Minicontos

- Hoje não.

- Mas eu não quero nada. Só ficar assim com você.

Ela retribuiu o abraço e deixou-se envolver pelo calor do corpo dele. Mas ao tocá-lo no pescoço, percebeu que seu pulso estava acelerado. Sua respiração era irregular e denunciava a alteração em seu estado de espírito. Ela notou todos estes sinais vitais descompassados aparentemente sem nenhum motivo, mas não perguntou nada.


Sentada sozinha em uma mesa em meio à praça de alimentação lotada, ela esperava ansiosa. Pensou em ligar, mas não era sua intenção deixar transparecer o nervosismo.

Olhou no relógio do celular pela oitava vez desde que sentou-se ali: ele estava vinte minutos atrasado.

- Ele não vem.

Mal acabou de pronunciar estas palavras, o telefone vibrou em suas mãos com um estardalhaço.


Ela suspirou. “Insônia. De novo”, pensou. Ele roncava ao lado dela, dormindo o sono de quem trabalhou o dia todo e agora buscava a recompensa nos braços de Morfeu.

Ela deu as costas àquela expressão cansada dele sentindo-se culpada. Não conseguia dormir devido a problemas seus com os quais não conseguia lidar e que ele lidava melhor que ela.

Mas as palavras de conforto dele dizendo que estava ao seu lado pro que desse e viesse só a faziam sentir-se pior, ainda que amada.

Do outro lado do mundo, uma usina atômica colapsava e seus resíduos atingiam a atmosfera. Em pouco tempo, a camada que envolvia o planeta estaria acabada e os problemas de nossa insone protagonista também.

A Travessia

Depois de uma existência longa e feliz, Jorge finalmente fez a travessia. Sua essência deixou seu velho e cansado corpo e, após uma morte tranqüila, ele sentiu-se flutuar sobre seu próprio quarto.

Sua esposa segurava a mão direita de seu corpo terrestre, inconsolável. Ele tentou dizer a ela que não chorasse porque tudo estava bem, mas não pôde: não possuía mais uma boca, muito menos cordas vocais. Era apenas espírito, disforme porém consciente de si mesmo, conduzido por uma força invisível para longe de tudo o que conhecia, para além daquela vida na Terra, para o além-vida.

Ele não saberia dizer quanto tempo levou até ser envolvido por uma nova força, ser revirado, revolvido e remodelado em um novo corpo, mas uma vaga noção de tempo o fez crer que esse processo não durou muito. Logo ele estava diante de um grande homem de barbas longas e túnica comprida. Apalpou-se, curioso com sua nova forma, e percebeu que estava em seu próprio corpo, vários anos mais jovem do que quando deixou a vida terrena. Olhou em volta e não viu mais nada a não ser o homem barbudo, que disse-lhe:

- Pelo visto você já percebeu o que te aconteceu, certo?

Um tanto inseguro, Jorge deu um passo em direção ao homem.

- Eu morri, velho e farto de dias. Você é Deus? Onde estamos? No Céu? Ou não?

O homem deu um longo e entediado suspiro antes de esclarecer as dúvidas do recém-chegado. Jorge achou que ele fosse um tipo de guia na transição para o Mundo dos Mortos, Paraíso ou seja lá o que fosse. Era cristão e acreditava no pós-vida que sua religião pregava, mas nesse momento temia que tivesse feito a escolha errada. Um rolo apareceu nas mãos do barbudo, que ele abriu e começou a ler, tão entediado quanto tinha sido seu suspiro.

- “Você acaba de passar a fronteira entre a Vida e a Morte. Uma vez do lado de cá, não há mais retorno. A sua forma atual serve apenas para que você compreenda melhor este momento, uma vez que está habituado a possuir um corpo”, blá blá blá. – ele fechou o rolo e estendeu a mão para Jorge. – Muito prazer, eu sou o Porteiro Celestial. Vou verificar seus registros, ver onde ficará, e depois disso você retornará à forma espiritual. Entendido?

- Claro, claro. – respondeu Jorge balançando afirmativamente sua cabeça temporária.

Um pequeno dispositivo eletrônico surgiu nas mãos do Porteiro Celestial e, após alguns toques, ele exibiu um sorriso de satisfação. Havia encontrado os registros de Jorge. Uma impressora apareceu e cuspiu algumas folhas que foram em seguida recolhidas pelo Porteiro e depois, tanto o dispositivo quanto a impressora desapareceram tão inexplicavelmente quanto surgiram.

- Adoro essas coisas que vocês inventam e tento copiar para deixar a experiência mais familiar, mas esse negócio de ler em tela não me desce. Enfim, vamos lá. Vejamos, nascido em meados do século vinte, bom filho, estudioso, tímido, fiel, bondoso… É, garoto, parece que a eternidade vai ser boa pra você!

O Porteiro separou a primeira folha e colocou-a por trás das demais, continuando a leitura. Após uma análise silenciosa, ele coçou a barba e franziu o cenho, preocupado.

- Você sabe que a Palavra Divina sofreu uma série de adaptações, cortes e adições ao longo da história humana, correto?

O pseudo-coração de Jorge alterou seu ritmo e ele sentiu um nó na garganta. Estímulos emulados apenas para que ele entendesse a situação, pensou pouco antes de responder, gaguejando.

- Si-sim. Bem, eu nunca me aprofundei nisso de verdade, mas sei que houveram vários concílios para decidir o que iria para a versão final, e que até hoje – e com “hoje” ele queria dizer a data de sua morte – não há um consenso, mas acredito que o essencial permaneceu e…

- Escute, garoto. – o Porteiro Celestial tinha uma expressão séria ao dizer isso. – Ao longo do tempo, o Altíssimo percebeu que vocês não entendiam o que ele queria dizer e foi mudando as coisas. Não sou ninguém pra julgar as atitudes do Soberano, sabe, mas sei lá, acho que usar intercessores humanos não foi uma boa idéia. Por causa disso, acabou indo Ele mesmo tentar arrumar as coisas.

Jorge temia por sua alma.

- Mas se as pessoas entendiam errado, a culpa não necessariamente era delas, certo?

- Sim, claro! E por isso a cada nova atualização o Todo Poderoso decidia que era salvo quem interpretasse Suas palavras corretamente a partir daquela data. “Data” na noção terrestre, lógico.

Jorge respirou aliviado com seus pulmões novos em folha. Até onde sabia, tinha sido educado na versão mais recente da Palavra da Verdade. Tinha sido uma boa pessoa em vida, doava dinheiro para os mais necessitados, era carinhoso com os filhos e esposo dedicado. Estava feliz de poder passar a eternidade ao lado de Deus.

- Legal! E quando vou conhecer o Príncipe da Paz?

O Porteiro Celestial manteve um ar preocupado. Olhou para as folhas que ainda segurava nas mãos antes de prosseguir.

- É… Tem um problema.

- Problema?

- Sim.

- Que problema? – As pupilas de Jorge se dilataram e o coração voltou a dar sinais de que alguma coisa estava errada.

- Você não está na edição mais recente do Evangelho.

- Mas…

- Deus liberou uma nova edição há poucos anos, mas infelizmente a maioria das pessoas interpretou como loucura. Você recebeu em mãos um folheto a respeito em julho de 1987, mas achou bobagem e o atirou ao lixo.

Jorge sentiu-se desabar. Caiu de joelhos e, em prantos, mal podia dizer qualquer coisa. O homem barbudo ficou sem ação, incomodado com a situação um tanto constrangedora. Tentou colocar suas grandes mãos sobre a cabeça do recém-chegado à sua frente, imitando o gesto humano de consolo, mas sem sucesso. Enfim, abaixou-se para ficar na mesma altura que Jorge e disse:

- Olha, eu não faço as regras porque isso é serviço do Criador dos Céus e da Terra, mas eu simpatizei com você, garoto. Vou te levar para um lugar onde você poderá tomar conhecimento da edição mais recente. – Nesse momento, Jorge levantou os olhos e parecia mais calmo. – Venho fazendo isso desde o lançamento do Novíssimo Testamento com pessoas boas porém desinformadas como você neste período de transição, mas o Pai da Eternidade me falou para não dar mole.

O Porteiro Celestial ajudou Jorge a levantar e se recompor, oferecendo-lhe a manga da própria túnica para que enxugasse os olhos. Jorge assoou o nariz nela e logo estava pronto para o que viesse.

Em questão de segundos (na concepção humana, claro), Jorge tinha à sua frente um pedestal com um grande livro de capa de couro aberto. Atrás do pedestal, havia uma pequena estante com todos os livros escritos pelos humanos a respeito do Novo Evangelho, com estudos e interpretações feitos até o momento, aprovados pelo próprio Pai Celestial. Ao todo, eram quinze. Jorge segurou o livro de capa de couro nas mãos. Estava emocionado por tê-lo em mãos e ao mesmo tempo arrependido de ter atirado à lixeira o panfleto recebido naquele fatídico dia em fins dos anos oitenta do vigésimo século da era moderna. Sentou-se ao chão com o livro e pôs-se a ler, enquanto o Porteiro o observava.

- Leve o tempo que precisar, garoto. Aqui não temos essa noção humana.

Quando Jorge finalmente chegou à última página, mal podia acreditar no que acabara de ler. Estava em choque. O Porteiro estava ansioso para saber o que ele tinha achado do livro e quase arrancava a longa barba ao puxá-la, entre preocupado e satisfeito por ter tentado ajudar mais uma boa alma a escapar do lago de fogo e enxofre.

- O que achou, garoto? – pergutou o Porteiro, com alguns fiapos de barba nas mãos.

- Uma batata?

- A Batata. A Grande Batata Búlgara, olha o respeito!

- Mas por quê?

Ambos estavam assentados em uma pequena mesa, tomando qualquer coisa quente em grandes canecas de porcelana. Uma bela garota de avental branco serviu-lhes bolinhos, mas Jorge nem a olhou. Não tinha necessidades humanas ou libido, aquele cenário servia apenas para tentar confortá-lo. Ainda estava abalado. O Porteiro Celestial tentava esclarecer as coisas.

- Quando o Pai Amado percebeu que vocês eram tapados demais – o Porteiro balbuciou um “desculpe” sem jeito, depois da última frase incompleta. -, digo, que você não tinham, assim, como posso dizer?… Uma compreensão do todo e da complexidade da beleza do universo que Ele criou para vocês habitarem, decidiu que era melhor simplificar as coisas tanto quanto fosse possível. Eu e alguns santos tentamos advertir o Velho de que isso poderia dar problema, mas Ele foi irredutível. E sabe como é, todas essas eras administrando tudo isso, quem éramos nós pra querer saber de alguma coisa mais que o Mestre, né?

Jorge sorvia o conteúdo da caneca. Era doce, mas de um doce delicioso que ele jamais imaginara provar em sua existência terrena ou em qualquer outra existência possível. Mas ignorava aquele sabor divino e tinha o olhar perdido nas fibras da mesa de madeira.

- Mas… uma batata?

- A Grande Batata Búlgara. – corrigiu-o o Porteiro.

- Isso. A Grande Batata Búlgara. Por quê?

O Porteiro Celestial bebeu mais um gole da caneca e prosseguiu na explicação.

- Como eu estava dizendo, o Maravilhoso achou melhor que vocês concentrassem suas adorações em algo mais fácil de imaginar. Ele achou que um ser que sabe de tudo, está em tudo e pode fazer tudo era muita coisa para a cabecinha de vocês lidar e achou que uma batata mágica…

- A Grande Batata Búlgara. – corrigiu-o Jorge.

- Isso, a Grande Batata Búlgara. Ele achou que a Grande Batata Búlgara era um conceito menos abstrato e mais fácil de ser entendido por vocês.

- E está sendo bem entendido?

O aparelinho onde o Porteiro consultou os arquivos de Jorge apareceu novamente em suas mãos. Ele tocou algumas vezes na tela e continuou:

- Segundo as últimas pesquisas, o Novíssimo Testamento está se saindo relativamente bem. Não tão bem quanto o anterior, mas pelo menos não temos mais tanta gente vindo parar aqui depois de ter sido devorada por leões ou queimada em postes por imperadores loucos, né? – Ele deu uma risadinha para quebrar o gelo. – Mas sempre tivemos esses incrédulos que achavam tudo uma loucura no começo. É normal, eu acho. Com o passar dos séculos, logo o pessoal se acostuma. Que Javé me perdoe pelo que vou dizer agora, mas quer loucura maior que aquela coisa toda de matar carneiros e fazer churrasco pro Senhor dos Exércitos?

- É, acho que você tem razão. – concordou Jorge, já mais calmo.

- Bom, então acho que você está pronto.

- Com certeza!

Sorridente, o Porteiro Celestial conduziu Jorge pelos portões do Paraíso e ele então adentrou à Morada Divina, onde passaria a eternidade. Seu corpo se desfez e seu espírito flutuou calmamente até o altar onde ele e as demais almas salvas ao longo dos séculos louvariam o Eu Sou Quem Sou, que no momento tinha a forma de uma batata gorducha e repousava dentro de uma redoma brilhante.

Marina

Os dois policiais interrogavam Marina. Um deles, o mais simpático, andava de um lado para outro tentando ligar as pontas do nada de informações de que dispunham sobre o assassinato para preencher os relatórios que ambos deveriam entregar ao fim do dia. O outro, mais dado a acessos de raiva e impaciente, estava sentado à mesa encarando a moça. Não conseguira extrair nada dela.

- Conte-nos, Marina. Por que motivo atirou no seu marido?

Ela permaneceu no mesmo silêncio em que estava nas últimas duas horas, desde que fora presa ainda empunhando o revólver de cabo de madrepérola. Dos três tiros, um acertou o ombro, outro o abdômen, mas um deles foi certeiro no coração da vítima, tornando cruelmente literal o que John havia descrito em palavras na última briga que ele e Marina tiveram. Ela destruía corações.

John não sabia o que fazer com as mãos. Tinha as pernas trêmulas e esbarrava com freqüência nos móveis enquanto caminhava de um lado a outro, tentando conter o nervosismo e não acordar as crianças. Marina estava há horas trancada no quarto, e quando saiu, tinha as malas feitas.
- Marina, não vai se despedir dos nossos filhos?

John pediu-lhe que ficasse. Pelas crianças. Ela estava decidida e caminhou em passos firmes em direção à porta da rua. Não se deixou abalar nem colocou óculos escuros; não havia o que disfarçar, Marina estava feliz em abandonar aquela vida simples e pobre.

O belo Cadillac a esperava na porta e a levou para uma bonita casa do outro lado da cidade, pra bem longe de seus primeiros anos fora da casa dos pais, quando fugiu aos dezesseis. Abandonou a escola e tomou um ônibus em direção a outro estado. Tornou-se garçonete e amante do dono do estabelecimento, até que John entrou pela porta da lanchonete fazendo-a mudar os planos.

Marina era jovem mas sempre teve os homens que quis. Mudou novamente os planos por Ronald, que deu-lhe luxos que ela jamais imaginaria com John, e foi por isso que ela o trocou por este. Ronald a levava para passear de carro e a fazia delirar com a velocidade que atingia atrás do volante. Dava-lhe vestidos e jóias, mas fez pouco disso depois que ela foi morar com ele, abandonando sem remorsos a família que formara quase que por acaso com John.

Depois que os filhos vieram, ela sentiu-se tragada pelas profundezas, obrigada a se fixar, e por isso quase morreu de tristeza. John pegou jornada dupla na companhia de construção para que ela pudesse ficar em casa com as crianças e chegava cansado tarde da noite. Também foi por isso que Marina o deixou.

Ronald, ao contrário, tinha o dobro da idade dela, era viúvo, rico, e tinha tempo para aproveitar sua riqueza. Teve muitas outras meninas como Marina, mas somente ela o convenceu a se casar. E casaram numa pequena cerimônia particular arranjada às pressas ao lado de um cassino, amarrando latinhas no para-choques do Cadillac. Marina, no entanto, não o agüentou nem por um mês depois disso, matando-o com três tiros numa estradinha em direção ao lago.

Marina tinha o olhar perdido na mesa da sala de interrogatórios. A arma com cabo de madrepérola, ainda manchada de sangue, repousava sobre a mesa dentro de um saco plástico.

- Ela deve estar em choque. Vou anotar aqui, “crime passional”. – disse o policial mais arredio, cansado de trabalhar sem resultados.

O mais simpático dos polícias era também o mais analítico da dupla, e olhava fixo para as unhas vermelhas nas mãos de Marina que estavam pousadas delicadamente sobre a mesa, ainda não convencido da motivação emocional do crime.

Marina, sem desviar os olhos do horizonte imaginário que perseguia, disse com voz calma:

- Eu não suportava o modo como ele dirigia.

Era com as unhas pintadas de vermelho que ela estava quando fugiu de casa, deixando um bilhete para a mãe.


Baseado na música “From small things (Big things one day come)” do Bruce Springsteen.