Depois de muito tempo morrendo de vontade e medo, dei um passo ousado e comprei uma bicicleta decente. Este texto conta como foram meus primeiros dias com ela depois de mais de seis anos sem mal tocar em bicicletas, e sem nunca antes ter enfrentado o trânsito das ruas de bike.
Uma magrela em cima da outra. Essa frase resume em 28 caracteres o que seria eu, esta que vos escreve, andando de bicicleta. Apesar do medo de perder o equilíbrio, ser atropelada ou atropelar alguém, eu estava bem feliz na noite de 23 de julho, quando saí da agência montando minha Caloi T-Type.
Fazia um pouco de frio naquela noite, uma garoa quase imperceptível ameaçou embaçar meus óculos e o momento não podia ser menos apropriado para uma novata: a hora do rush.

Avenida República Argentina. Foto: Eduardo Coutinho
Apesar de alguns curitibanos se sentirem muito europeus todas as vezes que tiram seus casacos do guarda-roupas ao menor sinal de frio, Curitiba está bem longe de ser uma cidade exemplar quando se trata de urbanismo. Estamos muito a frente de boa parte dos municípios brasileiros e nosso sistema de ônibus é motivo de orgulho, mas ainda há muito o que fazer em relação aos pedestres – e veículos de duas rodas não-motorizados.
Enquanto em alguns países, cidades incentivam o transporte com bicicletas mesmo sob um clima cinzento e nada amistoso como o de Londres, Copenhague e Haia, nossa Europa tupiniquim se parece muito mais com a Bratislava do filme Eurotrip.
Já andei muito à pé, sei que não é difícil só para os ciclistas. Pedestres também são vítimas do mal planejamento urbano, com cruzamentos toscos, falta de sinalização, de semáforos e transporte coletivo lotado. Um certo trecho da Avenida República Argentina, pelo qual passei à pé todos os dias nos últimos 4 meses e que agora faço de bike, daria um excelente estudo de caso para trabalhos acadêmicos de jovens universitários da Arquitetura.
Ainda estamos engatinhando quando se trata de bicicletas: apenas neste fim de década Curitiba começou a preparar a construção de ciclofaixas, que só ficarão prontas em 2011, enquanto binários e binários são construídos, seguindo a tendência paulistana de tornar a cidade mais car friendly e, justamente por isso, menos humana.
Quem entende um tiquim de urbanismo sabe o quanto isso é ruim. Enfim, a esperança de que um dia a situação mude ainda existe – um tanto fraca, mas existe.
Dia 1
Comprei minha bike e, no mesmo dia, voltei da agência em que trabalho pedalando. Me caguei de medo nos 3,1 km que separam a agência de casa.
Dia 2
O medo já não era mais tão grande. Comecei a tomar gosto pela coisa e a me sentir realmente bem ao pedalar.
Dia 3
Na falta de ciclovias e ruas largas no caminho, experimento trafegar pela canaleta do expresso. Parece mais fácil que pela via normal.
Dia 4
Tenho a impressão que o número de ônibus aumentou significativamente e não me arrisco pelas canaletas. No Twitter, o ex-prefeito Beto Richa fala das ciclofaixas.
24,8 quilômetros percorridos
576 Kcal queimadas*
9,3 km/h de velocidade média