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	<title>Megalopolis</title>
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	<description>O Primeiro Blogazine Brasileiro do Universo</description>
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		<title>Sexo de Verdade</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Aug 2011 19:42:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabiane Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[mundo estranho]]></category>
		<category><![CDATA[sexo]]></category>

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		<description><![CDATA[Nos anos 90, descobriu-se que o então presidente dos EUA, Bill Clinton, tinha se envolvido com uma estagiária da Casa Branca. Correndo o risco de sofrer um impeachment, Clinton alegou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="texto">
<p class="p01">Nos anos 90, descobriu-se que o então presidente dos EUA, Bill Clinton, tinha se envolvido com uma estagiária da Casa Branca. Correndo o risco de sofrer um impeachment, Clinton alegou que ele e Monica Lewinski não chegaram de fato a fazerem sexo, e que ela tinha feito apenas um bola gato no membro presidencial. Oral não tem <strong>aquilo naquilo</strong>, então nem chega a ser <em>sexo de verdade</em>, né?</p>
<p class="p02">Mais de uma década mais tarde e aquele escândalo, que era apenas um drama pessoal e que virou caso de polícia (porque num país cristão como os EUA &#8211; e também no Brasil -, o que passa pela virilha de alguém serve de atestado de idoneidade), modificou a mentalidade do americano. Se o presidente alegou que sexo oral não é sexo e conseguiu se safar com isso, então é porque não é. É apenas mais uma daquelas coisas que se fazem antes do <em>sexo de verdade</em>, e que geralmente os homens não prestam muita atenção.</p>
<p class="p03">Isso me faz lembrar da época quando, para manter sua honra e seu hímen intactos, as moçoilas ofereciam seus honrosos cus aos namorados. Assim poderiam desfrutar do melhor de dois mundos, guardando-se até o fatídico dia em que seu escolhido lhe romperia o lacre e a mancha nos lençóis seria a prova da pureza. Coitadas das garotas que, como eu, não sangraram em suas primeiras vezes! Mas divago.</p>
<p class="p04">Outra história interessante sobre isso, desta vez em solo brasileiro: até agosto de 2009, estupro de homens não era algo que existia segundo o Código Penal. Logo, não era também considerado crime hediondo. Estupro mesmo, de acordo com a letra da lei, era:</p>
<blockquote><p>Constranger <strong>mulher</strong> à conjunção carnal, mediante violência ou grave ameaça.</p></blockquote>
<p>Sacou a sutil brecha na lei antiga? Essencialmente, deveria haver uma vagina no meio. Assim, se alguém estuprasse analmente um homem ou uma mulher, não haveria crime hediondo e o sujeito poderia se safar especificamente disso, uma vez que sexo mesmo, a conjunção carnal daquilo naquilo, não tinha de fato acontecido. Quase a mesma desculpa do ex-presidente americano.</p>
<hr />
<p>Há relativamente pouco tempo, me descobri bissexual. Claro que durante a minha vida haviam indícios disso, mas por conta da minha educação extremamente rigorosa (leia-se: protestante), eu afastava esses pensamentos pecaminosos e respostas do sistema límbico e nervoso, de modo que mesmo depois de estar fora desse lodo pegajoso conhecido como Cristianismo, eu ainda não tinha admitido isso para mim mesma.</p>
<p>Conforme fui me descobrindo &#8211; e grande parte desse mérito é do <a href="http://twitter.com/naftali">@naftali</a> &#8211; logo me vi reformulando todos os meus conceitos a respeito de relacionamentos, fidelidade, amor e sexo. E então me vi fazendo perguntas como:</p>
<blockquote><p>- O sexo lésbico é um <em>never ending foreplay</em>?</p>
<p>- Sexo oral é sexo?</p>
<p>- Uma simples pegação que é mais quente que um sexo meia boca pode ser classificado como sexo?</p>
<p>- Se você passar a noite simplesmente dedando e lambendo uma menina, você fez sexo com ela ou não?</p>
<p>- Se existem tantos graus de sexo, como fazer as contas de com quantas pessoas você realmente fez sexo?</p></blockquote>
<p>Enquanto me fazia essas perguntas e compartilhava isso com o povo do Twitter, uma outra grande questão me surgiu na cabeça, mais retórica do que uma dúvida propriamente dita:</p>
<p><img src="http://fabianelima.com/blog/wp-content/uploads/07082011-b.png">
</div>
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		<title>Minicontos</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Mar 2011 05:49:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabiane Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[ficção]]></category>
		<category><![CDATA[minicontos]]></category>

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		<description><![CDATA[- Hoje não. - Mas eu não quero nada. Só ficar assim com você. Ela retribuiu o abraço e deixou-se envolver pelo calor do corpo dele. Mas ao tocá-lo no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="mini1">
<p>- Hoje não.</p>
<p>- Mas eu não quero nada. Só ficar assim com você.</p>
<p>Ela retribuiu o abraço e deixou-se envolver pelo calor do corpo dele. Mas ao tocá-lo no pescoço, percebeu que seu pulso estava acelerado. Sua respiração era irregular e denunciava a alteração em seu estado de espírito. Ela notou todos estes sinais vitais descompassados aparentemente sem nenhum motivo, mas não perguntou nada.</p>
</p></div>
<div class="mini2">
<p>Sentada sozinha em uma mesa em meio à praça de alimentação lotada, ela esperava ansiosa. Pensou em ligar, mas não era sua intenção deixar transparecer o nervosismo.</p>
<p>Olhou no relógio do celular pela oitava vez desde que sentou-se ali: ele estava vinte minutos atrasado.</p>
<p>- Ele não vem.</p>
<p>Mal acabou de pronunciar estas palavras, o telefone vibrou em suas mãos com um estardalhaço.</p>
</p></div>
<div class="mini3">
<p>Ela suspirou. &#8220;Insônia. De novo&#8221;, pensou. Ele roncava ao lado dela, dormindo o sono de quem trabalhou o dia todo e agora buscava a recompensa nos braços de Morfeu.</p>
<p>Ela deu as costas àquela expressão cansada dele sentindo-se culpada. Não conseguia dormir devido a problemas seus com os quais não conseguia lidar e que ele lidava melhor que ela. Mas as palavras de conforto dele dizendo que estava ao seu lado pro que desse e viesse só a faziam sentir-se pior, ainda que amada.</p>
<p>Do outro lado do mundo, uma usina atômica colapsava e seus resíduos atingiam a atmosfera. Em pouco tempo, a camada que envolvia o planeta estaria acabada e os problemas de nossa insone protagonista também.</p>
</p></div>
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		<title>Rara Dolor</title>
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		<pubDate>Sat, 12 Mar 2011 01:35:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabiane Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[designer meia boca]]></category>
		<category><![CDATA[tipografia]]></category>

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		<title>A Travessia</title>
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		<pubDate>Thu, 10 Mar 2011 20:22:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabiane Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[além-vida]]></category>
		<category><![CDATA[ficção]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>

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		<description><![CDATA[Depois de uma existência longa e feliz, Jorge finalmente fez a travessia. Sua essência deixou seu velho e cansado corpo e, após uma morte tranqüila, ele sentiu-se flutuar sobre seu [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="cover"></div>
<div class="texto">
<p>Depois de uma existência longa e feliz, Jorge finalmente fez a travessia. Sua essência deixou seu velho e cansado corpo e, após uma morte tranqüila, ele sentiu-se flutuar sobre seu próprio quarto.</p>
<p>Sua esposa segurava a mão direita de seu corpo terrestre, inconsolável. Ele tentou dizer a ela que não chorasse porque tudo estava bem, mas não pôde: não possuía mais uma boca, muito menos cordas vocais. Era apenas espírito, disforme porém consciente de si mesmo, conduzido por uma força invisível para longe de tudo o que conhecia, para além daquela vida na Terra, para o além-vida.</p>
<p>Ele não saberia dizer quanto tempo levou até ser envolvido por uma nova força, ser revirado, revolvido e remodelado em um novo corpo, mas uma vaga noção de tempo o fez crer que esse processo não durou muito. Logo ele estava diante de um grande homem de barbas longas e túnica comprida. Apalpou-se, curioso com sua nova forma, e percebeu que estava em seu próprio corpo, vários anos mais jovem do que quando deixou a vida terrena. Olhou em volta e não viu mais nada a não ser o homem barbudo, que disse-lhe:</p>
<p>- Pelo visto você já percebeu o que te aconteceu, certo?</p>
<p>Um tanto inseguro, Jorge deu um passo em direção ao homem.</p>
<p>- Eu morri, velho e farto de dias. Você é Deus? Onde estamos? No Céu? Ou não?</p>
<p>O homem deu um longo e entediado suspiro antes de esclarecer as dúvidas do recém-chegado. Jorge achou que ele fosse um tipo de guia na transição para o Mundo dos Mortos, Paraíso ou seja lá o que fosse. Era cristão e acreditava no pós-vida que sua religião pregava, mas nesse momento temia que tivesse feito a escolha errada. Um rolo apareceu nas mãos do barbudo, que ele abriu e começou a ler, tão entediado quanto tinha sido seu suspiro.</p>
<p>- &#8220;Você acaba de passar a fronteira entre a Vida e a Morte. Uma vez do lado de cá, não há mais retorno. A sua forma atual serve apenas para que você compreenda melhor este momento, uma vez que está habituado a possuir um corpo&#8221;, blá blá blá. &#8211; ele fechou o rolo e estendeu a mão para Jorge. &#8211; Muito prazer, eu sou o Porteiro Celestial. Vou verificar seus registros, ver onde ficará, e depois disso você retornará à forma espiritual. Entendido?</p>
<p>- Claro, claro. &#8211; respondeu Jorge balançando afirmativamente sua cabeça temporária.</p>
<p>Um pequeno dispositivo eletrônico surgiu nas mãos do Porteiro Celestial e, após alguns toques, ele exibiu um sorriso de satisfação. Havia encontrado os registros de Jorge. Uma impressora apareceu e cuspiu algumas folhas que foram em seguida recolhidas pelo Porteiro e depois, tanto o dispositivo quanto a impressora desapareceram tão inexplicavelmente quanto surgiram.</p>
<p>- Adoro essas coisas que vocês inventam e tento copiar para deixar a experiência mais familiar, mas esse negócio de ler em tela não me desce. Enfim, vamos lá. Vejamos, nascido em meados do século vinte, bom filho, estudioso, tímido, fiel, bondoso&#8230; É, garoto, parece que a eternidade vai ser boa pra você!</p>
<p>O Porteiro separou a primeira folha e colocou-a por trás das demais, continuando a leitura. Após uma análise silenciosa, ele coçou a barba e franziu o cenho, preocupado.</p>
<p>- Você sabe que a Palavra Divina sofreu uma série de adaptações, cortes e adições ao longo da história humana, correto?</p>
<p>O pseudo-coração de Jorge alterou seu ritmo e ele sentiu um nó na garganta. Estímulos emulados apenas para que ele entendesse a situação, pensou pouco antes de responder, gaguejando.</p>
<p>- Si-sim. Bem, eu nunca me aprofundei nisso de verdade, mas sei que houveram vários concílios para decidir o que iria para a versão final, e que até hoje &#8211; e com &#8220;hoje&#8221; ele queria dizer a data de sua morte &#8211; não há um consenso, mas acredito que o essencial permaneceu e&#8230;</p>
<p>- Escute, garoto. &#8211; o Porteiro Celestial tinha uma expressão séria ao dizer isso. &#8211; Ao longo do tempo, o Altíssimo percebeu que vocês não entendiam o que ele queria dizer e foi mudando as coisas. Não sou ninguém pra julgar as atitudes do Soberano, sabe, mas sei lá, acho que usar intercessores humanos não foi uma boa idéia. Por causa disso, acabou indo Ele mesmo tentar arrumar as coisas. </p>
<p>Jorge temia por sua alma. </p>
<p>- Mas se as pessoas entendiam errado, a culpa não necessariamente era delas, certo?</p>
<p>- Sim, claro! E por isso a cada nova atualização o Todo Poderoso decidia que era salvo quem interpretasse Suas palavras corretamente a partir daquela data. &#8220;Data&#8221; na noção terrestre, lógico. </p>
<p>Jorge respirou aliviado com seus pulmões novos em folha. Até onde sabia, tinha sido educado na versão mais recente da Palavra da Verdade. Tinha sido uma boa pessoa em vida, doava dinheiro para os mais necessitados, era carinhoso com os filhos e esposo dedicado. Estava feliz de poder passar a eternidade ao lado de Deus.</p>
<p>- Legal! E quando vou conhecer o Príncipe da Paz?</p>
<p>O Porteiro Celestial manteve um ar preocupado. Olhou para as folhas que ainda segurava nas mãos antes de prosseguir.</p>
<p>- É&#8230; Tem um problema.</p>
<p>- Problema?</p>
<p>- Sim.</p>
<p>- Que problema? &#8211; As pupilas de Jorge se dilataram e o coração voltou a dar sinais de que alguma coisa estava errada.</p>
<p>- Você não está na edição mais recente do Evangelho.</p>
<p>- Mas&#8230;</p>
<p>- Deus liberou uma nova edição há poucos anos, mas infelizmente a maioria das pessoas interpretou como loucura. Você recebeu em mãos um folheto a respeito em julho de 1987, mas achou bobagem e o atirou ao lixo.</p>
<p>Jorge sentiu-se desabar. Caiu de joelhos e, em prantos, mal podia dizer qualquer coisa. O homem barbudo ficou sem ação, incomodado com a situação um tanto constrangedora. Tentou colocar suas grandes mãos sobre a cabeça do recém-chegado à sua frente, imitando o gesto humano de consolo, mas sem sucesso. Enfim, abaixou-se para ficar na mesma altura que Jorge e disse:</p>
<p>- Olha, eu não faço as regras porque isso é serviço do Criador dos Céus e da Terra, mas eu simpatizei com você, garoto. Vou te levar para um lugar onde você poderá tomar conhecimento da edição mais recente. &#8211; Nesse momento, Jorge levantou os olhos e parecia mais calmo. &#8211; Venho fazendo isso desde o lançamento do Novíssimo Testamento com pessoas boas porém desinformadas como você neste período de transição, mas o Pai da Eternidade me falou para não dar mole. </p>
<p>O Porteiro Celestial ajudou Jorge a levantar e se recompor, oferecendo-lhe a manga da própria túnica para que enxugasse os olhos. Jorge assoou o nariz nela e logo estava pronto para o que viesse. </p>
<p>Em questão de segundos (na concepção humana, claro), Jorge tinha à sua frente um pedestal com um grande livro de capa de couro aberto. Atrás do pedestal, havia uma pequena estante com todos os livros escritos pelos humanos a respeito do Novo Evangelho, com estudos e interpretações feitos até o momento, aprovados pelo próprio Pai Celestial. Ao todo, eram quinze. Jorge segurou o livro de capa de couro nas mãos. Estava emocionado por tê-lo em mãos e ao mesmo tempo arrependido de ter atirado à lixeira o panfleto recebido naquele fatídico dia em fins dos anos oitenta do vigésimo século da era moderna. Sentou-se ao chão com o livro e pôs-se a ler, enquanto o Porteiro o observava.</p>
<p>- Leve o tempo que precisar, garoto. Aqui não temos essa noção humana.</p>
<p>Quando Jorge finalmente chegou à última página, mal podia acreditar no que acabara de ler. Estava em choque. O Porteiro estava ansioso para saber o que ele tinha achado do livro e quase arrancava a longa barba ao puxá-la, entre preocupado e satisfeito por ter tentado ajudar mais uma boa alma a escapar do lago de fogo e enxofre.</p>
<p>- O que achou, garoto? &#8211; pergutou o Porteiro, com alguns fiapos de barba nas mãos.</p>
<p>- Uma batata?</p>
<p>- A Batata. A Grande Batata Búlgara, olha o respeito!</p>
<p>- Mas por quê?</p>
<p>Ambos estavam assentados em uma pequena mesa, tomando qualquer coisa quente em grandes canecas de porcelana. Uma bela garota de avental branco serviu-lhes bolinhos, mas Jorge nem a olhou. Não tinha necessidades humanas ou libido, aquele cenário servia apenas para tentar confortá-lo. Ainda estava abalado. O Porteiro Celestial tentava esclarecer as coisas.</p>
<p>- Quando o Pai Amado percebeu que vocês eram tapados demais &#8211; o Porteiro balbuciou um &#8220;desculpe&#8221; sem jeito, depois da última frase incompleta. -, digo, que você não tinham, assim, como posso dizer?&#8230; Uma compreensão do todo e da complexidade da beleza do universo que Ele criou para vocês habitarem, decidiu que era melhor simplificar as coisas tanto quanto fosse possível. Eu e alguns santos tentamos advertir o Velho de que isso poderia dar problema, mas Ele foi irredutível. E sabe como é, todas essas eras administrando tudo isso, quem éramos nós pra querer saber de alguma coisa mais que o Mestre, né? </p>
<p>Jorge sorvia o conteúdo da caneca. Era doce, mas de um doce delicioso que ele jamais imaginara provar em sua existência terrena ou em qualquer outra existência possível. Mas ignorava aquele sabor divino e tinha o olhar perdido nas fibras da mesa de madeira.</p>
<p>- Mas&#8230; uma batata?</p>
<p>- A Grande Batata Búlgara. &#8211; corrigiu-o o Porteiro.</p>
<p>- Isso. A Grande Batata Búlgara. Por quê?</p>
<p>O Porteiro Celestial bebeu mais um gole da caneca e prosseguiu na explicação.</p>
<p>- Como eu estava dizendo, o Maravilhoso achou melhor que vocês concentrassem suas adorações em algo mais fácil de imaginar. Ele achou que um ser que sabe de tudo, está em tudo e pode fazer tudo era muita coisa para a cabecinha de vocês lidar e achou que uma batata mágica&#8230;</p>
<p>- A Grande Batata Búlgara. &#8211; corrigiu-o Jorge.</p>
<p>- Isso, a Grande Batata Búlgara. Ele achou que a Grande Batata Búlgara era um conceito menos abstrato e mais fácil de ser entendido por vocês.</p>
<p>- E está sendo bem entendido?</p>
<p>O aparelinho onde o Porteiro consultou os arquivos de Jorge apareceu novamente em suas mãos. Ele tocou algumas vezes na tela e continuou:</p>
<p>- Segundo as últimas pesquisas, o Novíssimo Testamento está se saindo relativamente bem. Não tão bem quanto o anterior, mas pelo menos não temos mais tanta gente vindo parar aqui depois de ter sido devorada por leões ou queimada em postes por imperadores loucos, né? &#8211; Ele deu uma risadinha para quebrar o gelo. &#8211; Mas sempre tivemos esses incrédulos que achavam tudo uma loucura no começo. É normal, eu acho. Com o passar dos séculos, logo o pessoal se acostuma. Que Javé me perdoe pelo que vou dizer agora, mas quer loucura maior que aquela coisa toda de matar carneiros e fazer churrasco pro Senhor dos Exércitos?</p>
<p>- É, acho que você tem razão. &#8211; concordou Jorge, já mais calmo.</p>
<p>- Bom, então acho que você está pronto.</p>
<p>- Com certeza!</p>
<p>Sorridente, o Porteiro Celestial conduziu Jorge pelos portões do Paraíso e ele então adentrou à Morada Divina, onde passaria a eternidade. Seu corpo se desfez e seu espírito flutuou calmamente até o altar onde ele e as demais almas salvas ao longo dos séculos louvariam o Eu Sou Quem Sou, que no momento tinha a forma de uma batata gorducha e repousava dentro de uma redoma brilhante.</p>
</div>
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		<title>Marina</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Mar 2011 21:24:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabiane Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[assassinato]]></category>
		<category><![CDATA[ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[Os dois policiais interrogavam Marina. Um deles, o mais simpático, andava de um lado para outro tentando ligar as pontas do nada de informações de que dispunham sobre o assassinato [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<link  href="http://fonts.googleapis.com/css?family=Lobster:regular" rel="stylesheet" type="text/css" >
<p class="first">Os dois policiais interrogavam Marina. Um deles, o mais simpático, andava de um lado para outro tentando ligar as pontas do nada de informações de que dispunham sobre o assassinato para preencher os relatórios que ambos deveriam entregar ao fim do dia. O outro, mais dado a acessos de raiva e impaciente, estava sentado à mesa encarando a moça. Não conseguira extrair nada dela.</p>
<p>- Conte-nos, Marina. Por que motivo atirou no seu marido?</p>
<p>Ela permaneceu no mesmo silêncio em que estava nas últimas duas horas, desde que fora presa ainda empunhando o revólver de cabo de madrepérola. Dos três tiros, um acertou o ombro, outro o abdômen, mas um deles foi certeiro no coração da vítima, tornando cruelmente literal o que John havia descrito em palavras na última briga que ele e Marina tiveram. Ela destruía corações.</p>
<p>John não sabia o que fazer com as mãos. Tinha as pernas trêmulas e esbarrava com freqüência nos móveis enquanto caminhava de um lado a outro, tentando conter o nervosismo e não acordar as crianças. Marina estava há horas trancada no quarto, e quando saiu, tinha as malas feitas.<br />
- Marina, não vai se despedir dos nossos filhos?</p>
<p>John pediu-lhe que ficasse. Pelas crianças. Ela estava decidida e caminhou em passos firmes em direção à porta da rua. Não se deixou abalar nem colocou óculos escuros; não havia o que disfarçar, Marina estava feliz em abandonar aquela vida simples e pobre.</p>
<p>O belo Cadillac a esperava na porta e a levou para uma bonita casa do outro lado da cidade, pra bem longe de seus primeiros anos fora da casa dos pais, quando fugiu aos dezesseis. Abandonou a escola e tomou um ônibus em direção a outro estado. Tornou-se garçonete e amante do dono do estabelecimento, até que John entrou pela porta da lanchonete fazendo-a mudar os planos.</p>
<p>Marina era jovem mas sempre teve os homens que quis. Mudou novamente os planos por Ronald, que deu-lhe luxos que ela jamais imaginaria com John, e foi por isso que ela o trocou por este. Ronald a levava para passear de carro e a fazia delirar com a velocidade que atingia atrás do volante. Dava-lhe vestidos e jóias, mas fez pouco disso depois que ela foi morar com ele, abandonando sem remorsos a família que formara quase que por acaso com John.</p>
<p>Depois que os filhos vieram, ela sentiu-se tragada pelas profundezas, obrigada a se fixar, e por isso quase morreu de tristeza. John pegou jornada dupla na companhia de construção para que ela pudesse ficar em casa com as crianças e chegava cansado tarde da noite. Também foi por isso que Marina o deixou.</p>
<p>Ronald, ao contrário, tinha o dobro da idade dela, era viúvo, rico, e tinha tempo para aproveitar sua riqueza. Teve muitas outras meninas como Marina, mas somente ela o convenceu a se casar. E casaram numa pequena cerimônia particular arranjada às pressas ao lado de um cassino, amarrando latinhas no para-choques do Cadillac. Marina, no entanto, não o agüentou nem por um mês depois disso, matando-o com três tiros numa estradinha em direção ao lago.</p>
<p>Marina tinha o olhar perdido na mesa da sala de interrogatórios. A arma com cabo de madrepérola, ainda manchada de sangue, repousava sobre a mesa dentro de um saco plástico. </p>
<p>- Ela deve estar em choque. Vou anotar aqui, &#8220;crime passional&#8221;. &#8211; disse o policial mais arredio, cansado de trabalhar sem resultados.</p>
<p>O mais simpático dos polícias era também o mais analítico da dupla, e olhava fixo para as unhas vermelhas nas mãos de Marina que estavam pousadas delicadamente sobre a mesa, ainda não convencido da motivação emocional do crime.</p>
<p>Marina, sem desviar os olhos do horizonte imaginário que perseguia, disse com voz calma:</p>
<p>- Eu não suportava o modo como ele dirigia.</p>
<p>Era com as unhas pintadas de vermelho que ela estava quando fugiu de casa, deixando um bilhete para a mãe.</p>
<p class="last">Baseado na música &#8220;<a href="http://www.brucespringsteen.net/songs/FromSmallThings.html">From small things (Big things one day come)</a>&#8221; do Bruce Springsteen.</p>
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		<item>
		<title>Mulheres de 50</title>
		<link>http://fabianelima.com/blog/mulheres-de-50/</link>
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		<pubDate>Tue, 22 Feb 2011 17:20:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabiane Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[ficção]]></category>
		<category><![CDATA[homossexualidade]]></category>

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		<description><![CDATA[Era 1956. Naquela época, os namoros eram diferentes. No sofá de três lugares, a moça em uma ponta, o namorado em outra, a mãe dela servindo bolinhos e o pai [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="top">
<div class="titulo">
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<p>Era 1956. Naquela época, os namoros eram diferentes. No sofá de três lugares, a moça em uma ponta, o namorado em outra, a mãe dela servindo bolinhos e o pai estrategicamente posicionado em uma poltrona próxima, no intuito único de causar o maior constrangimento possível ao casal, zelando pela reputação da filha e evitando que ela contraísse matrimônio com alguém que ele julgasse inapropriado. A moça era eu. O rapaz, Mauro.</p>
<p>Conheci Mauro por acaso, arranjei compromisso com ele por tédio. Às vésperas de eu completar dezessete anos, ele me acompanhava do colégio até em casa e me importunou até que aceitei. Acabou convencendo meu pai de que era um bom sujeito. Sempre bem vestido, era endinheirado, filho de algum político do interior. Mas eu não gostava dele de modo algum e, quando em minha casa, ele passava mais tempo conversando com meu pai do que comigo.</p>
<p>Uma vez, já tarde da noite, levantei-me para tomar um copo de água na cozinha. Passando pela sala, escutei meus pais conversando baixinho. Minha mãe estava indignada.</p>
<p>– &#8230;são os boatos que ouço por aí. Esse Mauro fica saindo com garotas, trazendo desgraça para o nome da família delas. Algumas até colegas de escola da nossa menina! Sabe Deus o que faziam naquele carro altas horas da madrugada. Você faz vistas grossas por ele ser filho de gente importante!</p>
<p>Ela andava de um lado para o outro, alisando nervosamente o robe de seda cor-de-rosa, bufando. Meu pai descansava tranquilo em sua poltrona, lendo e fumando cachimbo, parecia que nem a ouvia.</p>
<p>– Aquela Lourdes! Eu sabia que ela não era flor que se cheirasse. Aquela menina sempre foi&#8230; foi&#8230;</p>
<p>– Acalme-se. &#8211; Papai interrompeu. &#8211; O importante é que nossa filha tem juízo. E de qualquer modo, Mauro está certo: um homem tem que satisfazer suas necessidades de homem.</p>
<p>Ante o olhar horrorizado da esposa, meu pai apenas se levantou em silêncio, dando por encerrado o assunto e deixando clara sua opinião.</p>
<p>Eu corri para meu quarto, confusa. O homem com quem eu tinha um compromisso sério se divertia sem mim com amigas minhas mais pobres e menos preocupadas com o que iriam pensar delas, e eu, uma recatada moça de família, deveria me manter pura para ele. Eu, uma quase-mulher, devia recriminar-me e punir-me pelos desejos que sentia, por não ser o que os outros esperavam de mim, e ele, por ser homem, poderia fazer o que quisesse com quem bem entendesse. Não era nem próximo de justo!</p>
<p>Estávamos, porém, em 1956. Eu tinha dezessete anos, aceitava a contragosto mas sem reclamar o papel de futura dona de casa pudica dedicada ao marido e sem direitos sobre meu próprio corpo. Era filha de minha época e achava que apesar de não gostar disso, era um fato da vida, meu fardo por ter nascido do sexo frágil. Mas como disse, eu já tinha desabrochado como mulher. Não entendia direito o que meu corpo pedia, explorava-o com medo e culpa, e me frustrava pensando que a responsável por isso era eu mesma. Como eu ousava não me encaixar no padrão que todo mundo aparentemente seguia direitinho?</p>
<p>Naquela noite, tive uma revelação. Deitei na cama confusa e levantei decidida a não tentar me encaixar nesse modelo que, de qualquer forma, eu não queria seguir e certamente seria infeliz se tentasse. As consequências dessa insubordinação, fossem quais fossem, eu iria encarar de cabeça erguida. E no dia seguinte, procurei por Lourdes.</p>
<p>Dois anos mais velha que eu, ela era uma bela garota ruiva de lábios pintados de vermelho que trabalhava de balconista em uma farmácia próxima de minha casa. Filha de um antigo casal de empregados do meu pai, ela passou boa parte da infância comigo, mas perto de completar seus dez anos mudou-se para o interior depois da morte da mãe. Anos mais tarde voltou para a cidade, arrumou emprego na farmácia e fama de namoradeira. Mas nem ligava para as críticas das senhorinhas e das outras meninas. Era sorridente, festeira, à frente de seu tempo e, sobretudo, livre.</p>
<p>A farmácia estava vazia quando cheguei. Apenas Lourdes estava lá, ocupando seu posto, uniformizada com um avental onde se lia o nome do estabelecimento, os cabelos alaranjados presos em um coque e os singulares lábios vermelhos. Ela sorriu para mim quando entrei, perguntando educadamente do que eu precisava.</p>
<p>– Na verdade, eu queria falar com você. &#8211; disse eu.</p>
<p>– Sobre&#8230;? </p>
<p>– Eu soube que você saiu com meu namorado e&#8230;</p>
<p>Lourdes interrompeu-me mudando o tom, e a expressão em seu rosto &#8211; antes amável e receptiva &#8211; alterou-se de imediato. Era decidida e dura sem deixar o tom polido. Ela parecia ter experiência com esse tipo de situação onde uma namorada traída vinha até ela arranjar encrenca.</p>
<p>– Se veio tirar satisfações, não sou eu quem as deve a você e sim o seu namoradinho safado. Podemos até conversar, mas não aqui nem agora.</p>
<p>Levei um susto, mas não era esse o caso. Admirei sua postura e tentei responder-lhe sendo o mais franca possível: disse que eu não era uma namorada ciumenta, estava nesse relacionamento por comodismo e, na verdade, queria saber o que ela tinha feito para conseguir se afirmar numa cultura que exigia dela justamente o oposto do que vivia. Ao final de minhas palavras, comecei a chorar compulsivamente, invejando aquela garota que apesar de mal vista podia fazer o que quisesse com sua vida.</p>
<p>Lourdes levou-me até os fundos da loja, numa pequena enfermaria onde ela e o farmacêutico dono do lugar atendiam casos mais urgentes e aplicavam injeções. Ela me ofereceu um copo de água, agradeceu por não ter feito um escândalo nem tê-la julgado por suas atitudes, e me disse:</p>
<p>– Ah, garota! Você não sabe como é difícil ser assim!</p>
<p>Meses depois, tínhamos estabelecido fortes laços de amizade. Eu tinha terminado meu relacionamento com Mauro quase que imediatamente após a conversa com Lourdes e, resolvida a ser como ela, não ligava mais para o que dissessem a meu respeito. Tocava meu próprio corpo avidamente, curiosa por sensações que antes me pareciam erradas, e conversava com minha nova amiga a respeito de assuntos que todos se recusavam a conversar. Para não preocupar meus pais, fingia na frente deles que era a mesma garota meiga e recatada de sempre. Mas as pessoas falam, fofocam, intrometem-se em assuntos que não são seus com a desculpa de que estão a vigiar pela moral e os bons costumes de todos, seja lá o que isso signifique.</p>
<p>Um dia, recebi um recado de Lourdes. Ela me pedia para encontrá-la na enfermaria da farmácia com urgência. Chegando lá, ela não tinha o sorriso de sempre. Parecia triste e abatida, encolhida na cadeira onde a encontrei sentada, ao entrar na salinha.</p>
<p>– Garota, &#8211; ela disse &#8211; você escolheu um caminho muito difícil. Ser a dona de casa respeitável do futuro que seus pais reservaram a você pode ser muito mais cômodo. Mas aconteça o que acontecer, faça o que acha que deve ser feito. Não se fie&#8230; Por favor, olhe para mim agora. Não se fie no julgamento alheio e viva sua vida da maneira que acha que deve. É meu último conselho. Agora vá embora, nossa amizade acabou.</p>
<p>Ambas começamos a chorar naquele momento, ela por saber o que a esperava e eu sem entender o que estava acontecendo. Abracei-a com força até que ela gemeu de dor e eu percebi hematomas em seus braços e pescoço. Olhei seu rosto, que nunca antes tinha visto entristecido daquela forma e beijei-a nos lábios vermelhos. Ela correspondeu de modo terno, até que enfiou uma das mãos por debaixo do meu vestido e me estimulou de modo que eu mesma nunca tinha conseguido.</p>
<p>No banheiro da farmácia despimo-nos e amamo-nos de modo belo e ao mesmo tempo triste. Nossa urgência em sorver uma a outra era tanta que em pouco tempo gozávamos juntas, ofegantes, com as pernas entrelaçadas. Eu a amava e ela a mim.</p>
<p>Dias depois os jornais noticiavam a morte de uma jovem, cujo corpo tinha sido encontrado em um matagal na zona rural da cidade. Lourdes não apareceu mais para trabalhar na farmácia.</p>
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		<title>Estupro? Ela pediu!</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Feb 2011 15:16:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabiane Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[mundo estranho]]></category>
		<category><![CDATA[estupro]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>

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<p>Ontem me chegou <a href="http://www1.folha.uol.com.br/mundo/876227-correspondente-da-cbs-foi-estuprada-na-praca-tahrir-no-egito.shtml">a notícia</a> de que uma repórter americana a serviço da CBS no Egito, Lara Logan, foi cercada por uma turba de 200 animais (porque não dá pra chamar de gente) e brutalmente agredida e estuprada. Logan cobria a revolução egípcia e estava na praça Tahrir, no centro da cidade do Cairo, quando tudo aconteceu.</p>
<p><iframe title="YouTube video player" width="640" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/BixK7Met588" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p>É interessante pensar que há quem diga que nós, ocidentais, somos muito mais civilizados que esse grupinho que habita essa distante parte do planeta, que aqui os direitos femininos, de gênero e raça são muito bem respeitados sim senhor, e que quem reclama quer só chamar a atenção, é feminazi e se faz de vítima. Esperar o quê de gente que é desde pequeno educado a pensar que, se uma mulher é abusada sexualmente, <a href="http://www.watchtower.org/t/my/article_20.htm">a culpa é dela</a>, ela que fez alguma coisa errada?</p>
<p><iframe title="YouTube video player" width="480" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/NTxUWQ2IE6s" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p>Basta fazer uma busca rápida por &#8220;Lara Logan culpa&#8221; pra ver o pessoal destilando toda a sua humanidade e seus ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, dizendo coisas como (todas elas achadas em <a href="http://forum.esporte.uol.com.br/jornalista-americana-sofre-estupro-no-egito_t_1340134?&#038;page=1">um único fórum</a>):</p>
<blockquote><p>Quem pode culpar os caras&#8230;<br />
tambem, olha a jornalista q mandam pro meio daquele inferno<br />
Sofreria estupro em qualquer lugar perigoso.<br />
Também, olha essa mulher, quem não estupraria?<br />
Tá certo os caras, eu faria o mesmo<br />
Eu não estupraria, eu chamaria pra sair, daí sim, em caso de recusa&#8230;<br />
gata assim, no meio de um país só com mulhe feia e peluda, numa revolução, praticamente pedindo para ser estuprada&#8230;.<br />
EU FARIA O MESMO KKK<br />
MULHER BURRA, FALO MERMO.<br />
ELA DEVIA SABER QUE ELA FOI ENVIADA JUSTAMENTE POR ISSO, PRA BAUDUCAREM OS CARAS.<br />
QUEM EM SÃ CONSCIÊNCIA ENVIARIA UMA MULHER DESSA EM UM MOMENTO DE TENSÃO SOCIAL, DE BARBÁRIE??</p></blockquote>
<p>Brincadeira ou não, não tem a menor graça. Pode ter pra quem não é mulher nem tem medo de andar por aí sozinha de noite sem medo de ser agredida. Ah, mas é óbvio, né? Ela <em>pediu</em> por isso, deu mole, sabe que mulher tem que ter mais cuidado, etc. Pois eu digo somente: <strong>ninguém deveria ter medo de sair na rua por simplesmente ser quem é</strong>.</p>
<p>O dia em que piadinhas machistas, homofóbicas e racistas perderem a graça, aí sim poderemos falar em igualdade.</p>
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		<title>Amor Binário</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Feb 2011 18:26:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabiane Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[bissexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[ficção]]></category>
		<category><![CDATA[gay]]></category>

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<p>Era o aniversário de cinqüenta anos do Regime Gay. As ruas estavam decoradas com as cores do arco-íris, e na avenida principal da cidade, ambulantes vendiam braceletes, bandeirinhas e adesivos. Todos se preparavam para mais uma parada, que marcava o início das festividades celebrando o triunfo da ditadura gay.</p>
<p>Em uma rua perpendicular à avenida, sentado numa mesa em um café próximo do local da parada, estava Marcelo. Cabisbaixo, ele observava as marcas que sua xícara deixava nos guardanapos sobre a mesa, entristecido por ser diferente. Pensava no relacionamento de dois anos do qual havia abdicado por não conseguir encaixar-se naquele mundo. Seu ex-namorado queixava-se com freqüência de seu crescente desinteresse na relação. Até que, naquele mesmo dia em que aconteciam as celebrações, Marcelo revelou ao companheiro o motivo de seu afastamento: estava apaixonado por outra pessoa.</p>
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<p>O celular vibrou ao lado do açucareiro na mesa e ele pôde ver na tela do aparelho o nome do alguém que havia tirado sua atenção nos últimos seis meses. Era Diana, uma moça negra e encantadora, magrinha e de nariz arrebitado. Dizia na mensagem enviada a Marcelo que se desculpava pelo atraso e estaria ali em poucos minutos.</p>
<p>Diana trabalhava no mesmo departamento que ele fazia poucos meses, vinda de outra cidade por conta da transferência de sua noiva. Sua energia o contagiou, sua voz macia o fez tremer. Rapidamente ficaram amigos, até que Marcelo se deu conta de que sentia algo mais por ela.</p>
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<p>No entanto, o que sentia não era bem visto pela sociedade. Há exatos cinqüenta anos, os gays haviam instituído uma ditadura no país, proibindo qualquer relacionamento de cunho heteroafetivo, tratando de investigar e punir com rigor os cidadãos que desrespeitassem a nova ordem. Qualquer &#8220;comportamento machão&#8221; ou &#8220;feminino demais&#8221; &#8211; como chamavam os generais no comando &#8211; era combatido, e reincidentes enviados a tratamentos de eletrochoque e readequação sexual. Nos vinte primeiros anos de governo, toda a população já tinha se convertido aos novos hábitos. Heterossexuais eram aberrações, traidores do movimento. A androginia era o novo padrão.</p>
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<p>Perdido em pensamentos, Marcelo levou um susto quando Diana apareceu ao seu lado. Linda como sempre, a garota trazia um ar preocupado com o amigo, que a chamava para uma conversa depois do término do namoro.</p>
<p>- Oi. Tudo bem com você, Marcelo? &#8211; disse ela, puxando uma cadeira e sentando-se à mesa com ele.</p>
<p>- Oi. &#8211; ele respondeu, triste. Em seguida, contou a ela da separação, obviamente omitindo a identidade do terceiro vértice de seu triângulo amoroso. Ao fim de seu relato, notou um brilho no olhar da amiga e perguntou, mudando completamente de assunto:</p>
<p>- Você não está conseguindo esconder a alegria. O que foi?</p>
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<p>- Eu e minha noiva decidimos ter um filho!</p>
<p>Agora sim ele tinha certeza de que não havia nenhuma chance. Uma criança é um elo permanente entre duas pessoas, mesmo que a relação não perdure. E além de tudo, Diana era lésbica e jamais encostaria com intenções sexuais em um homem.</p>
<p>Marcelo, por outro lado, expandira seus horizontes e não enxergava mais genitálias: se apaixonava por pessoas. Realmente havia amado seu namorado, e depois de um período confuso recriminando seus próprios sentimentos, descobriu que não havia fronteiras como a ditadura gay (e a ditadura hétero que veio antes dela, diziam os livros de História) pregava. Percebeu que se havia algo errado no mundo, não era com ele.</p>
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<p>Decidiu ser honesto.</p>
<p>- Diana, preciso te dizer uma coisa.</p>
<p>Ela, que até um segundo atrás estava tagarelando sobre as maravilhas da maternidade, da ida à clínica de fertilidade e do quanto ela e a namorada estavam felizes com a decisão, olhou-o apreensiva pela gravidade do tom que ele usou. Diana aproximou sua cadeira da mesa em que estavam e curvou seu corpo para frente para ouvir melhor.</p>
<p>- Estou apaixonado por você.</p>
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<p>As bochechas da moça se tornaram róseas e seu semblante entristeceu. Pensou nos meses anteriores em que saíam juntos e se divertiam como amigos. Ela não conseguia tirar da cabeça que cada toque, cada roçar de pele e cada cumprimento com beijinho no rosto de Marcelo tinha alguma conotação sexual. Será que aquele dia em que ela tinha brigado com a namorada e ele a tinha abraçado em conforto ele estava tentando se aproveitar dela? E quando saíam fazer compras juntos de mãos dadas? E aquela vez em que, de brincadeira, deram um selinho?</p>
<p>Diana sentiu repulsa e encolheu os ombros, instintivamente passando os braços em torno de si mesma. Sentia repulsa do homem a sua frente, sentia-se traída, mas ao mesmo tempo o carinho que tinha por ele não havia acabado. Estava confusa.</p>
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<div class="pagina8">
<p>- Meu deus, então você é&#8230;</p>
<p>- Bissexual. &#8211; completou ele, baixinho.</p>
<p>Ela deu um longo suspiro, mas antes que pudesse esboçar qualquer reação, agentes da SOGAY, a polícia secreta, invadiram o recinto de algemas prontas, empunhando armas, e recolhendo testemunhos. Lá fora, a parada ocorria sem transtornos e todos dançavam felizes ao som de Gloria Gaynor.</p>
<div class="prev7"></div>
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		<title>Heróis</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Feb 2011 17:31:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabiane Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<div class="texto">
<p>Quando Arthur finalmente acordou, não abriu os olhos de imediato. As pálpebras pesavam toneladas, parecia que estava vivendo a maior ressaca de sua vida. Nem a do carnaval de 2006 havia sido tão arrasadora. Vagarosamente, tentou mexer alguns músculos do corpo para descobrir se estava tudo bem. Apesar de senti-los, seus membros estavam inertes. E parecia que ele estava&#8230; Amarrado?</p>
<p>Abriu os olhos: estava em algo que parecia ser um porão mal iluminado, assentado em uma cadeira com pés e mãos imobilizados por grossas cordas. Tentou lembrar como chegou ali, mas a cabeça pesava, seu raciocínio estava tão lento que nem pânico conseguiu sentir por conta da situação. Acima de sua cabeça havia uma fraca lâmpada incandescente; era a única iluminação do lugar, e não permitia enxergar muita coisa. De seu pescoço pendia uma correntinha de ouro com um pingente de uma bela pedra verde.</p>
<p>Com um rangido, uma porta se abriu em algum lugar da sala e ele ouviu passos se aproximando. Quando a luz iluminou o recém chegado, ele pôde notar que se tratava de uma bela mulher trajando botas e roupas de vinil preto. Ela usava uma máscara sobre os olhos e tinha os longos cabelos alisados presos em um rabo de cavalo. Seu rosto era familiar.</p>
<p>- Você sabe porque está aqui? &#8211; perguntou a mulher, aproximando seu rosto do dele.</p>
<p>Ofegante, ele teve de fazer um enorme esforço para pronunciar as palavras.</p>
<p>- Eu n-não tenho nem idéia.</p>
<p>- Mesmo?</p>
<p>A mulher se afastou, caminhando em direção a porta. Abriu-a, fez um rápido movimento com as mãos e, num instante, a sala estava tomada por seis pessoas curiosamente vestidas: um homem negro e alto de <em>colant</em> verde, uma loira de lábios vermelhos e roupas e capa azuis, um homem de meia idade de cartola e charuto no canto da boca, e dois jovens idênticos vestindo <em>colants</em> e capacetes iguais porém de cores diferentes &#8211; amarelo e roxo.</p>
<p>Amarrado, com a visão e o pensamento turvos, ainda assim ele pôde reconhecer: eram os Cavaleiros da Justiça, um grupo de super-heróis que estampava jornais com freqüência, combatendo o crime e prendendo bandidos. Suas habilidades eram amplamente conhecidas e especulava-se suas origens. Radioatividade? Mutação genética? Ou seriam eles de outro planeta? De qualquer modo, todos estavam gratos, e a paz no país estava garantida graças a eles. Mas faltava um.</p>
<p>- Você deve ter notado, Arthur &#8211; a mulher de vinil preto continuou -, que nosso grupo está incompleto. Infelizmente, o Vigilante Vermelho acidentou-se em uma missão e não pôde mais continuar conosco.</p>
<p>Ela andou dramaticamente em torno da cadeira onde Arthur estava amarrado, enquanto os outros aguardavam imóveis e mal-encarados alguns metros longe dela. Conhecida como Pantera, ela parecia ter assumido a liderança do grupo por conta do afastamento do ex-líder Vigilante, que também era seu marido.</p>
<p>- Desde então estamos procurando alguém, justo e de boa índole, para preencher a sétima vaga. Em toda a cidade, estivemos de olho em jovens com potencial para isso, e você foi o escolhido.</p>
<p>Arthur começou a lembrar-se dos acontecimentos dos últimos dois meses: a picada de pernilongo que havia-lhe dado superforça e habilidade de voar, e mudado completamente sua vida. De um zé ninguém ignorado pelas mulheres e caçoado pelos homens, ele havia se tornado uma estrela. Seus poderes permitiram-lhe conquistar riqueza sem que fosse pego ou até mesmo descoberto e, em conseqüência, amigos e quantas mulheres desejasse. Para evitar o assédio, manteve as habilidades em segredo, mas às vezes fazia uso delas em público para impressionar as pessoas. O sentimento de ser invencível era inevitável. Nunca havia sido tão feliz na vida.</p>
<p>- Parece que nossa escolha não foi acertada. &#8211; disse em tom grave o gêmeo de amarelo, se aproximando. Pantera o repreendeu com um olhar, e ele retornou ao local onde estava.</p>
<p>- E-eu não sabia, eu&#8230; &#8211; Arthur tentou debilmente se desculpar, mas estava fraco demais para conseguir falar qualquer coisa.</p>
<p>A garota loira aproximou-se de Pantera com uma pequena caixa preta e cochichou algo em seu ouvido. A líder assentiu com a cabeça e caminhou em direção à cadeira, tirando a correntinha com a pedra verde do pescoço de Arthur em seguida. Depois, guardou-a na caixinha entregue a ela pela loira. </p>
<p>Imediatamente, Arthur sentiu-se invencível de novo. Poderia arrebentar as cordas que o prendiam sem o menor esforço, mas ali estavam seis heróis tão ou mais poderosos que ele, que o subjugariam em pouquíssimo tempo. Resolveu permanecer como estava. Eles não lhe fariam mal, afinal eram os Cavaleiros da Justiça.</p>
<p>Com exceção da garota loira, que tinha alguma simpatia por ele, os cavaleiros o olhavam com desprezo e decepção. Lentamente, foram caminhando na direção de Arthur, e essa atitude o assustou bastante. O homem do charuto alisou o pequeno bigode que ostentava, tirou o charuto da boca e disse:</p>
<p>- Parece que você reprovou em nosso teste, garoto.</p>
<p>- Mas-mas&#8230; Me dêem uma segunda chance! Eu posso ser um de vocês!</p>
<p>- Com esse caráter facilmente corruptível, eu não acredito. &#8211; encerrou, abaixando a cartola e recolocando o charuto na boca.</p>
<p>Pantera riu cínica e cruel, tirando um grande chicote de seu cinto e estalando-o no ar. Os gêmeos concentraram suas energias e raios coloridos saíam de suas mãos. O negro de <em>colant</em> verde e o homem de charuto se puseram em posição de ataque. O Vigilante Vermelho era insubstituível.</p>
<p>Semanas depois, Arthur estava em casa. As cicatrizes da batalha que tivera com os cavaleiros deixaram marcas profundas em sua pele. Ele resistiu bravamente para manter suas habilidades e não abriria mão delas tão fácil. Não, ele jamais voltaria a ser o ninguém de tempos passados. Não era justo!</p>
<p>Sentado na mesa da cozinha de seu minúsculo apartamento, segurava uma xícara de café em uma mão e as páginas de classificados de um jornal na outra. Procurava emprego.</p>
</p></div>
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		<title>Dilema</title>
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		<pubDate>Mon, 31 Jan 2011 18:03:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabiane Lima</dc:creator>
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<div class="texto">
Foi tudo muito rápido. Um rapaz vestindo terno e portando um imenso microfone abordou Renato na rua, acompanhado de um cinegrafista, que zanzava em torno dele e de sua namorada tentando obter o melhor ângulo. O rapaz falava mais rápido do que qualquer ser humano estaria habilitado a entender, ainda mais sendo pego desprevenido e com um crescente punhadinho de pessoas ao redor.</p>
<p>- Vostrocriasuanamoradporumilhãoderais?</p>
<p>- Hã?</p>
<p>- Trocaria ou não trocaria?</p>
<p>- O quê?</p>
<p>- Sua namorada por um milhão de reais. Trocaria?</p>
<p>Nesse momento, Renato lembrou-se do famoso programa de televisão que fazia propostas indecentes a transeuntes aleatórios na rua. Dia de sorte?</p>
<p>Também nesse momento, a namorada lançou-lhe um olhar ameaçador. A platéia já tinha aumentado bastante e uma pequena torcida a favor da namorada, composta principalmente por mulheres, se formava ali. De repente, um outro rapaz apareceu abrindo caminho entre a multidão, cochichou alguma coisa no ouvido do entrevistador e sumiu tão rápido quanto apareceu.</p>
<p>- A produção acaba de me informar que o cheque de um milhão de reais já está esperando para ser entregue. Mas é preciso decidir agora! &#8211; disse o rapaz do microfone para a câmera.</p>
<p>O olhar da namorada agora já não era de ameaça, mas um misto de pavor, rancor e despeito, que fazia Renato engolir em seco temendo as conseqüências de sua escolha. Então sua face se iluminou.</p>
<p>Ele se lembrou de todos os momentos com a namorada, de todo o dinheiro gasto com programas chatos de casalzinho, de todos os amigos (e principalmente amigas) de quem tinha se afastado por conta da garota ao seu lado, e que além de tudo ainda regulava o pouco sexo que faziam. Lembrou-se de tudo o que passava para conseguir alguma coisa que realmente valesse a pena naquele relacionamento. E lembrou-se, não sem uma ponta de tristeza, que aquela sensação de tempo perdido não era recente. O momento era aquele. <em>Alea jacta est</em>.</p>
<p>- Trocaria.</p>
<p>A multidão aglomerada em torno do casal e da equipe de reportagem explodiu em êxtase. Vivas e gritos indignados competiam por espaço, e até a polícia foi chamada quando as pessoas descontroladas começaram a depredar postes, lixeiras, bancos, e lojas ao redor. Mas antes que a confusão tomasse maiores proporções, já estava controlada.</p>
<p>Enquanto isso, a namorada se debulhava em lágrimas e gritos histéricos, e tentava bater no agora ex, impedida apenas pelo rapaz de microfone em punho, que acabava levando a maioria dos tapas e socos.</p>
<p>Renato foi imediatamente levado a um prédio grande e cheio de vidros, onde funcionavam os estúdios de televisão para o qual o cinegrafista e o rapaz do terno trabalhavam. Recebeu tratamento de primeira: camarim privado, maquiadores, massagistas, bebidas caras, roupas novas. Estava gostando muito de toda aquela paparicação e quase não acreditando na reviravolta que sua vida tinha levado. &#8220;Pelo menos para alguma coisa me serviu aquela desgraçada&#8221;, pensava ele.</p>
<p>Naquela mesma noite, ele foi conduzido ao palco do programa de auditório que propunha o desafio, e recebido como um pop star. As muitas luzes o deixaram momentaneamente cego, e com alguma dificuldade ele chegou até a poltrona que o apresentador lhe oferecia. Ele estava na tevê, e no momento milhares de pessoas por todo o país o viam e acompanhavam sua rápida ascensão financeira.</p>
<p>O apresentador do programa fez as cerimônias usuais e as chamadas dos patrocinadores até que finalmente se dirigiu a Renato, entregando-lhe um microfone. E amigavelmente, começou o questionário:</p>
<p>- Qual o seu nome, garoto?</p>
<p>- Re-renato. &#8211; gaguejou ele.</p>
<p>- Então, Renato, parece que hoje é seu dia de sorte, não é mesmo?</p>
<p>A platéia vibrou em aplausos. Elegantemente vestido, o apresentador fez sinal para um assistente e uma grande caixa foi trazida ao palco. Cheio de afetação, ele então se dirigiu novamente a Renato:</p>
<p>- Você já conhece o nosso programa, Renato?</p>
<p>- Sim. &#8211; disse ele que, apesar de conhecer de ouvir falar, nunca tinha de fato assistido ao programa. Não queria parecer indelicado.</p>
<p>- Então você sabe como funciona a mecânica dele. Então você já sabe que não basta apenas aceitar o desafio de largar tudo por um milhão de reais. Há mais um desafio!</p>
<p>Um painel luminoso onde se lia a quantia de dinheiro do prêmio se acendeu atrás dos dois. A platéia novamente apladiu ruidosa, orientada pelo sinal dos assistentes. Renato balbuciou um quase ininteligível e surpreso &#8220;Como assim?&#8221;, e a grande caixa trazida ao palco foi posta ao seu lado.</p>
<p>- Dentro dessa caixa &#8211; começou o apresentador &#8211; há uma pessoa. Você deve interagir com ela por uma hora de forma, digamos assim, mais íntima. Haverá uma censura na televisão aberta, mas nossos espectadores do <em>pay-per-view</em> terão acesso a tudo o que acontecerá dentro da caixa. Ainda há tempo de desistir.</p>
<p>Renato começou a suar frio e tremer. Achou que fossem as luzes do estúdio quando sua pressão sangüínea começou a cair, mas um pressentimento ruim invadiu-lhe a mente e o nervosismo já não era mais disfarçável. Sentiu que tinha sido traído, levado para uma arapuca, um beco sem saída. </p>
<p>Uma fortuna estava em jogo. Toda uma nova vida cheia de regalos e luxos esperava por ele, bastava dizer sim e aguardar as conseqüências, fosse o que fosse. E fosse o que fosse, seriam apenas sessenta minutos. Quem quer que fosse que estivesse ali dentro, pensava ele, com toda a certeza não era uma linda mulher de seios avantajados. Havia um truque. Mas&#8230; um milhão de reais! Um milhão de reais não se ganha assim, de um dia para outro, e esse tipo de oportunidade certamente não bateria em sua porta de novo.</p>
<p>- Topa ou não topa o desafio?</p>
<p>A tensão na platéia era tão grande quanto a do palco. Câmeras, assistentes e operadores roíam unhas. Renato ouviu cochichos dizendo que ninguém antes havia topado o desafio, e sua certeza de que havia um truque ali aumentava ainda mais. Os índices de audiência estavam tão altos quanto há muito não se via na televisão em tempos de internet. Todos estavam em silêncio aguardando a resposta.</p>
<p>- Topo.</p>
<p>Um homem musculoso de cerca de dois metros de altura, besuntado de óleo e com uma tanga minúscula cobrindo-lhe as partes abriu a porta da caixa. Renato engoliu em seco. Estava milionário.</p>
<hr/>
<p class="nota">Inspirado em <a href="http://twitter.com/#!/luide/status/31928695237120000">dois</a> <a href="http://twitter.com/#!/luide/status/31928000006070272">tweets</a> do @luide.</p>
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