2014 em livros

Dois mil e catorze foi o ano em que mais li nos últimos dez anos. Foram 46 livros (e contando). Desde que voltei a ler à sério, em 2010, já passaram pelos meus olhos 118 livros, contabilizando 41.138 páginas segundo o paginômetro do Skoob. Resenho abaixo, em nenhuma ordem especial, as obras que mais me chamaram a atenção neste ano.

The Cyberiad (Stanisław Lem)

cyberiadImagine um livro de contos de fadas em que as histórias são interligadas, quase uma seqüência de episódios. Imagine que, além de ser um livro de contos de fadas a obra seja, ao mesmo tempo, uma ficção científica — hard ou soft?. Este é o Cyberiad, onde os dois personagens principais, os “construtores” Trurl e Klapaucius estão envolvidos em situações absurdas, como construir computadores-poetas, ou uma máquina que capta informações de moléculas gasosas. Publicado originalmente em 1965 pelo escritor polonês Stanisław Lem, este livro foi para mim uma das grandes surpresas de 2014. Diz o Fábio que um dos melhores livros do autor é “Memórias encontradas numa banheira“; vai ser uma das metas de leitura para 2015.

Breakfast of Champions (or: Goodbye Blue Monday) (Kurt Vonnegut)

breakfastQuem me conhece sabe que sou louca por spoilers. São eles que me instigam e me fazem ter interesse por uma história. E Breakfast of Champions começa, em três parágrafos curtos, contando qual será o final do livro. A obra, toda ilustrada por desenhos de canetão feitos pelo próprio autor — com, inclusive, a representação gráfica de um cu — é interessante pela forma em que é narrada: nada aqui é pouco importante, Vonnegut trata cada personagem, cada fato, com uma atenção incrível. Por mais fictícios que sejam os personagens, por vezes você vai ser tão envolvido pelas histórias desses meros coadjuvantes que mal vai se lembrar qual era a trama principal.

Discworld, a série (Terry Pratchett)

discworldEntrei em um vórtice inescapável no TV Tropes. Quando achei que não havia mais esperanças para sair de lá, notei que um nome aparecia com freqüência notável: Terry Pratchett. Saí do Tv Tropes e resolvi dar uma chance, e acabou que descobri uma das melhores série de humor de todos os tempos, o Douglas Adams da Fantasia. Se nada de bom tivesse me acontecido em 2014, o ano já teria valido a pena somente por ter conhecido a série. São, até o momento, 40 livros publicados, e já li um quarto deles. Infelizmente, Pratchett foi diagnosticado com Alzheimer em 2007 e dificilmente poderá dar continuidade ao se trabalho. Uma pena.

The Iron Dream (Norman Spinrad)

irondreamNão consigo me lembrar exatamente como foi que surgiu a vontade de ler este livro, mas é a história alternativa nazista mais louca que eu já li depois de Nazi Literature in The Americas, do Roberto Bolaño — chora, Taranta! Hitler se desentende com o partido e vai embora para os EUA, onde faz carreira como escritor de ficção científica e o Holocausto nunca aconteceu. Seus fãs, no entanto, envergam orgulhosos as fardas da SS nas convenções nerd. Parece absurdo — e é! —, mas não muito distante da realidade: muitos escritores, defendendo absurdos, já foram absolvidos pelos fãs. É uma divertida manifestação literária da Lei de Godwin cheia de homossexualidade reprimida e referências explícitas a falos, aprovada inclusive por neonazistas.

Who Cooked The Last Supper? (Rosalind Miles)

lastsupperÉ fato notório que as mulheres raramente contribuíram para a construção de nossa civilização — e elas deveriam se orgulhar disso! Nesse livro, Rosalind Miles conta como foi que a sociedade se organizava antes do advento do patriarcado, de que modo aconteceu essa transição e que recursos as mulheres usaram para driblar as dificuldades impostas a elas nessa nova organização social. Uma vez que a história de metade do mundo é negada ou posta em segundo plano, ler este livro dá uma real sensação de alívio. As mulheres temos sim uma história, um passado, não somos passivas e temos muita astúcia para sobreviver neste mundo de homens.

A Dialética do Sexo (Shulamith Firestone)

dialeticaQuando achei que mais nenhum livro pudesse ser capaz de me arrebatar em 2014, eis que surge o pedido de uma amiga para transformar um PDF em ePub. Enquanto ia fazendo o cansativo trabalho de transposição, foi me apaixonando pela Shulamith Firestone. Publicado em 1970, quando a autora tinha só 25 anos, engloba uma pá de assuntos sem ser superficial em nenhum deles. Com críticas perspicazes à sociedade, à psiquiatria, à cultura, à maternidade, aos movimentos de esquerda e — pasme! — até mesmo ao design, nada escapa à sua brilhante análise. Não à toa o livro se trata de um marco na teoria feminista: muito do que a autora aborda e critica aplica-se com folga ao século XXI.

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