A humanidade própria das mulheres

Estou lendo a tese do Rodrigo sobre Vieira Pinto e o tema central, de forma bem rasa, é trabalho e educação na interação com o mundo. Em determinado momento, falando sobre trabalho e amanualidade, ele cita Vieira Pinto: “nunca a ação do homem na natureza é individual, solitária e pessoal, mas sempre possui caráter social […] não se trata de uma ação simplesmente localizada no tempo mas de uma ocorrência histórica”. Essa é uma citação de um dos livros que eu mais gosto do Vieira Pinto, Ciência e Existência (1969).

Interessante como os homens se colocam fora da natureza quando falando sobre a sua relação com o meio. Ao mesmo tempo que, teoricamente, quando eles falam em “homem” aqui querem dizer “toda a humanidade”, a humanidade conforme pensada por homens é toda hominificada. O processo de humanização do ser humano é por vezes chamado na obra do Vieira Pinto (e de outros) de “hominização”. “Humano” e “homem” são palavras que possuem o mesmo radical. Na conceituação dos homens, apenas com muito esforço, as mulheres são humanas. Para humanizar as mulheres aos olhos dos homens, elas precisam se “hominizar”: desaparecer com todas as características que as tornam mulheres.

As mulheres, com seus ciclos e processos biológicos tão óbvios e aparentes, são desconcertantes para os tão tecnológicos homens. Os homens agem na natureza de fora para dentro, enquanto as mulheres são a própria natureza feita humana e consciente. Não à toa, as autodenominadas “teorias feministas” mais bem-sucedidas da academia fazem questão de deixar de fora os aspectos ontológicos da existência das mulheres. Tais teorias insistem na cisão entre mente e corpo, cercando o pensamento feminista dentro de um gueto em relação ao “pensamento geral”, de modo que questões que já foram “resolvidas” em outras áreas do conhecimento levam as estudiosas do assunto a viverem de bater cabeça — e a construírem grandes currículos e bibliografias em cima disso.

Uma vez que essas idéias atingiram o mainstream e se posicionaram como “a nova onda do feminismo” a partir dos anos 1990, nenhum debate para além disso é permitido ou levado a sério. O rótulo do “essencialismo” é colocado sobre qualquer tentativa de apontar as ações das mulheres sobre si e sobre seu meio enquanto mulheres, e diferentes dos homens. Se diferenciar dos homens na busca pelo status de humanidade não é permitido — ou é, no mínimo, mal visto. Do feminismo se exige que seja um movimento pela “igualdade”. A “diversidade” só é permitida quando invade e apaga a mulheridade.


Sobre Vieira Pinto, tenho editado alguns trechos da obra dele e publicado no blog Sem Camundongos. Vale dar uma olhada.

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