Resenha: A Arma Escarlate

Desde pelo menos o século XIX os escritores brasileiros têm procurado, com níveis variados de sucesso, encontrar uma identidade nacional na literatura. Um dos primeiros movimentos a tentar isso foi o Romantismo, numa época em que não apenas o Brasil, mas outros países também buscavam uma voz que os caracterizasse. O Romantismo, no entanto, utilizava fórmulas e arquétipos já altamente desgastados (ou consagrados, a depender do otimismo do leitor), como por exemplo a figura do índio de moral irrepreensível fazendo as vezes de cavaleiro andante, já que o Brasil, por assim dizer, não possui um passado medieval.

Mais algumas décadas adiante no tempo, outros artistas resolveram que também eles se lançariam na busca por uma identidade cultural brasileira, com incursões em pintura, prosa e verso: os Modernistas. De certa forma atingindo seus objetivos — quem pode negar que eles obtiveram sucesso? —, a proposta moderna era deglutir a arte vinda da Europa, absorver o que ela tivesse de melhor, misturar com a arte produzida no país e regurgitar uma arte genuinamente brasileira. O problema era fazer isso num país majoritariamente agrícola povoado por analfabetos, mas os Modernistas não se deixaram intimidar. Eles sabiam o que estavam fazendo, e mesmo que não soubessem, podiam aprender. Eles eram viajados, cosmopolitas, seus pais tinham-lhe pago os estudos nas melhores cidades do Velho Continente. Os Modernistas embarcaram em expedições pelo interior e viram com seus próprios olhos, e com uma visão de mundo sua, as realidades do Brasil. Voltaram cheios de idéias, que imediatamente colocaram no papel e nas telas.

Quase cem anos depois de um dos mais importantes movimentos artísticos brasileiros ter feito sua famosa semana de arte, alguns escritores com características semelhantes o suficiente para serem agrupados sob uma mesma categoria começaram a publicar seus livros. Eles escreviam sobre elfos, vampiros, fadas e batalhas sangrentas entre senhores de castelos, mas com uma voz bastante singular. Em um primeiro momentos pagando as impressões do próprio bolso, mas à medida em que iam caindo no gosto popular, passaram a ser convidados por selos editoriais grandes para publicar suas histórias. Surgia, assim, a Nova Literatura Fantástica Brasileira. O termo foi emprestado de um artigo publicado no site Papo de Homem (perdoem o link, mas era necessário), que apresenta os expoentes dessa turma com interessantes argumentos como:

Acontece que, a crítica literária no Brasil, embora comece a apresentar sinais de mudança, ainda é bastante engessada no academicismo. Ela costuma considerar como “boa literatura” apenas aquelas obras feitas por – ou referendadas por – gabaritados professores universitários.

No meio do presente ano eu, que já tinha tido contato com algumas dessas obras e esporadicamente fazia críticas jocosas e despretensiosas a respeito delas em minha conta no Twitter, resolvi criar uma página no Facebook, porque qualquer coisa que eu transforme em hobby logo se torna uma espécie de obsessão. Para alimentar tal página, fui atrás de ler pelo menos os primeiros capítulos de autores como Carolina Munhoz, Leonel Caldela, Eduardo Spohr — que, inclusive, foi muito gentil, aceitando minhas mini-críticas muito bem, apesar de eu desconfiar seriamente que ele anotou meu nome no caderninho preto —, Raphael Draccon — este não muito gentil —, entre outros.

Não me lembro exatamente como me caiu às mãos uma amostra do livro “A Arma Escarlate”, de Renata Ventura, que eu logo tratei de destacar alguns trechos e postar na página. Não demorou muito, a fúria dos fãs foi despertada e centenas deles invadiram a página, o que me proporcionou certa diversão. Os fãs, em sua maioria bem jovens, me desafiaram a ler o livro todo, o que me propus a fazer quase que imediatamente por pura curiosidade mórbida aliada à proximidade de minha banca de defesa do mestrado e a necessidade de ocupar a cabeça com alguma bobagem leve antes que ela entrasse em combustão espontânea.

À primeira vista, o livro de Renata parece ser uma fanfic de Harry Potter cujos fatos transcorrem de maneira concomitante aos dos livros de J. K. Rowling, com a diferença que se passavam no Brasil. Uma Elsewhere Fic. A leitura mais atenta confirma a impressão, e a própria autora mais ou menos admite isso na introdução, ainda que tenha dito que fica triste quando alguém chama seus livros de fanfics — até o momento, dois foram publicados.

A preocupação de Renata com a valorização da cultura brasileira é bastante visível ao se pesquisar sua produção ficcional e acadêmica. Nascida no Rio, a autora morou alguns anos nos Estados Unidos, onde iniciou uma graduação não concluída em Comunicação Social na Universidade de Houston, e mais tarde se formou em Jornalismo pela PUC-Rio. Em 2006 ela concluiu a graduação com a monografia “100% off: Manual do Colonizado”, onde discorre sobre a colonização cultural de que sofre o brasileiro médio. No mestrado, soube que ela estudou transposição cultural, mas não descobri muita coisa pois ela não atualiza o currículo Lattes desde 2010.

Em “A Arma Escarlate” acompanhamos a história de Idá, que mais tarde assume o nome de Hugo Escarlate. Ele é um garoto recém-admitido nos esquemas de tráfico de drogas do morro Dona Marta, no Rio de Janeiro, que descobre que é um bruxo e que foi chamado para estudar em uma escola de magia em regime de internato, a Nossa Senhora do Korkovado. A história então segue acompanhando a adaptação do menino àquele novo mundo, desconhecido para Idá/Hugo, mas muito familiar para os fãs da série da autora escocesa, ainda que a versão brasileira insista em mudar os nomes e alterar — de leve — alguns conceitos do universo Potter.

Não consegui, porém, terminar a leitura. O problema não era exatamente não ser uma história completamente original que tem como base uma série que cresceu comigo e com muitos de minha geração. Também não era a linguagem adotada por Renata, mais leve e menos pretensiosa que a de seus outros colegas de “movimento”, que tentam emular seus mestres enchendo páginas e páginas de descrições detalhadas intermináveis de batalhas épicas cheias de termos rebuscados e verbos no pretérito mais-que-perfeito. Não era nem mesmo a apropriação e a modificação a bel-prazer de um universo consagrado, o que pode levar os fãs mais antigos como eu à loucura (eu não chego a tanto).

O problema era… eu nem sei por onde começar!

Existe uma diferença bastante grande entre se propor a fazer algo e efetivamente conseguir. O que Renata intentou — e aqui estou me baseando em entrevistas, vídeos e postagens que ela própria fez em meu perfil pessoal do Facebook — foi algo louvável: criar um punhado de personagens adolescentes, brasileiros, com quem outros adolescentes pudessem se identificar vivendo uma história empolgante e pontuada de referências à cultura popular nacional e estrangeira, e cujos acontecimentos pudessem remeter diretamente à nossa história como nação. Dada a reação de seus fãs, ela de certa forma conseguiu. Mas a meu ver o objetivo foi atingido de maneira meio torta.

O livro faz uso freqüente de regionalizações estereotipadas nas falas dos personagens. Chega ao ponto de o garoto mineiro se parecer com uma versão Chico Bento de Colin Creevey. Apesar de a maioria dos falantes do Português Brasileiro não pronunciarem a letra “o” aberta, o “e” se assemelhar mais a um “i” em alguns casos, e raramente alguém se dar conta de que talvez possa existir um “r” no final de algumas palavras na fala cotidiana, o texto faz questão de apontar estes “erros” nas falas dos personagens pobres e/ou ditos mais ignorantes. E nem me arrisco a comentar qualquer coisa a respeito da forma como a mitologia indígena e afro-brasileira foi utilizada, porque pelo menos eu admito que nem sete anos de estudo me possibilitarão ter uma visão que não seja “antropológica” do assunto. Outras pessoas, porém, me revelaram seu incômodo quanto a isso nas redes sociais.

Talvez por eu ser uma historiadora frustrada e Renata fazer parte de uma categoria profissional que me provoca sentimentos contraditórios — nada contra jornalistas, tenho até amigos que são —, me incomodou bastante a forma como a escritora faz uso dos acontecimentos históricos. Numa tentativa de ser didática e provocar curiosidade no leitor adolescente sobre sua própria história, Renata cita fatos de uma forma um tanto amadora. Não que eu espere que um livro que se apóia em história alternativa para construir seu universo ficcional seja exato do ponto de vista histórico, mas afirmar que D. João VI provocou a derrocada de Napoleão ao fugir com a corte portuguesa para o Brasil de maneira bastante ufanista é um pouquinho demais. Até Laurentino Gomes ficaria envergonhado.

Quanto à forma, já comentei aqui que a prosa de Renata Ventura é leve e despretensiosa. Ela faz uso freqüente de recursos gráficos ao longo do texto — versaletes, itálicos etc —, algo que não condeno de pronto, visto que a fala de um dos meus personagens favoritos em “Discworld” é destacada desta maneira. Mas em “A Arma Escarlate” o uso desses recursos é um tanto exagerado, de modo que poucas páginas se passam sem pelo menos uma vez eles aparecerem. Há também um exagero recorrente dos sinais de pontuação: ou as interrogações e exclamações são usadas quase que de maneira abusiva, ou os personagens passam boa parte do tempo gritando uns com os outros. Talvez essas coisas impressionem o jovem leitor e eu já esteja velha demais pra isso…

Renata Ventura é, e eu nem por um segundo duvidei disso, uma pessoa muito bem intencionada. Segundo ela, foram sete anos de estudo para compor o universo de Hugo Escarlate, misturando mitologia indígena, afro-brasileira e cultura popular à base original de J. K. Rowling. Mas quando argüida a respeito das escolhas artísticas, conceituais e narrativas de sua obra, no entanto, Renata não parece muito aberta a críticas: na defensiva, ela recorre constantemente ao argumento de que há muita gente que gosta, que há gente de calibre estudando e recomendando seus livros, e que ela jamais foi preconceituosa em qualquer de suas caracterizações pois houve pesquisa exaustiva e nenhuma intenção de ofender. O que Renata esquece — e pode ser que também disso tenham se esquecido os Modernistas —, é que sua produção está inevitavelmente contaminada por sua visão de mundo, e aí não há boas intenções que dêem jeito.

Sua visão do menino pobre mulato da favela, do mineirinho simpático, do pai de santo, sem dúvida vai estar acompanhada de suas próprias percepções estereotipadas, ainda que ela não pense que os veja através dessas lentes. É claro que se pode livremente escrever sobre estes temas, mas uma pessoa cuja própria formação e contexto social validam essa visão distorcida — ou, pelo menos, parcialmente distorcida — precisa ter cuidado redobrado para não criar novas versões do Bom Selvagem. Me traz um certo desconforto fazer essa crítica por estar muito mais próxima da realidade de Renata que da de Hugo/Idá — branca, classe média, acadêmica —, mas acho necessário apontar isso.

Para encerrar, mais uma vez admito o fracasso de não ter conseguido concluir a leitura e cumprir o desafio proposto pelos fãs de “A Arma Escarlate”. Há muitos livros para ler e pouco tempo disponível, então faz-se necessário escolher. À Renata desejo apenas mais sorte da próxima vez.

Instinto materno

Ratos do sexo masculino não experimentam mudanças hormonais que possam despertar o comportamento maternal que se observa nas fêmeas [ao contrário do que ocorre em homens]. Contudo, ao colocar um rato bebê na mesma gaiola que um rato macho adulto, após alguns dias ele estará cuidando do bebê quase como se fosse sua mãe. Ele o vai carregar, aninhá-lo perto de si como uma fêmea faria, mantendo o bebê rato limpo e confortável, e até mesmo pode construir um confortável ninho para ele.

FINE, Cordelia. Delusions of Gender: The Real Science Behind Sex Differences. Nova York: Icon Books, 2005. Tradução livre.

Ficção. Ou não.

Estava eu hoje jogando Skyrim em um save novinho em folha e fazendo missões que já fiz todas de novo pelo simples prazer de matar bandidos, lançar feitiços, catar moedas de ouro, matar dragões e me alistar no exército na guerra contra os Stormcloaks. Porque eu amo esse jogo.

Em um determinado momento tive que fazer uma missão em um local longe e, esquecida da existência das carroças que, por uma módica quantia, levam o Dragonborn em pouco tempo, fiz boa parte do trajeto à pé e me deparei com um acampamento de gigantes e, como sempre, os deixei ali quietinhos no canto deles. Matar dragões é moleza; matar gigantes, nem tanto. E fiquei pensando: “Imagina que louco se uma parte da humanidade evolui por um caminho em que é considerada por outra como sendo cognitivamente inferior, com comprovação científica e tudo! Que tipo de conflitos não poderiam sair daí?”

Aí eu lembrei que sou mulher e adoro estudar história. E me repreendi por não ter me tocado disso antes.

Experiência religiosa

Em uma thread do Facebook onde partidários do Libertarianismo – uma posição política que eu ainda não consegui entender muito bem o propósito mas que em geral defende a retirada completa de responsabilidades civis das mãos do Estado e privatizar tudo – esbravejavam contra marxistas hipotéticos que, segundo eles, habitam os cursos de Humanas das universidades públicas brasileiras, eu notei algo muito interessante. Os tais libertários – odeio o roubo desse termo – berravam por causa de um texto da Carta Capital, que dizia que, se somar tudo o que os governantes dos Estados roubam, daria pra solucionar o problema da pobreza no mundo.

Se os libertários tomassem o poder (mesmo que de forma democrática) eles simplesmente privatizariam tudo, até o Estado ter braços cada vez mais curtos? Se os libertários, que no meu entender, pelo modo que defendem a propriedade privada, se aproximam bastante da direita republicana americana, chegassem ao poder, eles iriam extinguir o Estado, da mesma forma que os comunistas (em um hipotético processo progressivo pelo qual o comunismo teórico passaria até se tornar anarquista) e anarquistas queriam?

Agora deixa eu ver se entendi: direita é esquerda e esquerda é direita? Porque, na boa, de verdade, eu não tô vendo diferenças entre um e outro.

***

Durante este mês de janeiro fui surpreendida por uma catarse. Muitos chamam a isso de “experiência mística”, eu chamo de catarse, eureka. Desde então, não consigo enxergar mais nada além de fractais, proporções, e, principalmente, ambiguidades. Algo assim como o percurso ser uma fita de Moebius. Consegui finalmente compreender em toda a sua plenitude a mecânica quântica (e eu juro, mesmo, que não é “aquela” mecânica quântica; tô falando de Stephen Hawking, não de “What the bleep do we know?”). Também compreendi as teorias que tratam da comunição, como as disciplinas da semiótica, interação e discurso. Se você for na origem de todas elas, todas as palavras dizem a mesma coisa (que é o fim delas próprias; a existência está no verbo).

Foi como se uma chavinha se tivesse ligado no meu cérebro, e alguém tivesse feito um inception de conhecimento em mim. Ou não.

Tipo isso:

E isso.

***

Cuidado, a letra da música abaixo não diz o que você pensa que ela está dizendo. Ou diz.

Ainda sobre sexo oral e felicidade

O Marcus, do Grande Abóbora, me enviou o artigo original da pesquisa que cito nesta postagem. Li o documento, um artigo curto de cinco páginas, e fiz alguns comentários no Twitter na tarde de ontem e tenho algumas observações e erratas a fazer a respeito do estudo. Porém, minha opinião geral a respeito continua rigorosamente a mesma: é uma bosta.

  • Ao contrário do que eu disse naquele texto, os pesquisadores quiseram sim saber detalhes a respeito dos relacionamentos afetivos das mulheres que compunham a amostra, e aplicaram não apenas um, mas dois questionários. Isso, entretanto, não tem muito peso no artigo, e eles citam apenas brevemente as possíveis implicações desses relacionamentos na felicidade dessas mulheres. E consideram menos ainda se se trata de relacionamentos homossexuais.
  • Os pesquisadores não abrem mão de sua premissa em momento algum. Mesmo que nas conclusões eles reconheçam que o estudo não serviu para concluir nada, batem o pé e insistem que sua hipótese está certa; se a gente não conseguiu provar, é porque precisa demais estudos.
  • Depois de cruzar os dados encontrados nas respostas aos questionários, eles chegam à conclusão de que mulher que não usa camisinha é mais feliz e isso só pode se dar porque deve haver alguma coisa no sêmen dos caras com quem elas transam. Só pode ser isso, não tem outra explicação.
  • Há uma insistência que chega às raias do absurdo em afirmar que a camisinha torna as mulheres mais infelizes e que, se você, mulher, usa camisinha com seus parceiros, tome cuidado pois um dia você poderá querer se matar. Há um gráfico no artigo que mostra que mulheres que quase não usam camisinhas fazem mais sexo. Os pesquisadores chegam a considerar a possibilidade de que essas mulheres podem ser mais felizes pelo simples fato de poderem estar em um relacionamento estável e consequentemente fazerem mais sexo, mas descartam em favor da hipótese não provada.
  • Discutem superficialmente (como tudo nesse artigo) que há estudos sobre absorção de substâncias pela vagina, mas não citam em momento algum qual a quantidade de substâncias presentes no sêmen, o grau de absorção e ainda, qual a influência dessa absorção no organismo feminino. Não adianta muito que a vagina de fato absorva substâncias em alto grau, se a quantidade delas no esperma não faz muita diferença. Tenho certeza de que se eles procurassem mais um pouquinho, achariam estudos a respeito. Lembro de ter alguma coisa sobre a composição do esperma no meu livro de ciências da sétima série.
  • Faltando pouquíssimo pra acabar o artigo, eles especulam que o sêmen pode ter algum efeito em gays ou pela ingestão oral. Duas frasesinhas, e não passa de especulação comum que cientistas fazem na conclusão de seus artigos. O suficiente para um jornalista escrever um texto de cinco mil caracteres a respeito dizendo que a ciência provou por A mais B.
  • O artigo todo pode ser resumido da seguinte maneira: porra === felicidade.
  • Para provar o ponto deles (ou não), seria muito mais simples fazer uma análise química (que eles de fato sugerem para futuros experimentos). Como disse a Tássia, ontem:

Pra finalizar, como sempre dizia o meu maconheiro favorito, correlação não implica causalidade. Esses pesquisadores pisaram FEIO na bola, e construíram sua conclusão toda em cima de uma falácia. Lamentável.

Sexo oral deixa as mulheres mais felizes?

Ontem, a @larissarainey me mandou o link de uma pesquisa que, de acordo com a notícia, conclui que sexo oral faz bem às mulheres e as deixa mais felizes. Escroto como é, o Page Not Found nunca dá link para suas fontes, ou até mesmo para qualquer site que seja – e talvez isso explique o nome do blog -, o que faz com que incautos e desavisados acreditem no que ali se veicula porque, oras!, se trata de um blog d’O Globo, teoricamente um veículo de imprensa com funcionários capacitados, etc e tal. Como o Page Not Found não dá link pra ninguém, terei uma política de reciprocidade para com ele e não o linkarei também. Aqui quem manda sou eu.

Pois enfim. Fiz uma rápida busca no Google para ver se encontrava o tal estudo e, veja só, encontrei. Segue abaixo o resumo (atenção para as partes em negrito):

In a sample of sexually active college females, condom use, as an indirect measure of the presence of semen in the reproductive tract, was related to scores on the Beck Depression Inventory. Not only were females who were having sex without condoms less depressed, but depressive symptoms and suicide attempts among females who used condoms were proportional to the consistency of condom use. For females who did not use condoms, depression scores went up as the amount of time since their last sexual encounter increased. These data are consistent with the possibility that semen may antagonize depressive symptoms and evidence which shows that the vagina absorbs a number of components of semen that can be detected in the bloodstream within a few hours of administration. [Grifo meu]

Agora vamos para as informações não citadas no resumo, mas que aparecem em notícias relacionadas, como essa do Guardian e essa do Daily Mail. De acordo com essas notícias, a amostra é composta por 293 estudantes universitárias sexualmente ativas, às quais foi aplicado um questionário anônimo, o Beck, que através de 21 questões de múltipla escolha, visa identificar padrões de comportamento depressivo.

Acabou que, com esses dados, o grupo de pesquisadores – que eu descobri googlando o nome de cada um serem da área de psicologia, mais precisamente psicologia evolutiva – chegou à conclusão que mulheres que fazem sexo desprotegido e recebem o sêmem de seus parceiros em seus corpos têm menos chances de serem depressivas ou terem tendências suicidas que mulheres que fazem sexo protegido ou sequer o fazem.

Abaixo, segue um trechinho do texto do Guardian:

Semen is known to contain such “mood-altering chemicals” as estrone and oxytocin, which elevate mood; cortisol, which promotes affection; serotonin, which acts as an antidepressant; and melatonin, which induces sleep.

Voltemos ao resumo: de acordo com ele, os pesquisadores fizeram uma “medição indireta” da presença de esperma no sistema reprodutivo da amostra, o que basicamente significa que, a partir da informação de que essas mulheres não usam camisinha, eles concluíram que elas necessariamente deixam seus parceiros gozarem dentro. Logo, se elas são mais felizes que as moças que fazem sexo seguro, é porque o sêmem que o corpo delas absorve faz isso por elas.

Outra informação importante: nas notícias disponíveis e no resumo aberto ao público (o estudo em si é restrito aos assinantes da publicação) não há qualquer informação a respeito da orientação sexual dessas mulheres, ou da situação em que elas se encontram em seus relacionamentos amorosos. Apenas ficamos sabendo que elas são sexualmente ativas, mas nada deixa claro se estavam em relações estáveis ou não, o que pode ser decisivo na conclusão do estudo. Se eles partem do pressuposto de que a química presente no esperma é absorvida pela vagina dessas mulheres e desconsideram a gerada pelo cérebro, como é o caso de todas as substâncias citadas ali no trechinho do Guardian – que podem ser geradas, seja numa relação estável, seja numa casual, protegida ou não, envolvendo um pênis de carne ou um de borracha, ou mesmo nenhum pênis -, tem alguma coisa errada.

É claro que eles não deixam de fazer o dever de casa. No finalzinho do resumo, ainda que não deixem bem claro que se trate de uma possibilidade não verificada por eles no presente estudo, eles avisam que é possível medir esses componentes presentes no esperma humano através de um exame de sangue.

Eu não sei se é impressão da minha feminazi interior, mas me parece que esse estudo tenta provar que relacionamentos estáveis são melhores para as mulheres que a promiscuidade, e ainda finge que outras orientações sexuais não existem. Isso tudo baseado em argumentos muito distorcidos, construídos sobre dados bastante limitados pelo tamanho da amostra e pelo tipo de pesquisa que foi conduzido. Se se reconhecessem verdadeiramente as limitações do estudo, e suas conclusões não dessem um salto lógico completamente desnecessário, não haveria nada de errado com ele.

A pergunta que não quer calar: como foi que o Page Not Found concluiu que o que faz bem às mulheres é o sexo oral?

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P.S.: o amigolino Marcus do Grande Abóbora me enviou o artigo completo. Logo mais posto aqui a respeito, como complemento e até mesmo errata. Mas o que penso em geral a respeito do estudo não mudou nem um pouco.

Grandes Desculpas Esfarrafadas da Humanidade II

Martinho Lutero é um grande nome da Reforma Protestante. Não foi o primeiro a peitar a Igreja Católica, mas foi um dos que teve atos com resultados mais efetivos. Por alguns de seus atos – colar uma lista de 95 problemas identificados por ele na referida instituição religiosa, por exemplo – foi perseguido, encontrou simpatizantes, e acabou por fundar uma nova linha teológica que originou uma série de doutrinas e subdoutrinas religiosas. Hoje, é um dos grandes heróis destas igrejas, defendido e elogiado pelos clérigos protestantes. Infelizmente, esse pessoal todo que o elogia esquece de citar seu lado negro, e suas obras anti-semitas, usadas como bibliografia de apoio de Hitler e do Partido Nacional-Socialista.

Non sequitur

Alguém estava singrando os mares desta vastidão chamada internet quando se deparou com este texto e o enviou a mim. Para você, caro leitor, não precisar perder seu tempo indo lá naquele site execrável, segue um trecho que resume bastante o conteúdo:

Um estudo publicado na revista Science pode comprovar a verdade Bíblica do Dilúvio e da diversificação acelerada dos seres humanos depois desse episódio. Isso porque a pesquisa mostra que a variação do genoma humano começou há aproximadamente 5 mil anos atrás.

[...]

Para quem defende a Terra tem milhões de anos fica a pergunta: Por que com tantos milhões de anos a diversificação genética dos humanos só passou a acontecer nos últimos 5.000 anos?

Mais um exemplo de como crentes (seguidores de Abraão ou seguidores de Ganesha, tanto faz), fazendo uso de leitura seletiva, ignorância ou total má-fé mesmo, tentam trazer a ciência que tanto negam pro seu lado. Resolvi investigar, afinal haviam duas possibilidades: a de o estudo sequer existir e a notícia ser nada mais que uma corrente de emails dessas que circulam pela internet desde 1997, e a de o estudo existir mesmo e ter sido completamente desfigurado na exegese crente.

Não deu outra, e cinco segundos de Google me mostraram que a segunda hipótese estava correta. Apesar de o artigo da Science a respeito não estar disponível ao público geral, uma breve espiadela em seu resumo pode esclarecer a questão. Os autores do artigo relatam que fizeram o sequenciamento do DNA de uma amostra de indivíduos norte-americanos dividida em dois grupos – sendo um deles composto por descendentes de europeus, e outro por descendentes de africanos -, identificando algumas variações raras em nucleotídeos do material genético dessas pessoas. Concluem dizendo que:

This excess of rare functional variants is due to the combined effects of explosive, recent accelerated population growth and weak purifying selection. Furthermore, we show that large sample sizes will be required to associate rare variants with complex traits.

Ou seja, essas variações raras encontradas por eles no recente passado genético da espécie humana aconteceram devido ao crescimento populacional e à miscigenação, e a descoberta pode ter sido limitada pelo tamanho ou composição da amostra selecionada por eles para realizar o estudo.

Agora me explique: como é que esses editores de sites evangélicos lêem esse resumo e chegam à conclusão de que o estudo bate com “relatos sobre a história de Noé que aconteceu há cerca de 4.500 anos”?

Teoria geral das teorias da conspiração

Estou aproveitando a greve das federais e botando minhas leituras em dia. Não deveria, eu sei. Deveria estar aproveitando o tempo e fichando livros desesperadamente, pesquisando em bases de dados de artigos científicos, acampando na biblioteca. Mas estou lendo “O Pêndulo de Foucault”, do Umberto Eco. Faltando 30% do livro para terminar, bolei a seguinte teoria:

Há dois tipos de impressionáveis: os que acham que os antigos eram burros demais para construir pirâmides sozinhos e precisavam da ajuda de deuses astronautas, afinal não deviam saber construir andaimes, e os que acham que os antigos eram muito mais inteligentes que os nossos atuais cientistas tolos, porque Paracelso já sabia de coisas que a ciência demorou pra provar, e a Verdade é muito mais profunda que o que sabe nossa vã filosofia.

Acredito que o bom senso está entre um e outro.

Você tem que se amar

Acho lindo esse negócio de “comece uma revolução, pare de odiar seu corpo”. Lindo mesmo, de verdade. Eu sei bem o que é não ter nenhum apreço por si mesmo. Faz um mal danado, prende a gente no chão, faz a gente não avançar em tantos aspectos da vida que a falta dela em alguns casos torna viver literalmente impossível. Tudo o que promove a auto-estima das pessoas tem meu apoio.

Note que a guria da foto é linda. Assim até eu!

Note que a guria da foto é linda. Assim até eu!

O ruim desse tipo de campanha é que joga toda a culpa na gente. É a gente que devia largar mão de ser besta e não se deixar levar pela publicidade. Porque assim que a gente começar a amar a si mesma, magicamente todos esses anos em que a gente ouviu o quão feia é – seja da cultura, da mídia, dos crushs, ou até de amigos – sumirão. Ninguém mais vai te desprezar por causa da sua aparência. Aquela guria vai instantaneamente se apaixonar por você, e os caras não vão mais te ignorar como fizeram a sua vida toda. Auto-confiança você vai adquirir imediatamente, e a insegurança irá toda embora num passe de mágica, olha só que legal!

Ao mesmo tempo que a publicidade faz as pessoas se sentirem culpadas por seus quilinhos a mais, a contra-campanha faz elas se sentirem culpadas por não conseguirem amar seus corpos. Como assim você não se ama? A culpa é sua se essas campanhas te fazem se sentir mal, você que é burra!

Como dizem vários dos personagens d’O Festim dos Corvos, palavras são vento. Dizer pras pessoas que elas devem se amar não vai fazer com que elas se amem, e culpá-las por sua baixa auto-estima, menos ainda. A intenção é boa, mas é utópica. E talvez eu conseguisse me amar se toda vez que eu me olhasse no espelho a minha vontade não fosse a de quebrá-lo com os punhos e enfiar os cacos nos olhos.

Bobagens aleatórias sem periodicidade definida