Faz muito tempo resolvi que precisava escrever a respeito do método que ando usando para produzir alguns de meus textos, principalmente os mais “sérios” e acadêmicos. Mas sentia que precisava também expressar minha percepção a respeito do processo de escrever e do que significa escrever hoje.

As palavras sempre foram minha paixão, em todas as suas formas e manifestações. Não foi através do desenho, mas da caligrafia que afinei minha coordenação motora fina. Tipografia foi — junto com Projeto Editorial e Design da Informação — minha disciplina favorita na faculdade de Design Gráfico. Através da web, pude dar vida a alguns projetos literalmente usando palavras escritas para fazer as coisas acontecerem, quase um tipo de mágica. Transmitir e abstrair informações em símbolos gráficos é uma das coisas que mais gostei de fazer profissionalmente, e sempre lembro com saudade de alguns dos projetos em que trabalhei na Gazeta do Povo [1], lamentando somente não ter tido na época a saúde mental necessária para aguentar aquele tranco. Lidar com palavras é o meu ofício. Minha mídia, de uma forma ou de outra, é mesmo o texto.

Quando descobri a existência do markdown [2], achei a coisa mais sensacional dos últimos tempos em termos de padrão e linguagem aberta. O markdown é um conjunto de convenções que formatam texto, e a coisa fica humanamente legível, editável e simples até mesmo quando em texto puro, quando o conteúdo não se adapta a algum tipo de formatação que aplique suas marcações.

Markdown é o que o HTML quer ser quando crescer

Junte-se a isso a Motorola ter liberado uma atualização que permite dividir a tela e usar dois softwares ao mesmo tempo [3], três se você incluir o teclado — e, de repente, notei que todas as dificuldades que eu tinha para escrever haviam sido removidas. Podia treinar a escrita e estudar idiomas traduzindo textos que lia em uma janela e escrevia em outra, no meu celular, na palma da minha mão, em qualquer lugar em que eu estivesse. Minha antiga-atual-futura ocupação e meus interesses de pesquisa exigem a habilidade de escrever, eu não tinha mais desculpas para não produzir.

É possível que o Google escute cada uma das palavras que eu diga ao escrever ditando texto com a ferramenta de transcrição e microfone do celular, mas isso é uma discussão para outro texto — e me lembra que basicamente tudo o que escrevo, o faço usando algum software Google ou Apple. Mas é muito mais fácil, conveniente e ágil que o método anterior (carregar por aí um teclado bluetooth ou mesmo escrever no papel), não apenas pela questão do hardware (o tecladinho até que é bem confortável), mas porque me debatia demais com o próprio processo de escrever (a digitação acabou melhorando muito depois que fui trabalhar como dev). Ao mesmo tempo, esse processo me fazia perder raciocínios importantes por não ter um registro imediato do que me passava pela cabeça, e também por depender de um equipamento a ser usado em conjunto com celular.

A pontuação ainda é algo que se faz manualmente nesse método

Já escrevi textos bastante grandes usando somente o teclado do Android no modo em que se desenham as palavras sobre ele, em vez de digitar letra a letra. Mas qualquer um que tenha usado um SwiftKey da vida pode imaginar que não parece muito produtivo escrever textos acima dos três mil caracteres usando essas ferramentas. Ditar palavras no microfone integrado do teclado do Android torna escrever muito mais fácil e rápido que até mesmo os digitadores mais ágeis. O microfone capta palavras bem o suficiente até quando há som ambiente, gente conversando ou TV ligada em volta. Com fones de ouvido, ou mesmo sem eles, é possível registrar pensamentos em forma de palavras confortavelmente em qualquer lugar em que seja possível usar um telefone celular, ninguém vai te chamar de maluco [4], e nem precisa falar alto para ser compreendido.

Obviamente que entender plenamente o que dizemos ainda é um problema dessa ferramenta, mas tenho feito experiências interessantes. Ainda que por vezes eu me sinta a própria Larissa do 90 day fiancé, até o meu inglês ruim ele entende — se conseguir pronunciar direitinho, claro. O interessante é que, ao mesmo tempo em que consigo fazer meus fichamentos, posso transcrever uma citação em inglês concomitante ao treino da pronúncia do idioma [5]. Algumas vezes ele se confunde, porque há três idiomas configurados em meu teclado, e muitas das interpretações de minha fala são bastante engraçadas. No entanto, se se falar de forma bem articulada, ainda que numa velocidade rápida, é bem possível que ele entenda quase tudo bem certinho. E aí só falta pontuar e marcar ênfases, links e títulos com markdown, coisa que costumo fazer a cada frase completa.

— Para quê?
— ¡Paraguayo!

Ainda escrevo com caneta e papel em alguns contextos específicos, mas o faço principalmente nas escrituras mais pessoais ou mais artísticas. A caligrafia e a escrita à mão ainda são uma forma de expressão importantes para mim, mas dependem de um certo estado de espírito. E, mais importante, elas não necessariamente possuem a agilidade que o tipo de escrita e registro que quero desenvolver exige.

O texto escrito adquiriu formas, funções e se desenvolveu em gêneros os mais variados ao longo de sua história. Os limites da sua materialidade servem também para lhe caracterizar diretamente dentro de sua própria produção. No caso dos meus textos, não é que eles tenham aumentado em tamanho e densidade depois que comecei a usar essa técnica, mas produzir textos com densidade e complexidade tem se tornado muito mais fácil e factível. Além disso, editar conteúdo me parece hoje muito mais prazeiroso, mesmo quando envolve ter que usar um computador propriamente dito. Quando escrever envolvia me sentar diante de uma máquina em uma cadeira dura, catando milho ainda que no teclado mais confortável de que tenho notícia e/ou dependia da saúde dos músculos de minha mão direita — sofrida com o uso do mouse —, qualquer preguicinha era uma boa desculpa para não escrever. Agora, é mais uma promessa de ano novo que cumpro sem exatamente ter perseguido diretamente a meta.

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Futuramente, pretendo escrever sobre design editorial para web, mais especificamente o percurso de desenvolvimento do formato de blogazine — os amigos-leitores mais antigos desse blog vão se lembrar — para os editores de conteúdo rico como o editor do Medium e o Gutenberg, agora plenamente integrado ao WordPress.


Notas

[1] Sim, aquela Gazeta do Povo.

[2] Sobre markdown, na Wikipédia se diz que é uma linguagem que converte facilmente para HTML, mas a verdade é que com o uso de expressões regulares, dá para converter em qualquer formato. O novo editor de texto do WordPress está plenamente adaptado ao uso de markdown, mas é bom escrever diretamente em um editor de texto puro ou copiar sem formatação para ele entender e aplicar a marcação como formatação, e não a formatação do editor como formatação.

[3] A empolgação de quem acompanhou o lançamento das interfaces gráficas com janelas deve ter sido semelhante.

[4] Pode acreditar, já tentei sair por aí com um caderninho a postos para escrever qualquer coisa que me desse na telha a hora que eu bem quisesse, e sempre tinha alguém para me olhar estranho.

[5] Isso é que é eficiência no aprendizado, mermão. Melhor que isso, só chupando cana e assoviando ao mesmo tempo.

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