Resenha: A Arma Escarlate

Desde pelo menos o século XIX os escritores brasileiros têm procurado, com níveis variados de sucesso, encontrar uma identidade nacional na literatura. Um dos primeiros movimentos a tentar isso foi o Romantismo, numa época em que não apenas o Brasil, mas outros países também buscavam uma voz que os caracterizasse. O Romantismo, no entanto, utilizava fórmulas e arquétipos já altamente desgastados (ou consagrados, a depender do otimismo do leitor), como por exemplo a figura do índio de moral irrepreensível fazendo as vezes de cavaleiro andante, já que o Brasil, por assim dizer, não possui um passado medieval.

Mais algumas décadas adiante no tempo, outros artistas resolveram que também eles se lançariam na busca por uma identidade cultural brasileira, com incursões em pintura, prosa e verso: os Modernistas. De certa forma atingindo seus objetivos — quem pode negar que eles obtiveram sucesso? —, a proposta moderna era deglutir a arte vinda da Europa, absorver o que ela tivesse de melhor, misturar com a arte produzida no país e regurgitar uma arte genuinamente brasileira. O problema era fazer isso num país majoritariamente agrícola povoado por analfabetos, mas os Modernistas não se deixaram intimidar. Eles sabiam o que estavam fazendo, e mesmo que não soubessem, podiam aprender. Eles eram viajados, cosmopolitas, seus pais tinham-lhe pago os estudos nas melhores cidades do Velho Continente. Os Modernistas embarcaram em expedições pelo interior e viram com seus próprios olhos, e com uma visão de mundo sua, as realidades do Brasil. Voltaram cheios de idéias, que imediatamente colocaram no papel e nas telas.

Quase cem anos depois de um dos mais importantes movimentos artísticos brasileiros ter feito sua famosa semana de arte, alguns escritores com características semelhantes o suficiente para serem agrupados sob uma mesma categoria começaram a publicar seus livros. Eles escreviam sobre elfos, vampiros, fadas e batalhas sangrentas entre senhores de castelos, mas com uma voz bastante singular. Em um primeiro momentos pagando as impressões do próprio bolso, mas à medida em que iam caindo no gosto popular, passaram a ser convidados por selos editoriais grandes para publicar suas histórias. Surgia, assim, a Nova Literatura Fantástica Brasileira. O termo foi emprestado de um artigo publicado no site Papo de Homem (perdoem o link, mas era necessário), que apresenta os expoentes dessa turma com interessantes argumentos como:

Acontece que, a crítica literária no Brasil, embora comece a apresentar sinais de mudança, ainda é bastante engessada no academicismo. Ela costuma considerar como “boa literatura” apenas aquelas obras feitas por – ou referendadas por – gabaritados professores universitários.

No meio do presente ano eu, que já tinha tido contato com algumas dessas obras e esporadicamente fazia críticas jocosas e despretensiosas a respeito delas em minha conta no Twitter, resolvi criar uma página no Facebook, porque qualquer coisa que eu transforme em hobby logo se torna uma espécie de obsessão. Para alimentar tal página, fui atrás de ler pelo menos os primeiros capítulos de autores como Carolina Munhoz, Leonel Caldela, Eduardo Spohr — que, inclusive, foi muito gentil, aceitando minhas mini-críticas muito bem, apesar de eu desconfiar seriamente que ele anotou meu nome no caderninho preto —, Raphael Draccon — este não muito gentil —, entre outros.

Não me lembro exatamente como me caiu às mãos uma amostra do livro “A Arma Escarlate”, de Renata Ventura, que eu logo tratei de destacar alguns trechos e postar na página. Não demorou muito, a fúria dos fãs foi despertada e centenas deles invadiram a página, o que me proporcionou certa diversão. Os fãs, em sua maioria bem jovens, me desafiaram a ler o livro todo, o que me propus a fazer quase que imediatamente por pura curiosidade mórbida aliada à proximidade de minha banca de defesa do mestrado e a necessidade de ocupar a cabeça com alguma bobagem leve antes que ela entrasse em combustão espontânea.

À primeira vista, o livro de Renata parece ser uma fanfic de Harry Potter cujos fatos transcorrem de maneira concomitante aos dos livros de J. K. Rowling, com a diferença que se passavam no Brasil. Uma Elsewhere Fic. A leitura mais atenta confirma a impressão, e a própria autora mais ou menos admite isso na introdução, ainda que tenha dito que fica triste quando alguém chama seus livros de fanfics — até o momento, dois foram publicados.

A preocupação de Renata com a valorização da cultura brasileira é bastante visível ao se pesquisar sua produção ficcional e acadêmica. Nascida no Rio, a autora morou alguns anos nos Estados Unidos, onde iniciou uma graduação não concluída em Comunicação Social na Universidade de Houston, e mais tarde se formou em Jornalismo pela PUC-Rio. Em 2006 ela concluiu a graduação com a monografia “100% off: Manual do Colonizado”, onde discorre sobre a colonização cultural de que sofre o brasileiro médio. No mestrado, soube que ela estudou transposição cultural, mas não descobri muita coisa pois ela não atualiza o currículo Lattes desde 2010.

Em “A Arma Escarlate” acompanhamos a história de Idá, que mais tarde assume o nome de Hugo Escarlate. Ele é um garoto recém-admitido nos esquemas de tráfico de drogas do morro Dona Marta, no Rio de Janeiro, que descobre que é um bruxo e que foi chamado para estudar em uma escola de magia em regime de internato, a Nossa Senhora do Korkovado. A história então segue acompanhando a adaptação do menino àquele novo mundo, desconhecido para Idá/Hugo, mas muito familiar para os fãs da série da autora escocesa, ainda que a versão brasileira insista em mudar os nomes e alterar — de leve — alguns conceitos do universo Potter.

Não consegui, porém, terminar a leitura. O problema não era exatamente não ser uma história completamente original que tem como base uma série que cresceu comigo e com muitos de minha geração. Também não era a linguagem adotada por Renata, mais leve e menos pretensiosa que a de seus outros colegas de “movimento”, que tentam emular seus mestres enchendo páginas e páginas de descrições detalhadas intermináveis de batalhas épicas cheias de termos rebuscados e verbos no pretérito mais-que-perfeito. Não era nem mesmo a apropriação e a modificação a bel-prazer de um universo consagrado, o que pode levar os fãs mais antigos como eu à loucura (eu não chego a tanto).

O problema era… eu nem sei por onde começar!

Existe uma diferença bastante grande entre se propor a fazer algo e efetivamente conseguir. O que Renata intentou — e aqui estou me baseando em entrevistas, vídeos e postagens que ela própria fez em meu perfil pessoal do Facebook — foi algo louvável: criar um punhado de personagens adolescentes, brasileiros, com quem outros adolescentes pudessem se identificar vivendo uma história empolgante e pontuada de referências à cultura popular nacional e estrangeira, e cujos acontecimentos pudessem remeter diretamente à nossa história como nação. Dada a reação de seus fãs, ela de certa forma conseguiu. Mas a meu ver o objetivo foi atingido de maneira meio torta.

O livro faz uso freqüente de regionalizações estereotipadas nas falas dos personagens. Chega ao ponto de o garoto mineiro se parecer com uma versão Chico Bento de Colin Creevey. Apesar de a maioria dos falantes do Português Brasileiro não pronunciarem a letra “o” aberta, o “e” se assemelhar mais a um “i” em alguns casos, e raramente alguém se dar conta de que talvez possa existir um “r” no final de algumas palavras na fala cotidiana, o texto faz questão de apontar estes “erros” nas falas dos personagens pobres e/ou ditos mais ignorantes. E nem me arrisco a comentar qualquer coisa a respeito da forma como a mitologia indígena e afro-brasileira foi utilizada, porque pelo menos eu admito que nem sete anos de estudo me possibilitarão ter uma visão que não seja “antropológica” do assunto. Outras pessoas, porém, me revelaram seu incômodo quanto a isso nas redes sociais.

Talvez por eu ser uma historiadora frustrada e Renata fazer parte de uma categoria profissional que me provoca sentimentos contraditórios — nada contra jornalistas, tenho até amigos que são —, me incomodou bastante a forma como a escritora faz uso dos acontecimentos históricos. Numa tentativa de ser didática e provocar curiosidade no leitor adolescente sobre sua própria história, Renata cita fatos de uma forma um tanto amadora. Não que eu espere que um livro que se apóia em história alternativa para construir seu universo ficcional seja exato do ponto de vista histórico, mas afirmar que D. João VI provocou a derrocada de Napoleão ao fugir com a corte portuguesa para o Brasil de maneira bastante ufanista é um pouquinho demais. Até Laurentino Gomes ficaria envergonhado.

Quanto à forma, já comentei aqui que a prosa de Renata Ventura é leve e despretensiosa. Ela faz uso freqüente de recursos gráficos ao longo do texto — versaletes, itálicos etc —, algo que não condeno de pronto, visto que a fala de um dos meus personagens favoritos em “Discworld” é destacada desta maneira. Mas em “A Arma Escarlate” o uso desses recursos é um tanto exagerado, de modo que poucas páginas se passam sem pelo menos uma vez eles aparecerem. Há também um exagero recorrente dos sinais de pontuação: ou as interrogações e exclamações são usadas quase que de maneira abusiva, ou os personagens passam boa parte do tempo gritando uns com os outros. Talvez essas coisas impressionem o jovem leitor e eu já esteja velha demais pra isso…

Renata Ventura é, e eu nem por um segundo duvidei disso, uma pessoa muito bem intencionada. Segundo ela, foram sete anos de estudo para compor o universo de Hugo Escarlate, misturando mitologia indígena, afro-brasileira e cultura popular à base original de J. K. Rowling. Mas quando argüida a respeito das escolhas artísticas, conceituais e narrativas de sua obra, no entanto, Renata não parece muito aberta a críticas: na defensiva, ela recorre constantemente ao argumento de que há muita gente que gosta, que há gente de calibre estudando e recomendando seus livros, e que ela jamais foi preconceituosa em qualquer de suas caracterizações pois houve pesquisa exaustiva e nenhuma intenção de ofender. O que Renata esquece — e pode ser que também disso tenham se esquecido os Modernistas —, é que sua produção está inevitavelmente contaminada por sua visão de mundo, e aí não há boas intenções que dêem jeito.

Sua visão do menino pobre mulato da favela, do mineirinho simpático, do pai de santo, sem dúvida vai estar acompanhada de suas próprias percepções estereotipadas, ainda que ela não pense que os veja através dessas lentes. É claro que se pode livremente escrever sobre estes temas, mas uma pessoa cuja própria formação e contexto social validam essa visão distorcida — ou, pelo menos, parcialmente distorcida — precisa ter cuidado redobrado para não criar novas versões do Bom Selvagem. Me traz um certo desconforto fazer essa crítica por estar muito mais próxima da realidade de Renata que da de Hugo/Idá — branca, classe média, acadêmica —, mas acho necessário apontar isso.

Para encerrar, mais uma vez admito o fracasso de não ter conseguido concluir a leitura e cumprir o desafio proposto pelos fãs de “A Arma Escarlate”. Há muitos livros para ler e pouco tempo disponível, então faz-se necessário escolher. À Renata desejo apenas mais sorte da próxima vez.

Comiquita Sans é sucesso!

Enquanto designers do mundo todo discutiam (e ainda discutem) as mazelas de um mundo habitado por seres intelectualmente inferiores que usam Comic Sans indiscriminadamente, eu estava rabiscando papéis com uma caneta permanente, desenhando letrinhas e selecionando as melhores para um futuro e despretensioso projeto tipográfico. Vetorizei tudo automaticamente com o Inkscape, colei no FontForge, ajeitei mal e mal as métricas, exportei e nascia assim a Comiquita Sans.

Não sei como, onde, em que momento e porquê esta minha fonte fez tanto sucesso, mas é a fonte de mais sucesso até hoje na história das minhas fontes bastardinhas. Só no DaFont, um dos sites onde ela é distribuída e o único onde tenho estatísticas sólidas, até o momento em que escrevo ela teve 75.568 downloads. Por se tratar de uma fonte gratuita de livre distribuição, outros sites a distribuem livremente, então é bem possível que esses números sejam ainda maiores.

A verdade é que a bichinha ganhou o mundo e hoje está presente em jogos, impressos e, claro, histórias em quadrinhos. Duas pessoas tocando pequenos projetos editoriais de HQs e pelo menos três produtoras de jogos já me contataram pedindo permissão para utilizá-la em seus projetos. Entre eles, dois merecem destaque por já estarem prontos, alive and kicking: o jogo Freekscape e a HQ editada pela sueca Natalia Batista, A Song For Elise.

Vez ou outra, alguém vem torcendo o nariz me mostrar usos ruins da fonte projetada por Vincent Connare, esperando que eu concorde efusivamente com sua opinião. E eu respondo: “Ora, eu tenho a minha própria versão da Comic Sans!”, e mando o link da Comiquita. Não que eu ache o projeto da Comic Sans bom ou ruim – ele cumpriu sua função original, quebrando o visual austero que a Times New Roman dava à interface do Microsoft Bob; isso é design, afinal de contas, e design vai além de gosto pessoal.

De alguma forma que desconheço, mas que acho que provavelmente foi o mesmo que ocorreu com a Comic original, a Comiquita vem satisfazendo necessidades de várias pessoas ao redor do globo, a despeito do desleixo de sua criadora em seu projeto, que estava mais preocupada em aprender como usar o software do que com o projeto de uma boa fonte.

Uma leitura crítica

Parece que tudo começou com um post da Fabiane Lima em seu blog, sobre ceticismo e reencarnação. O artigo comentava uma entrevista de Ian Stevenson, se não me engano publicada originalmente em 1972, e deflagrou uma campanha de controvérsia e ataques pessoais à autora (trollagem). Não conheço a Fabiane pessoalmente, sou um dos mais de dois mil seguidores dela no twitter, mas decidi oferecer minhas considerações ao debate.

A discussão se polarizou como uma disputa sobre o caráter científico da reencarnação. Muitos defensores citaram Ian Stevenson como um autor significativo, cujo trabalho se destaca pela aplicação do método científico à investigação de casos de reencarnação, e que as dificuldades da autora em aceitar a teoria da reencarnação eram sintoma de sua “mente fechada”.

Bem, com uma atitude de mente aberta e dentro dos cânones da ciência contemporânea, me propus a analisar um artigo de Ian Stevenson. O artigo é intitulado The phenomenon of claimed memories of previous lives: possible interpretations and importance e foi publicado na revista Medical Hypotheses. Ele pode ser localizado através do site www.sciencedirect.com, e não está disponível para download – mas ele pode ser baixado gratuitamente nas bibliotecas e laboratórios universitários com acesso ao portal de periódicos da Capes. Como artigo publicado em periódico, assinado, ele atende a quase todos os requisitos para ser considerado um trabalho científico, exceto um, como será discutido.

Não estou aqui para defender nenhuma posição religiosa; procurei deixar minha orientação religiosa de lado e analisar o artigo como aquilo que ele é – um artigo científico – com o mesmo rigor e cuidado que eu analisaria um trabalho da minha área. Todos os trechos citados do original o serão em inglês, para evitar que o sentido seja alterado durante a tradução. Tendo em mente essas breves considerações, vamos à análise.

A publicação

Como coisa humana, o mundo científico espelha alguns aspectos de nossa sociedade. As publicações científicas disputam continuamente a atenção dos pesquisadores – boas publicações, com fator de impacto alto, atraem bons artigos científicos, escritos por pesquisadores renomados. Os pesquisadores guardam seus melhores trabalhos para publicação nos melhores periódicos. No Brasil, o sistema Qualis da Capes (qualis.capes.gov.br) ranqueia as publicações nacionais e internacionais, e o Science Direct usa uma medida chamada Impact Factor. A revista Nature, sonho de todo pesquisador, tem fator de impacto 31.434; a Medical Hypotheses tem fator de impacto 1.416 – ou seja, os trabalhos ali publicados não são referenciados com muita frequência.

Dois parágrafos atrás eu escrevi que o artigo atende a quase todos os requisitos para que o trabalho seja considerado científico. O que quero dizer com isso? Bem, o artigo certamente está formatado corretamente: tem um título, está assinado, tem um resumo (abstract), foi redigido no tom correto – com certa impessoalidade –, traz um conjunto de referências bibliográficas; está dividido em introdução, desenvolvimento e discussão, nos moldes de todo artigo científico. Porém, um detalhe na descrição da revista chamou a minha atenção. Do site da editora:

Medical Hypotheses takes a deliberately different approach to review: the editor sees his role as a ‘chooser’, not a ‘changer’, choosing to publish what are judged to be the best papers from those submitted. The Editor sometimes uses external referees to inform his opinion on a paper, but their role is as an information source and the Editor’s choice is final. The papers chosen may contain radical ideas, but may be judged acceptable so long as they are coherent and clearly expressed. The authors’ responsibility for the integrity, precision and accuracy of their work is paramount. (link)

Em outras palavras: a revista onde o artigo foi publicado não submete os trabalhos à revisão pelos pares (peer review); esse processo, não muito diferente do que eu estou fazendo agora, é integral à idéia de ciência contemporânea, e tem dois objetivos primordiais: assegurar a qualidade e a clareza do que está sendo publicado (os revisores, via de regra, mandam comentários para auxiliar o autor na elaboração do artigo), e assegurar que o trabalho tem consistência, checando as teorias do autor contra as posições consensuais da área, o que Thomas Kuhn chamaria de ciência normal. Na minha opinião, ter sido submetido ao crivo da revisão é importante para que um artigo seja considerado científico.

Fontes de dados

Me chamou a atenção, em primeiro lugar, a quantidade de referências que o autor elencou: 66, no total. Dessas, 16 (um quarto do total) são trabalhos do próprio autor; citar excessivamente trabalhos próprios não é, em geral, considerado uma boa prática, e muitas publicações orientam os autores a não fazer isso, até mesmo como garantia de anonimato durante a revisão pelos pares.

O autor parte então dos casos relatados na literatura – muitos deles compilados pelo próprio autor, como se pode verificar nas referências bibliográficas – para defender sua teoria: que as memórias de vidas passadas explicariam fenômenos não explicáveis pela genética ou psicologia. O artigo é curto, com apenas oito páginas. Não se esperaria que o autor descrevesse minuciosamente cada caso relatado, mas se fossem apresentados fragmentos das citadas entrevistas com familiares certamente seria possível interpretação independente. De fato, o autor apresenta toda sua evidência de segunda mão, e dá a entender que nem mesmo o autor teve acesso em primeira mão a todos os relatos originais:

The principal method of investigation is interviews, often repeated, with firsthand informants for both the child’s side of the case and that of the concerned deceased person, if one has been identified. We emphasize independent verification of the child’s statements. Written documents, such as postmortem reports, are always sought, examined, and copied when feasible (STEVENSON 2000, p. 652).

Dessa maneira, é dificultada a interpretação independente dos fatos relatados; obriga-se o leitor a confiar no relato de Stevenson, e no artigo ele não faz menção à confiabilidade dos relatos. Através do Google, é possível localizar e visualizar fragmentos das publicações originais, como os seguintes:

[Sobre o caso Gladys Deacon, que alegava ser a reencarnação de uma menina chamada Margaret Kempthorne] Later, in the 1970s, I attempted to trace records of Margaret Kempthorne, but, as will be seen, I did not succeed. Gladys Deacon’s mother died when she was 18 years old. The woman with whom Gladys Deacon was travelling in 1928 (who would have been a potential witness of the verification of her statements) died some years before I began my inquiries for the case. The case therefore rest entirely on the statements of Gladys Deacon (STEVENSON 2003, p. 52)

[Sobre o caso Katherine Walls] I include this case with some hesitation. This does not arise from the failure to verify the subject’s statements, because I have published other unverified cases and this book includes several others. Nor does it arise because regrettably I have not met the subjet (…) They mainly derive, however, from the acknowledged skill of the subject in conceiving ‘stories’ that she knew were fantasies and in the telling of which her father encouraged her (STEVENSON 2003, p. 59).

São apenas dois casos escolhidos a esmo, mas demonstram falta de cuidado na verificação dos dados e displicência quanto à publicação de informações não verificadas, e contradizem a afirmação do autor na página 652. No caso Gladys, todas as testemunhas e pessoas com quem ela teve contato, inclusive os comerciantes que a contaram a história de Margaret, já haviam falecido à época da entrevista com Stevenson. Pode-se supor que outros relatos de que o autor se apropriou sofram das mesmas inconsistências; mas vou dar o benefício da dúvida e tomar por verificadas as histórias que o autor usa para ilustrar sua hipótese.

Casos médicos “inexplicáveis”

O abstract resume muito bem a teoria que Stevenson apresenta no artigo. A ver:

Several disorders or abnormalities observed in medicine and psychology are not explicable (or not fully explicable) by genetics and environmental influences, either alone or together. These include phobias and philias observed in early infancy, unusual play in childhood, homosexuality, gender identity disorder, a child’s idea of having parents other than its own, differences in temperament manifested soon after birth, unusual birthmarks and their correspondence with wounds on a deceased person, unusual birth defects, and differences (physical and behavioral) between monozygotic twins. The hypothesis of previous lives can contribute to the further understanding of these phenomena (STEVENSON 2000, p. 652)

O autor oferece então explicações para cada um desses assuntos através da hipótese das vidas passadas. Stevenson afirma que 36% dos sujeitos que se lembravam de vidas passadas apresentavam algum tipo de fobia na infância, e que as fobias estariam relacionada à maneira da morte na vida passada:

The phobias nearly always accorded with the mode of death in the claimed previous life. For example, a child who claimed to remember a life that ended in drowning would have a phobia of being immersed in water; one who said it remembered a life with death from a gunshot wound would have a phobia of guns (STEVENSON 2000, p. 653).

Ou não se poderia analisar isso no sentido contrário, e entender que as fantasias ou sonhos das crianças são a expressão de suas fobias? Post hoc ergo propter hoc é uma argumentação traiçoeira. Reduzida ao absurdo, essa explicação nos levaria a dizer que uma criança com medo do escuro seria a reencarnação de outrem que morreu de escuridão? Adiante, um trecho sobre malformações congênitas:

Most of the birth defects do not correspond to any recognized ‘pattern of human malformation’; instead, they correspond to sword cuts, shotgun wounds, or other modes of death (STEVENSON 2000, p. 656).

O autor não expõe imagens dessas malformações, certamente por restrição de espaço. Mas as analogias baseadas em semelhança visual são, também, traiçoeiras. Nós estamos acostumados a reconhecer padrões na natureza, nossos cérebros evoluíram para isso. Se nos predispomos a enxergar padrões, essas associações ficam ainda mais frequentes. Ainda sobre os defeitos congênitos:

For example, one child, born with unilateral brachydactyly of the right hand, said that he remembered the life of a child in another village who had cut off the fingers of his right hand when he accidentally put them between the blades of a fodder-chopping machine (STEVENSON 2000, p. 656).

Sobre esse caso específico, o autor não diz se essa “criança da outra vila que decepou o próprios dedos na máquina” existiu ou não. É um exemplo gráfico, certamente chama a atenção, mas não há, no artigo, informações que suportem a alegação do autor.

Eu poderia continuar desfilando as explicações para o comportamento, rejeição dos pais, marcas de nascença, mas acho desnecessário. Todos os relatos que o autor apresenta são baseados em evidência anedótica e, como visto, não há maior cuidado na coleta de dados e na elaboração das entrevistas, e as relações causais que Stevenson oferece são pouco mais que acidentais.

Uma revolução científica

O artigo de Stevenson é muito bem escrito, e eu recomendo a leitura. O autor expõe seus pontos de vista de maneira clara, tentando demonstrar as relações de causa-e-efeito como mandam os preceitos da ciência contemporânea, o que é louvável; e o texto não é assolado pela confusão e o obscurantismo que tantas vezes afetam os textos “esotéricos”. O assunto é controverso, certamente empolgante, e não é supresa nenhuma que as teorias de reencarnação encontrem resistência na comunidade científica.

Entretanto, o corpo de evidência que o autor apresenta é muito fraco (a displicência na coleta dos dados e a impossibilidade de verificação independente são preocupantes), as relações que ele procura demonstrar são muito tácitas, podendo, sem exceção, ser explicadas pela psicanálise, pela embriologia, pela cultura, pelo imaginário, ou serem meras coincidências.

É claro que existem revoluções científicas de vez em quando, e é claro que, geralmente, novas teorias têm muito trabalho para serem aceitas. Não é suficiente dizer que a ciência oficial é fechada e não aceita as teorias novas; para que as teorias de Stevenson possam “entrar no clube” do pensamento científico, elas precisam passar pelo processo de discussão, angariando defensores e seguidores até que se torne a nova ciência normal, como muito bem nos ensina Kuhn (2007). Mas, ao mesmo tempo em que são necessárias evidências que suportem a nova teoria, ela deve também explicar os fatos que a teoria anterior (oficial, normal, mainstream…) não consegue. Ao meu entender, os problemas apresentados por Stevenson sequer são problemas de pesquisa.

Referências

STEVENSON, I. The phenomenon of claimed memories of previous lives: possible interpretations and importance. Medical Hypotheses, n. 54, p. 652-659.

STEVENSON, I. European cases of the reincarnation type. EUA: McFarland, 2003.

KUHN, T. S. A Estrutura das Revoluções Científicas. 9. Ed. São Paulo: Perspectiva, 2007.


Chico Rasia (@chicorasia), é Arquiteto Urbanista, graduado em 2003 pela Universidade Federal do Paraná – UFPR, e mestrando em Tecnologia pelo Programa de Pós-Graduação em Tecnologia da UTFPR.