Ontem, a @larissarainey me mandou o link de uma pesquisa que, de acordo com a notícia, conclui que sexo oral faz bem às mulheres e as deixa mais felizes. Escroto como é, o Page Not Found nunca dá link para suas fontes, ou até mesmo para qualquer site que seja – e talvez isso explique o nome do blog -, o que faz com que incautos e desavisados acreditem no que ali se veicula porque, oras!, se trata de um blog d’O Globo, teoricamente um veículo de imprensa com funcionários capacitados, etc e tal. Como o Page Not Found não dá link pra ninguém, terei uma política de reciprocidade para com ele e não o linkarei também. Aqui quem manda sou eu.
Pois enfim. Fiz uma rápida busca no Google para ver se encontrava o tal estudo e, veja só, encontrei. Segue abaixo o resumo (atenção para as partes em negrito):
In a sample of sexually active college females, condom use, as an indirect measure of the presence of semen in the reproductive tract, was related to scores on the Beck Depression Inventory. Not only were females who were having sex without condoms less depressed, but depressive symptoms and suicide attempts among females who used condoms were proportional to the consistency of condom use. For females who did not use condoms, depression scores went up as the amount of time since their last sexual encounter increased. These data are consistent with the possibility that semen may antagonize depressive symptoms and evidence which shows that the vagina absorbs a number of components of semen that can be detected in the bloodstream within a few hours of administration. [Grifo meu]
Agora vamos para as informações não citadas no resumo, mas que aparecem em notícias relacionadas, como essa do Guardian e essa do Daily Mail. De acordo com essas notícias, a amostra é composta por 293 estudantes universitárias sexualmente ativas, às quais foi aplicado um questionário anônimo, o Beck, que através de 21 questões de múltipla escolha, visa identificar padrões de comportamento depressivo.
Acabou que, com esses dados, o grupo de pesquisadores – que eu descobri googlando o nome de cada um serem da área de psicologia, mais precisamente psicologia evolutiva – chegou à conclusão que mulheres que fazem sexo desprotegido e recebem o sêmem de seus parceiros em seus corpos têm menos chances de serem depressivas ou terem tendências suicidas que mulheres que fazem sexo protegido ou sequer o fazem.
Abaixo, segue um trechinho do texto do Guardian:
Semen is known to contain such “mood-altering chemicals” as estrone and oxytocin, which elevate mood; cortisol, which promotes affection; serotonin, which acts as an antidepressant; and melatonin, which induces sleep.
Voltemos ao resumo: de acordo com ele, os pesquisadores fizeram uma “medição indireta” da presença de esperma no sistema reprodutivo da amostra, o que basicamente significa que, a partir da informação de que essas mulheres não usam camisinha, eles concluíram que elas necessariamente deixam seus parceiros gozarem dentro. Logo, se elas são mais felizes que as moças que fazem sexo seguro, é porque o sêmem que o corpo delas absorve faz isso por elas.
Outra informação importante: nas notícias disponíveis e no resumo aberto ao público (o estudo em si é restrito aos assinantes da publicação) não há qualquer informação a respeito da orientação sexual dessas mulheres, ou da situação em que elas se encontram em seus relacionamentos amorosos. Apenas ficamos sabendo que elas são sexualmente ativas, mas nada deixa claro se estavam em relações estáveis ou não, o que pode ser decisivo na conclusão do estudo. Se eles partem do pressuposto de que a química presente no esperma é absorvida pela vagina dessas mulheres e desconsideram a gerada pelo cérebro, como é o caso de todas as substâncias citadas ali no trechinho do Guardian – que podem ser geradas, seja numa relação estável, seja numa casual, protegida ou não, envolvendo um pênis de carne ou um de borracha, ou mesmo nenhum pênis -, tem alguma coisa errada.
É claro que eles não deixam de fazer o dever de casa. No finalzinho do resumo, ainda que não deixem bem claro que se trate de uma possibilidade não verificada por eles no presente estudo, eles avisam que é possível medir esses componentes presentes no esperma humano através de um exame de sangue.
Eu não sei se é impressão da minha feminazi interior, mas me parece que esse estudo tenta provar que relacionamentos estáveis são melhores para as mulheres que a promiscuidade, e ainda finge que outras orientações sexuais não existem. Isso tudo baseado em argumentos muito distorcidos, construídos sobre dados bastante limitados pelo tamanho da amostra e pelo tipo de pesquisa que foi conduzido. Se se reconhecessem verdadeiramente as limitações do estudo, e suas conclusões não dessem um salto lógico completamente desnecessário, não haveria nada de errado com ele.
A pergunta que não quer calar: como foi que o Page Not Found concluiu que o que faz bem às mulheres é o sexo oral?
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P.S.: o amigolino Marcus do Grande Abóbora me enviou o artigo completo. Logo mais posto aqui a respeito, como complemento e até mesmo errata. Mas o que penso em geral a respeito do estudo não mudou nem um pouco.