embasamento feminista, apontar com tanta certeza assim o que o feminismo deve fazer. Interessante também é notar a misoginia internalizada dela — que nem é difícil, porque é bastante visível —, ao enfatizar uma separação tão grande dela mesma do grupo “mulher” e ao sempre usar o termo entre aspas, ou meio que com desdém. Chego a ter pena, mas a verdade é que essa mulher provavelmente nunca leu uma linha de teoria feminista.


Notas

[1] Espera aí, Butler, vamos por partes para ver se eu entendi: 1) mesmo que o feminismo seja bastante variado, você jamais em tempo algum define o que exatamente você chama de feminismo; 2) ao mesmo tempo, você diz que não vai partir de nenhum feminismo específico porque isso seria muito normativo e limitante para o tipo de crítica que você pretende fazer aqui; 3) então, pelo seu texto, dá pra concluir que você acha que o objetivo do feminismo é uma representatividade emancipatória?! Mas o que exatamente seria isso?

[2] Na segunda nota de rodapé ela diz que o “sujeito diante da lei” é uma referência à interpretação do Derrida a Before the law do Kafka.

[3] Ela tá partindo daquela noção idealista de que a realidade se produz através do discurso; “penso, logo, existo”. Ao mesmo tempo, lembro do que ela disse a respeito do gênero que se faz no fazer, aí cruzo com Engels falando em Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem que “a mão não é apenas o órgão do trabalho; é também produto dele”, e minha mente dá um nó.

[4] Algumas das mulheres maravilhosas que vêm estudando este assunto desde o final dos anos 60: Mary Daly, Maria Mies, Rosalind Miles e Merlin Stone. No Brasil, temos a Heleieth Saffiotti. Recomendo dar uma olhadinha em todas elas, garanto que são bem mais fáceis de entender que a Butler; elas não acham chique escrever difícil.

[5] Deve ser culpa das TERFs.

[6] Isso é algo que nem Butler nem os seus discípulos parecem se importar: aparentemente, ser uma fêmea da espécie humana e tudo o que vem de brinde com essa característica pré-discursiva — a menarca, a menstruação, a relação com o corpo e com seus fluídos, a sombra constante do assédio sexual e do estupro, a possibilidade de uma gravidez indesejada e a impossibilidade de se optar pelo aborto… — não faz, para essa galera, a menor diferença. O corpo da mulher, mesmo quando significado pela cultura, aparentemente não existe.

[7] Tadinha… Miga, vem cá, vamos conversar.

[8] “Pós-feminismo” é um termo que em geral descreve exatamente o período de onde Judith Butler escreve esse texto, onde muitas críticas ao feminismo surgiram. Alegadamente, essas críticas têm a intenção de corrigir falhas do movimento, mas geralmente só tacando-lhe o pau mesmo. A Susan Faludi descreve bem o espírito de época desse finalzinho dos anos 1980 e início dos 1990 em seu ótimo Backlash. Mas já aviso que o livro é mó bad vibes: dá um belo de um desânimo.

[9] Mas pensa comigo: pra luta feminista dar certo em favor das mulheres, alguém vai ter que ficar de fora dessa construção, certo?

[10] Note a palavra: “Reificar” significa, num sentido mais amplo, tornar algo real, palpável, material. No Marxismo, reificar é tomar uma abstração ou um objeto e considerá-lo como possuindo existência viva. A qual desses sentidos Butler se refere? Reificação não deveria ser “o fazer que faz o gênero”, ou para Butler esse fazer não precisa de uma manifestação material? Ou, para ela, o problema com a existência material é o que ela chama de “ficção da existência pré-discursiva fundacionalista”? Será que o problema é a coisa (qualquer coisa!) já estar ali antes, e para sua existência ser válida essa coisa precisa ser construída através do discurso? Dúvidas…

Problemão de gênero, parte I: os prefácios

Faz já algum tempo que venho pensando em ler o Gender Trouble, que é basicamente a bíblia do movimento queer hoje. Esse livro surgiu de uma tese de doutorado escrita por Judith Butler em fins dos anos 80, e é seu trabalho mais conhecido, citado e reverenciado. Curiosamente, esse é um livro que, apesar de ser bastante citado nos chamados Estudos de Gênero, é muito provável que se alguém leu, o fez somente por trechos selecionados e xerox.

Sempre que falo desse texto, aponto para a ótima resenha do Rodrigo do Ó, que resume muito bem o ponto central discutido na obra e ainda dá uma contextualizada nos autores citados para sustentar o argumento. Se você ainda não leu o livro e pretende ter uma noção geral do que trata ali, sugiro que leia a resenha do Rodrigo, antes mesmo até de ler esse texto aqui. Vai lá, eu espero. :)

Confesso que, apesar de ter lido uma boa porção dele quando comecei o mestrado, ainda não tinha a carga de leitura que tenho hoje e, na época, não entendi metade do que foi dito e mal consegui contextualizar. É justamente por causa disso — e da sua influência (e dos embates que provoca) nos estudos feministas — que resolvi lê-lo de cabo a rabo e, ao mesmo tempo, ir fazendo uma leitura crítica por escrito dele. É disso que vai tratar essa série de posts que começo hoje e que não tem data ou periodicidade definidas, mas cuja leitura certamente vai acontecer nas minhas tediosas madrugadas insones e pode ser acompanhada on the fly no Twitter através da hashtag #livereadingGT.

Esse texto especificamente vai tratar dos dois prefácios do livro: o primeiro, escrito em 1999, fala das influências, reações e críticas que o livro provocou desde que foi publicado pela Routledge em 1990; o segundo, de 1990, é mais curto e serve mais para apresentar o conteúdo da obra propriamente dita. Já aviso que minha leitura crítica vai partir da minha própria orientação teórica, então deixo de sobreaviso ao eventual leitor ou leitora que aqui é feminismo radical, meu bem!

Prefácio (1999)

Então vamos lá: no primeiro prefácio (segundo na ordem de escrita), a autora vai falar de como ela não imaginava que sua tese seria tida como algo “inovador” na academia e, mais precisamente, na teoria feminista quando do envio dos originais à editora. Ela deixa meio implícito, acho eu, que sua intenção era exatamente essa: Butler afirma que o que queria com esse trabalho era combater algumas formas de teoria feminista, ela mesma se situando como parte do feminismo, olhando de dentro [1]. Ela usa o termo “embattled“, aliás.

Ela continua, então, dizendo que quando começou a escreveu sua tese de doutorado, incomodava bastante a ela o fato de que as noções de masculinidade e feminilidade serem tão exclusionárias e fechadas. Do seu ponto de vista, que enxerga gênero como uma expressão identitária, esse desconforto é até compreensível: se tais coisas fazem parte da expressão do ser das pessoas, e as pessoas acabam sendo punidas caso queiram se expressar de outra forma, é óbvio que se vai frustrar quando se mija fora da bacia. Porém, quando se estuda as formas como se deram essas construções da masculinidade e da feminilidade — que podem ser variar bastante de uma cultura para a outra, mas que são semelhantes o suficiente para serem definidas como duas categorias sociais bastante distintas e hierarquizadas, com uma dominando sobre a outra com base no papel que a pessoa desempenha na reprodução sexuada na espécie humana —, a gente entende que, apesar desses signos acabarem sendo adotados pelas pessoas como expressão de identidade, eles são frutos de um sistema que tem outra intenção. Aliás, ser adotado voluntariamente como parte de si mesmo, tanto pelos dominadores quanto pelos dominados, é justamente onde está a graça e a genialidade desse sistema de opressão, e é justamente o motivo porque é tão difícil se desvencilhar dele.

Butler, no entanto, não entra nessas questões. Ela acha que a estratégia mais apropriada pra lidar com esses “problemas de gênero” é justamente multiplicar as suas formas de expressão de modo a libertar as pessoas dessas amarras. Pensei comigo enquanto lia essa parte que a idéia dela é muito semelhante a tentar evoluir uma espécie que no momento se encontra envenenada por seus próprios hábitos hiperpoluindo seu meio ambiente [2]!

A autora vai ser bastante enfática ao falar de algumas teorizações feministas. Ela defende que algumas críticas feministas tendem à homofobia, mas mais adiante dá para entender que, ou ela entendeu errado o que essas feministas escreveram, ou ela deliberadamente se recusa a se ater ao ponto central do que essas feministas dizem. Butler defende que é preciso ser livre ao se falar de gênero, mas ela mesma diz o assunto não deveria ser tratado da forma como essas feministas o fazem. Ela inclusive usa a expressão “fundamentalismo da diferença sexual” (!). O problema é que ela não se dá ao trabalho de citar essas mulheres todas as vezes, e aí fica complicado saber exatamente do que ela está falando e o que exatamente ela está criticando.

Então, Butler vai falar da sua fundamentação teórica. Ela usa uma expressão que me fez parar para pensar no quanto eu era verde e absolutamente sem repertório algum quando entrei na academia: “Feminismo Francês”. Há algum tempo venho lendo vários livros mais ou menos ao mesmo tempo e, em um deles (Radically Speaking) há uma seção destinada a falar desse tal de Feminismo Francês e do pós-modernismo em geral: o que se costuma chamar de Feminismo Francês é um amálgama americano de alguns autores homens e mulheres que a) sequer são feministas ou têm qualquer relação com o feminismo, b) sequer “conversam” entre si, e, c) sequer são lidos e usados na teoria francesa feminista. A própria Butler vai reconhecer isso, dizendo que assim se corre o risco de ser franco-eurocêntrica, mas que na verdade isso pode ser tomado, segundo ela, como uma americanização da França, uma apropriação subversiva [3].

Ela vai assumir que vai fazer uma reformulação do feminismo dentro dos moldes pós-estruturalistas — feminismo este que ela nunca vai definir ou delimitar, ou seja… —, mas se justifica dizendo que o pós-estruturalismo não é mais formalista porque a teoria crítica rompeu com os estudos culturais, mas que isso ainda não é o suficiente pra dizer que se tratam de escolas diferentes [4]. Como, segundo ela, se apoiar na História não torna uma teoria generalizável, ela vai se apoiar em quê? Isso mesmo, nessa salada de autores franceses: Lacan, Foucault, Lévi-Strauss, Julia Kristeva, e Monique Wittig, principalmente.

Judith Butler vai partir, então, de taras e subversões sexuais para fazer a teoria dela, e não da existência material das mulheres — que foi o que de fato revolucionou os estudos das mulheres nos anos 1970, deu base e fundamento para se montar uma plataforma política de luta, e ajudou a estabelecer as prioridades nessa luta, coisa que, se for ver, hoje se perdeu muito por causa dessas contribuições que teóricos como a Butler deram. Ela cita, então, aquele artigo famoso da Gayle Rubin como ponto de partida. Veja bem: o artigo trata de tráfico de mulheres de um ponto de vista antropológico (isso está no título dele e do livro onde ele se encontra, caso não tenha ficado claro). Ou seja, “práticas sexuais”, nesse contexto, é tráfico e exploração sexual de mulheres! [5]

Aí ela vai falar de como algumas pessoas “expressam gênero” de forma diferentes, questionando, inclusive, “Quando e por quê […] algumas lésbicas butch quando têm filhos, se transformam em ‘pais’ e outras se transformam em ‘mães’?”. Ela acha um paradoxo uma mulher se masculinizar em busca de um status social mais elevado. Já eu acho bastante compreensível [6].

Butler cita Catherine MacKinnon para dizer que as diferenças sociais entre os sexos [ou seja, o gênero] são o que provocam as desigualdades entre os sexos. Esse texto é de 1987 (Feminism Unmodified), e eu mesma o cito em minha dissertação, tanto que o reconheci imediatamente quando li a versão parafraseada de Butler, e sei dizer até mesmo em que página ele se encontra. A MacKinnon trata de gênero como uma forma de hierarquizar as pessoas socialmente a partir de seu sexo, e o que ela está querendo dizer aí é que “a diferenças que atribuímos aos sexos são linhas desenhadas pela desigualdade” (p. 8): as diferenças biológicas não explicam a opressão das mulheres, porque sua opressão não é porque elas são inferiores, mas sua inferioridade é um efeito posterior de uma divisão social que as coloca para baixo na hierarquia.

Butler, por sua vez, vai pegar esse texto para dizer que MacKinnon comete uma tautologia: segundo Butler, o que MacKinnon quis dizer é que o gênero produz o gênero! Ela basicamente iguala sexo a gênero, sendo que — pelo amor da deusa! — a MacKinnon nunca fez isso; o que ela fez foi usar gênero em uma relação de correspondência ao sexo, que é basicamente a forma como a Gayle Rubin propôs a coisa toda quando formulou o sistema sexo/gênero.

É aqui que a coisa toda fica mais clara, e que a gente vai se dar conta de como é que a Judith Butler vai encarar a situação das mulheres na sociedade: ela já parte do pressuposto de que gênero é identidade. O fato de as divisões gendradas existirem, para ela, não significa que gênero seja necessariamente algo hierárquico, porque ela vai pegar o gênero — um conceito usado no feminismo para descrever e desnaturalizar a opressão das mulheres; eu falo um pouco disso neste texto aqui — e vai separá-lo do que ela chama de “discriminação sexual”. Para ela, hierarquia de gênero é basicamente fiscalização de cu [7], e não, como disseram as feministas, uma estrutura social organizada.

A expressão “discriminação sexual” é reveladora aqui, porque mostra que a autora não acredita em opressão/exploração estrutural das mulheres [vide nota 5]. Para a Butler, o machismo é apenas mais um preconceito bobo que existe só na esfera cultural da sociedade, que não tem uma origem, uma história ou um porquê. Ela afirma que não é o fato de marcarem as mulheres numa casta separada/gendrada que as coloca em sujeição aos homens [8], e que por isso não dá pra assumir que gênero é necessariamente hierárquico e, portanto, necessariamente opressivo, porque segundo ela “a performance de subversão de gênero não dá nenhum indício a respeito da sexualidade ou da prática sexual”; de acordo com a Butler, esse é o motivo de porque o argumento da MacKinnon é homofóbico (!).

Butler então vai dizer que tirou sua idéia de performatividade do Derrida, e vai dizer, citando Derrida citando Kafka, que esperar que uma “lei de gênero” funcione acaba produzindo a lei de gênero, numa espécie de self fulfilling profecy: gênero seria performativo no sentido de que a tal essência do gênero é fabricada através de atos gendrados que estilizam o corpo. Ou seja, ela diz que é no fazer que o gênero é feito. Como ela não se apóia na história, ela tá basicamente cometendo a tautologia que lá atrás ela acusou a MacKinnon de fazer! Que é no fazer que o gênero é feito é óbvio, qualquer coisa é feita no fazer [9]. Mas é preciso saber como isso é feito, e pra isso é preciso historicizar a parada. Mas ela escolheu justamente não fazer isso, então…

Ela fala que esse livro não é fruto somente dos estudos acadêmicos dela, mas de sua militância na Costa Leste. Ela diz que foi “em vários encontros, bares e marchas” e que viu “muitos tipos de gênero”. Ela parece buscar legitimizar seu texto falando em militância presencial talvez por causa do seu caráter completamente teórico, mas a mim pareceu como se eu dissesse “vivo dando rolê na Trajano e na São Francisco, sou muito militante, acreditem em mim!” Ela não descreve em nenhum momento o caráter dessa militância. Faz sentido, feminismo virou rolê, né?

Mas divago. Voltando para o texto, Butler dedica um bom pedaço desse prefácio às críticas ao seu estilo de escrita. Segundo ela, não é que ela escreva mal, são as pessoas que subestimam o público. Ela diz que “aprender as regras que governam o discurso inteligível é uma inculcação à linguagem normalizada” e que (se eu entendi e consegui traduzir de forma satisfatória) “os que não se conformam pagam o preço de uma perda para a própria inteligibilidade”. Ela diz que contestar a gramática faz parte de contestar o gênero propriamente dito. Mais adiante: “O que está escondido por trás da insistência em modelos paroquiais de transparência como requisito para todas as comunicações? O que a ‘transparência’ esconde?” A impressão que deu é que ela ficou ofendidíssima com as críticas e está realmente dizendo que a gramática é malvada, tudo isso pra se defender de quem disse que ela escreve mal. Só posso concluir que ela escreve mal de maneira deliberada porque acha chique.

Então, ela fala um pouco sobre o preconceito que sofreu por ser lésbica. Ela não atribui a lesbofobia sofrida ao fato de ser mulher, pelo contrário: ela vai desvincular completamente a sexualidade dela do fato de ser mulher. O que é bem contraditório. Me pareceu aquela coisa do “Não sou uma mulher como as outras” [vide nota 6]. Ela não se vincula às mulheres como sendo parte de uma classe porque isso seria admitir que se está numa posição subalterna na sociedade; isso pra galera liberal é um pecado (“Onde já se viu? Eu, uma mulher sofrida? Não! Eu tenho agência!”).

Butler diz que a premissa do texto dela não é apontar a nenhum feminismo específico [vide nota 1], porque aparentemente usar uma visão feminista para falar de feminismo é normativo demais. Isso talvez explique a ânsia dela de se desvincular de qualquer coisa que a coloque na mesma categoria que as mulheres. Para ela, do drag à transexualidade, é impossível determinar se alguém é homem ou mulher, porque usar vestimenta ou anatomia como critério não dá a ninguém certeza nenhuma [10]. “Quando se questiona tais categorias a realidade do gênero também entra em crise: se torna incerto como se distingue o real do irreal”. O que se tem como real, para ela, “invoca o conhecimento naturalizado do que gênero é”. Ela diz que a missão do livro é “insistir na extensão da legitimidade de corpos que têm sido tomados como falsos, irreais e ininteligíveis”.

Ela continua dizendo que reconsiderou e estendeu alguns pontos do que escreve em Gender Trouble em obras posteriores. Por exemplo, ela diz que algumas pessoas interpretam o modo como ela fala de gênero como sendo algo inventado na cabeça das pessoas, ou algo superficial. Ela justifica essas interpretações como sendo fruto de limitações da linguagem, que a impediram de ser clara o suficiente, porque “o discurso não pertence exclusivamente nem à representação corpórea nem à linguagem” [11]. Diz então que, se fosse reescrever o livro, incluiria discussões a respeito da transgenereidade, da intersexualidade, da sexualidade racializada (tabus contra miscigenação, sexo interracial etc).

Butler encerra o prefácio dizendo que acha muito precipitado reduzir poder à hierarquia, e que isso seria recusar suas dimensões políticas positivas, porque não existiria, segundo ela — e aqui acho que ela faz alusão à Foucault —, posição política sem poder. Eu, pessoalmente, acho que essa é que é uma visão reducionista: só alguém em coma seria vítima por direito (!).

Prefácio (1990)

Aí vamos então ao segundo prefácio, o prefácio original do livro, publicado em 1990. Ela começa dizendo os debates da época acerca da definição do que era gênero eram tão bizarros que não definir gênero parecia que poderia “eventualmente culminar no fracasso do feminismo”. Então ela vai falar de trouble: as normas são um problema, e se rebelar contra elas também causa problemas para o rebelde; já que esses problemas são inevitáveis, ela propõe que o jeito é arranjar a melhor forma de se estar “in trouble” [12].

Depois ela cita Beauvoir para dizer que ser mulher numa cultura masculinista é ser um mistério para os homens. Butler diz que Sartre confirma isso falando que todo desejo é masculino e heterossexual, logo trouble. E se uma mulher, objeto desse desejo, responde ou contesta a autoridade masculina, ela também tá encrencada.

Aí ela vai afirmar que uma vez que o “Outro” fêmea é dependente do macho nessa relação masculinista, a autonomia dela é ilusória, e que é dessa relação de poderes que se vai construir o binário “homem/mulher”, e que tal binário consequentemente se conforma à matriz heterossexual. Então, questiona: “Qual a melhor forma de perturbar as categorias que sustentam a hierarquia de gênero e a heterossexualidade compulsória?”

Então ela vai dizer que o “gênero é um tipo de personificação que passa por real”, e pergunta se o drag, em sua performance, imita o gênero ou “dramatiza os significantes pelos quais o gênero é estabelecido?”. Essa parte é bem interessante porque mostra duas coisas: que o gênero, como teorizado anteriormente pelas feministas dos anos 1970, é uma coisa artificial “que passa por real”, ou seja, sustenta a tese do domínio masculino de que se as mulheres parecem fracas com essas coisas delicadas e saltos altos que usam, então elas são de fato fracas e acabam ficando fracas de fato por internalizarem essas coisas; e que essas “personificações temporárias” do estereótipo feminino, ao mesmo tempo em que faz uso de significantes que não representam a “realidade” da mulher, mas algo que “passa por real”, acabam fazendo uma representação fajuta do real e do que se tem por real. Ou, pra tentar deixar mais claro onde eu quero chegar: esses estereótipos fazem uma imitação da imitação even better than the real thing, mas não chegam a sequer se aproximar minimamente da coisa em si, porque é uma ficção em cima de outra! Porém, a Butler não vai se alongar muito sobre isso aqui — acredito que ela o faça no último capítulo do livro —, e vai se perguntar se ser fêmea é um fato natural ou se sua natureza é construída discursiva e performativamente [13].

Ela explica então que vai usar a genealogia de Foucault/Nietzche para analizar sexo, gênero e desejo como efeitos de uma relação de poder. Segundo ela, esse método se recusa a buscar nas origens dessas coisas seus motivos e meios de funcionamento, porque tá mais preocupada com os efeitos dessas instituições/práticas/discursos, porque segundo ela, eles têm origens muito diversas. Fiquei me perguntando como se faz uma pesquisa dessas sem situar as coisas historicamente, porque a mim me parece impossível, mas vamos lá.

Butler parte do falogocentrismo e da heterossexualidade compulsória, e vai dizer que até mesmo a noção de “fêmea” é problemática. Segundo ela, “fêmea” e “mulher” não têm mais significados estáveis porque são termos relacionais, que só têm significado em relação a outros termos. Ela faz alguns questionamentos que tive que ler umas quinze vezes para entender, mas que dizem basicamente que afirmar que as mulheres têm alguma coisa em comum que as une enquanto classe é limitante. Uma vez que ela não acredita em opressão estrutural e que tudo não passa de uma “discriminação sexual” boba, e não está preocupada com história, origens, desenvolvimentos, e estratégias de ação baseadas nessa realidade de classe, ela provavelmente não espera que as mulheres se unam e lutem juntas por uma causa comum. A questão, pra ela, é individual.

Então ela vai fazer uma apresentação das três partes do livro: no primeiro capítulo, ela vai “reconsiderar o status de ‘mulheres’ enquanto sujeitos do feminismo e a distinção sexo/gênero”, porque segundo ela, sexo é uma “construção fictícia” que “sustenta esses vários regimes de poder”; no segundo, ela vai pegar estruturalismo, psicanálise e estudos feministas acerca do tabu do incesto para mostrar como as categorias discretas de gênero são reforçadas (o famoso “binarismo”); e, finalmente, no terceiro, ela vai usar a Kristeva para mostrar “normas implícitas que governam a inteligibilidade cultural do sexo e da sexualidade”. Ela diz que o livro foi construído pra facilitar convergência do feminismo, do pós-estruturalismo e das perspectivas de gênero gays e lésbicas, e diz que gênero é interdisciplinar demais pra ficar confinado aos estudos de gênero ou estudos das mulheres. Butler afirma que quer radicalizar a crítica feminista [14].

Ela encerra agradecendo os financiamentos aos seus estudos, e falando dos seminários e orientações que recebeu de gente muito fora da casinha durante o doutorado. Os três nomes que conheço da lista: Joan Scott, Donna Haraway (doida) e Linda Nicholson (acha que se você criar seu filho direitinho, ele pode passar pelas mesmíssimas experiências de uma menina [15]).

Enfim, é isso. Vamos ver se dessa vez vou aguentar ler esse delírio todo até o fim.


Notas

[1] Apesar disso, ela não define, até o momento, o que ela tem por feminismo, então fica bastante confuso saber a que ela se refere quando usa esse termo, e até mesmo quais os posicionamentos políticos dela em relação ao feminismo. Os posicionamentos políticos dela, independentemente do que ela considera feminista, ficam bastante claros só de ler esse prefácio, mas é bem complicado chamar isso de feminismo.

[2] Um amigo fez um comentário bastante pertinente no Twitter: “clássico pensamento neoliberal norte-americano, achar que liberdade é ter várias opções de consumo”. Se for pensar em toda a indústria que está por trás da manutenção dessas “categorias de gênero”, faz muito sentido. Vide o que Janice Raymond (1979) chama de “império transexual“, e todo o dinheiro que se movimenta na manutenção de um ideal de beleza feminino.

[3] Eu quase cochilei quando li isso.

[4] Confesso que sei bem marromeno o que todas essas coisas significam, mas deixei essa parte aí caso algum leitor saiba melhor que eu e queira dar umas diquinhas nos comentários. Eu devia ter prestado mais atenção nas aulas de “Fundamentos em Interação”, mas tergiverso.

[5] O jeito que a Butler escreve leva a crer que ela não acredita que as mulheres sejam exploradas, oprimidas, e parte de uma casta inferior na sociedade. Isso vai ficar muito claro mais adiante no texto, porque a autora é culturalista e não materialista: pra ela, as mulheres sofrem, sim, mas apenas porque são diferentes. Para mim isso deixa bastante claro que o tal feminismo da Butler é puramente nominal, porque ela não parece se importar nem um pouco com mulheres e sua situação enquanto mulheres.

[6] A velha história do “ah, você não é como as outras” é uma estratégia de sobrevivência, e uma forma de se masculinizar dentro da própria feminilidade. É uma forma de fugir da feminilidade aprovada pelos homens e, portanto, com menos chances de a mulher em questão sair perdendo individualmente (mas ela pode sair perdendo no contexto geral, ou mais adiante): se sua estratégia é não entrar em confronto direto com os detentores do poder — ou seja, os homens — você vai acabar usando ferramentas do próprio patriarcado para tentar se libertar dele individualmente. Essa libertação individual é uma característica bem marcante do feminismo liberal, e explica porque ele se deu tão bem com a teoria queer.

[7] Os leitores que me desculpem, mas não encontrei expressão mais apropriada.

[8] De fato não é a separação propriamente dita que oprime as mulheres. Essa separação, no entanto, foi necessária para que um sistema de opressão e exploração pudesse funcionar de forma mais eficiente e surgiu junto com ele. Mas vai explicar isso pra quem não gosta de estudar história?

[9] Doh!

[10] Eu tenho alguns critérios para saber se alguém é homem ou mulher. Um deles é se a pessoa me ameaça com estupro.

[11] Tudo é muito ambíguo, nada é real, não se pode ter certeza de nada, a linguagem não ajuda, tudo é ilusão… Que cômoda e muito boa forma ela encontrou de justificar a própria incompetência!

[12] Não dá pra lutar contra o sistema, então conforme-se de outra forma.

[13] Me pergunto se essa mulher nunca sofreu de cólicas menstruais na vida…

[14] Tadinha…

[15] Sério.

Petshop Boys

Quem governa entre os meus gatos hoje é o ruivo gordinho. Já faz um bom tempo que ele tem a preferência em qualquer coisa na casa e, principalmente, na hora de receber a comida. Só hoje, porém, notei essa mudança na pequena política interna da sociedade felina formada em minha casa. Nunca fui atrás de estudar direito como os gatos se organizam socialmente, mas sei o suficiente a respeito deles para saber que é mito a história de que gatos não são seres sociais. Gatos se organizam socialmente sim, e geralmente o fazem de forma estritamente hierárquica.

O líder do bando.

O líder do bando.

Em um bando de gatos é muito comum haver um líder, que subordina outros gatos e os mantém sob seu comando. Qualquer gato (ou gata) pode desafiar o gato chefe, tomar seu lugar, ou até mesmo romper com aquele bando específico e formar seu próprio bando. Um gato, no entanto, não domina somente pela força. Ele podem subordinar outros gatos pelo charme, por ter uma personalidade forte, por humilhação pública… Todas formas de subordinação a que humanos estão bastante bem habituados. Nesse sentido, somos, então, muito parecidos com os gatos.

Gatos podem trabalhar em conjunto sem que estejam subordinados a outro gato, no entanto. A dominação violenta não é a única forma de organização social que os felinos conhecem. Eles podem sim cooperar, e o fazem sob as mais diversas circunstâncias. O fazem por respeito ou simples amizade, e pagam dívidas morais com toda a fidelidade.

Os gatos são muito mais fiéis que os cachorros. É aqui talvez que a maioria das pessoas discorde de mim. Não se engane: eu amo cachorros. Eu possuo a honra de ter a guarda compartilhada do cachorro mais legal do mundo, um adorável beagle de seis anos de idade, sem o qual a vida lá em casa seria muito mais triste. E sendo o tipo de cachorro “mais cachorro” que existe, posso usar o Buddy como referência.

Ao contrário de um gato, um cachorro faz coisas escondidas e tenta enganar seu dono de forma tão frequente, mas ao mesmo tempo encantadora, que não se vê a maior parte das “artes” que um cachorro faz como deliberadas, como frutos de uma mente pensante e consciente. É só um cachorro, coitado! Ele não fez por mal.

O gato não. O gato usa a arma da sedução de outra forma. Quando um gato faz uma travessura, quebra alguma regra, ele se defende do jeito que dá: corre, esperneia, arranha. O gato não usa seu charme para se safar, entretanto. Ele geralmente o usa para obter vantagens, tanto entre os humanos quanto dentro da própria micro sociedade felina onde ele está. Mais comida, mais carinho, um lugar melhor para espreguiçar no sofá da sala… É por causa dessa diferença na hora de gerenciar conflitos e obter vantagens que o gato é visto como falso, como não confiável, como traiçoeiro — apesar de ser absolutamente honesto.

Meu gato laranja nunca dominou nada, e eu duvidava que um dia ele pudesse entrar na disputa. E principalmente porque meus outros gatos têm forças muito evidentes, coisa que o gato laranja não tem. Mas ele abraçou a majestade de um jeito que eu jamais imaginei que um slumdog como ele faria.

Ementa

Em virtude do ambiente em que estamos inseridos nas redes online no mundo em que vivemos, onde interfaceamos nossas vidas com inúmeros indivíduos em comunidades internéticas que se interseccionam multiplamente, é mister que novas áreas de pesquisa sejam criadas. O objetivo dessa criação de novas áreas é estabelecer limites não abarcados pela interdisciplinaridade, uma vez que ela mesma, ainda que proporcione uma visão global do todo, do Ser e do Nada, fragmenta e atomiza o conhecimento produzido. Tá na hora de organizar a parada e, para expandir as fronteiras do conhecimento humano no que diz respeito às novas tecnologias, proponho aqui, então, a criação de um novo curso superior, o curso de Tretas.

Screen shot 2015-05-29 at 20.54.04

O curso de Tretas, além do nome, possui outras semelhanças com o curso de Letras. Porém, ao invés de estudar as manifestações literárias de determinado povo e seu idioma, tal disciplina se dedicará a estudar, obviamente, tretas, aquelas que acontecem onde dois ou mais estiverem reunidos em nome da Discórdia. No curso, o estudante distrincharia threads de fóruns em comunidades online, registrando e interpretando as interações, os assuntos, o meio e a mensagem tais como eles ocorrem, e elaborando teorias sobre essas manifestações da comunicação digital internética.

Falando nisso, acabo de elaborar uma teoria no seio dessa recém-criada Ciência Humana proposta por mim mesma. Vou chamar de Teoria da Biblioteca. Parto do princípio de que para funcionar em harmonia e sem a presença de tretas, uma comunidade online precisa ser gestada a partir das regras de convivência básicas de uma biblioteca. Seriam elas:

  • As pessoas dentro da comunidade precisam observar o seu tom de voz. Se falar muito alto pode atrapalhar os demais estudantes e levar por água abaixo toda a interação comunitária. Quem falar mais alto que o socialmente acordado e afixado no cartazinho na parede leva pito.
  • Ainda que a regra anterior precise estar acima de todas as outras para a coisa funcionar, ninguém precisa deixar de conversar e expôr o que pensa por causa disso. Por mais que a tia da biblioteca brigue, todo mundo dá seu jeito, todo mundo se conversa — seja desenvolvendo técnicas avançadas de sussurro, seja por bilhetinhos — porque quem não se comunica se trumbica.
  • Não se briga dentro da biblioteca. Até ocorrem desentendimentos, mas eles não podem ser levados adiante dentro da biblioteca. A biblioteca é sagrada. Quer dar porrada, faça isso lá fora. Aqui não, violão.
  • Danificou qualquer coisa, deu perdido, sumiu material? Multa.

Vou provar essa minha tese fazendo um estudo sócio-micro-histórico usando “Os Estabelecidos e os Outsiders” de Norbert Elias como fundamento, e quem sabe também a teoria do Flow do Mihaly Csikszentmihalyi. O Elias vai servir como ponto de partida metodológico de como surgem e se desenrolam os conflitos dentro de pequenas comunidades. O Csikszentmihalyi eu só resolvi botar porque o nome certamente vai impressionar a galera da banca e vai ser divertido vê-los tentando pronunciar esse negócio — além, é claro, de ele ter uma teoria bem bacana sobre como, quando e durante quanto tempo as pessoas se divertem, isto é, entram no tal do flow. Vai ser uma revolução na academia! Me aguardem!

All your base are belong to us

Agora que o perigo parece ter passado, posso contar essa história para vocês. É sobre a internet.

A internet antigamente era de acesso bem restrito. Antes dos civis poderem usar, e por um preço muito proibitivo para a maioria das pessoas, só o exército e as universidades tinham acesso. A maioria das pessoas acessava só após a meia-noite e em fins de semana, porque o acesso era via telefone e o pulso era único. A conta ficava mais barata assim, e tudo era muito, muito limitado. Com a tecnologia atual, a gente assiste filme pela internet, uma coisa literalmente impossível de se fazer com internet discada. A Fabiane de 2000 teria ficado maravilhada com coisas como Netflix e Spotify; a Fabiane de hoje fica muito brava quando o Netflix engasga, esquecendo completamente do estado das coisas quando as conheceu. A internet era uma merda, mas era fascinante.

Uma coisa que não havia na internet era indexação. Isso deixava toda a rede às escuras, como é hoje a Deepweb. Você só conseguia acessar um site se tivesse posse de uma informação fundamental: seu endereço*. Por causa dessa deficiência, começou-se a publicar índices impressos em papel. Assim, você teria visitas em seu site se tivesse acesso a essa parte do mundo material. Os agregadores de links eram o mais próximo que se tinha de indexação na internet, funcionavam basicamente como esses livros e também tinham seus endereços catalogados em mídia impressa se fossem populares o suficiente. Boa parte das empresas que faliram no estouro da Bolha no fim dos anos 1990 eram agregadores, sites que dividiam links em categorias e traziam uma breve descrição sobre eles. A empresa daquele cara que dá palestra sobre desapego gerenciava um site assim, o Sobre Sites. Eu gostava do Sobre Sites.

Os blogs são descendentes diretos desses agregadores. O formato original do blog é o de agregador de links; a diferença que o blog estabeleceu entre si e o agregador de links era a de que suas entradas eram registradas de forma organizada (e automatizada) por data. Antes disso, os webmasters apenas anotavam manualmente a data da última atualização do site no rodapé. Agora era possível navegar pelo arquivo e revirar a história de uma página específica de forma ordenada. Essa característica cronológica aproximava esse formato internético do log. Log, na computação, geralmente é um arquivo em texto puro que registra o que está havendo no sistema em um determinado momento, anotando data e fato. Um diário de bordo automático. A diferença do log para o blog é que o blog não é feito por um robô, mas por uma ou mais pessoas.

Importante notar que o blog não é nem um agregador, nem um log, apesar de todas as suas semelhanças. É uma coisa totalmente diferente desses dois, porque é filha sua: um amálgama**.

O conteúdo dessas e de outras mídias passou a ser cada vez maior nominalmente, mas havia muita cópia, muita informação redundante. Quem se destacava não necessariamente era quem tinha o melhor conteúdo, mas quem melhor conseguia chama a atenção dentro e fora da rede. Alguns kibadores*** realmente fizeram e fazem sucesso com conteúdos que não são seus. E muita gente também atingia notoriedade anonimamente, ghost writers não oficiais de escritores como Arnaldo Jabor, Luís Fernando Veríssimo e Clarice Lispector. Não se sabe de quem são os textos atribuídos a estes escritores ou por que motivo foram atribuídos erroneamente. Duas maneiras de fazer sucesso, de qualquer modo.

Uma vez que esse conteúdo acumulado vai ficando exponencialmente maior, mais irrelevante e caindo cada vez mais no olvido, há muito lixo. Muito, muito lixo! Muita coisa já saiu do ar ou foi substituída, muita coisa ainda pode ser redescoberta. Muito conteúdo que já se julgava completamente perdido e esquecido pode voltar à tona, como aquele beirute suspeito que você jantou ontem e jurava que já tinha digerido.

Contei pra vocês a história da internet para dizer apenas uma coisa: nunca me senti tão feliz de ter apagado — acredito que dessa vez em definitivo — conteúdo que eu mesma criei e compartilhei de livre e espontânea vontade anos atrás, e jurava que já não existia mais.


*Isso dá abertura para uma série de teorizações semióticas, mas acredito que não tenho competência suficiente para falar disso agora, e nem quero.

**Por todas as suas características, o blog ficou conhecido na cultura popular — isto é, off line — pelo nome de “diário virtual”. Muita gente tentou se desvencilhar dessa associação, mas a rigor é exatamente isso que um blog é. Não importa o que você registra lá, o que importa é que o faça de maneira cronológica, e seja uma pessoa escrevendo.

***Kibe, um dos mais populares neologismos da internet do Brasil. Significa copiar sem autorização, e faz referência ao publicitário Antonio Tabet (Kibeloco), hoje parte do elenco do grupo Porta dos Fundos.

Aprendendo a aprender

No primeiro texto depois que voltei a escrever no blog eu disse que escrever é um talento que se desenvolve através da prática, e que existe técnica envolvida. Quando disse aquilo não o disse por ser uma expert no assunto e ganhar dinheiro dando aulas disso por aí; simplesmente concluí que, como toda atividade e talento que parece inato, escrever é, antes, uma habilidade que se desenvolve.

Ainda que eu não esteja colocando aqui o resultado desses meus treinos, tenho escrito muito. Em quinze dias foram oitenta e sete páginas de um caderninho que uso para anotações, devaneios, estudos… enfim, qualquer coisa em que eu estiver pensando no momento. Escrevo todos os dias, e quando não estou escrevendo, penso no que poderia escrever. Todo esse treino tem rendido bons frutos, mas o principal deles é que finalmente entendi como funciona o processo através do qual adquiro um conhecimento ou habilidade.

OK, não. O que compreendi na verdade é a forma pela qual eu NÃO aprendo alguma coisa. E, sendo sincera, é algo que eu já sabia o tempo todo.

Explico: minha forma de aprender não pode envolver qualquer tipo de regra. Eu nunca aprendi direito, por exemplo, a regra da crase. Sempre que digo isso aparece alguma bem intencionada criatura para dizer que “ah, mas é simples, quer ver só?”, e me explicar novamente a tal da regra da crase, ignorando totalmente meus protestos dizendo que assim não vou aprender nunca, e achando que é total falta de vontade de minha parte*. Eu nunca vou aprender isso na minha vida, não desse jeito.

Porém, eu sei — e sei que sei — um milhão de outras regras que nunca me esforcei para aprender porque adquiri esse conhecimento de forma muito natural: vendo aquelas palavras passarem diante dos meus olhos incontáveis vezes e notando os padrões. Foi assim que aprendi inglês**, é assim que quero aprender (de verdade, e não esse portunhol sem vergonha que todo brasileiro acha que sabe) espanhol. É por isso que gosto tanto de História, Literatura e narrativas em geral; aquele emaranhado de fios que posso ir desfazendo os nós e tecendo significado. Foi por causa disso que as Ciências Exatas se tornaram um completo enigma para mim*** e, obviamente, o motivo pelo qual me tornei essa esponja de assuntos aparentemente desconexos que os mais espertos chamam de interdisciplinaridade.

Talvez isso seja um tipo de inteligência — ou um tipo muito grave de deficiência de raciocínio abstrato. Mas entendendo como eu aprendo as coisas, fica muito mais fácil aprender qualquer coisa. Inclusive Matemática.


*Porque parece mesmo. E talvez seja.

**Não sou fluente porque tropeço nas regras. Sempre tem uma delas para atrapalhar meu caminho…

***A Física, em compensação, eu entendo melhor. Deve ser porque ela tem “porquês” que a Matemática propriamente dita não tem.

Pense diferente

Recebi a newsletter semanal da Apple e a atirei direto no lixo.

E ainda tem o feature de não funcionar com pulsos tatuados.

E ainda tem o feature de não funcionar com pulsos tatuados.

Lembro de quando me mudei para Curitiba, dez anos atrás. Era uma capirona crente e assustada com a baita diferença social que me separava dos meus colegas de faculdade. A gente sabe que existe gente inimaginavelmente muito mais rica, mas é como o caviar: se você for pobre, dificilmente vai passar perto de uma coisa dessas. Mas eu tinha praticamente ganhado na loteria e estudava em uma das melhores (e mais caras) universidades particulares do estado, quiçá do Brasil, graças a um programa do governo que à época ninguém sabia direito como funcionava, e que mais tarde catapultou as participações no Exame Nacional do Ensino Médio — que agora servia para alguma coisa.

Na universidade tive acesso a um milhar de equipamentos e infraestrutura que jamais seria possível de outra forma e com os parcos rendimentos da minha família. Essa consciência tão palpável de diferença me fez desistir de sequer aprender a manusear uma câmera fotográfica de forma apropriada já no primeiro ano de curso pelo simples fato de que, pelo menos a médio prazo, eu jamais seria capaz de comprar uma daquelas, nem das mais simplezinhas. E eu nunca pensei muito no futuro; o futuro estava longe demais, e o que seria de mim depois de pegar o canudo era uma incognita tão grande que eu mal conseguia fazer planos.

No segundo ano de curso fiz estágio em um dos laboratórios da universidade, onde tive acesso irrestrito a computadores da Apple. Em sua maioria eram daqueles iMacs do começo dos anos 2000, aqueles G3 Indigo. Logo a instituição começou a trocar as máquinas, e então chegaram os primeiros iMacs daquela primeira geração que era feita de policarbonato branco. Eu era fascinada por tudo aquilo. Mesmo. No sentido de ter me imergido tanto nessa coisa que se a menor chance me fosse dada eu só falaria daquilo. Para ter uma noção, a coisa era patética a ponto de eu passar minhas férias dentro daquele laboratório porque não tinha amigos nem nada melhor pra fazer*. Eu disse que era muito caipira.

Anos depois consegui meu primeiro computador Apple, uso um iMac de 17″ no trabalho, dois iPods touch**, um iPod shuffle da primeira geração e um iPod nano da segunda já passaram pela minha mão. Sequer lembro como se usa Windows ou aquele amálgama que chamam de sistema operacional e que atende pelo nome de Linux. De fato gosto muito dos produtos, mas aquele encantamento deslumbrado obviamente passou. A gente cresce e amadurece — no meu caso, de uma forma bastante tardia em relação às pessoas da minha faixa etária devido ao meu isolamento social —, e vê que a vida adulta é sim ter o poder de escolher almoçar sorvete e não precisar encher o saco dos pais para ter um carregamento de Chamyto na geladeira, mas também é pagar seu próprio aluguel e se dar conta de que alguns produtos jamais vão estar na sua prateleira a menos que se financie em incontáveis prestações. Se meu Mac mini começar a pedir água logo, meu próximo computador infelizmente não será um Apple***.

Como disse lá no início, recebi a newsletter semanal da Apple e a atirei direto no lixo. Eu não faço parte desse mundo.


*Na minha época, as leis que regulavam estágio eram muito mais duras. Hoje estagiário tem até férias remuneradas, algo impensável até 2009.

**Preciso um dia contar a história de como escrevi pelo menos dois terços da minha dissertação usando meu iPod, o Google Drive, e um tecladinho bluetooth da Clone.

***Mas pode ser um Hackintosh.

Breve história do Gênero

Olá, meu nome é Fabiane, e vou guiá-la/o agora através de uma curta mas informativa jornada sobre a origem e os usos do termo “gênero”. Tentei ser o mais clara e o menos acadêmica possível, mas se dúvidas surgirem é só usar os comentários. :)

A palavra “gênero”, originalmente, designa um sistema de classificação nominal das línguas, que atua sobre substantivos, adjetivos etc, e é mais ou menos arbitrário. Em geral ele se relaciona ao sexo biológico, mas isso não necessariamente acontece em todos os idiomas. Nos idiomas indoeuropeus há essa relação com o sexo biológico, e geralmente existem três gêneros: masculino, feminino e neutro. Em português, o gênero neutro também existe, e é flexionado no masculino. Isso é tema para outro texto — e definitivamente não é o maior dos nosso problemas.

Por em geral se relacionar ao sexo dos indivíduos aos quais se refere em determinado idioma, o termo foi emprestado da linguística para a medicina por John Money, que passou a utilizá-lo entre os anos 1950 e 1960, também arbitrariamente, para diferenciar aspectos sócio-culturais de comportamento entre homens e mulheres. Ele defendia que tais comportamentos — surgidos, propagados e reforçados no interior da cultura — eram inatos: ou seja, mulheres e homens agem de tal e tal forma pois são “programados” para agir assim. Money também fez experimentos eticamente duvidosos em crianças, intersexuais e homossexuais, pois para ele quem não se conformava ao seu “gênero” só podia ser doente e necessitado de tratamento*. Se o termo “cura gay” passou pela sua cabeça neste momento, não é por acaso.

Na teoria feminista, o termo “gênero” foi popularizado pela antropóloga Gayle Rubin em 1975 no artigo “The Traffic in Women: Notes on the ‘Political Economy’ of Sex” [em português, “O trafico de mulheres: notas sobre a ‘economia política’ do sexo”]. O artigo é muito bem estruturado e o argumento de Rubin, muito bem desenvolvido. Mas tudo o que ela escreveu neste ensaio poderia ter sido escrito sem o termo “gênero” como mediador, porque só descreve a velha relação de exploração que tem como base o sexo biológico, infligida às mulheres pelos homens. Resumindo: “gênero” é um eufemismo que esconde a dinâmica dessa relação. E não que eu queira envenenar o poço, mas quase dez anos mais tarde, Gayle Rubin escreveu um artigo onde advoga abertura para se lidar e pensar o que ela chama de “cross-generational encounters“**. Sim, é exatamente isso que você está pensando.

Por causa desse artigo divisor de águas na história da teoria feminista, o termo “gênero” passou a ser utilizado largamente*** e, desde então, já sofreu modificações bastante drásticas em seu conceito e significado. Hoje se diz nos círculos acadêmicos que gênero é uma identificação com os signos usados socialmente para demarcar os territórios masculinos e femininos, e diferenciar homens e mulheres — saltos para restringir nossos movimentos, maquiagem como forma de dizer que o que importa é nossa aparência e que nunca seremos boas o suficiente nem nisso, implicações a respeito de uma suposta inferioridade intelectual das mulheres em relação aos homens como desculpa para nos manter longe da educação formal… a lista é imensa —, e que o ser mulher ou homem não é uma característica dada**** e independente de vontade individual, como o é a cor da pele ou a nacionalidade, mas uma identidade. É quase como dizer que os escravos romanos se identificavam com seus grilhões e gostavam muito de usá-los. Quase.

quote-beauvoir

Com essa breve história do gênero, eu queria apenas esclarecer e pedir encarecidamente a todas e todos que fazem uso desse conceito para que, se o forem utilizar, não o façam desinformados. E lembrar que não precisamos dele para teorizar sobre o patriarcado.


*Na mesma época em que foi feita a primeira cirurgia transsexualizante, Alan Turing foi condenado a tomar os mesmos hormônios utilizados no tratamento de mudança de sexo para que abandonasse a homossexualidade. Tendo estudado esse assunto à fundo, eu não acredito que isso seja mera coincidência.

**”[…] cross-generational encounters are still viewed as unmodulated horrors incapable of involving affection, love, free choice, kindness, or transcendence.” (RUBIN, 1984. p. 153)

***Já em 1975, quando “gênero” ainda não era popular e Gayle Rubin estava rascunhando sua obra mais famosa, uma publicação feminista fez uma crítica e um apelo para que se parasse de usar o eufemismo “sex role” em artigos feministas.

****Existe toda uma discussão a respeito da construção social da sexualidade, e eu não de todo discordo dela. Não vou abordá-la aqui para não me estender muito, mas deixo alguns exemplos: nós construímos nossos hábitos sexuais socialmente quando tomamos pílula e quando, enquanto sociedade, condenamos a promiscuidade nas mulheres. Isso não significa, porém, que machos e fêmeas deixam de existir. Pelo contrário: as relações humanas são bastante marcadas por essa característica biológica.

Triplog #4

3 de abril de 2015, 8:20 (hora local)
Nos levantamos às cinco e pouco da manhã, carregados o carro e, assim que a chuva deu uma trégua, caímos na estrada. Não sei se é efeito dessas estradas horrorosas do Mato Grosso, mas meu pai, o melhor motorista que eu conheço, parece ter ficado mais imprudente com a idade.

3 de abril de 2015, 9:44 (hora local)
Passando por Sinop. Finalmente uma rodovia duplicada.

3 de abril de 2015, 11:04 (hora local)
Entrando em Lucas do Rio Verde. O que eu escrevi sobre rodovia duplicada na entrada anterior foi uma mera ilusão: só tem rodovia duplicada na entrada dessas cidades maiores como Sinop, Sorriso e Lucas do Rio Verde.

3 de abril de 2015, 16:44 (hora local)
Saindo de Cuiabá. Pelo tamanho do aeroporto que serve a região, eu achava que a cidade era bem menor. Pista dupla somente entre alguns poucos trechos entre Diamantina e Cuiabá. Tivemos sorte de pegar chuva no trecho do calcário.

3 de abril de 2015, 20:04 (hora local)
Acabamos de passar a divisa entre os Mato Grossos.

4 de abril de 2015, 10:47 (hora local)
Passando por Campo Grande. Ontem dormimos num ótimo hotelzinho em Sonora-MS. O WiFi estava tão bom que aproveitei pra tirar o atraso de Mad Men e vi 274685 episódios. Deu trabalho pra levantar hoje cedo.

4 de abril de 2015, 13:41 (hora local)
Queria entender como surgiu esse código visual usado nas estradas. Não o código das placas, o das estradas mesmo. Essa coisa de branco como sinal de que as faixas pertencem ao mesmo sentido, amarelo separando faixas de sentidos diferentes; de faixa contínua assinalando ultrapassagem proibida, faixa tracejada indicando ultrapassagem permitida. Quem bolou isso tudo? Como isso se estabeleceu como código internacional? Houveram objeções? Que livro será que posso consultar pra descobrir?

4 de abril de 2015, 17:02 (horário de Brasília)
Acabei de atravessar a ponte sobre o rio Paraná. A caminho de Presidente Prudente.

4 de abril de 2015, 19:47 (horário de Brasília)
Chegando em Maringá. Detesto. Odeio. Eu nasci nesse maldito lugar.

6 de abril de 2015, 3:39 (horário de Brasília)
Estou na casa de um primo meu em Maringá lutando pra tentar dormir e está impossível. Estou morta de cansaço, pensando em fazer um pacto e vender minha alma para o primeiro demônio que aparecer na minha frente prometendo que vai me fazer dormir.

Fui com alguns amigos no cinema e vi um filme em que a Julianne Moore sofre de Alzheimer e saí de lá em pânico achando que estou numa situação muito pior que a da protagonista, porque certamente meu cérebro está ordens de magnitude mais deteriorado que o dela; fiquei achando que breve é o dia em que vou mijar nas calças porque me esqueci onde é o banheiro. O primo disse que provavelmente não tenho doença degenerativa alguma, que é estresse e que eu deveria tratar a causa dele.

Pensando bem, acho que foram muito poucos os dias em que me senti descansada desde… Desde… Acredito que desde que terminei a faculdade — e isso já fazem seis anos. Tirei três férias nesse meio tempo (esta é a terceira), e para dizer a verdade não relaxei absolutamente nada em nenhuma delas, ao ponto de pegar raiva do conceito “férias”: além de me ser um período inútil e improdutivo de tempo, não servia nem ao menos para deixar a mente mais leve.

Preciso dar um jeito nessa ansiedade.

6 de abril de 2015, 15:26 (horário de Brasília)
Finalmente conseguimos sair de Maringá. Passando por Mandaguari, uma loja de beira de estrada chamada “Loja Country Cowboy Life”. O Paraná é o Novo México do Brasil.

6 de abril de 2015, 16:16 (horário de Brasília)
O Paraná é um dos estados mais criativos quando se trata de batizar suas cidades com nomes esdrúxulos. Só o trio Rolândia, Borrazópolis e Ponta Grossa tem toda uma mística, uma mensagem subliminar, e provavelmente uma explicação bastante razoável pra homofobia generalizada dos nossos representantes estaduais no Legislativo.

6 de abril de 2015, 21:06 (horário de Brasília)
Chegamos à Curitiba. Não existem palavras para descrever o quanto eu amo essa cidade.