Meninos e Meninas

Minha mãe fez de tudo para eu virar mulherzinha. Como toda mãe normal, ela me comprou roupas rosas, me deu bonecas, brinquedos “de menina” e me encheu o cabelo de cachinhos e lacinhos. Minha irmã caçula, quase dois anos mais nova, era tratada igual pela pouca diferença de idade: mesmas roupas, mesmos brinquedos, mesmos cachinhos no cabelo. Éramos gêmeas em termos práticos, e tudo isso era feito para evitar o conflito entre irmãs, de modo que uma nunca tivesse motivos para invejar a outra.

Funcionou: éramos parceiras, raramente brigávamos, repartíamos tudo e, caso houvesse alguma disparidade, era oferecida a nossa irmã mais velha, oito anos adiante de mim, ideal mágico de boa moça e filha exemplar a ser alcançado. Havia, porém, um problema.

Apesar de ser menina, eu era um moleque. Preferia brincar com os meninos, correr, subir em árvores, andar a cavalo, me sujar de barro, jogar bola, etc. Odiava coisas de menininha, me sentia ridícula, não me sentia eu. Minha gêmea, ao contrário, nunca fazia Educação Física para não suar nem cansar, por mais que eu a arrastasse pras “artes” que eu e meus primos aprontávamos, geralmente ia a contragosto, e continuou preferindo rosa e cachinhos no cabelo depois que a infância passou.

Eu sempre fui a filha estranha, e isso era um problema para os meus pais. Viviam me advertindo quanto ao meu modo de vestir, falar, agir. Ouvia com freqüência que eu deveria ser “mais feminina”, cruzar as pernas, usar saias, fazer movimentos graciosos.

Agora você, caro leitor, pergunta: “Caso clássico de transtorno de gênero? Meu deus, Fabi, você é transsexual?”

Não, e não. Apesar de ter tido experiências que pessoas com transtorno de gênero geralmente têm, não é o meu caso. Nunca me senti mal por ter o que tenho no meio das pernas – a não ser, claro, naqueles dias sombrios. Um pouco deslocada perto de tudo o que querem, esperam e exigem de um ser com sexo feminino, mas nunca, nunca me senti “no corpo errado”.

Eu sou uma menina, mas para ser menina de verdade é preciso ser tudo isso? E se eu não for terei de ir contra mim mesma para me ajustar? Ora, não é algo natural?

E eu cresci, simbolicamente castrada pela religião, culturalmente limitada pela binaridade de gêneros. Se só havia duas possibilidades, eu deveria me encaixar em uma delas e pronto. “Se quer ser uma mulher, ao menos se pareça com uma” – não é isso que vivem dizendo aos travestis? Não há meio termo, garota! Você nasceu menina, haja como uma!

Meu namorado uma vez me disse que uma das minhas melhores qualidades era não ser uma mulherzinha fresca que dá chilique por qualquer coisa, que é cheia de não-me-toques e acha que mulher tem direito de ser chata só por ser mulher. E que todo mundo tinha que ter uma namorada assim. Meu namorado é um cara inteligente que, inclusive, me ajudou a descobrir que eu também gosto de meninas. Eu perguntei: “Então por que todo mundo fica querendo que a gente seja de outro jeito, porque se não for não é mulher?”

O que uma mulher deve fazer para ser uma mulher?

Essa pergunta me corrói. Eu tentava (e ainda tento imbecilmente) me encaixar, mas é difícil. Não entendo porque mulheres devem ser assim ou assado. Por que eu não sou como todo mundo? Minha vida é muito difícil sendo quem eu sou! Se é algo tão natural, por que a gente tem que seguir essas regras?

A resposta é, na verdade, muito simples: não tem. Não há regras quando se fala de masculino e feminino, tudo o que se vê são meras construções culturais. A cultura nem sempre está certa (geralmente não está), ela pode ser transformada ou simplesmente ignorada. A genitália pode determinar muita coisa em sua vida. Como disse o Luis Fernando Verissimo em um contexto bem diferente e mais jocoso, você é o seu sexo. Mas nascer de um jeito ou de outro não exige que se sigam regras a partir da fôrma de onde você foi feito.

Exigem o tempo todo de nós, crianças que nada entendem da vida, jovens de caráter em formação, adultos cheios de responsabilidades e velhos com uma reputação a zelar, que sigamos um padrão. Ai do pai de família que resolve experimentar a cinta-liga da mulher, do garoto que é confundido constantemente com uma menina, da moça que toma hormônios esperando a barba crescer, da garota traquinas que sobe em árvore e joga futebol com os meninos, mas namora ambos. Credo, esses são os esquisitos! Os desajustados!

Não importa muito se eles são “contra o seu sexo natural” ou não. Pergunte ao Buck Angel, nascida moça que virou moço mas gosta de moços e tem uma vagina, se ele sofre menos preconceito por gostar de seu “sexo natural”?

O problema mesmo está em ser diferente. Ser diferente deixa o pessoal que vigia pela moral, tradição, família e bons costumes em polvorosa, porque para eles menina usa rosa e menino azul. Quem faz diferente é errado, herege, mandem para a fogueira já!

É por isso que sinto raiva toda vez que vejo um pseudo mente aberta dizer que tem direito sim de achar ruim essa gente esquisita demonstrado afeto em público. Me sinto como eles, os esquisitos. Eu sou um deles! Dá vontade me intrometer na conversa (e geralmente eu faço isso) e dizer: “Ah é? E te devemos satisfação desde quando, ô babaca?”


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