Ele vem saltando pelos montes

Um dos livros bíblicos mais mal compreendidos de todos os tempos é, sem sombra de dúvida, o Cantares de Salomão, a.k.a. Cânticos dos Cânticos, livro poético do Antigo Testamento atribuído ao rei israelita Salomão. Apesar de sua linguagem explícita e direta, há quem invente mil interpretações sobre seu conteúdo, deixando completamente de lado o bom senso e a Navalha de Occam.

Para que você não tenha o trabalho de ir pegar uma bíblia, achar o referido livro e ler seus oito capítulos, vou resumi-lo em poucas palavras: Salomão e Sulamita, sua amada (supostamente uma entre as centenas de esposas que o rei de Israel teve) numa dirty talk. E é isso, nada além disso. Porém, ao longo dos séculos, muita polêmica já foi feita em torno dessas não tão sagradas palavras. A Igreja Católica cogitou a possibilidade de bani-lo da coleção bíblica, e ainda hoje algumas denominações cristãs mais rigorosas dão pouca, ou nenhuma importância ao mesmo.

Uma grande porção de crentes e estudiosos da bíblia acreditam que, na verdade, o Cantares de Salomão seja uma alegoria, uma ilustração parabólica do amor do deus Yahweh pelo povo de Israel, do amor de Jesus pela igreja, ou ainda do amor de Deus pelos crentes. Entretanto, não se encontra em lugar algum do livro qualquer indicação ou sugestão que sustente esta teoria. São poemas de amor erótico e só.

Para que não restem dúvidas sobre o teor dos poemas do herdeiro do Rei Davi, transcrevo aqui alguns trechos:

Quão formosa, e quão aprazível és, ó amor em delícias!

A tua estatura é semelhante à palmeira; e os teus seios são semelhantes aos cachos de uvas.

Dizia eu: subirei à palmeira, pegarei em seus ramos; e então os seus seios serão como os cachos na vide, e o cheiro da tua respiração como o das maçãs.

[Cantares de Salomão 7:6-8]

A linguagem cheia de floreios prejudica a interpretação e mais confunde que esclarece? Eu traduzo: “Tu é mó gostosa, hein? Vô pegá nos seus peitinhos!”

Ainda assim, há quem ainda tenha alguma dúvida sincera. Isso porque, como se sabe, a religião cristã tem sérios problemas quando o assunto é sexo, e se esquiva dele como o Diabo foge da cruz – ops. O tabu ainda é muito grande, e em pleno século XXI cristãos ainda imploram aos seus fiéis que fiquem longe da pornografia e se casem virgens; compreensível, afinal estão apenas sendo coerentes com seus dogmas. Por mais que Salomão diga com todas as letras que quer pegar nos peitos da Sulamita, cristãos coram, suam frio, respiram fundo e dizem: não, calma, isso aqui é a Bíblia, deve ter um propósito para Deus ter posto um texto assim aqui, isso deve ser linguagem figurada.

Interessante notar que até mesmo o pilantra, digo, pastor Silas Malafaia tem uma interpretação mais correta do conteúdo erótico do livro do que boa parte dos cristãos*.

Estando errada ou não, esse tipo de interpretação de que a descrição do ato sexual entre um homem e uma mulher seria uma parábola a respeito da relação entre a Divindade e o Fiel faz pensar. Richard Dawkins, na página 256 de seu ótimo “Deus, um delírio”, dá alguns exemplos de como o comportamento de um religioso se assemelha ao comportamento de uma pessoa acometida pela paixão sexual, incluindo aí toda a resposta fisiológica decorrente desse estado de excitação.

Tenho pra mim que toda a repressão sexual imposta pelo Cristianismo tem uma razão de ser, e essa razão não deve ser apenas uma coincidência de fatores, mas uma estratégia muito bem arquitetada. Fazer com que seus sacerdotes sejam castos, a meu ver, não foi apenas uma decisão econômica da Igreja Católica – uma vez que foi tomada devido aos excessos que seus clérigos cometiam, abusando de seus privilégios enquanto clérigos.

Restringir seus fiéis sexualmente a um número limitado de condições específicas para a prática, opções de gênero e até modalidades e posições foi uma jogada de mestre. Um dos mais fortes impulsos do ser humano, ligado à sobrevivência e perpetuação da espécie; uma característica que é tão marcante que de fato define vários aspectos da vida como a sexualidade é um poder muito grande para ser deixado assim, livre.

Usar esse potencial e transformar a massa em agentes úteis de seus propósitos é o objetivo de toda religião. Direcionar o alvo dessa paixão sexual para o intangível e transformar o sexo em algo impuro e mundano, incompatível com o Divino não me parece apenas um medinho, um puritanismo bobo. Foi algo orquestrado e muito bem calculado, perfeitamente de acordo com mentes megalomaníacas cujo objetivo é literalmente dominar o mundo.


*Vale ressaltar que Malafaia é da Assembléia de Deus, uma igreja pentecostal menos rígida que boa parte das denominações cristãs não-católicas, descendente direta da Igreja Batista. Os batistas, por sua vez, formam uma denominação protestante surgida da união de dissidentes da Igreja Anglicana que simpatizavam com os ideais menonitas, estes últimos sendo originários dos anabatistas – uma ala mais radical da Reforma Protestante, iniciada por Martinho Lutero na Alemanha no século XVI.

Suicida Sans

Enquanto eu fazia propaganda da Hello Joana* no Twitter, a @Rekviem me sugeriu um projeto tipográfico. No início eu achei que fosse brincadeira, até que ela falou que gostaria realmente de uma fonte baseada num conceito assim, digamos, mais… pessimista. Que enfocasse o pessimismo auto-destrutivo, mas de maneira sutil, apesar do nome entregar de bandeja o conceito-chave.

Resolvi encarar o desafio e, alguns dias depois de a Hello Joana vir à público, comecei os primeiros rabiscos da Suicida Sans, mais exatamente no dia 3 de fevereiro, como se pode ver aqui. Me empolguei e, no dia seguinte, já tinha todo o alfabeto minúsculo pronto – ou seja, toda a base estrutural da fonte já estava pronta, bastava apenas desenhar toda a centena restante de caracteres…

Ao longo dos dias, fui trocando idéias com a @Rekviem sobre os desenhos dos caracteres e ela foi me ajudando a identificar erros ópticos, até que todos os carateres do set já estavam desenhados, importados no FontLab e prontos para serem kernados. Neste momento, a @Rekviem me perguntou quanto tempo levaria para terminar o trabalho e eu, lembrando das últimas vezes que tive que kernar uma fonte, disse “3 semanas”. Dois dias depois, eu já estava enviando a fonte pra ela.

O resultado você confere aí em baixo. Ou, também pode baixar o PDF specimen da fonte aqui.

Um trabalho que eu sinceramente adorei fazer. Permitiu-me aprender mais de tipografia tanto no sentido técnico (uso do FontLab e do Illustrator) quanto no sentido de composição visual/tipográfica (desenho dos glifos, contraste, arranjo formal, etc). E, claro, também adorei o resultado final: ficou foda, desculpe a minha falta de modéstia.

Gostou? Pois é, a fonte é exclusiva da @Rekviem e ela não quer dividir com ninguém. Egoísta, né? Fala com ela, quem sabe ela não te empresta?

*Hello Joana, em breve nos pesos Light e Bold.

“Você não entendeu, eu estava sendo irônica!”

Quatro horas da madrugada de 05 de fevereiro e lá estava eu twittando. Me vesti, fui tomar água na cozinha, molhei a cozinha inteira e, quando voltei, twittei o seguinte:

Uma gracinha boba de uma garota insone. Nem cinco minutos se passaram, apareceu gente pra corrigir, porque afinal líquidos se medem em litros e não em quilos, sua besta! Quem liga se 1 litro de água equivale a 1 quilograma, né mesmo, minha gente?

Fiquei puta, afinal era um tweet para ser apenas ignorado, principalmente em se tratando do horário, mas que provocou uma ligeira discussão na madrugada. Tenho pra mim que quem corrige coisas como essa é o mesmo tipo de chato que implica com typos bestas e corrige o já clássico “corrão” – enfim, gente que subestima a inteligência alheia, como se o erro proposital já não fosse óbvio o suficiente.

No meio da briga, enquanto eu discorria sobre a chatice de pessoas que corrigem essas besteiras e que se acham tão inteligentes por causa disso, meu oponente solta essa: “Eu estava sendo irônico”.

Novamente, para que a ênfase necessária seja empregada de forma efetiva na frase: Eu estava sendo irônico. EU. ESTAVA. SENDO. IRÔNICO.

Ele estava sendo irônico, gente! Né? Pronto, meu argumento era inválido, afinal de contas eu fui burra demais para não perceber que ele estava sendo irônico! Como assim? Estava tão na cara! Se você estava sendo irônico, parabéns, já provou a superioridade de sua inteligência em relação à minha. Se ele tivesse dito que estava sendo sarcástico, daria no mesmo, porque afinal é tudamemamerda. Eu sou mesmo uma idiota, malzaê.

A pessoa desmontou seu argumento? É só responder que estava sendo irônico/sarcástico. Ela é que não entendeu seu ponto, não compreendeu a genialidade de seu humor, não viu o quanto a sua idéia é superior à dela? Ser irônico/sarcástico equivale a dizer “ai como vosse eh burro naum meresse fala comingo nem intendi q eu falo”. In your face, bitch!

O fato é que a maioria das pessoas que usa essa expressão para tentar inverter sua situação em meio a uma discussão online geralmente nem sabe do que se trata, muito menos diferencia entre ironia e sarcasmo. Se você também não sabe, mas por sincera ignorância, vá lá na Wikipedia rapidinho sanar sua dúvida, eu espero.

Pra finalizar, toda a novelinha aí do texto foi só pra facilitar a sua vida nos flamebaits em que participa, nobre colega freqüentador das interwebs. Sim, porque eu que sou designer e sei mexer nas complicadas ferramentas de edição de imagem preparei para você uma seleção de figurinhas para colar nas suas discussões online e imediatamente vencê-las. Clique nos thumbnails para ampliar as imagens:


Sugestões de mais image macros salvadoras de discussões na internet? Use o formulário dos comentários aí embaixo.