Problemão de Gênero, parte II, volume 5: o Verbo se faz carne

Desde o último texto publicado na série “Problemão de Gênero”, resolvi instituir um cronograma para, até julho de 2016, conseguir terminar de ler e analisar todo o “Gender Trouble”. Tem sido um desafio, principalmente pelo fato de que, bem, há muita coisa que quero ler, há muita coisa a se estudar, e o fato de eu discordar diametralmente da autora e ter ojeriza de seu estilo de escrita também não ajudam. O caso é que ler esse livro e escrever essa série tem me dado uma base teórica muito boa para entender não só a teoria feminista em voga atualmente na academia e sua manifestação mainstream, mas também como anda o mundo e como tudo isso tem se construído ideologicamente nos últimos séculos.

A partir do estudo independente desse livro — coisa que jamais me seria possível fazer sob o selo institucional do departamento de “estudos de gênero” de uma universidade —, estou estudando uma série de assuntos que me interessam, ajudando pessoas a entender melhor o que raios anda acontecendo no feminismo, e de que forma rebater esses argumentos. Se isso algum dia vai me trazer algum tipo de fruto que eu possa ostentar no meu currículo Lattes já é outra história, mas divago.

Identidade, Sexo, e as Metafísicas da Substância

A autora começa esse subcapítulo abordando a noção de “identidade”, e o que as formulações comuns a respeito desse conceito têm a dizer sobre o que ela chama de “identidade de gênero”. Essa parte específica do texto é bastante truncada e confusa, apesar de sua conclusão poder ser resumida em menos de 140 caracteres, mas vamos lá.

Butler questiona o que pode ser entendido como “identidade”, e em que sentido as identidades podem ser entendidas como internamente coerente, fixas, idênticas entre si, e o que essas assunções dizem sobre “identidade de gênero”. Ela diz que seria errado imaginar que a discussão sobre identidade propriamente dita vem antes da discussão sobre identidade de gênero pelo simples fato de que pessoas só são entendidas através do processo de engendramento em padrões de conformidade. Isso porque a “coerência” e a “continuidade” da “pessoa” não são características lógicas e analíticas da personalidade, mas normas de inteligibilidade instituídas e mantidas socialmente — de modo que a “pessoa” em si deixaria de existir se não estivesse nos conformes, e apareceria apenas como uma perversão ou impossibilidade lógica. [1] As normas de gênero buscariam assegurar uma interpretação única dos conceitos de sexo, gênero e sexualidade, e dentro dessa noção de igualar [identidade de] gênero à personalidade é “a heterossexualização do desejo” que cria oposições entre “feminino” e “masculino”.

Se, por um lado, esse argumento parece bom porque considera as pessoas como indivíduos com sentimentos e características próprias inseridas em um contexto de práticas opressivas com o intuito de os manipular em função de poderes superiores, ele deixa de levar em consideração alguns fatores essenciais para compreender porque essas “normas gendradas” existem, pra começar. Butler não considera que esses poderes que regulam as práticas sexuais dos indivíduos possuem vetores de ação e finalidades bastante específicas; se estamos realmente falando de feminismo — e Butler afirma em um momento anterior do texto que é esse o assunto (ou, pelo menos, um dos assuntos) que ela aborda no livro — isso significa dizer que esse objetivo é o controle do potencial reprodutivo das mulheres. Mas uma vez que a autora desconsidera a própria existência evidente do patriarcado — uma “noção altamente ocidental” —, é por outro caminho que ela vai seguir.

A partir daqui ela vai discorrer sobre o que ela chama de “matriz de inteligibilidade” do gênero, e de que modo o gênero, enquanto “efeito das práticas discursivas” da relação entre sexo, gênero, práticas sexuais e desejo, resulta na heterossexualidade compulsória [2]. Ela também questiona como a “heterossexualidade compulsória meramente toma o lugar do falogocentrismo como causa monolítica da opressão de gênero” [3]. Para isso, ela vai se voltar novamente ao tal do “feminismo francês” [4] e às teorias pós-estruturalistas para explicar como regimes de poder produzem as identidades sexuais, e suas contradições. Ela lista a seguir o argumento de sexo único da Irigaray — o masculino, o feminino seria o “Outro”, indefinível e irrepresentável; o conceito do Foucault de que “masculino” e “feminino” seriam resultados da “difusa economia regulatória da sexualidade”; e o argumento da Wittig de que dentro da idéia de heterossexualidade compulsória, o único sexo que existe é o feminino, pois o masculino seria o universal não marcado/estabelecido, e que o sexo desapareceria sem essa regulação. Uma vez que haja tanta variância conceitual a respeito do sexo, Butler argumenta que o sexo vai ser entendido de formas diferentes de acordo com o campo onde o poder é articulado.

Ela vai dizer que todas essas conceituações têm em comum a noção de que o sexo aparece na linguagem como substância através de uma torção no discurso: “ser” um sexo ou um gênero seria impossível, e as noções de “masculino” e “feminino” seriam frutos de um discurso falogocêntrico hegemônico que abafaria a expressão das múltiplas sexualidades.

Butler faz, então, uma breve análise do argumento de Monique Wittig:

Para Wittig, a restrição binária do sexo serve aos objetivos reprodutivos de um sistema de heterossexualidade compulsória […]. Em outro momento textual parece que “a lésbica” emerge como um terceiro gênero que promete transceder a restrição binária do sexo imposta pelo sistema de heterossexualidade compulsória. Em sua defesa do “sujeito cognitivo”, Wittig parece não ter qualquer discordância metafísica com os modos de significação ou representação […]. Ela não critica “o sujeito” como invariavelmente masculino de acordo com as regras de um Simbólico inevitavelmente patriarcal, mas propõe em seu lugar o equivalente a um sujeito lésbico como usuário da linguagem.

A identificação da mulher com o “sexo”, tanto para Beauvoir quanto para Wittig, é a fusão da categoria mulher com as características ostensivamente sexualizadas de seus corpos e, consequentemente, uma recusa em se conceder às mulheres liberdade e autonomia da mesma forma que ela é supostamente desfrutada pelos homens. (p. 26. Tradução livre)

Me parece que Butler ficou ul-tra-ja-da com a sugestão de Wittig de se destruir o sexo como hierarquia, e do “ponto de vista feminino” como uma possibilidade discursiva. A impressão que tive quando li esse trecho foi que ele foi escrito por um Ativista dos Direitos dos Homens [5] indignado com o fato de as mulheres estarem conseguindo mais direitos civis, porque senão — imagine! — vai chegar uma hora em que isso aqui vai se tornar um matriarcado, onde já se viu! Dá pra notar também o quanto ela nega de todas as formas possíveis a materialidade do sexo feminino: a menor sugestão de sua existência é vista por ela como um exagero, uma fantasia, quase como a Vênus de Willendorf, cujos atributos sexuais bem marcados representam — heresia! — um culto ao potencial reprodutivo das fêmeas.

Vênus de Willendorf

Butler continua dizendo que a lésbica proposta por Wittig “confirma, mais que contesta, a promessa normativa dos ideais humanistas pressupostos na metafísica da substância” — grifo meu [6]. As idéias da Irigaray, segundo Butler, também vão se encaixar nessa idéia de metafísica da substância, mas vão divergir das de Wittig no sentido de que a primeira separa em conceitos diferentes a “lésbica” da “mulher”, enquanto Irigaray defende a existência de uma “pessoa” antes do gênero. De acordo com ela, isso “confirma o modelo normativo do humanismo como estrutura para o feminismo”, e só contribui para a “própria produção e naturalização da categoria do sexo” [7].

A partir daí, o texto discorre sobre as análises gramaticais do gênero na língua francesa feitas pela Wittig, que defende que o gênero gramatical não só designa pessoas, mas é a ferramenta através da qual o gênero se universaliza. Butler lembra que o francês é uma língua latina, onde tudo tem gênero, mas destaca que a Wittig diz que análises semelhantes poderiam se aplicar à língua inglesa. Ela rebate esse argumento dizendo que a visão da Wittig corrobora a idéia de que as pessoas “são” gêneros, ou são suas sexualidades em virtude de seus sexos de nascimento, e que isso seria confundir sexo e gênero — que, vamos lembrar, ela disse em outra ocasião que não faz sentido separar um conceito do outro — o que, segundo ela, ajudaria a manter uma estrutura que exige coerência entre sexo, gênero e desejo. Isso porque, segundo a autora, afirmar-se homem ou mulher implica necessariamente uma diferenciação de seu “gênero oposto”, o que restringiria tudo a um par binário de “ser”.

O argumento de Judith Butler aqui é que o gênero só designaria uma “unidade de experiências” em relação a sexo e desejo quando ele está de acordo com as exigências da heterossexualidade, criando uma relação de oposição entre os gêneros que se desejam, algo que a “heterossexualidade instituída” requer e exige.

A instituição de uma heterossexualidade compulsória e naturalizada requer e regula o gênero como uma relação binária na qual o território [8] masculino é diferenciado do território feminino, e essa diferenciação é conseguida através das práticas do desejo sexual. O ato de se diferenciar esses dois momentos opostos do binário resultam em uma consolidação de cada território, a coerência interna respectiva de sexo, gênero, e desejo. (p. 30. Tradução livre)

Até aí, lendo esse parágrafo isolado, tudo muito bom, tudo muito que bem. Sim, a heterossexualidade compulsória exige que, bom, que a norma sejam os relacionamentos heterossexuais. Se é “compulsória”, significa que é obrigatória e normativa; se é “heterossexualidade”, significa que regula relações sexuais entre homens e mulheres, e consequentemente seus desejos e práticas sexuais. Que gênero ou sexo — principalmente quando dentro do que ela chama de “matriz heterossexual” — não sejam suficientes para designar a experiência de se ser uma pessoa completa, isso ninguém questiona. Butler, no entanto, não se dá ao trabalho de investigar o porquê de isso ser assim. O termo “instituição” demanda que alguém tenha instituído a heterossexualidade como norma, e essa institucionalização, independente de ter sido feita de forma consciente ou insconsciente, deve ter um objetivo. Ela também não se preocupa em investigar de que lado essas forças de poder vêm, como exatamente atuam — que tipo de normas de comportamento a heterossexualidade compulsória exige de machos e fêmeas? As mesmas normas se aplicam a um e outro grupo? Por quê? —, e nem que lado se beneficia do quê em função de quem. Butler apenas atesta que o poder existe e atua por aí, cerceando as taras da galera.

Ela então continua o texto afirmando que categorias como “homem”, “mulher”, “macho” e “fêmea” são produzidas dentro dessa estrutura binária heterossexual. Citando “A História da Sexualidade” de Foucault, ela afirma que casos como o de Herculine Barbin — uma intersexual francesa que foi designada como sendo do sexo feminino, e que posteriormente foi “diagnosticada” como homem — sugerem que a diferença sexual surge não do sexo propriamente dito, mas de formas específicas e históricas de se encarar a sexualidade. Herculine seria uma impossibilidade identitária, dentro da noção apresentada por Butler. Segundo a autora, a própria existência de Herculine ferra com as convenções de inteligibilidade, porque convergiria a hétero e a homossexualidade em um mesmo indivíduo.

Isso mesmo que você leu: um caso limítrofe serve muito bem como prova de que sexo não importa, ou pelo menos seria irrelevante no processo de significação. Não me entenda mal: a diferença sexual é irrelevante quanto aos significados atribuídos a machos e fêmeas, sim. Os atributos culturalmente considerados femininos não têm, realmente, qualquer relação com a realidade de se ser uma mulher, um ser humano do sexo feminino; mulheres não são fracas, submissas, sentimentais, ou burras por natureza. Mas que sequer lhe tenha passado pela cabeça em nenhum momento que sexo entre homens e mulheres pode produzir gente, e que o controle da produção e reprodução de gente possa ter motivado a instituição de normas para o comportamento sexual é algo que realmente me incomoda. Não! Jamais! Isso é coisa de feminista radical essencialista de teorias ultrapassadas, certamente. Não importa que seja a própria Butler que tenha assumido, no início de sua argumentação, que “homem” e “mulher” sejam tidos como expressões de uma substância, de uma personalidade, e tenha partido daí para criar um espantalho argumentativo contra o qual ela iria duelar ao longo desse subcapítulo inteiro. O que importa é que o argumento que ela criou dá margem a entender que atribuir o termo “homem” ou “mulher” a um ser é uma “construção fictícia” porque em alguns casos isso não necessariamente se aplica [9].

Finalizando, Butler escreveu tudo isso apenas para dizer que o gênero seria, então, puramente performativo porque constitui a própria identidade do indivíduo. Mas aí vem a pegadinha: “Não há identidade de gênero por trás da expressão de gênero; porque a identidade é performativamente constituída pelas suas próprias ‘expressões’ que são tidas como sendo seu resultado”. Se eu entendi bem, gênero seria a expressão do gênero em si mesma, sem nada por trás. Nada: nenhum contexto, nenhum motivo, nenhuma origem e nenhum fim.

Gênero é o que as pessoas quiserem que ele seja. Não é à toa que algumas feministas advogam parar de usar esse termo.


Notas

1. Aquela zoeirinha que os críticos mais perspicazes dos Social Justice Warriors fazem ao dizer que o pessoal do Tumblr se acha um bando de “floquinhos de neve especiais” porque gostam de uma determinada tendência da moda é extremamente acertada, se for assim. Lembrando que as críticas que páginas do Facebook como “Aventuras na Justiça Social” e assemelhadas fazem não são nem um pouco perspicazes. Se aproximam em grande medida, aliás, das da galera masculinista.

2. “Heterossexualidade compulsória” é um conceito desenvolvido pela Adrienne Rich no que acredito ser seu trabalho mais famoso. Nele, Rich enfatiza o caráter sexual da exploração patriarcal e usa, inclusive, exemplos de práticas como a mutilação genital feminina para mostrar como a alienação que o patriarcado inflige sobre as mulheres funciona. Se você é feminista de qualquer vertente e ainda não leu esse artigo, não perca mais tempo. Sério.

3. Me pergunto de onde foi que ela tirou que certas feministas dizem que é a “centralidade no pau” que causa a opressão das mulheres. O que causa a opressão das mulheres, nós, feministas radicais, já dissemos um milhar de vezes. Não vou repetir aqui porque eles se ofendem facilmente e podem transformar a seção de comentários do meu blog numa sucursal do inferno, mas vocês sabem de quem estou falando.

4. Sim, eu também estou incomodada com tantas notas de rodapé no mesmo parágrafo, mas essa é necessária: “feminismo francês” é um conjunto de autores e autoras não exatamente relacionados, não exatamente feministas, e não exatamente as principais referências da teoria feminista produzida na França, sendo uma invenção de intelectuais americanos. Butler admite isso já nos prefácios. “A única forma objetiva de definir [o ‘feminismo francês’] é dizer que se trata de um corpo de comentários feito por escritores anglo-americanos sobre uma seleção de escritores franceses e não franceses: Lacan, Freud, Kristeva, Cixous, Derrida e Irigaray são o grupo central. Mas há outros. ‘Feminismo francês’ é então uma corrente da produção intelectual dentro do contexto anglo-americano” (Tradução livre de: DELPHY, Christine. “French Feminism: An Imperialist Invention”. In: BELL, Diane; KLEIN, Renate (org). Radically Speaking: Feminism Reclaimed. North Meolbourne: Spinifex Press, 1996).

5. Sim, eles existem.

6. “Metafísica da substância” seria uma armadilha filosófica em que alguns argumentos acabariam presos, por confundir a formulação gramatical dos conceitos com sua realidade ontológica. Envolve aquela noção de “em que medida uma mulher é do sexo feminino?”, porque a formulação “mulher” não seria suficiente para abarcar o ser que essa formulação busca representar. Esse texto aqui tem uma explicação bem de acordo com o pensamento de Judith Butler, mas ajuda a entender o que raios é isso.

7. Porque, como todo mundo sabe, sexo não existe. Nós surgimos nesse mundo trazidos por uma cegonha, que nos cultiva ela mesma em pés de repolho, que brotam e têm em seu miolo os bebês humanos. Agora, como as plantas se reproduzem, aí já é outra história. Mas uma coisa é certa: nunca vi um pé de repolho inserindo suas protuberâncias dentro de outro para gerar novas plantas, que saem inteiras de dentro do repolho impregnado. Isso é obviamente um conceito ridículo; logo, terei de concordar com Butler.

8. A palavra que ela usa no original é “term”, que pode significar “período”, “lógica”, “relação entre dois grupos”. Traduzi como “território” pois me lembrei que “terms” também pode designar fronteiras de um país ou pedaço de terra. Se você tiver uma sugestão melhor, deixe nos comentários.

9. Segundo Anne Fausto-Sterling, numa estimativa bastante otimista que agrega os mais diferentes e variados tipos de alterações no desenvolvimento embrionário, em torno de 1,7% da população manifestaria algum tipo de intersexualidade, arredondando para cima. Isso seria, segundo ela, mais ou menos a quantidade da população que tem albinismo. (FAUSTO-STERLING, Anne. Sexing The Body: Gender politics and the construction of sexuality. Nova York: Basic Books, 2000.)

Problemão de Gênero, parte II, volume 4: o universal e o específico

Finalmente mais um pedaço da minha grande e pretenciosa análise da obra de Judith Butler vê a luz do dia. Neste trecho — que é bem pequeno no livro, mas que rendeu um texto relativamente substancioso —, analiso o subcapítulo Teorizando o binário, o unitário e além, onde nossa teórica queer favorita desce o pau nas perspectivas ditas universalizantes. Para ler os outros textos da série, clique aqui.

Teorizando o binário, o unitário e além

Butler inicia esse item do seu texto dizendo que Simone de Beauvoir e Luce Irigaray vão discordar em pontos fundamentais acerca de como funciona a assimetria entre os gêneros: segundo ela, Beauvoir vê os gêneros como categorias dialéticas assimétricas, e Irigaray, de um modo mais amplo em alguns sentidos, como uma dialética elaborada pelo que ela chama de “economia masculinista”. Só que Butler diz que o enfoque dado por Irigaray é monolítico e universalizante, e que por isso sua teoria falharia em captar cada uma das especificidades culturais; Butler vai inclusive chamar isso “imperialismo epistemológico”.

A autora vai usar termos ainda mais fortes: de acordo com ela, essa tática equivale a usar as armas do inimigo, mimetizando as estratégias do opressor. Apesar de em certo ponto Butler dizer algo que faz muito sentido e até que bastante óbvio, ou seja, que as estruturas de opressão atuam para muito além da opressão sexual, seu texto dá a entender que as feministas têm os mesmos poderes e as mesma condições de atuar em um mundo onde impera a dominação masculina [1].

É aí que vem a deixa para questionar certas feministas que ela chama de “essencialistas”, e suas “alegações universalizantes”. Nos termos de Butler, essas teóricas acreditam na existência de uma identidade própria e única das mulheres. Mas tirando algumas correntes ecofeministas — que, e me contestem nisso se eu estiver errada, acreditam em um poder quase divino intrínseco à concepção e aos ciclos do corpo feminino [2], o que é bem diferente de se afirmar que exista uma essência feminina —, não tenho conhecimento de qualquer corrente feminista que advogue que todas as mulheres, sem exceção, compartam universalmente de uma mesma cultura/identidade unificada cujo ponto de partida seja sua materialidade corporal. Butler diz que essas “alegações universalizantes” partem de um ponto de vista epistemológico compartilhado que torna a categoria “mulher” algo normativo, exclusionário, e que não dá conta de abarcar as tais intersecções de raça, classe etc [3].

O que me leva de volta a um texto muito bom da Denise Thompson que já citei nesta série [4]”. Colo aqui uma parte que, a meu ver, mata a charada do tal “imperialismo epistemológico” do qual Butler acusa certas feministas. O trecho é um pouco longo, mas garanto que vale a pena a leitura:

Seu argumento é uma instância da acusação de ‘falso universalismo’, e funciona da mesma maneira que todas as acusações do tipo contra a teoria feminista funcionam, ou seja, negando a dominação masculina. Ela [Butler] caracteriza o ‘patriarcado’ como uma ‘noção altamente ocidental’. Ela insiste que ele não é apropriado quando aplicado às ‘atuações da opressão de gênero’ e ‘experiência de subjugação das mulheres’ em culturas diferentes das ‘ocidentais’, negando assim que o conceito de ‘patriarcado’ é relevante para culturas outras que não do ‘ocidente’. No entanto, ela reconhece que a ‘opressão de gênero’ e ‘subjugação das mulheres’ existe em culturas outras que não do ‘ocidente’. Mas se a subjugação das mulheres não é resultado da dominação masculina, de onde ela vem? Parece que o ‘universalismo’ só é falso quando o que está sendo ‘universalizado’ é a dominação masculina. Não há problema, ao que parece, em ver a opressão das mulheres como ‘universal’ no sentido de que ela existe em outras culturas que não o ‘ocidente’. O que é proibido sob o risco de ser acusado de ‘falso universalismo’ é nomear o inimigo.

Localizar a causa da subordinação das mulheres na dominação masculina não é ‘universalizar’ uma noção peculiar do ‘ocidente’ e aplicá-la a ‘outras culturas’. Identificar a dominação das mulheres pelos homens (e de alguns homens sobre outros homens) não é afirmar que há somente uma forma singular de dominação masculina. Mesmo no ‘ocidente’, ela tem a multiplicidade de diferentes formas. Onde quer que os interesses dos homens prevaleçam às custas das mulheres, e os interesses de alguns homens prevaleçam sobre os de outros homens, a dominação masculina existe, seja que forma tome. Enquanto algumas vezes ela é violenta e descaradamente desumanizadora, ela também é multifacetada e pervasiva na vida cotidiana. Ela toma diferentes formas em diferentes culturas sob diferentes condições históricas, contanto que a existência ‘humana’ continue a ser definida nos termos dos homens, e que a existência ‘humana’ de alguns homens exista às custas de outros homens, ela continua sendo dominação masculina, em todas as suas ‘infinitas variedades e monótonas similaridades’ […].

Butler continua dizendo que alguns esforços têm sido feitos no sentido de fazer uma política que não assuma uma forma pré-definida de “mulher”, mas que abarque as várias identidades das várias mulheres em variados contextos, de modo a não se assumir uma unidade, e que ao mesmo tempo abrace as contradições. Só que, logo a seguir, ela diz que “[a] própria noção de ‘diálogo’ é culturalmente específica e historicamente fundada, e enquanto um falante pode sentir-se seguro de que a conversa esteja acontecendo, outro pode ter a certeza de que não está”, e que faz-se necessário questionar as condições em que este diálogo ocorre. Que as questões de raça, classe, etnia, orientação sexual etc não podem ser simplesmente adicionadas à condição “mulher” para que a “categoria mulher” seja de fato completa — como ela diz a seguir — é algo bastante razoável. Mas a recusa de Butler em reconhecer a existência, a materialidade, e tudo o que implica viver em um corpo de fêmea, como a autora fez até aqui sob o temor de se cair em uma análise essencialista, é simplesmente estranho, na falta de uma palavra melhor.

O que Butler propõe é que se assuma uma “incompletude definicional”, porque segundo a autora afirma em mais uma pequena série de perguntas retóricas, é a insistência em se encontrar uma unidade que causa os rachas na ação política e estabelece uma “norma exclusionária de solidariedade a nível de identidade”. De acordo com ela, o fato de não existir uma identidade unificada a respeito de quem é o agente do feminismo pode fazer com que um maior número de “mulheres” [5] possam ser incluídas no feminismo, tornando a luta feminista mais efetiva, porque a própria noção de “identidade” não é algo fundacional e/ou estático.

Mas Butler esquece que o que unifica as mulheres no feminismo não é sua identidade enquanto mulher. Mesmo as feministas radicais advogam que a identidade feminina é algo que depende de significantes culturais; ser mulher no Brasil é diferente de ser mulher em Angola, bem como ser mulher no Norte do Brasil é bem diferente de ser uma mulher sul-brasileira, bem como ser uma mulher negra brasileira no sul do Brasil é bem diferente de ser uma mulher indígena lésbica no Oeste americano. Só que o feminismo não é uma disputa para ver quem grita mais alto. O que pega nessa questão — e que Butler ou não se informou direito a respeito, ou deliberadamente distorceu, nunca saberemos — é que o objetivo do feminismo não é ser uma luta pela representatividade identitária das mulheres no âmbito cultural, mas uma luta das mulheres contra a dominação masculina partindo do fato de que as mulheres se encontram em uma posição de subjugação pelos homens — que estão com elas em uma relação de parasitismo que apropria econômica, cultural e socialmente em amplas esferas as funções sexuais e reprodutivas das mulheres. E mulher, fêmea, que dentro do contexto da reprodução da espécie tem um papel bem específico, tem no mundo todo. Não sei se Butler notou este pequeno detalhe, mas aguardemos com paciência o desenrolar do argumento.



Notas

1. Não que Butler acredite que exista uma dominação masculina, mas enfim…

2. E, sinceramente, em um mundo que demoniza, erotiza e objetifica o corpo feminino, e ainda prega e incentiva a total ignorância das mulheres a respeito de seus próprios corpos, não consigo, por mais que tente, ver muito problema nisso. Até vejo alguns, mas isso eu conto para quem quiser me pagar uma cervejinha. 🙂

3. Para entender melhor a origem, o que significa exatamente, e quais os problemas e limites dessa abordagem chamada “interseccional”, recomendo a leitura de um texto de Danièle Kergoat, “Dinâmica e consubstancialidade das relações sociais“.

4. Tradução livre de: THOMPSON, Denise. Radical Feminism Today. Londres: SAGE, 2001. p. 53-58.

5. Aspas da autora.

Update

As gurias do Radfem.info acabaram de publicar na íntegra o texto da Denise Thompson que é citado aqui. Por favor, leiam!

Privishing

Uma coisa que acho que gostaria muito de fazer é criar uma editora. Sempre gostei da idéia de preparar e selecionar material para publicação, e trabalhar em editora — não como designer de capa e miolo, mas com criação ou auxílio para produção de conteúdo — é algo que sempre quis fazer.

Desde criança eu fantasiava com a idéia de ter uma publicação periódica para leitura em que também se disponibilizasse atividades lúdicas, como jornais e revistas fazem com os quadrinhos e as palavra-cruzadas. Minha prima Aline, por exemplo, recebia em Curitiba pelo correio diretamente de Maringá o meu almanaque, com curiosidades, jogos e caça-palavras. E mesmo quando não tinha almanaque, minhas cartas tinham formas de leitura e formatos diferentes, brincadeiras com cores, eram muito lúdicas.

Já tendo trabalhado de fato em uma editora — a Gazeta do Povo — que publica* periódicos, acredito que sei pelo menos por alto como funciona o processo de criar, selecionar, editar e publicar conteúdo e estava pensando em fazer isso de uma forma bem independente. Alternativa, hipster no sentido absoluto da coisa mesmo: ninguém nunca vai ouvir falar nisso, mas o registro estará lá caso alguém queira citar.

Pois então é isso: enquanto todo mundo está aí tirando MEI e virando PJotinha, eu estou querendo ISSN. Já dei uma lida bem mais ou menos em como funciona o processo para registro de um periódico, e estou pensando seriamente** no assunto.


*Ou, pelo menos, publicava: soube que recentemente o formato do jornal mudou de standard para berliner, economizando muitos metros quadrados de papel e litros de tinta em sua publicação.

**Isso significa que na prática pouca coisa substancial será concretizada, mas isso será um pensamento recorrente meu.

Pablo Escobar e algumas perguntas sobre política e jornalismo no Brasil

Finalmente vi a season finale de Narcos*. E aí comecei a pensar em umas coisas. Não se surpreenda se esse for outro daqueles meus textos sem pé nem cabeça, deu um pouco de trabalho costurar tudo isso.

Foi mal o spoiler.

Foi mal o spoiler.

Aqui no Brasil foram pouquíssimas as vezes em que algum político esteve sob ameaça física. As últimas vezes de que me lembro de uma morte de político de forma violenta foram os casos de Celso Daniel em 2002, e do PC Farias em junho de 1996, ambos envolvendo investigações de fraudes financeiras e enriquecimento ilícito. Aí fico me perguntando — e me perguntando também o quão seguro é fazer essa pergunta: os políticos no Brasil têm negócios com os traficantes locais? Dá para acreditar no cagaço que o Gaviria — candidato e, mais tarde, presidente da Colômbia — ficou quando viu que podia morrer a qualquer momento? Quando algo minimamente parecido com isso aconteceu no Brasil? Quando algum político aqui arriscou o pescoço de forma tão literal?

Sempre que surge notícia de algum político negociando com traficante todo mundo abafa logo o caso — e ninguém que não seja da imprensa e não esteja pelo menos protegido pela fina malha de um sindicato e um punhado de leis vai se meter com isso. Daria uma discussão imensa: se os políticos brasileiros têm negócios com traficantes, talvez esse seria um bom motivo pra legalizar as drogas. Só políticos com motivos escusos proibiriam drogas e negociariam com traficantes ao mesmo tempo.

Há bem pouco tempo surgiu a notícia da apreensão de um helicóptero que transportava 450 kg de cocaína, veículo da família de um deputado de Minas Gerais associado a um ex-candidato à presidência da República. O caso foi apelidado de helicoca. Até onde pude ver, a imprensa não apurou muita coisa. E por quê o Quarto Poder nem se deu ao trabalho de investigar, se isso é uma possibilidade verdadeira?

A resposta dessa, em tempos de Passaralho, é fácil: ninguém na imprensa está disposto a arriscar tanto. Tá todo mundo falido, e já não se sabe se é porque nenhum jornal parece mais estar disposto a se esforçar a ser bom de verdade para que alguém pague por sua cobertura dos fatos, ou porque ninguém parece disposto a financiar algo tão intangível quanto o noticiário**.

O que tem acontecido na imprensa hoje — e posso falar com alguma propriedade, visto que trabalhei na fábrica de salsichas por quase quatro anos e meio — é que se investe no público que vai pagar pelo jornal, não importa muito do que esse público goste*** ou esteja afim de ver/consumir. O jornalismo se tornou um filão de entretenimento, um entre muitos outros, e certamente não vai conseguir se manter por muito tempo no modelo antigo.

E quem vai investigar tudo isso, se a imprensa está frágil demais para comprar essa briga?

Deixo abaixo, em forma de lista — o já clássico formato do jornalismo atual — algumas dúvidas que todo esse assunto me deixou na cabeça:

  • Todo mundo acredita piamente que no Brasil político só faz negócio escuso com produto legal? Com construtora e fornecedora de equipamento médico?
  • Alguém já parou pra pensar no tamanho do vespeiro que é mexer com a legalização das drogas no Brasil — algo que se começou a fazer há pouquíssimo tempo? É seguro mexer com isso?
  • O quanto isso impactaria a vida política no Brasil? Temos como saber isso ou a nossa débil imprensa vai publicar somente o que lhe cair ao colo e não der para esconder?
  • Legalizar drogas poderia evitar perdas humanas, ou algumas pessoas ainda podem morrer no processo? O quanto isso ajudaria quem realmente morre na guerra do tráfico, e o quanto só facilitaria a vida do maconheirinho de ocasião?
  • Só a maconha, ou todas as drogas devem ser legalizadas/descriminalizadas/regulamentadas?****

*Não sei porque tornaram Narcos uma série sobre o sotaque do Wagner Moura. Ele nem é o protagonista! O protagonista é o Murphy, o que acho muito que bem. Naonde que americano ia ter competência para escrever uma história narrada do ponto de vista colombiano? Pra isso temos a ótima El Patrón del Mal, recomendadíssima!

**Ou se é porque estão comprometidos com as pessoas erradas. Não estou acusando ninguém, mas é uma possibilidade.

***A Gazeta do Povo, “o grande jornal do Paraná”, está diversificando a produção de conteúdo e focando em um público mais conservador. Certo eles: tamo aí numa onda conservadora, se eles fizerem o troço direito podem embolsar algum dinheiro. Não sei se suficiente para manter um jornal do porte que a Gazeta era alguns anos atrás, mas já é alguma coisa.

****Legalização da maconha significa legalizar uma droga mais leve, mais popular e menos danosa. Mas a legalização de drogas como a cocaína, por exemplo, significa um dilema ético bem mais complicado, porque na prática é tornar disponíveis substâncias tóxicas e a que qualquer um teria acesso. Ou não, se esse comércio fosse regulado.

Declínio e Queda do Império Galático

Acredito que alguns livros não deveriam ser lidos. Não até o fim, pelo menos. Não por todo mundo, quero dizer — essa regra vale para mim. E não que haja qualquer coisa de errada que seja com esses livros em particular, e nem que eles devam ser proibidos. É algo mais como “eu não preciso de fato ler isso aqui”.

Lembro de quando decidi que deveria ler Fundação. Faz um par de anos. Considerado uma das obras primas de Isaac Asimov, Fundação se inspira na obra de Edward Gibbon — que escreveu um dos meus livros favoritos — para contar a história de que providências a humanidade iria tomar depois que previsse o próprio fiasco. E é essencialmente isso o que eu retive da história: uma sinopse curtíssima.

Mas tem uma coisa a respeito desse livro que eu me lembro muito bem, e posso descrever em detalhes. Lembro como se fosse hoje da minha reação ao avançar lentamente através de cada uma das páginas de papel jornal da minha edição. Havia comprado tanto este volume quanto o Prelúdio à Fundação numa promoção de 1 dólar na Better World Books, mas sofri quando os livros chegaram por causa do nível do meu inglês. Outro par de anos mais tarde perguntei sobre a série a alguns amigos que a tinham lido, e finalmente decidi que me aventuraria nos livros pela sua ordem de escrita*.

Acho que o processo todo entre tomar a decisão, pegar o livro nas mãos, e posteriormente depositá-lo na estante lido levou aproximadamente um mês, talvez um pouco mais. E me pareceu muito mais que isso. Cada vez que eu tirava o livro da bolsa, tinha que me convencer de que aquela era uma obra importante e que, se eu me dizia uma fã de ficção-científica, era minha obrigação lê-lo. Só que o livro é muito chato. Muito, muito chato. Me pegava pensando: “Meu deus, quando esse tormento vai acabar?”. Assim, desenvolvi algumas estratégias para manter a atenção na leitura: reparava na quantidade de tempo que se pulava entre uma parte e outra, contava quantas eram as personagens mulheres e qual o papel delas na trama, grifava os trechos em que Asimov conceituava ou retratava o papel social da tecnologia**, notava como era retratado o líder, esse tipo de coisa.

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Minha cópia em foto recente.

Não adiantou. Tive algumas boa idéias durante a leitura, cheguei a algumas conclusões a respeito do Asimov enquanto escritor, mas o que me sobrou da narrativa e do enredo propriamente ditos foi algo próximo de nada. Ler Fundação foi um processo tão cheio de sacrifícios para conseguir me manter atenta na leitura que não consegui extrair nada de bom do livro. Fiquei pensando na minha empolgação ao ler Eu, Robô alguns anos antes, o punhado de contos aleatórios que pegava na internet de vez enquando, e o sentimento era bem oposto. O que raios o Asimov tinha feito em Fundação que tinha tornado o livro o fenômeno cultural que era, se ele (o livro) era tão profunda e absolutamente chato?

Pouquíssima gente que conheço havia de fato lido essa saga do escritor cuja personalidade resume tudo o que há de errado no chamado “universo nerd”. Existem poucas pessoas com quem conversar a respeito das impressões de leitura. Nem por essa experiência paralela, que para mim é uma das mais interessantes quando se trata de consumir algum tipo de obra de arte, Fundação tinha valido a pena. De que maneira eu poderia aproveitar todo esse tempo perdido?

Guardei o livro de volta na estante. Quanto ao Prelúdio, sequer abri. Não preciso continuar lendo isso.


*É uma regra sagrada para mim, que estabeleci ao longo da vida: sempre que me deparar com uma série não-linear, seguir a ordem de publicação. Não sei explicar exatamente o porquê, mas me sinto menos enganada dessa forma.

**Fiz mestrado em uma área interdisciplinar conhecida como Ciência, Tecnologia e Sociedade, uma mistura de história, sociologia, filosofia, design e outras áreas de abrangência indefinida que prega a construção social da tecnologia. A mocinha daquele vídeo descreveria a área com os únicos adjetivos possíveis: “bem louco” e “empolgante”.

A Usurpadora: capítulos perdidos

Mansão do milionário Douglas Maldonado. Externa. Meio da tarde. DOUGLAS MALDONADO está sentado numa espreguiçadeira ao lado da piscina. Um cachorro preto brinca a seus pés com uma bola de borracha. Douglas Maldonado está pensativo, e suspira ruidosamente enquanto segura o queixo na mão direita. BRÁULIO entra em cena carregando uma bandeja.

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O milionário Douglas Maldonado abre seu coração neste emocionante episódio inédito!

BRÁULIO
Aqui está o chá que o senhor pediu, senhor Maldonado.

DOUGLAS MALDONADO
Obrigado, Bráulio. (Pegando a xícara da bandeja que Bráulio deixa sobre uma mesinha de jardim. Bráulio se posiciona a uma distância respeitosa de seu patrão) Fez o que lhe pedi para fazer?

BRÁULIO
Sim, senhor Maldonado. A essa hora a família de Paola Bracho já deve saber que ela está internada no hospital.

DOUGLAS MALDONADO
Quando Carlos Daniel ler a carta que lhe escrevi contando tudo o que aconteceu, é possível que venha atrás de mim pedir esclarecimentos e talvez faça um escândalo.

BRÁULIO
Não sei se acredito que isso é possível, senhor Maldonado. O senhor Carlos Daniel tem uma dívida de 2 milhões de dólares com o senhor, que a outra Paola Bracho emprestou para salvar a fábrica da família.

DOUGLAS MALDONADO
Tenho certeza de que isso pesará no julgamento dele, Bráulio. (Maldonado se levanta e fica de costas para o criado) Mas trata-se de uma questão de honra. Fui amante de sua esposa.

BRÁULIO
O que o senhor pretende fazer agora? Já internou a senhora em um bom hospital, com todas as despesas pagas, e já avisou a família…

DOUGLAS MALDONADO
Não sei, Bráulio. Não sei. Talvez seja melhor nós sairmos do país por um tempo, pelo menos até as coisas se acalmarem. Sabe, Bráulio (Maldonado se volta novamente para o empregado), durante muito tempo eu procurei o amor e fui incapaz de preencher o vazio em meu coração. Até que…

BRÁULIO
Até que a senhora Bracho, sob o nome de Noélia, conquistou o senhor.

DOUGLAS MALDONADO
Não, Bráulio. Não. Paola, ou Noélia, ou qualquer outro nome que venha a usar, foi um erro, uma paixão frívola. Quem realmente me ensinou o que é amar foi a outra, a outra Paola. Nunca a terei em meus braços, mas já não me importo. O que sinto por essa outra Paola (Maldonado torna a se sentar na espreguiçadeira, sem encarar Bráulio) é muito mais próximo de uma ternura, de uma amizade sincera.

BRÁULIO
Que bom que o senhor encontrou uma solução para o seu dilema, senhor Maldonado.

DOUGLAS MALDONADO
O pior é que não encontrei (Maldonado olha para Bráulio). Descobrir que meu coração abriga um outro amor, esse sim impossível.

BRÁULIO
Não estou entendendo, senhor Maldonado. O que quer dizer?

Maldonado se levanta, tenciona dar alguns passos na direção do mordomo, mas hesita.

DOUGLAS MALDONADO
Precisamos deixar o país imediatamente, Bráulio. Prepare tudo, devemos partir o mais rápido possível.

BRÁULIO
Mas é claro, senhor.

Bráulio começa a se retirar e Maldonado fica inquieto. Levanta-se, senta-se, anda de um lado para o outro; Maldonado não consegue conter a aflição. Termina por sentar-se outra vez e afaga a cabeça do cachorro.

DOUGLAS MALDONADO
Não consigo afogar o sentimento que carrego no peito. O que devo fazer? Uma Paola me mostrou o valor de uma amizade, mas com a outra aprendi que não se pode controlar o desejo. O que devo fazer?!

Bráulio retorna à cena, tão aflito quanto Douglas Maldonado.

BRÁULIO
Senhor, temo que não haverá meios de fugir dos seus problemas agora. O senhor Carlos Daniel Bracho está aqui e deseja vê-lo.

DOUGLAS MALDONADO
(Ensimesmado) Diga-lhe que não estou.

BRÁULIO
Já lhe disse!

CARLOS DANIEL entra em cena, apressado. Douglas Maldonado levanta-se.

CARLOS DANIEL
Eu sabia que estaria em casa! O que fez com a minha esposa? Ela não era nenhuma santa, mas não precisava devolvê-la praticamente morta! Eu não vou tolerar que, por ter emprestado os 2 milhões de dólares para tirar a fábrica Bracho da ruína, você se enxergue no direito de fazer mal a qualquer membro da minha família.

DOUGLAS MALDONADO
Boa tarde para você também, Carlos Daniel Bracho. Primeiramente, gostaria de perguntar se você sabe em que condições a sua esposa foi parar naquele hospital.

CARLOS DANIEL
Como é que eu vou saber? Você fugiu com ela. Você fez alguma coisa para a ferir, você é o culpado!

BRÁULIO
Senhor Douglas Maldonado, acho melhor eu me retirar.

DOUGLAS MALDONADO
Fique, Bráulio, fique. Preciso de uma testemunha para ouvir o que tenho a dizer agora, e ninguém melhor que o meu empregado mais fiel.

CARLOS DANIEL
Ainda ousa arriscar uma defesa? Você é mais vil do que eu imaginei. Combina perfeitamente com a Paola.

DOUGLAS MALDONADO
Então você sabe, Carlos Daniel, você sabe de todas as maldades e de todas as traições que Paola Bracho fez com você e com sua família debaixo do seu nariz? (Neste momento, Carlos Daniel  dá as costas para Douglas Maldonado  e aperta a mão num punho cerrado de raiva) Então você sabe que o que a levou àquela cama de hospital nada mais é que fruto da sua iniquidade?

CARLOS DANIEL
De fato, Paola não era uma esposa exemplar. Mas era realmente necessário fazer aquilo com ela? E o que você sabe que eu não sei?

DOUGLAS MALDONADO
O que sei, Carlos Daniel, é que a mulher deitada naquela cama de hospital não é a mesma que veio me pedir dinheiro para salvar os negócios da sua família.

BRÁULIO
Vai contar a ele, senhor Maldonado?

Carlos Daniel se volta para Douglas Maldonado parecendo confuso.

DOUGLAS MALDONADO
Preciso contar, Bráulio. Este pobre homem não tem culpa do que a esposa fez, mas tem a sorte de ter o amor da mulher mais valorosa que já conheci.

CARLOS DANIEL
Você também sabe sobre Paulina Martins?

DOUGLAS MALDONADO
É este então o nome da minha heroína: Paulina Martins. (Douglas Maldonado dá as costas para Carlos Daniel) Foi ela quem me tirou do poço da escuridão, e é a ela que devo a recuperação da minha saúde.

CARLOS DANIEL
Não ouse falar de Paulina!

DOUGLAS MALDONADO
(Voltando-se para Carlos Daniel) Quanto a isso não se preocupe, Carlos Daniel. O que sinto por ela é apenas gratidão eterna. Ela me fez ver onde eu estava errando e curou-me as feridas emocionais. Você tem a sorte de ter o amor dessa mulher.

Carlos Daniel dá as costas para Douglas Maldonado, reflexivo.

CARLOS DANIEL
Paulina me ama. Paulina me ama!

DOUGLAS MALDONADO
Ama, Carlos Daniel. E se eu fosse você, tomaria todas as providências para não deixá-la fugir.

Carlos Daniel deixa o recinto apressado enquanto Maldonado e Bráulio observam, surpresos. O milionário volta a sentar-se.

DOUGLAS MALDONADO
Bráulio, tomei uma decisão.

BRÁULIO
Decidiu para onde vamos, senhor?

DOUGLAS MALDONADO
Não, Bráulio. Decidi que não há mais tempo a perder. Você tem sido meu amigo fiel, meu companheiro e confidente. (Maldonado evita encarar Bráulio, levanta-se e caminha alguns passos ao longo da piscina, decidido, mas ainda um tanto inseguro) Bráulio, eu quero que você saiba… Que você saiba que… Bráulio, eu…

BRÁULIO
Está se sentindo bem, senhor Maldonado?

Douglas Maldonado se vira abruptamente, abrindo os braços em uma declaração calorosa.

DOUGLAS MALDONADO
Bráulio, não consigo mais esconder: eu te amo!

BRÁULIO
Mas senhor…

DOUGLAS MALDONADO
Acredite em mim, Bráulio! Há verdade nas minhas palavras. Só você esteve ao meu lado em todos os momentos, viu o que há de melhor e o que há de pior em mim, e pode me julgar com sinceridade. Eu te amo, Bráulio.

Durante alguns segundos nenhum dos dois fala nada. Um JARDINEIRO passa e os cumprimenta. Douglas Maldonado arrisca no assovio alguns poucos acordes de uma antiga e tradicional canção mexicana. Bráulio examina atentamente os próprios sapatos. O jardineiro finalmente vai embora.

BRÁULIO
Senhor, eu entendo que durante todos esses anos em que estive lhe servindo desenvolveu-se entre nós uma certa cumplicidade. Mas não acredito que…

DOUGLAS MALDONADO
Bráulio, não negue! Eu sei que você sente o mesmo, e mesmo que não sinta, você sabe muito bem que faria de tudo para tê-lo ao meu lado, assim como fiz com Paola. (Maldonado dá alguns passos em direção ao criado) O que preciso fazer para que você corresponda ao meu amor, Bráulio?

BRÁULIO
Senhor (Bráulio se afasta o mesmo número de passos que Douglas Maldonado deu em sua direção), não acho que isso seja apropriado…

DOUGLAS MALDONADO
Está decidido! Chame o motorista, estou indo agora mesmo no cartório mudar o meu testamento. Seus anos de serviço serão recompensados, Bráulio. Você vai me amar, você vai aprender a me amar, você vai ver! Mesmo porque todos os meus milhões não serão muito úteis aos meus cachorros, e não tenho mais ninguém a quem deixar todo esse dinheiro.

Bráulio está cabisbaixo, sem conseguir tirar os olhos do gramado e incapaz de encarar o patrão.

BRÁULIO
Senhor Maldonado…

DOUGLAS MALDONADO
Diga, Bráulio, as palavras que quero ouvir!

BRÁULIO
(Depois de certa hesitação) Acho que posso aprender a amar o senhor. Quer dizer, não deve ser muito diferente a mecânica da coisa toda. Talvez tenhamos que negociar algumas dessas coisas, mas na maior parte delas nós podemos conviver bem. É, acredito que já estou amando o senhor, senhor Maldonado.

DOUGLAS MALDONADO
Sem formalidades a partir de agora, Bráulio. (Douglas Maldonado se aproxima de Bráulio e segura as mãos dele nas suas) Para você agora sou apenas Douglas.

BRÁULIO
Ah, senhor Maldonado!

Os dois dão um beijo terno enquanto a câmera se afasta lentamente. Corta para os comerciais.

Reinaldo manda nudes

Diz que ontem o Reinaldo Azevedo publicou um texto naquele blog dele e falou não sei o quê do Laerte. Parece que era algo sobre o Laerte mijar em pé ou sentado, não me lembro bem. O Laerte respondeu dizendo que tem tara no Reinaldo, e todo mundo achou genial. Ai, ai, Laerte! Só você, mesmo…

Laerte não nasceu Laerte. Ele se tornou aquilo lá que ele é. Cada vez que ele estremecia arrastando um dedo por uma superfície lisa, ele se tornava um pouquinho mais esse negócio aí. Cada salto em que ele subia, ficava um pouquinho mais perto do objetivo. E aí ele conseguiu esse negócio, que é justamente o tipo de negócio que eu nunca vou conseguir na minha vida toda*.

Laerte estava sendo queer em sua mais autêntica manifestação. O queer, pra quem não sabe, é aquele negócio que foi inventado no início dos anos 90, quando tava todo mundo mais ou menos assim que nem a gente tá hoje: de saco cheio de tanto patinar. Laerte é o cúmulo da obra de arte contemporânea. É pós-moderno até o osso. Ele é a própria obra de arte, e por isso as luzes têm de estar nele. Porque é exatamente isso o que Laerte é, la merde d’artiste.

Interessante pensar nesse cansaço. A gente, que tá aqui na influência do Ocidente, não entende muito bem — principalmente se for de classe média e com curso superior — porque o mundo é assim desse jeito que ele é. Poxa, o mundo de hoje é horrível! O mundo de hoje prometia carro voador e elevador espacial. O mundo de hoje chegou e acontece que a gente ainda tá aqui, brigando com bactéria, porque a vida é exatamente isso: uma grande disputa por energia.

E aí que o Laerte estava no meio dessa disputa por energia — como todos nós — e resolveu que ele precisava de mais. Ele acabou conseguindo, botou um monte de flashes sobre si pra conseguir aquela fotossíntese toda.

Onde eu estava? Ah, sim! No Laerte homenageando Reinaldo Azevedo.

Engraçado quando a gente descobre que alguém tá gamado na gente. Eu acho, pelo menos. Fico muito desconfortável se o negócio não é recíproco, mas teve uma época em que eu achei que tinha que reagir a todo assédio da maneira mais de boinha possível. É um elogio, ora bolas! Você não estava ainda agorinha reclamando que era feia? Tem alguém que gosta de você! Aceita esse cara aí, ó, que é o melhor que você faz.

Reinaldo Azevedo retribuiu. Na tréplica, mandou fotinhas para o Laerte se descabelar. “É o jeitinho dele de mandar nudes”, disse uma amiga que eu não lembro quem é. Olha só que jovenzinho maroto ele era na juventude! Dava mesmo um caldo, não dava?

Dava sim. Tem época em que a gente não pode escolher muito, né?


*Talento artístico. O cara desenha bem pra caramba, não? Você achou que fosse o quê?

Problemão de Gênero, parte II, volume 3: corpo e alma

Finalmente retornando com mais uma parte da série Problemão de Gênero. Dessa vez vou analisar o subcapítulo As ruínas circulares do debate contemporâneo — título que faz referência a um conto de Borges do livro Ficciones, coisa que eu nem tinha captado e quem me alertou para isso foi a @juliana_m —, onde a Judith Butler vai falar dos significados do feminino e da construção de gênero na teoria feminista; ou melhor, na teoria de duas mulheres (que sequer utilizam a palavra “gênero”): Luce Irigaray e Simone de Beauvoir.

Antes de prosseguir, gostaria de dizer que, para tentar entender o que caralhos está havendo na teoria feminista hoje por causa da influência do livro Gender Trouble, fui ler algo que falasse especificamente do pós-modernismo, esse negócio meio amorfo e sem sentido que ninguém sabe exatamente o que é, mas sabe exatamente como identificar pois é inconfundível. É o Explicando o Pós-Modernismo, de Stephen R. C. Hicks. O livro é muito interessante e muito bem escrito, e dá pra ter uma ótima noção de porque essa galerinha toda pensa o que pensa, e de onde vem todas essas ideiazinhas mirabolantes que eles propagam.

Muito bem, apertem os cintos! E não esqueça que você pode ler todos os textos da série clicando aqui.

As ruínas circulares do debate contemporâneo

Butler inicia esse segundo item perguntando se gênero é algo que a pessoa tem, se é algo essencial que faz parte da pessoa, e quando feministas dizem que gênero é uma construção social como é feita a sua construção. Ela também pergunta se a construção do gênero é determinista socialmente de modo a impedir que essa construção seja feita de forma diferente. “Que sentido podemos fazer”, ela pergunta, “de uma construção que não pode assumir um construtor humano anterior a essa construção?”

A autora então afirma que alguns estudos — que ela não vai citar quais são — vêem a construção do gênero como determinista, de modo que os significados dos gêneros não mudam, e que as pessoas são recipientes passivos dessa lei cultural inexorável, e que afirmar que a cultura é determinista a esse ponto é o mesmo que acreditar que biologia é destino. Não sei que estudos são esses a que ela se refere, mas não me lembro de ter visto nada assim na teoria feminista, e principalmente nunca vi nada assim na teoria radical, que é a que ela critica desde o início, ainda que não cite nomes. O que as feministas têm dito a respeito da construção social do gênero é que trata-se de um processo que serve à manutenção de uma hierarquia social específica. Ou seja, enquanto for conveniente para quem detém o poder, ele vai se manter da forma que está; se não for, algumas práticas obviamente vão mudar [1].

É nesse momento que Butler dá um passo ousado, citando “O Segundo Sexo” e a famosa frase que todo mundo (inclusive ela) adora citar fora de contexto: “ninguém nasce mulher”. Butler afirma que, nessa sua formulação, Beauvoir dá a entender que nessa construção de gênero existe uma mente — um cogito — que pensa e se apropria do gênero, e que o gênero seria variável e volúvel. Para Butler, no texto de Beauvoir o gênero não provém do sexo, e não há nada ali que garanta que a pessoa que “se torna” mulher é uma fêmea.

O problema aqui é que a Beauvoir nunca disse isso, não da forma que Butler está propondo em seu próprio livro. Primeiro, porque quando ela escreveu O Segundo Sexo sequer existia essa conceituação abstrata chamada “gênero”, que justamente faz essa separação do que é cultural e do que a corporal; sequer existia uma teoria feminista empenhada em destrinchar as origens e métodos da opressão e da exploração das mulheres pelos homens. Isso só foi feito depois dela, na Segunda Onda do movimento feminista, justamente da qual seus livros são um marco. Segundo, que apesar de a teoria feminista de Simone de Beauvoir apontar especificamente para a artificialidade das estruturas que mantém as mulheres hierarquicamente abaixo dos homens, ela diz especificamente que essa construção artificial tem sim um propósito — um cogito? — e é feita tendo como base as funções biológicas dos humanos na reprodução sexuada da espécie [2]. O que se diz a respeito das fêmeas de nossa espécie é uma mentira vil, mas continuamos sendo fêmeas. É nesse sentido que o sexo não têm relação com significado que lhe atribuem na sociedade: porque o que se diz a respeito das mulheres trata-se de uma ficção.

Butler retorna, então, à questão do duelo entre o livre arbítrio e o determinismo, e do corpo como mero vaso receptor [3] dos significados culturais. Ela diz que o corpo não pode ser considerado como algo que existe antes das marcas do gênero pois existe uma miríade de corpos, e, logo, existiria uma miríade de gêneros. “Como”, ela pergunta, “reconceituamos o corpo não mais como meio passivo ou instrumento esperando a capacidade vivificadora de uma vontade imaterial distinta?” Para ela, que gênero ou sexo sejam fixos ou livres é uma função do discurso que limita a análise, e que esses limites são afixados dentro de um discurso cultural hegemônico e binário. “A coação é então construída no que aquela linguagem constitui como o domínio imaginável do gênero”.

Ora, que as normas do que se chama gênero são limitantes é justamente a razão porque se introduziu esse conceito na teoria feminista, pra começar! Que o gênero trata-se de uma arma cultural para se manter uma hegemonia específica que organiza a sociedade em uma hierarquia de castas que restringe comportamentos, ações e pensamentos é justamente o motivo que leva as feministas (não só as radicais) a buscarem se libertar desses padrões prescritivos. Se gênero não for isso, se gênero não for nada mais que uma expressão da identidade e dos desejos de fundo sexual [4] das pessoas, então gênero — que já é uma categoria problemática, é bom lembrar — é, essencialmente, uma categoria inútil.

Butler começa a partir daqui a falar de como o gênero é utilizado na teoria social e no feminismo: como marca de diferença, como em relação a um outro, como um conjunto de relações (e não um atributo individual). Ela vai então falar de como a Luce Irigaray vê “mulher”. Para a Irigaray, mulher seria um paradoxo, uma contradição dentro do discurso identitário, porque é uma ausência linguística. Logo, mulher não é um sexo, mas vários, porque tanto o sexo masculino quanto o Outro são constituídos por um pensamento masculinista, e não serviriam para representar as mulheres, uma vez que toda a estrutura de representação seria inadequada. Para Butler, essa interpretação bate de frente com a mulher como o Outro da Beauvoir. Concordo com isso. Mas esse modo de pensar da Irigaray é, nada mais nada menos, que uma forma de colocar logicamente o que todas nós, enquanto feministas, já sabemos desde quando ainda dávamos os primeiros passos no movimento das mulheres: que o que os homens definiram como “feminino” não nos representa; ao contrário, nos restringe.

Butler continua:

A circularidade problemática de uma investigação feminista do gênero é sublinhada pela presença de posições que, por um lado, presumem que gênero é uma característica secundária das pessoas, e aquelas que, por outro, argumentam que a própria noção de pessoa, posicionada na linguagem como um “sujeito”, é uma construção masculinista e prerrogativa que efetivamente exclui as possibilidades estruturais e semânticas do gênero feminino. A consequência de discordâncias tão agudas sobre o significado do gênero […] estabelece a necessidade de uma repensada radical das categorias de identidade dentro do contexto de relações de uma assimetria radical de gênero.

Ou seja: por causa da assimetria nas relações entre homens e mulheres há uma discordância bastante grande na forma como as teóricas feministas definem gênero, uma contradição que ela mesma vai se propôr a resolver. É uma discordância meramente conceitual, no entanto. Ambas as feministas citadas por ela (Beauvoir e Irigaray) reconhecem a flagrante diferença nas relações entre homens e mulheres, ambas têm formas diferentes mas muito interessantes de pensar essas relações, e cada uma dessas formas de pensar são não contraditórias, mas complementares. Para mim, pelo menos, parece que sim [5].

Mas continuemos. Para Beauvoir, o sujeito é masculino e universal, diferenciando-se do Outro, que é particular e específico. Isso implica, pra Butler, uma crítica fundamental à separação do corpo e da alma, porque o feminino está, nessa concepção, preso ao corpo, e o masculino significaria a verdadeira liberdade porque suas ações não estariam limitadas pela corporalidade como no caso das mulheres. Aquela coisa de imanência e transcendência. Beauvoir propõe então que o corpo feminino deve ser a situação e o instrumento da liberdade das mulheres na sua luta por se livrar das amarras do patriarcado, e não algo que defina e limite sua essência. Faz muito sentido se você pensar que o corpo das mulheres em uma sociedade que as limita de todas as formas possíveis é tudo que elas têm.

Butler vai criticar esse posicionamento porque, segundo ela, Beauvoir estaria mantendo a velha ideia cartesiana do dualismo corpo/alma, onde o corpo está sujeito à alma, e a alma é superior e o campo masculino de atuação por excelência. Butler vai achar essa associação problemática, mas poxa! Quem faz essa associação são os partidários do masculinismo, do patriarcado, não a Beauvoir, que está justamente criticando esse dualismo! Para Beauvoir, as mulheres têm de se apropriar dos seus corpos — que, numa sociedade patriarcal, é de propriedade dos homens —, e não se circunscrever dentro de uma lógica da qual querem se libertar, é justamente o contrário!

Depois de ter lido um terço do livro do Hicks sobre o pós-modernismo, eu cheguei à conclusão de que as escorregadas interpretativas da Butler são sim propositais, e que ela usa justamente a lógica pós-moderna de que nada é verdade e nenhuma interpretação é definitiva para justificar as distorções que faz nos textos alheios sem culpa.



Notas

[1] Um exemplo disso é a indústria da beleza se voltando aos homens e ao mercado gay. Homens mais poderosos que esses homens consumidores decidiram que agora que os movimentos sociais levaram a uma maior aceitação dos homens gays, homens em geral agora também fazem parte desse mercado. Apesar dessa ressignificação, os homens continuam sendo detentores do poder, independente do fato de serem gays ou heterossexuais. Não é porque alguns homens estão em desvantagem em relação a outros homens que eles são necessariamente um grupo oprimido enquanto classe. Podem ser oprimidos enquanto gays, enquanto negros, enquanto proletários, mas jamais enquanto homens. Essa mudança em momento algum trouxe qualquer é resultado positivo para as mulheres. Pelo contrário, serviu apenas para reforçar as bases do poder de uma indústria misógina.

[2] Beauvoir usa a palavra “fêmea” mais de duzentas vezes ao longo dos dois volumes de sua obra máxima.

[3] Interessante notar que as mulheres é que sempre foram vistas como vasos receptores, seja dos filhos ou das ações dos homens.

[4] Sexual, aqui, apenas no sentido fornicatório da palavra, porque para Butler sexo é gênero, e gênero é o que você quiser que ele seja.

[5] Li Beauvoir, mas tudo o que conheço de Luce Irigaray é o que é citado pela Butler em seu livro, então é uma impressão pessoal não muito bem fundamentada, já que deu pra perceber que Butler não tem lá muito forte em si o compromisso de respeitar o contexto dos textos que cita. Deve ser alguma mania pós-moderna, já que a verdade não existe, tudo é subjetivo, todas as interpretações são igualmente válidas, etc… Se a verdade e o autor, por definição, não existem, por que se comprometer com citar o autor direitinho, não é mesmo?

Desvio padrão

Quando eu estava na faculdade, a palavra da moda era “lúdico”. Tudo era, ou tinha que ser, lúdico. Todo projeto levava essa palavra em sua conceituação, todo mundo buscava encaixar o projeto direitinho no que significa ser a ideia que essa combinação de letras quer transmitir.

Confesso que nunca fui atrás de saber o que exatamente significa “lúdico”, ou qual a origem desse termo e em qual idioma essa palavra primeiramente se manifestou. Eu criei na minha cabeça um conceito da palavra baseado nos contextos onde já vi ela sendo usada. Desse modo, lúdico para mim é algo referente à criança, à brincadeira, à lazer e à diversão. Ela diz respeito também à jogo, ou seja: montar um universo particular com regras específicas e viver sob essas regras durante um tempo determinado. Tudo isso pra mim é lúdico*.

Mas na época em que conheci a palavra, apesar de ela parecer significar todas essas coisas, ela era aplicada a coisas que não tinham nada a ver com seu significado. Nada a ver a ponto de causar constrangimento embaraçoso** no boletim do aluno.

Outra palavra que aparece sazonalmente e também é carregada de constrangimentos em seu uso é “brasilidade”. Tinha muita gente usando “brasilidade” nessa época. Nem sabíamos que o Brasil seria sede da Copa do Mundo ainda, mas fazíamos produtos para gringo cheios de brasilidade, fosse lá o que isso significasse. Essa eu nunca fui no dicionário olhar porque tenho a certeza absoluta de que a minha definição é muito melhor que a deles. Brasilidade é um conjunto amorfo de estereótipos sobre o Brasil, unidos pela vontade de agradar e o medo de passar vexame. Ginga, malemolência, samba no pé. Sol, calor, praia, Floresta Amazônica. Capoeira, candomblé, acarajé.

Todas essas coisas não têm qualquer relação com o sul do Brasil (se você desconsiderar o litoral de Santa Catarina, claro). O sulista em geral se orgulha disso, boa parte tem delírios gravíssimos de classe média e se vê como uma etnia injustiçada, e alguns até instalariam eles mesmos o arame farpado para delimitar as novas fronteiras da América Latina. Apesar disso, algumas vezes demonstram que gostariam de ser representados entre os brasileiros. E por vezes, também, acabam vergonhosamente se identificando com os brasileiros em aspectos que repudiam — e é daí que vem a individualidade crônica do sulista***.

O sulista é um sujeito estranho. Ele olha muito à sua volta ao mesmo tempo em que não presta atenção em nada. Ele vive em lugares onde chove a maior parte do ano e ainda não descobriu como faz para usar guarda-chuva nem lidar com toda essa molhaceira. Ele não olha nos olhos de ninguém porque todo mundo parece olhar para ele o tempo todo, e isso o deixa maluco porque é o combustível perfeito para sua paranóia engatilhar (mais) uma crise de auto-estima. O sulista prepara suas cidades para o turismo, mas odeia receber visita. Ele fica o tempo inteiro se indagando se aquela pessoa estava sendo sincera mesmo ou não. Mas o sulista bate no peito e diz: “eu sou assim mesmo!”, e torce para que todos interpretem aquilo como orgulho e superioridade. Todo mundo apenas acha… tosco.

Mas o paranaense é um outro tipo de sulista. Ele é aquele bebê-urso cuja placa de gelo onde estava se desgrudou da placa de gelo da mãe, está sendo arrastado pela correnteza e não sabe muito bem o que fazer agora. O paranaense está ali: no limite entre a brasilidade e a falta de identidade. Se o Paraná pudesse, ele parava o tempo para dar tempo de estabelecer seus próprios limites, mas é tanta gente entrando e saindo desse estado o tempo todo que fica difícil. É por isso que o Paraná fica brincando de ser uma e outra coisa o tempo inteiro e nunca é nada. Assim, de uma maneira bem lúdica.


*Nesse ponto do texto eu parei de escrever e fui ver no Google o significado de “lúdico”. É aquilo que é referente ao jogo, e que se faz pelo prazer de fazer. Acho que não passei muito longe.

**”Constrangimento embaraçoso” é uma hipérbole ou uma redundância?

***Isso também acontece com São Paulo, acho.

Problemão de gênero, parte II, volume 2: Sexo e gênero

Este é mais um post da minha série “Problemão de Gênero”, onde faço uma leitura crítica da mais famosa obra de Judith Butler praticamente parágrafo a parágrafo. Os textos anteriores podem ser lidos aqui e aqui. Como já disse anteriormente, essa crítica segue a minha visão pessoal, que é materialista e usa como ponto de partida o feminismo radical. Puxa uma cadeira e senta, porque lá vem lorota!

A Ordem Compulsória do Sexo/Gênero/Desejo

Este é o segundo subcapítulo do capítulo “Sujeitos do Sexo/Gênero/Desejo”. É bem curtinho, e Butler não vai discorrer muito sobre o assunto, talvez porque ela não tenha muito o que falar. Aqui ela vai fazer uma série de afirmações que eu achei um tanto bizarras — principalmente porque ela não firma o argumento em lugar algum; você lê e fica se perguntando de onde ela tirou isso tudo, apesar de conseguir captar algumas referências.

Butler vai iniciar o texto dizendo que a categoria “não problematizada” de mulher sofreu uma quebra com a introdução do conceito sexo/gênero. Ela não vai dizer quando, porque, nem quem fez isso, então faço eu: era 1972 quando Ann Oakley, uma feminista britânica, escreveu o artigo entitulado “Sex, Gender and Society” (a introdução em inglês desse artigo pode ser encontrada aqui), onde discorria sobre até que ponto as diferenças entre os homens e as mulheres eram naturais ou fruto da sociedade. Três anos depois, a Gayle Rubin vai usar este mesmo conceito no seu famoso “Traffic on Women”, e é a partir daí que ele vai fazer sucesso e tomar de assalto a teoria feminista. Isso aconteceu porque a mulherada ficou realmente muito empolgada por finalmente ter encontrado um bom argumento [1] contra a naturalização das diferenças sociais. A princípio, Butler concorda com isso.

O problema é que o argumento não é tão bom assim, como bem avisa a Maria Mies, ao afirmar que homens e mulheres interagem com a natureza com corpos qualitativamente diferentes, mas que (2014; tradução livre):

Essa distinção de categorias entre sexo como biológico, e gênero como sócio-cultural, pode à primeira vista parecer útil, porque remove a irritação de que a opressão das mulheres é atribuída o tempo todo à sua anatomia. Mas essa distinção segue o padrão bem conhecido de separar a ‘natureza’ da ‘cultura’ (…). Para as mulheres essa divisão tem uma tradição longa e desastrosa no pensamento ocidental porque as mulheres têm sido colocadas ao lado da natureza desde o surgimento da ciência moderna (…). Se as feministas agora tentam sair dessa tradição definindo sexo como algo puramente material e biológico, e gênero como a expressão mais alta, cultural e humana desse algo, então elas continuam o trabalho daqueles filósofos e cientistas idealistas patriarcais que dividiam o mundo em matéria crua ‘ruim’ (a ser explorada e colonizada) e espírito ‘bom’ (a ser monopolizado por padres, mandarim e cientistas). [2]

Butler vai dizer que gênero é sim socialmente construído, e não um resultado causal do sexo, porque o gênero não vem exatamente do sexo, mas vai além dos limites do corpo. Até aí, todas as feministas concordam: gênero define uma série de práticas e marcadores culturais de diferença entre homens e mulheres, que inclui (mas não se restringe a) vestimenta, comportamentos etc. A Lierre Keith nos ajuda a entender:

Gênero não é binário. Ele é uma hierarquia. Ele é global em seu alcance, é sádico em sua prática, e assassino em sua realização. Assim como raça, e assim como classe. O gênero demarca os limites geopolíticos do patriarcado — o que quer dizer, nos divide ao meio. Essa metade não é horizontal — ela é vertical. E caso você tenha perdido essa parte, os homens estão sempre no topo. [3]

Esse não é, obviamente, o caminho que a Judith Butler vai seguir, porém. Ela diz que “homem” não se aplica só a corpos machos, assim como “mulher” não se aplica sempre a corpos fêmea [4]. E é bem aqui que o argumento dela parece cada vez mais fruto de um matinho mágico suspeito desses que a gente arranja por aí: ela vai falar que nem o dimorfismo sexual pode ficar sem ser problematizado (coisa que, se não me engano, ela vai fazer mais adiante no livro). Achar que o gênero é binário é achar que o sexo também é restrito por esse dimorfismo, segundo ela.

A autora aqui está provavelmente partindo da idéia de construção social da sexualidade [5]. Esse é um assunto que ultimamente, pelo menos nas discussões internéticas, tem dado muito pano pra manga. Isso porque as pessoas entendem essa expressão das mais variadas formas possíveis. Algumas pessoas têm uma compreensão muito parecida com a de Butler, e alguns ainda parecem soltar essa expressão nas discussões sem fazer a menor noção do que ela significa exatamente, apenas para tentar argumentar contra a idéia do que chamam de essencialismo biológico.

Vou tentar explicar aqui como é que as feministas materialistas vêem esse conceito. Tudo em que os humanos colocaram a mão desde que se organizaram em grupos é, obviamente, socialmente construído. A forma como encaramos a sexualidade, não só a nossa mas até mesmo a de outros animais, [6] não fica de fora dessa. Nós inventamos regras específicas para seres de tal e tal sexo — que é, aliás, o significado original para que o conceito de “gênero” foi concebido, veja bem —, inventamos regras e contratos sexuais específicos para situações específicas, inventamos formas de controlar nossa fertilidade, inventamos práticas sexuais variadas… A lista é literalmente sem fim. Isso não significa, porém, que as nossas funções biológicas deixem de existir por causa disso; o fato de algumas dessas normas e costumes existirem inclusive atestam que essas funções biológicas existem.

Butler vai continuar dizendo que o gênero é independente do sexo e que se trata de “um artifício que flutua livremente” (free-floating artifice). Então ela questiona como é feita a atribuição do sexo a alguém, e segue fazendo um monte daquelas perguntas retóricas que ela adora:

  • “Afinal, o que é sexo?”
  • “Sexo é natural, anatômico, cromossômico, hormonal, e como é uma crítica feminista para se acessar esses discursos científicos que se propõem a estabelecer tais ‘fatos’ para nós”?
  • “Existe uma história de como a dualidade do sexo foi estabelecida, um genealogia que possa expôr as opções binárias como uma construção variável?”
  • “Existem fatos ostensivamente naturais do sexo discursivamente produzidos pelos vários discursos científicos a serviço de interesses políticos e sociais alheios?”

Apesar do blablabla anterior e da forma como a frase foi composta, essa última pergunta é muito válida, na verdade. É a pergunta que basicamente toda a crítica feminista de ciência já fez muitas décadas atrás. Investigar como a ciência pode ser usada para validar pressupostos mentirosos e preconceituosos a respeito das pessoas foi (e ainda é) uma tarefa do feminismo que ajudou a desvelar muitas das formas como as mulheres foram (e ainda são) subjugadas ao longo da história. Eu mesma estudei isso, mais especificamente na área da Computação. Não é uma pergunta boba.

O problema é que, diferente das críticas feministas às ciências e à produção tecnocientífica — que estavam preocupadas com a negligência médica em relação às mulheres, com a exclusão das mulheres dos campos do saber que possibilitavam melhores oportunidades de trabalho ou uma investigação mais específica sobre como tal e tal procedimento afeta especificamente as mulheres e coisas do tipo —, a Butler vai envenenar essas perguntas. Na verdade verdadeira mesmo, ela sequer vai tentar dar uma resposta satisfatória a elas. Ela vai apenas dizer que o sexo é tão culturalmente construído quanto o gênero. E que talvez o sexo sempre foi gênero, de modo que não há distinção entre sexo e gênero, porque segundo ela “Não faria sentido então definir gênero com uma interpretação cultural do sexo, se o sexo mesmo é uma categoria gendrada”! [7]

Esse raciocínio dela leva a noção de construção social da sexualidade às últimas consequências. O que Butler diz, para resumir, é que uma vez que as práticas sexuais e a forma com entendemos o sexo é socialmente construída, e uma vez que o gênero também o é, então não precisa haver uma distinção entre sexo e gênero, porque sexo e gênero seriam necessariamente a mesma coisa e não importariam para uma análise feminista. Ela deixa de considerar — e aqui me adianto, porque nada mais me lembro da primeira leitura que fiz desse livro então não sei dizer se ela vai fazer isso futuramente, mas de qualquer forma até o momento ela deixa de considerar — os motivos que levaram à dominação masculina, e isso porque ela não acredita em uma dominação masculina a nível estrutural.

Ela diz:

Sexo não deve ser concebido puramente como a inscrição cultural de significado em um sexo pré dado (uma concepção jurídica); gênero deve também designar o próprio aparato de produção através do qual o sexo propriamente dito é estabelecido. Como resultado, o gênero não está para a cultura como o sexo para a natureza; gênero é também os significados discursivos/culturais pelos quais “a natureza sexuada” ou “sexo natural” é produzido e estabelecido como “pré-discursivo”, antes da cultura, uma superfície politicamente neutra na qual a cultura age. (BUTLER, 1999)

Butler encerra esse capítulo com mais uma pergunta: “como então o gênero precisaria ser reformulado para englobar as relações de poder que produzem o efeito de um sexo pré-discursivo e então abarcar as operações próprias da produção discursiva?”

Ou seja: além de pegar uma categoria que em si já tem problemas o suficiente (vide a citação da Maria Mies), ela ainda vai desconsiderar completamente a realidade material, como se nosso corpo físico não tivesse qualquer peso na forma como interpretamos e interagimos com o mundo e entre nós mesmos; isto é, não é uma superfície politicamente neutra. Além disso, ela ainda vai tentar reformular essa categoria problemática de uma forma que tampouco resolve seus problemas.

Fiquei realmente impressionada com o tanto de bobagem que ela consegue colocar dentro de tão pouco texto!


Notas


[1] Porque nós ficamos tão preocupadas com a melhor maneira de responder questões idiotas que os homens nos colocam, e ainda por cima nos termos deles, é algo que não consigo entender, principalmente porque eu mesma também faço isso.

[2] Tradução livre de: MIES, Maria. Patriarchy and Accumulation on a World Scale: Women in the International Division of Labour. Londres: Zed Books, 2014.

[3] Tradução livre de: KEITH, Lierre. Patriarchy vs. Planet Earth. RadFem Reboot 2012. Portland, 2012.

[4] O que até faz sentido, se você pensar em figuras de linguagem, como por exemplo quando uma mulher diz “sou mais macho que muito homem”. “Macho”, nesse caso, significaria “forte”, “corajosa”. Não significa, no entanto, “ser humano do sexo masculino”. E, olha só que interessante: funciona direitinho dentro da lógica do gênero como marcador de diferença e hierarquia.

[5] Confesso que esse é um assunto que me interessa apenas superficialmente. É um debate meio infrutífero, na verdade, que surgiu provavelmente com o Michel Foucault questionando de que forma se dá a orientação sexual das pessoas, de onde ela vem, porque algumas pessoas são héterossexuais e outras não. O Foucault era completamente contra a idéia de que a orientação sexual é inata, aquela coisa de “baby, I was born this way” (um discurso que está muito em voga hoje): para ele, são as experiências das pessoas que podem levá-las a tal e tal comportamento/desejo. Algumas pessoas ainda dizem que a orientação sexual é uma escolha — e qual seria o problema se fosse, não é mesmo?

[6] Vide a notícia do inseto fêmea encontrado no Brasil que se dizia que tinha um pênis porque era ela quem penetrava o macho de sua espécie, e não o contrário, como normalmente se espera (“normalmente”, aqui, pode ser interpretado no sentido de “norma” mesmo) de uma relação sexual macho/fêmea. Tal notícia foi amplamente celebrada pelos transativistas, como sendo uma prova de que fêmeas também têm pênis. Alguns biólogos desmentiram essa idéia: há muita (muita mesmo) variedade genital entre os insetos, e que uma protuberância por onde a fêmea busca o material genético do macho não pode ser simplesmente chamada de pênis; sequer faz sentido comparar a fisiologia dos invertebrados e dos mamíferos nesse sentido.

[7] Socorro!!