Triplog #1

25 de março de 2015, 22:32 (horário de Brasília)
No vôo de Cuiabá com destino a Alta Floresta no qual viajei (escrevo estas linhas a bordo de um ATR 42 — ou será um ATR 72? O cartão com instruções em caso de acidente não especifica) havia a edição de março da Azul Magazine que trazia uma entrevista com Luis Fernando Veríssimo. Nela, o escritor diz que gostaria de ter sido autor de um texto atribuído a si que circula na internet, de nome “Quase”. Não conheço ou não me lembro de ter lido. Uma vez que textos dessa natureza raramente possuem um autor identificável com nome e sobrenome, mesmo que ele aparecesse e assumisse sua autoria, jamais alguém acreditaria de fato. Mas fico aqui imaginando que tipo de satisfação pessoal esse cara (ou moça) não deve estar sentindo se tal informação chega a seus ouvidos. Eu teria enfartado na hora.


26 de março de 2015, 2:01 (horário de Brasília)
Estou em um hotelzinho no norte do Mato Grosso, insone e tentando fazer um debriefing da viagem até aqui (ela continua mais 120 km a nordeste amanhã). E então lembrei do carioca. Pois bem: no meu vôo tinha um carioca cujo acompanhante não disse uma única palavra durante todo o trajeto. Mas ele mesmo veio despejando seu monólogo olavete com pitadas de Ayn Rand sobre todos os passageiros do avião durante as quase duas horas de viagem — e era uma aeronave pequena! Como se não bastasse o papo, tinha o agravante do sotaque. Nada contra cariocas, tenho até amigos que são, mas esse sotaque, como diria minha mãe, é de lascar o cano. Fiquei durante um tempo considerável matutando sobre até que ponto uma ideia idiota pode ser levada em conta como apenas mais uma ideia e até que ponto ela pode ser sumariamente dispensada, enquanto tentava me concentrar na leitura de um trecho de “A Ideologia Alemã” em que Marx discorre sobre a ingenuidade do pensamento dos Jovens Hegelianos e Feuerbach, se é que entendi direito.


26 de março de 2015, 10:33 (horário de Brasília)
Alta Floresta é um jovem município localizado no chamado Nortão do Mato Grosso. Fica a 800 km da capital Cuiabá e seus habitantes têm o estranho hábito de mudar o sentido das ruas ao modo inglês, e é bastante provável que isso aconteça de maneira totalmente inadvertida. O comércio tem grandes extensões de calçada na frente, convertidas em estacionamento, e a cidade toda deve ter aproximadamente três semáforos. Um prato cheio para os motoristas de Hilux que habitam a região.

Nada aqui fica aberto depois da meia-noite, com exceção dos “prensadões”: banquinhas de cachorro quente e mil variações de x-salada feitas na chapa — daí o nome. Talvez a maior iguaria alimentícia do local. Recomendo muito.


26 de março de 2015, 21:03 (hora local)
Depois de um dia atravessando pelo menos 80 km de estrada de terra, pontes precárias, e uma balsa atravessando um dos principais rios do estado, e descobrindo que mercados em cidadezinhas isoladas têm frutas muito mais bonitas e baratas que os mercados do sul com os mesmos fornecedores*, finalmente cheguei ao meu destino e agora assisto ao Canal do Boi com meus pais. Antes de pensar que é uma péssima opção televisiva, há neste canal transmissões ao de leilões ao vivo em todo o território nacional de seres sencientes mas não conscientes que valem mais que todo o dinheiro que jamais vai passar pelas minhas mãos em toda a minha vida. Mas era isso ou algum televangelista neopentecostal genérico.

*Isso pôde ser verificado através de um exame atento das etiquetas de frutas como melões, melancias e maçãs.


26 de março de 2015, 23:04 (hora local)
Que motivos levaram o jovem piloto alemão a conduzir um avião com cento e cinqüenta pessoas direto para o chão? Não sei, mas um dos integrantes da dupla sertaneja Jads & Jadson — não sei se o Jads ou o Jadson — é a cara do Messi.

Ficando longe

Não sei, mas acho que as funcionárias do Cantata Café desconfiam seriamente que venho aqui apenas para usar internet. É verdade, mas também porque é um lugar confortável no centrão da cidade com boas opções para bebericar líquidos não alcoólicos, e se preciso “fazer hora” — como agora —, é o lugar perfeito para isso. O bom é que fico constrangida e sempre compro alguma coisa para compensar o uso indiscriminado do acesso gratuito à internet e das mesas e assentos acolchoados grandes e confortáveis. O ruim é que sempre ando cheia de tralhas, como livros e guarda-chuvas, e sempre acabo ocupando uma mesa inteira em que caberiam quatro ou mais pessoas.

Neste exato momento pago pelo meu acesso à internet com um café expresso pequeno, que certamente vai me provocar uma enorme azia, enquanto rabisco estas palavras no celular e alterno essa atividade com a leitura de “Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo”, de David Foster Wallace. Conheci o DFW por acaso: não lembro exatamente como veio me parar nas mãos aquele discurso de formatura que ele fez sobre os peixinhos que não enxergam a água onde estão mergulhados. Aí soube que ele cometeu suicídio na década passada e descobri que sua mais famosa obra era “Infinite Jest”, um catatau de mil páginas — sendo metade delas apenas notas de rodapé — e resolvi topar o desafio, porque se tem uma coisa que me fascina essa coisa é notas de rodapé*. Algumas semanas me debatendo com o livro foram suficientes para me fazer desistir (pelo menos por agora) da leitura do que um amigo apelidou de “Infinite Tijolo”. No canal da Tatiana Feltrin descobri que ele também escreveu contos. Era por aí que eu tinha de começar. Baixei o “Ficando Longe do Fato etc”, joguei no Kindle e estou na metade.

Gostei bastante da forma como o DFW narra as duas (por enquanto) aventuras por que passou a mando da revista Harper nos ensaios “Uma coisa supostamente divertida que eu nunca mais vou fazer” e o texto que dá nome ao livro. Se tenho alguma ambição literária, esse é o tipo de coisa que eu gostaria de escrever — incluindo aí a parte de ser paga para viajar em cruzeiros de luxo. Esse tipo de narrativa de coisas aparentemente banais com observações perspicazes sobre as mesmas** é também o tipo principal de coisa que me atrai em todos os escritores de que sou fã, de Luís Fernando Veríssimo, passando por Kurt Vonnegut, e indo até Douglas Adams. Ainda que algumas de suas observações sejam um tanto maldosas, a ponto de ofender até mesmo um amigo que tem uma fascinação suspeita por nazismo e Segunda Guerra em geral.

Agora, ainda no Cantata Café, tento: 1) escrever um parágrafo de encerramento para esse texto; 2) aplacar a vontade de esvaziar a bexiga pensando em outra coisa; 3) aplacar a azia e a queda imediata de pressão sanguínea que o expresso provocou com uma soda italiana de framboesa (não tinham xarope de tangerina); 4) ler o “Ficando Longe do Fato de etc” até atingir a marca dos 50% no Kindle e poder, portanto, registrar o progresso de leitura em meu perfil no Skoob. Meio que falho em cada uma dessas coisas e, como está dando meu horário e sou bastante paranóica com isso, resolvo pagar e ir embora. Mas não sem antes editar e publicar esse texto, torcendo pra que o aplicativo mobile do WordPress aceite tags HTML.


*É bastante provável que, entre minhas motivações, eu tenha embarcado nessa de carreira acadêmica apenas para satisfazer essa vontade inconsciente de colocar notas de rodapé em textos, que talvez nada mais seja que uma fuga do assunto principal em forma de pequenos adendos que, por sua vez, chegam a dar um certo alívio ao quebrar a linearidade do texto. Eu acho, pelo menos.

**A nota de rodapé dele sobre Sorrisos Profissionais (significa exatamente o que parece) e as observações sobre publicidade em geral são especialmente perspicazes. Trecho: “Serei a única pessoa certa de que o número crescente de casos em que pessoas de aparência totalmente normal de repente abrem fogo com armas automáticas dentro de shoppings centers, seguradoras, clínicas médica e McDonald’s tem relação causal com o fato de que esses locais são notórios centros de disseminação do Sorriso Profissional?”

Texto puro em eBook: um pequeno tutorial

No fim do ano passado fiz um cursinho online de Python no Coursera. Provavelmente esqueci a maior parte do que aprendi, mas pelo menos já sei mais ou menos como me guiar na linguagem caso precise fazer algo com ela. O que me motivou a fazer esse curso foram os livros. Converter um PDF de alguma edição fora de catálogo era algo próximo de viver o inferno, mas eu meio que tomei gosto pela coisa e queria arranjar formas mais eficazes de processar todo esse texto que extraía desses livros, e foi assim que surgiu este pequeno script.

E como entre alguns amigos eu virei uma espécie de referência quando se trata disso — uma atividade que eu transformei num tipo muito estranho e masoquista de hobby —, resolvi fazer aqui um tutorialzinho de como criar ebooks a partir do momento em que você já tem o texto pronto e processado, porque a parte de aprontar o texto é muito chata e ninguém em sã consciência além de mim e alguns malucos tem paciência para essa primeira parte. Talvez renda um texto futuro, mas não tenho muita certeza. Uma coisa que aprendi nos últimos vinte e sete anos e meio é que não se deve esperar muita coisa de mim.

Vamos lá. Você vai precisar de:

  • O programinha Calibre instalado em seu computador
  • Conhecimento básico em HTML e CSS

Abra o Calibre e clique em “Adicionar livros” e depois em “Adicionar um livro vazio (uma entrada de livro sem nenhum formato)”. Vai aparecer a janelinha da imagem abaixo depois, e você preenche — ou não, isso também pode ser preenchido depois — conforme a necessidade.

tuto-calibre-1

O livro recém-criado vai aparecer em sua biblioteca como um livro comum, mas se você abrir ele vai estar… erm… vazio. Clique nele com o botão direito e depois em “Edit book” (sim, a tradução do Calibre é meio cagada). Uma segunda janela será aberta. Aí você pode acrescentar arquivos em html, fontes, imagens etc, no seu novo livro. Recomendo usar um arquivo HTML pra cada capítulo, e para cada elemento pré e pós-textual. E, claro, usar as tags HTML semanticamente — ou seja, direitinho: H1 pra título geral, H2 pra títulos principais, H3 pra subtítulos, P pra parágrafos etc. Você também pode definir classes e estilos em CSS pra deixar a parada mais bonita, como por exemplo formatar blocos de citação e epígrafes de capítulos.

A imagem abaixo é do arquivo da edição brasileira de “A Dialética do Sexo” que eu converti em ebook no fim do ano passado. Deu um trabalho do cão pois o texto estava com o OCR cagado e o scan não estava muito legível; fora que o programa de OCR que usei não era lá muito bom com língua portuguesa. Tive que reescrever boa parte do texto.

tuto-calibre-2

A parte mais chata de transformar esses livros velhos em ebook é fazer as referências e as notas de rodapé: tem que fazer links com âncora, e se o livro tiver muita nota você pode se confundir bonito nessa parte. Quando converti o volume dois d’O Segundo Sexo em ebook cometi um erro no começo e ele foi “herdado” por boa parte do livro; tive que fazer tudo de novo, então recomendo bastante cuidado nessa parte.

tuto-calibre-3

Dicas

  1. Esse livro criado do zero vai estar em formato ePub — o formato aberto aceito pelos leitores digitais em geral, inclusive o Kobo. Pra ler no Kindle, é só ir na biblioteca, clicar com o lado direito do mouse e mandar o Calibre converter o arquivo no formato mobi.
  2. Use o Word para fazer a revisão do texto: mesmo que você tenha que corrigir certos termos você mesmo — em inglês por exemplo —, ele vai marcar o que estiver estranho no texto e vai ser mais fácil de encontrar essas ocorrências e revisar.
  3. tuto-calibre-4O botãozinho “Verificar livro” no editor de livros do Calibre é mágico. Ele vai procurar incongruências no seu código e ajudar a corrigir se alguma tag HTML estiver fora do lugar.

Isto fica feliz em ser útil. Até amanhã! o/

Um tunel no final da luz

Não sei exatamente como funciona esse negócio de inferno astral, mas apesar de ter nascido em julho acredito firmemente que estou vivendo o meu neste exato momento. E também desde que nasci. Por algum motivo que me escapa, me parece ser impossível ter um segundo de paz sem que a menor faisquinha de nada se transforme em um incêndio de grandes proporções e mate asfixiada todas as formas de vida num raio de 100km, cujo marco zero sou eu. Parece que todo mundo nasceu com um manual que leu direitinho e aprendeu mais ou menos como lidar com esse negócio chamado “Vida”. O manual que viria comigo foi comido pelo cachorro, a professora não acreditou quando contei o ocorrido e ainda me botou de castigo.

Falando em escola, lembro de uma cena quando, na quarta série, um colega pisou e amassou propositadamente um trabalho meu, feito orgulhosamente em almaço* e com silhuetas de papel laminado fazendo as vezes de lua e estrelas decorando a capa. Ele o puxou das minhas mãos, jogou-o no chão e esfregou os tênis sujos nele. Eu nunca entendi o que aconteceu. Eu nunca sequer tinha conversado com aquele menino, afinal tinha acabado de mudar para aquela escola**. A professora chegou a ver parte do ocorrido e não o puniu. Mas foi esse o dia em que eu tive certeza de que minha vida escolar seria um inferno.

Agora, escrevendo isso exausta depois de um dia daqueles em que teria sido melhor não ter levantado da cama, percebo que a vida até aqui seguiu mais ou menos nesse mesmo ritmo, e a todo momento um molequinho metafórico toma das minhas mãos qualquer coisa que seja que eu tenha me empenhado para fazer e arrasta ela no chão com os pés. No fim das contas, eu acabo vendo que meu esforço foi em vão e só tenho vontade jogar tudo no lixo e nunca mais levantar da cama, porque parece não adiantar. Não vejo progresso, não vejo avanço, não vejo aumento de conhecimento. Em vez disso só consigo enxergar o quão atrasada em tudo estou, a ponto de acreditar que posso realmente ser portadora de algum tipo de déficit de aprendizagem.

Queria largar tudo, viajar, sumir, tentar entender porque sou assim e porque as mais variadas formas de azar se abatem sobre mim desde que fui posta no mundo, e porque tenho tanto azar até quando tenho sorte. Mas acho que vou morrer sem matar essa charada.


*As gerações mais novas já não sabem o que é papel almaço então convém explicar. Tratam-se de folhas pautadas dobrada ao meio, que podiam ser encaixadas e grampeadas em cadernos, que os estudantes usavam para fazer trabalhos escritos à mão. Era assim que se fazia trabalho de escola nos anos 90, antes da invenção dos computadores.

**Anos mais tarde esse mesmo garoto iria me humilhar publicamente em frequência diária enquanto eu fazia de conta que não me importava, e até lhe passava cola para ver se era deixada em paz. Não funcionou.

5 situações constrangedoras que ainda não descobri como superar

Não sou uma pessoa muito conhecida por saber lidar com situações sociais e, ainda menos, por saber lidar com os constrangimentos que essa minha falta de habilidade provoca. Antes de ser uma provocadora que não tem papas na língua em almoços de família, ou a estudante curiosa que não tem medo de expôr uma dúvida ou um ponto de vista, eu sou a prima esquisita a quem todos olham torto e a nerdona tosca que todo mundo manda mentalmente — e, por vezes, nem tão mentalmente assim — que se cale na sala de aula.

Apesar de já ter identificado toda essa minha falta de tato em simplesmente habitar o mundo e saber pontuar especificamente onde e como cometo os erros que costumo cometer, ainda não entendi como funciona o que chamo de “contrato social”. Desde as situações menos comuns e, portanto, mais passíveis de gerar embaraço a mim e aos demais presentes — como por exemplo a melhor forma (ou, pelo menos, a forma com menos possibilidade de erros) de se prestar condolências, como já demonstrado em um texto anterior —, até as mais corriqueiras, como o número de beijos e em que bochechas depositá-las de acordo com o hábito do meu estado de residência na Federação, tudo me causa uma espécie de fobia. Não que eu tenha mesmo qualquer fobia do tipo: antes disso, sinto falta de convívio social devido aos meu anos de isolamento justamente por essa incapacidade, e não saber o que fazer na presença de outros seres humanos me dá bastante angústia e ansiedade.

Vou enumerar a seguir aquelas situações que me deixam em uma verdadeira saia justa, e que por mais que já tenha vivido tal situação um milhar de vezes, ainda me sinto completamente perdida.

1. Cumprimentar desconhecidos

Quando me mudei para Curitiba, a capital nacional do mal humor, comemorei com bastante entusiasmo o fato de não precisar olhar para a cara de ninguém nem dar bom dia no elevador. O problema, porém, é que tal qual a noiva fantasma na beira da estrada, isso é uma lenda: o curitibano médio é sim bastante mal educado, mas exige educação. E faz uso justamente da falta (ou até mesmo da presença) dessas falsas gentilezas para ser ainda mais mal educado em troca. Essa dissonância cognitiva diária é quase um esporte local.

2. “Tudo bem, e você?”

Já dizia um ditado que vi em algum lugar e não me recordo da autoria: o chato é aquela pessoa a quem você pergunta se está tudo bem e ela responde. Ainda que eu saiba que a construção frasal “oi, tudo bem?” seja apenas uma forma educada de se iniciar uma conversa, nunca sei o que devo responder em seguida. Se as pessoas não têm a intenção de saber ou contar como vão indo, por que se dão ao trabalho de perguntar? Não foram poucas as vezes em que alguém me fez essa pergunta e eu respondi sincera, ainda que vagamente. O que tem acontecido nos últimos tempos quando me fazem essa pergunta é eu simplesmente ignorar tudo e partir para o assunto principal, deixando para meu interlocutor saborear uma deliciosa torta de climão.

3. Cobrar uma promessa boba de paqueras

Aí aquele seu amigo prometeu te enviar um artigo interessantíssimo a respeito do qual vocês estavam conversando em uma situação de flerte. Você não sabe se foi flerte, se foi por educação, se foi uma forma de tentar te impressionar ou falta de assunto. O fato é que você de fato se interessou por aquele assunto, mas foi deixada no vácuo. Você tentou cobrar essa pequena promessa boba nesta e em outras situações com outras pessoas fora de situações de flerte, mas ainda não foi capaz de detectar um padrão confiável para saber se esse tipo de coisa só acontece com você, ou se só acontece em situações envolvendo algum tipo de tensão sexual, ou o que quer que seja.

4. Telefonemas fora do contexto de trabalho

Se tem uma habilidade social que trabalhar em um lugar onde se depende constantemente do telefone para comunicação me proporcionou, essa habilidade foi a de falar ao telefone. Ainda que o item dois da presente lista ainda me aflija diariamente, virei praticamente a secretária do meu setor. Mas quando se trata de falar ao telefone com amigos e familiares, a coisa desanda. Apreciar uma conversa telefônica descompromissada é algo de que sou simplesmente incapaz, e as pessoas do outro lado da linha parecem simplesmente não saber a hora de parar.

5. Contato físico com desconhecidos

Simplesmente não entendo a dinâmica deste tipo de interação. Ao mesmo tempo em que não gosto da proximidade física de estranhos, não gosto de ser a chata inconveniente e paranóica. Antes de ser feminista e ter algum tipo de consciência das várias formas que podem ser usadas em prejuízo das pessoas que, como eu, portam sistema reprodutor feminino, já me coloquei em situações deveras complicadas por não saber estabelecer limites, mas agora simplesmente parto do princípio de que não sou obrigada. Me mudar para Curitiba foi realmente uma conquista nesse sentido.

Patinação

Queria ter escrito alguma coisa ontem mas não consegui. Primeiro porque o tema seria inevitavelmente as tais das manifestações — sei disso porque cheguei a rascunhar um parágrafo e estacionei ali. Segundo porque apesar de ser um exercício, esse negócio de escrever tem que ser feito com um mínimo de prazer, e ontem isso simplesmente não foi possível.

Pois bem. Hoje pelo visto é o dia mais frio do ano até o momento, e daqui pra diante eles serão cada vez mais curtos, úmidos e frios. E não sei mais o que pensar sobre outonos além do fato de que são, pelo menos aqui, irregulares: apesar de a chuva ser mais ou menos constante, o calor fica indo e voltando, e com isso a saúde se esvai e os mofos tomam conta das paredes.

Se falo de clima e tempo é porque não tenho nenhum assunto no momento. Mas falando em mofos e paredes, penso aqui que eu queria ter meus próprios mofos crescendo em paredes só minhas. Aparentemente esse desejo, que é minha única ambição na vida, ainda vai demorar muito pra se realizar. Lembro que quando adolescente minha vontade não era ter um quarto só meu (algo que só consegui ter aos 26 anos de idade), mas uma casa inteira só para mim.

Uma vez que para isso acontecer seria necessário um aumento significativo na minha renda, já perdi as esperanças. E depois de dezoito anos de estudos formais, e sete atuando no mercado, só consigo pensar que todas as vezes em que me vi diante de uma escolha, escolhi errado. A profissão, a pós-graduação, até a roupa que estou vestindo hoje. Não conheço muita gente com o meu perfil para poder fazer alguma comparação e ver mais ou menos o meu progresso na corrida da vida; a maioria dos meus ex-colegas de faculdade tinha condições financeiras muitas ordens de magnitude melhores que as minhas.

Para resumir, eu não sei o que fiz de errado. Não sei nem se estou de fato fazendo algo errado, porque isso pode muito bem ser um reflexo do cenário econômico ou do momento histórico atual, ou de sabe deus de que outras variáveis que se possam considerar aqui. O fato é que tento permanecer sob meu teto atual o mínimo possível e, quando não há outro jeito, tento me alienar o máximo que posso. Não consigo mais suportar a idéia de que posso chegar aos trinta ainda vivendo sob o mesmo teto que minha família e sem ter uma vida própria, com meus horários próprios, com meu próprio ritmo. Não que minha família seja ruim: eles já foram muito piores. Mas eu preciso dessa independência deles pra me sentir minimamente realizada. Quando digo que é minha única ambição na vida, não estou brincando.

Talvez o clima, combinado a hoje ser finalmente dia de pagamento, tenha me feito melancólica hoje. Mas se for para patinar, que o deslize seja ao menos para frente. Cansa um bocado ter azar até quando se tem sorte.


PS: O Google Docs diz que o texto, até antes do acréscimo dessa notinha, tinha exatamente quinhentas palavras. Quando colei aqui no WordPress, ele acusou 498. Acredito que este esclarecimento seja suficiente para preencher a cota.

Reaper Man

Exatamente no dia em que decido que preciso voltar a escrever com frequência sou incumbida da tarefa de escrever sobre Terry Pratchett, em meu primeiro trabalho jornalístico profissional onde produzo texto ao invés de imagem. Foi uma experiência interessante. Já escrevi uma matéria uma vez — e ilustrada, de página inteira —, mas ela está na gaveta há tanto tempo que não tenho muita certeza de que o editor gostou ou está afim de publicar. Soube da morte de Pratchett e fui correndo avisar o editor do caderno de cultura. Não o conheciam, e o editor disse que se eu quisesse escrever alguma coisa tudo bem. Voltei pra minha mesa e vinte minutos depois tinha vomitado um textinho razoável de 3.500 toques.

A morte é um negócio engraçado. Evidente que Morte, o personagem de Discworld, é engraçado, mas no momento estou mesmo falando daquele fato da vida. Ou da não-mais-vida. Eu não sei se sou só eu, mas lido com a morte de uma maneira um tanto estranha. Alguém pode achar que é porque Pratchett não era exatamente uma pessoa presente em minha vida e que conheço a obra dele tem apenas um ano, mas mesmo pela morte de pessoas queridas eu passo meio apática. Tem o choque, claro: “e agora?, essa pessoa maravilhosa não vai mais ser quem ela é, vai sumir da existência, não vai produzir mais nada e, se não tomar cuidado ela vai até esvanecer da nossa memória!”

Meu avô materno, por exemplo. Eu o amava muito, ele era um exímio contador de histórias com aquele jeitão despachado de espanhol que adora falar pelos cotovelos. Morreu em 2007, do coração. Eu o vi deitado no caixão, vi todo o sofrimento dos meus familiares à minha volta, e só consegui me sentir extremamente envergonhada por não conseguir sentir aquela perda. Hoje tenho plena noção de que o mundo ficou bem diferente por causa da ausência dele, mas não consigo não pensar que ele possa estar apenas viajando.

No entanto, se me pego pensando no dia em que minha mãe vai morrer, quase entro em desespero. Só de escrever isso parece que uma bolota de angústia cresceu na garganta e o olho deu uma ardida. Talvez porque tantas vezes a assisti, impotente, sofrer de falta de ar enquanto recusava ajuda médica. Não penso na morte de mais ninguém dessa mesma forma.

Já pensei muito na minha própria morte. Já desejei muito morrer. Mas hoje, há um ano curada da depressão (acho; uma ansiedade do tamanho de um monstro tomou o lugar dela), as única vezes em que realmente temo esse momento é quando, numa rua escura, alguém aperta o passo atrás de mim. Mas não é exatamente um medo de morrer. Mesmo quando quis, não era o medo de morrer que me aterrorizava, era o medo de não dar certo e eu virar um vegetal, algo assim. Em geral não penso muito nisso, porque não tem muito o que pensar. Não dá pra conceber a própria inexistência. Deixar tudo pra trás, pra quem morre, deve ser indiferente. Deve ser bom. De certa forma, a epifania que me tirou do estado depressivo foi mais ou menos isso: “sossega, um dia você vai morrer e nada disso vai importar mais porque nada importa de qualquer jeito, so enjoy the ride“.

Não sei muito bem como terminar esse texto. Já não sabia quando o comecei. Quase como a vida, né?

500 palavras

Hoje terminei de ler o “Backlash” de Susan Faludi literalmente chorando e, no desespero para tirar da cabeça a triste realidade de que em trinta anos nada, absolutamente nada havia mudado — talvez tivesse até mesmo piorado —, levantei da cama com o firme propósito de fazer alguma coisa de produtivo da minha vida já que mudar o mundo sozinha está fora de questão. Rapidamente passou pela minha cabeça a proposta que tinha feito a mim mesma alguns dias antes de escrever pelo menos quinhentas palavras por dia. Entre trabalho, Twitter, estudo e anotações esparsas, é bem provável que eu escreva muito mais que quinhentas; nas épocas mais tenebrosas em que estava às voltas com a dissertação, em algumas ocasiões, consegui bater a meta diária de três mil palavras diárias.

O real problema desse projeto não se trata do ato de escrever propriamente dito, mas de escrever algo substancioso, com alguma ideia que se pudesse futuramente aproveitar, algo com liga. Ainda que escrever não seja exatamente uma ambição que sirva pra me polir o ego — sou muito mais movida por aprender algo novo do que mostrar o que já sei —, escrever é uma atividade que está entre as minhas atribuições profissionais e acadêmicas. Como disse, eu escrevo todos os dias, e muito menos do que deveria. Eu até mesmo edito texto de pessoas que vivem de escrever! No momento, tenho pelo menos três idéias para artigos acadêmicos rodando em segundo plano em minha mente e a única coisa que realmente me impede de levar esses projetos adiante é a absoluta e inevitável frustração que se abate sobre algumas pessoas que recém concluíram uma fase importante de suas vidas. No meu caso, o mestrado.

Escrever, como qualquer habilidade, não é um talento inato. Exige treino, exige técnica, exige conhecer as fórmulas consagradas pra depois, muito depois, se conseguir expandir o próprio conhecimento. E exige disciplina. E é exatamente aí que está o meu problema. Se melhorar a escrita em qualquer nicho exige exercício, ainda que minha escrita tenha amadurecido muito nos últimos anos eu ainda posso melhorar. Todo mundo pode.*

É por isso então que hoje estou oficialmente tirando a poeira do blog. A partir de hoje vou tentar escrever todos os dias (úteis) sobre qualquer coisa, e pelo menos quinhentas palavras. Acredito que se trata de uma meta razoável e muito mais possível de se cumprir que os trinta quilômetros semanais de caminhada a que me propus há algumas semanas e não consegui porque um dia choveu, no outro tinha compromisso, no outro dormi mal**.

Como, entre texto e notas de rodapé, estou quase batendo a meta, acho melhor ir encerrando por aqui. Espere no futuro mais textos neste blog. Só não espere muita coisa deles.


*Até o Raphael Draccon, cujos escritos me lembram os meus próprios aos doze anos, mas que deu um salto bastante significativo em “Cemitério dos Dragões”, apesar de tudo. Isso também pode ter sido mérito do editor.

**Mas fiz dezesseis quilômetros em dois dias. Não querendo me gabar, mas não é pra qualquer um.

Resenha: Até o Fim da Queda

Quando comecei a me embrenhar na produção literária brasileira mais recente e mais voltada a entretenimento — a saber, a Nova Literatura Fantástica Brasileira — também o fiz pelo mesmo motivo de seus entusiastas, o entretenimento. Não havia encontrado nenhum livro bom até agora, mas tenho me divirtido muito lendo esses livrinhos. Uma coisa, no entanto, me deixava com a pulga atrás da orelha: onde estão os dez porcento? Me admirava que, entre tantos escritores se lançando no mercado editorial e querendo avidamente contar suas histórias, por vezes pagando sua publicações do próprio bolso, não pudesse sair coisa boa. Até havia um continho aqui e ali, como alguns poucos que li do Carlos Orsi, mas nada que de fato chamasse a atenção.

Foi então que, há algumas semanas, o Ivan Mizanzuk — que, coincidências dessa vida, fez uma disciplina comigo no PPGTE — me procurou e me presenteou com uma cópia de seu livro, o thriller Até o Fim da Queda, e pediu minha opinião. Após a folga do feriado encontrei o livro em minha mesa no trabalho e iniciei a leitura, sem saber muito o que esperar. Afinal, tratava-se de um cara que, pela pouquíssima convivência que tive com ele, parecia inteligente, publicando por uma editora que pariu pérolas como O Desejo de Lilith. Por um segundo me senti em uma tremenda cilada, mas o desafio estava posto, alea jacta est.


Não veja este vídeo. Sério.

Impossível falar deste livro sem comentar seu design. Em primeiro lugar, preciso parabenizar o Ivan pelo cuidado com o projeto gráfico, que é de autoria dele. Apesar do colofão acusar a presença de seis tipografias diferentes e não pertencentes à mesma família, elas foram muito bem usadas. Há bastante uso de negativo — letras brancas em fundo escuro —, mas o peso e o tamanho das letras foram bem avaliados. Porém, a Draco peca na revisão: vários pequenos erros — typos, palavras grudadas, e pelo menos um caso de uma frase que poderia ter sido reformulada para evitar repetição — escaparam aos olhos dos revisores. Em bem menor grau que a média dos livros da Nova Literatura Fantástica Brasileira, é verdade, mas escaparam.

Precisei comentar sobre a aparência do livro porque esta é uma história que precisa estar impressa em papel para funcionar. Há muito tempo deixei de ler em mídia física em favor dos livros eletrônicos, mas no caso de Até o Fim da Queda, há uma troca interessante entre o meio e a mensagem que provavelmente não funcionaria no Kindle*. Até o Fim da Queda trata de um escritor que se baseia em um caso de suicídio coletivo para escrever um livro e, assim que tal livro atinge notoriedade, outros casos de suicídio começam a ocorrer por todo o país, tendo em comum o fato de se darem após sua leitura. E a narrativa é bastante fragmentada: são vários recortes (notícias de jornal, poemas, transcrições de gravações, gravuras, trechos de entrevistas, cartas antigas etc), que formam o todo; recortes que parecem ter sido juntados quase que deliberadamente. A princípio, achei que não seria uma leitura agradável por causa disso, mas o fato é que a história propriamente dita acontece nos entremeios desses recortes, e é o leitor que vai montando o quebra-cabeças à medida em que lê.

Uma vez acostumada a essa estrutura, a coisa flui. Lá por volta do segundo terço da obra, porém, o autor nos presenteia com uma voadora de dois pés no peito: o capítulo 3 inicia com comentários de portal e encerra com um post do típico blog tosco e pretensioso. Eu juro (juro!) que entendi perfeitamente o que o Ivan pretendia com isso. É bastante óbvio, na verdade: mostrar o efeito que a obra do escritor fictício estava causando nas pessoas, sua reação entre os populares, mas… Precisava mesmo? Há outros momentos onde isso se mostra na história, como na entrevista que o protagonista concede a uma apresentadora de tevê — entrevista que é, certamente, a espinha dorsal da narrativa.

Outra pequena decepção com o livro foi seu final evidente desde o início — ainda que, durante a leitura, se considerem outras possibilidades. Mas o percurso até ele é tão agradável, e o final propriamente dito tão insignificante perto do todo, que esse é o menor dos problemas. Porque é logo depois das últimas páginas que temos algo que é melhor que o desvendamento do mistério principal: o posfácio, que é onde o próprio Ivan reconhece estar entregando o jogo, mostrando as referências visuais, culturais e bibliográficas utilizadas no livro — que, ao contrário do que acreditam alguns dos mais prolíficos autores da Nova Literatura Fantástica Brasileira, não precisam ser jogadas a todo momento na cara do leitor e nem precisam ser patentes**.

Planejado pelo autor e designer curitibano literalmente de capa a capa, talvez Até o Fim da Queda seja uma exceção em um mar de literatura de entretenimento ruim que vem sendo lançada no Brasil nos últimos tempos. Mas pode ser também aquele fiozinho de esperança que faltava para motivar mais escritores de potencial a tentar materializar suas histórias. Pode ser que os dez porcento da Revelação de Sturgeon existam, afinal.


*The Raw Shark Texts, por exemplo, é um livro com uma série de brincadeiras visuais que, apesar de ter sido transposto para formato digital — que foi onde o li — provavelmente fica melhor em papel devido às limitações e falta de liberdade de diagramação dos leitores digitais.

**A palavra “patente” aqui pode ser interpretada da forma que mais convir ao leitor.

2014 em livros

Dois mil e catorze foi o ano em que mais li nos últimos dez anos. Foram 46 livros (e contando). Desde que voltei a ler à sério, em 2010, já passaram pelos meus olhos 118 livros, contabilizando 41.138 páginas segundo o paginômetro do Skoob. Resenho abaixo, em nenhuma ordem especial, as obras que mais me chamaram a atenção neste ano.

The Cyberiad (Stanisław Lem)

cyberiadImagine um livro de contos de fadas em que as histórias são interligadas, quase uma seqüência de episódios. Imagine que, além de ser um livro de contos de fadas a obra seja, ao mesmo tempo, uma ficção científica — hard ou soft?. Este é o Cyberiad, onde os dois personagens principais, os “construtores” Trurl e Klapaucius estão envolvidos em situações absurdas, como construir computadores-poetas, ou uma máquina que capta informações de moléculas gasosas. Publicado originalmente em 1965 pelo escritor polonês Stanisław Lem, este livro foi para mim uma das grandes surpresas de 2014. Diz o Fábio que um dos melhores livros do autor é “Memórias encontradas numa banheira“; vai ser uma das metas de leitura para 2015.

Breakfast of Champions (or: Goodbye Blue Monday) (Kurt Vonnegut)

breakfastQuem me conhece sabe que sou louca por spoilers. São eles que me instigam e me fazem ter interesse por uma história. E Breakfast of Champions começa, em três parágrafos curtos, contando qual será o final do livro. A obra, toda ilustrada por desenhos de canetão feitos pelo próprio autor — com, inclusive, a representação gráfica de um cu — é interessante pela forma em que é narrada: nada aqui é pouco importante, Vonnegut trata cada personagem, cada fato, com uma atenção incrível. Por mais fictícios que sejam os personagens, por vezes você vai ser tão envolvido pelas histórias desses meros coadjuvantes que mal vai se lembrar qual era a trama principal.

Discworld, a série (Terry Pratchett)

discworldEntrei em um vórtice inescapável no TV Tropes. Quando achei que não havia mais esperanças para sair de lá, notei que um nome aparecia com freqüência notável: Terry Pratchett. Saí do Tv Tropes e resolvi dar uma chance, e acabou que descobri uma das melhores série de humor de todos os tempos, o Douglas Adams da Fantasia. Se nada de bom tivesse me acontecido em 2014, o ano já teria valido a pena somente por ter conhecido a série. São, até o momento, 40 livros publicados, e já li um quarto deles. Infelizmente, Pratchett foi diagnosticado com Alzheimer em 2007 e dificilmente poderá dar continuidade ao se trabalho. Uma pena.

The Iron Dream (Norman Spinrad)

irondreamNão consigo me lembrar exatamente como foi que surgiu a vontade de ler este livro, mas é a história alternativa nazista mais louca que eu já li depois de Nazi Literature in The Americas, do Roberto Bolaño — chora, Taranta! Hitler se desentende com o partido e vai embora para os EUA, onde faz carreira como escritor de ficção científica e o Holocausto nunca aconteceu. Seus fãs, no entanto, envergam orgulhosos as fardas da SS nas convenções nerd. Parece absurdo — e é! —, mas não muito distante da realidade: muitos escritores, defendendo absurdos, já foram absolvidos pelos fãs. É uma divertida manifestação literária da Lei de Godwin cheia de homossexualidade reprimida e referências explícitas a falos, aprovada inclusive por neonazistas.

Who Cooked The Last Supper? (Rosalind Miles)

lastsupperÉ fato notório que as mulheres raramente contribuíram para a construção de nossa civilização — e elas deveriam se orgulhar disso! Nesse livro, Rosalind Miles conta como foi que a sociedade se organizava antes do advento do patriarcado, de que modo aconteceu essa transição e que recursos as mulheres usaram para driblar as dificuldades impostas a elas nessa nova organização social. Uma vez que a história de metade do mundo é negada ou posta em segundo plano, ler este livro dá uma real sensação de alívio. As mulheres temos sim uma história, um passado, não somos passivas e temos muita astúcia para sobreviver neste mundo de homens.

A Dialética do Sexo (Shulamith Firestone)

dialeticaQuando achei que mais nenhum livro pudesse ser capaz de me arrebatar em 2014, eis que surge o pedido de uma amiga para transformar um PDF em ePub. Enquanto ia fazendo o cansativo trabalho de transposição, foi me apaixonando pela Shulamith Firestone. Publicado em 1970, quando a autora tinha só 25 anos, engloba uma pá de assuntos sem ser superficial em nenhum deles. Com críticas perspicazes à sociedade, à psiquiatria, à cultura, à maternidade, aos movimentos de esquerda e — pasme! — até mesmo ao design, nada escapa à sua brilhante análise. Não à toa o livro se trata de um marco na teoria feminista: muito do que a autora aborda e critica aplica-se com folga ao século XXI.