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	<title>Megalopolis</title>
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	<description>O Primeiro Blogazine Brasileiro do Universo</description>
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		<title>Complicada e perfeitinha</title>
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		<pubDate>Fri, 18 May 2012 17:42:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabiane Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[um delírio]]></category>
		<category><![CDATA[ateísmo]]></category>
		<category><![CDATA[bíblia]]></category>
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		<description><![CDATA[Toda discussão com cristãos, sejam eles da orientação que for, e dos mais variados graus de sensatez, tem algo em comum: o argumento de que, se há algo de absurdo na bíblia, diz-se que ela é obra humana; se tem &#8230; <a href="http://fabianelima.com/blog/complicada-e-perfeitinha/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Toda discussão com cristãos, sejam eles da orientação que for, e dos mais variados graus de sensatez, tem algo em comum: o argumento de que, se há algo de absurdo na bíblia, diz-se que ela é obra humana; se tem uma ordem sem razão aparente &#8211; como por exemplo o ódio gratuito a gays -, ela é infalível. Por algum motivo que até mesmo eu, que fui crente e estudiosa do santo livro, desconheço, ninguém é capaz de enxergar o absurdo dessa fala.</p>
<p>Se a bíblia é perfeita e verdadeira, todas as crueldades e preconceitos que ela destila são igualmente verdadeiros e justos. Se o são, justificativas para hábitos abandonados &#8211; como por exemplo o trato injusto e desigual que Paulo determina que mulheres devam ser tratadas; abandonadas não por todos os membros de nossa sociedade, como é possível ver todos os dias -, de que essas coisas &#8220;não valem mais&#8221; e que apelam para a humanidade de seus autores ou para o zeitgeist da época, em contraste com zeitgeist atual, são improcedentes. Ainda: se é verdadeira e justa, tem alguma coisa de muito errada com esse deus e com a moral de quem escolheu segui-lo.</p>
<p>Se a bíblia é trabalho humano e é apenas um recorte da época e dos anseios dos homens que a escreveram, ela não pode ser santa nem perfeita. Não pode sequer ser considerada um guia moral, ou um guia para qualquer outra coisa &#8211; principalmente ciência; sim, criacionistas, estou olhando pra vocês. A própria validade do cristianismo como um todo e de suas inúmeras vertentes deve ser posta em xeque.</p>
<p>Decidam-se: ou a bíblia é a palavra de deus perfeita (ainda que escrita por homens imperfeitos, mas divinamente inspirados), ou ela é retrato e fruto de sua época, e ainda que divinamente inspirada, escrita por homens imperfeitos. Não dá pra ser os dois, são mutuamente excludentes.</p>
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		<title>Comiquita Sans é sucesso!</title>
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		<pubDate>Thu, 17 May 2012 13:28:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabiane Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[designer meia boca]]></category>
		<category><![CDATA[comic sans]]></category>
		<category><![CDATA[comiquita sans]]></category>
		<category><![CDATA[tipografia]]></category>

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		<description><![CDATA[Enquanto designers do mundo todo discutiam (e ainda discutem) as mazelas de um mundo habitado por seres intelectualmente inferiores que usam Comic Sans indiscriminadamente, eu estava rabiscando papéis com uma caneta permanente, desenhando letrinhas e selecionando as melhores para um &#8230; <a href="http://fabianelima.com/blog/comiquita-sans-e-sucesso/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://fc02.deviantart.net/fs38/i/2008/317/3/7/My_comic_font_by_fabianelima.png"></p>
<p>Enquanto designers do mundo todo discutiam (e ainda discutem) as mazelas de um mundo habitado por seres intelectualmente inferiores que usam Comic Sans indiscriminadamente, eu estava rabiscando papéis com uma caneta permanente, desenhando letrinhas e selecionando as melhores para um futuro e despretensioso projeto tipográfico. Vetorizei tudo automaticamente com o <a href="http://www.inkscape.org/">Inkscape</a>, colei no <a href="http://fontforge.sourceforge.net/">FontForge</a>, ajeitei mal e mal as métricas, exportei e nascia assim a <a href="http://www.dafont.com/comiquitasans.font">Comiquita Sans</a>.</p>
<p>Não sei como, onde, em que momento e porquê esta minha fonte fez tanto sucesso, mas é a fonte de mais sucesso até hoje na história das <a href="http://www.dafont.com/fabiane-lima.d1784">minhas fontes bastardinhas</a>. Só no DaFont, um dos sites onde ela é distribuída e o único onde tenho estatísticas sólidas, até o momento em que escrevo ela teve 75.568 downloads. Por se tratar de uma fonte gratuita de livre distribuição, outros sites a distribuem livremente, então é bem possível que esses números sejam ainda maiores. </p>
<p>A verdade é que a bichinha ganhou o mundo e hoje está presente em jogos, impressos e, claro, histórias em quadrinhos. Duas pessoas tocando pequenos projetos editoriais de HQs e pelo menos três produtoras de jogos já me contataram pedindo permissão para utilizá-la em seus projetos. Entre eles, dois merecem destaque por já estarem prontos, <em>alive and kicking</em>: o jogo <a href="http://www.freekscape.com/">Freekscape</a> e a HQ editada pela sueca Natalia Batista, <em><a href="http://asongforelise.smackjeeves.com/">A Song For Elise</a></em>.</p>
<p>Vez ou outra, alguém vem torcendo o nariz me mostrar usos ruins da fonte projetada por <a href="http://www.connare.com/">Vincent Connare</a>, esperando que eu concorde efusivamente com sua opinião. E eu respondo: &#8220;Ora, eu tenho a minha própria versão da Comic Sans!&#8221;, e mando o link da Comiquita. Não que eu ache o projeto da Comic Sans bom &#8211; ele cumpriu sua função original, quebrando o visual austero que a <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Times_New_Roman">Times New Roman</a> dava à interface do Microsoft Bob; isso é design, afinal de contas, e design vai além de gosto pessoal.</p>
<p>De alguma forma que desconheço, mas que acho que provavelmente foi o mesmo que ocorreu com a Comic original, a Comiquita vem satisfazendo necessidades de várias pessoas ao redor do globo, a despeito do desleixo de sua criadora em seu projeto, que estava mais preocupada em aprender como usar o software do que com o projeto de uma boa fonte.</p>
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		<title>Grandes Desculpas Esfarrapadas da Humanidade</title>
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		<pubDate>Wed, 16 May 2012 13:18:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabiane Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[mundo estranho]]></category>
		<category><![CDATA[um delírio]]></category>
		<category><![CDATA[ciência]]></category>
		<category><![CDATA[cristianismo]]></category>
		<category><![CDATA[hipátia]]></category>

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		<description><![CDATA[Hipátia de Alexandria foi uma das grandes mentes de seu tempo. Matemática e filósofa, lecionava na Academia Neoplatônica de Atenas, vivendo rodeada de estudantes e sábios que nunca se decepcionavam ao tirar suas dúvidas com ela. Porém, em 415 D.C., &#8230; <a href="http://fabianelima.com/blog/grandes-desculpas-esfarrapadas-da-humanidade/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img src="http://fabianelima.com/blog/wp-content/uploads/hipatia_150512.jpg"></p>
<p>Hipátia de Alexandria foi uma das grandes mentes de seu tempo. Matemática e filósofa, lecionava na Academia Neoplatônica de Atenas, vivendo rodeada de estudantes e sábios que nunca se decepcionavam ao tirar suas dúvidas com ela. Porém, em 415 D.C., quando tinha aproximadamente 45 anos, Hipátia foi atacada na rua, e ferozmente assassinada. Motivo: o Cristianismo precisava ser fortalecido, e a ciência ensinada por ela era uma manifestação pagã. Hipátia foi assassinada em nome de Deus.</p>
<p><strong>Fonte:</strong> SAGAN, Carl. O Mundo Assombrado Pelos Demônios: a ciência como uma vela no escuro. 2002.</p>
<p><em>Publicado originalmente em 7 de dezembro de 2008.</em></p>
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		<title>The girl is back in town</title>
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		<pubDate>Tue, 15 May 2012 23:12:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabiane Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[divagações]]></category>
		<category><![CDATA[manutenção]]></category>
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		<description><![CDATA[O texto abaixo estava guardado nos drafts deste blog há muito. Não sei o que queria dizer com ele à época em que o escrevi, mas pelas poucas pistas que ele dá, deve ser de algum dia entre o fim &#8230; <a href="http://fabianelima.com/blog/the-girl-is-back-in-town/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O texto abaixo estava guardado nos <em>drafts</em> deste blog há muito. Não sei o que queria dizer com ele à época em que o escrevi, mas pelas poucas pistas que ele dá, deve ser de algum dia entre o fim de 2009 e o segundo semestre de 2010.</p>
<blockquote><p>Mulher quando quer revolucionar vai logo mexendo no cabelo, isso é um fato inegável até para mulheres que, como eu, não têm as frescuras que assolam o mulherio mediano. Mesmo que nenhuma revolução de fato aconteça, se ela tem vontade mudar algo em sua vida, o cabelo é a primeira meta. Terminou com o namorado e quer dar a volta por cima? Taca a tesoura no cabelo. Tá afim de trocar de emprego? Tinta nele! Cansou de ser boazinha e quer virar a nova <em>piriguetchi</em> do pedaço? Faz qualquer merda no cabelo.</p>
<p>Geralmente, a vontade de mudar de vida é o principal motivo para uma mudança radical na juba. Se a mulé mudou o cabelo, desconfie. Mesmo que em duas semanas ela volte a ser do mesmo jeitinho que era, nos próximos dias ela vai se sentir poderosa, mudada e acima da carne seca, então cuidado com ela.</p>
<p>Desde a minha adolescência fracassada até os dias atuais, nos quais sou uma &#8220;operadora de software gráfico&#8221; igualmente fracassada ― não me canso de olhar para minha carteira de trabalho e ver essas nobres palavras escritas ―, eu já mudei meu cabelo umas trocentas mil e quarenta e duas vezes. Mudanças de vida e atitude de fato, algumas poucas, porém definitivas. Ultimamente, continuo querendo mudar, mas picar indefinidamente um cabelo que nem passou do ombro ainda é sacanagem com o coitado. Quero que ele cresça bastante, que nem cabelo de fiel da Congregação Cristã, praí eu ter mais possibilidades de mudança e não acabar careca.</p></blockquote>
<hr />
<p>Se você é novo aqui, puxe uma cadeira e fique à vontade. Se você é leitor <em>dazantiga</em>, este blog não é mais um <a href="http://www.smashingmagazine.com/the-death-of-the-blog-post/">blogazine</a>. Blogazines têm muitos pros (e eu os adoro), mas os contras estavam pesando demais; minha saudade da blogagem moleque, da blogagem de várzea, estava falando mais alto.</p>
<hr />
<p><strong>P.S.:</strong> Só pra esclarecer, o texto acima foi escrito há muito tempo. Eu estava em outra vibe, lutando pra virar mulherzinha, pintando unha, comprando roupinha cor-de-rosa e sapato de salto, completamente desinformada a respeito de coisas como identidade de gênero, queer, orientação sexual, e etecéteras. Inutilmente, como quem me conhece pode atestar.</p>
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		<title>Minicontos</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Mar 2011 05:49:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabiane Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[ficção]]></category>
		<category><![CDATA[minicontos]]></category>

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		<description><![CDATA[- Hoje não. - Mas eu não quero nada. Só ficar assim com você. Ela retribuiu o abraço e deixou-se envolver pelo calor do corpo dele. Mas ao tocá-lo no pescoço, percebeu que seu pulso estava acelerado. Sua respiração era &#8230; <a href="http://fabianelima.com/blog/minicontos/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>- Hoje não.</p>
<p>- Mas eu não quero nada. Só ficar assim com você.</p>
<p>Ela retribuiu o abraço e deixou-se envolver pelo calor do corpo dele. Mas ao tocá-lo no pescoço, percebeu que seu pulso estava acelerado. Sua respiração era irregular e denunciava a alteração em seu estado de espírito. Ela notou todos estes sinais vitais descompassados aparentemente sem nenhum motivo, mas não perguntou nada.</p>
<hr/>
Sentada sozinha em uma mesa em meio à praça de alimentação lotada, ela esperava ansiosa. Pensou em ligar, mas não era sua intenção deixar transparecer o nervosismo.</p>
<p>Olhou no relógio do celular pela oitava vez desde que sentou-se ali: ele estava vinte minutos atrasado.</p>
<p>- Ele não vem.</p>
<p>Mal acabou de pronunciar estas palavras, o telefone vibrou em suas mãos com um estardalhaço.</p>
<hr/>
Ela suspirou. &#8220;Insônia. De novo&#8221;, pensou. Ele roncava ao lado dela, dormindo o sono de quem trabalhou o dia todo e agora buscava a recompensa nos braços de Morfeu.</p>
<p>Ela deu as costas àquela expressão cansada dele sentindo-se culpada. Não conseguia dormir devido a problemas seus com os quais não conseguia lidar e que ele lidava melhor que ela. </p>
<p>Mas as palavras de conforto dele dizendo que estava ao seu lado pro que desse e viesse só a faziam sentir-se pior, ainda que amada.</p>
<p>Do outro lado do mundo, uma usina atômica colapsava e seus resíduos atingiam a atmosfera. Em pouco tempo, a camada que envolvia o planeta estaria acabada e os problemas de nossa insone protagonista também.</p>
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		<title>A Travessia</title>
		<link>http://fabianelima.com/blog/a-travessia/</link>
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		<pubDate>Thu, 10 Mar 2011 20:22:22 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabiane Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[além-vida]]></category>
		<category><![CDATA[ficção]]></category>
		<category><![CDATA[morte]]></category>

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		<description><![CDATA[Depois de uma existência longa e feliz, Jorge finalmente fez a travessia. Sua essência deixou seu velho e cansado corpo e, após uma morte tranqüila, ele sentiu-se flutuar sobre seu próprio quarto. Sua esposa segurava a mão direita de seu &#8230; <a href="http://fabianelima.com/blog/a-travessia/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Depois de uma existência longa e feliz, Jorge finalmente fez a travessia. Sua essência deixou seu velho e cansado corpo e, após uma morte tranqüila, ele sentiu-se flutuar sobre seu próprio quarto.</p>
<p>Sua esposa segurava a mão direita de seu corpo terrestre, inconsolável. Ele tentou dizer a ela que não chorasse porque tudo estava bem, mas não pôde: não possuía mais uma boca, muito menos cordas vocais. Era apenas espírito, disforme porém consciente de si mesmo, conduzido por uma força invisível para longe de tudo o que conhecia, para além daquela vida na Terra, para o além-vida.</p>
<p>Ele não saberia dizer quanto tempo levou até ser envolvido por uma nova força, ser revirado, revolvido e remodelado em um novo corpo, mas uma vaga noção de tempo o fez crer que esse processo não durou muito. Logo ele estava diante de um grande homem de barbas longas e túnica comprida. Apalpou-se, curioso com sua nova forma, e percebeu que estava em seu próprio corpo, vários anos mais jovem do que quando deixou a vida terrena. Olhou em volta e não viu mais nada a não ser o homem barbudo, que disse-lhe:</p>
<p>- Pelo visto você já percebeu o que te aconteceu, certo?</p>
<p>Um tanto inseguro, Jorge deu um passo em direção ao homem.</p>
<p>- Eu morri, velho e farto de dias. Você é Deus? Onde estamos? No Céu? Ou não?</p>
<p>O homem deu um longo e entediado suspiro antes de esclarecer as dúvidas do recém-chegado. Jorge achou que ele fosse um tipo de guia na transição para o Mundo dos Mortos, Paraíso ou seja lá o que fosse. Era cristão e acreditava no pós-vida que sua religião pregava, mas nesse momento temia que tivesse feito a escolha errada. Um rolo apareceu nas mãos do barbudo, que ele abriu e começou a ler, tão entediado quanto tinha sido seu suspiro.</p>
<p>- &#8220;Você acaba de passar a fronteira entre a Vida e a Morte. Uma vez do lado de cá, não há mais retorno. A sua forma atual serve apenas para que você compreenda melhor este momento, uma vez que está habituado a possuir um corpo&#8221;, blá blá blá. &#8211; ele fechou o rolo e estendeu a mão para Jorge. &#8211; Muito prazer, eu sou o Porteiro Celestial. Vou verificar seus registros, ver onde ficará, e depois disso você retornará à forma espiritual. Entendido?</p>
<p>- Claro, claro. &#8211; respondeu Jorge balançando afirmativamente sua cabeça temporária.</p>
<p>Um pequeno dispositivo eletrônico surgiu nas mãos do Porteiro Celestial e, após alguns toques, ele exibiu um sorriso de satisfação. Havia encontrado os registros de Jorge. Uma impressora apareceu e cuspiu algumas folhas que foram em seguida recolhidas pelo Porteiro e depois, tanto o dispositivo quanto a impressora desapareceram tão inexplicavelmente quanto surgiram.</p>
<p>- Adoro essas coisas que vocês inventam e tento copiar para deixar a experiência mais familiar, mas esse negócio de ler em tela não me desce. Enfim, vamos lá. Vejamos, nascido em meados do século vinte, bom filho, estudioso, tímido, fiel, bondoso&#8230; É, garoto, parece que a eternidade vai ser boa pra você!</p>
<p>O Porteiro separou a primeira folha e colocou-a por trás das demais, continuando a leitura. Após uma análise silenciosa, ele coçou a barba e franziu o cenho, preocupado.</p>
<p>- Você sabe que a Palavra Divina sofreu uma série de adaptações, cortes e adições ao longo da história humana, correto?</p>
<p>O pseudo-coração de Jorge alterou seu ritmo e ele sentiu um nó na garganta. Estímulos emulados apenas para que ele entendesse a situação, pensou pouco antes de responder, gaguejando.</p>
<p>- Si-sim. Bem, eu nunca me aprofundei nisso de verdade, mas sei que houveram vários concílios para decidir o que iria para a versão final, e que até hoje &#8211; e com &#8220;hoje&#8221; ele queria dizer a data de sua morte &#8211; não há um consenso, mas acredito que o essencial permaneceu e&#8230;</p>
<p>- Escute, garoto. &#8211; o Porteiro Celestial tinha uma expressão séria ao dizer isso. &#8211; Ao longo do tempo, o Altíssimo percebeu que vocês não entendiam o que ele queria dizer e foi mudando as coisas. Não sou ninguém pra julgar as atitudes do Soberano, sabe, mas sei lá, acho que usar intercessores humanos não foi uma boa idéia. Por causa disso, acabou indo Ele mesmo tentar arrumar as coisas. </p>
<p>Jorge temia por sua alma. </p>
<p>- Mas se as pessoas entendiam errado, a culpa não necessariamente era delas, certo?</p>
<p>- Sim, claro! E por isso a cada nova atualização o Todo Poderoso decidia que era salvo quem interpretasse Suas palavras corretamente a partir daquela data. &#8220;Data&#8221; na noção terrestre, lógico. </p>
<p>Jorge respirou aliviado com seus pulmões novos em folha. Até onde sabia, tinha sido educado na versão mais recente da Palavra da Verdade. Tinha sido uma boa pessoa em vida, doava dinheiro para os mais necessitados, era carinhoso com os filhos e esposo dedicado. Estava feliz de poder passar a eternidade ao lado de Deus.</p>
<p>- Legal! E quando vou conhecer o Príncipe da Paz?</p>
<p>O Porteiro Celestial manteve um ar preocupado. Olhou para as folhas que ainda segurava nas mãos antes de prosseguir.</p>
<p>- É&#8230; Tem um problema.</p>
<p>- Problema?</p>
<p>- Sim.</p>
<p>- Que problema? &#8211; As pupilas de Jorge se dilataram e o coração voltou a dar sinais de que alguma coisa estava errada.</p>
<p>- Você não está na edição mais recente do Evangelho.</p>
<p>- Mas&#8230;</p>
<p>- Deus liberou uma nova edição há poucos anos, mas infelizmente a maioria das pessoas interpretou como loucura. Você recebeu em mãos um folheto a respeito em julho de 1987, mas achou bobagem e o atirou ao lixo.</p>
<p>Jorge sentiu-se desabar. Caiu de joelhos e, em prantos, mal podia dizer qualquer coisa. O homem barbudo ficou sem ação, incomodado com a situação um tanto constrangedora. Tentou colocar suas grandes mãos sobre a cabeça do recém-chegado à sua frente, imitando o gesto humano de consolo, mas sem sucesso. Enfim, abaixou-se para ficar na mesma altura que Jorge e disse:</p>
<p>- Olha, eu não faço as regras porque isso é serviço do Criador dos Céus e da Terra, mas eu simpatizei com você, garoto. Vou te levar para um lugar onde você poderá tomar conhecimento da edição mais recente. &#8211; Nesse momento, Jorge levantou os olhos e parecia mais calmo. &#8211; Venho fazendo isso desde o lançamento do Novíssimo Testamento com pessoas boas porém desinformadas como você neste período de transição, mas o Pai da Eternidade me falou para não dar mole. </p>
<p>O Porteiro Celestial ajudou Jorge a levantar e se recompor, oferecendo-lhe a manga da própria túnica para que enxugasse os olhos. Jorge assoou o nariz nela e logo estava pronto para o que viesse. </p>
<p>Em questão de segundos (na concepção humana, claro), Jorge tinha à sua frente um pedestal com um grande livro de capa de couro aberto. Atrás do pedestal, havia uma pequena estante com todos os livros escritos pelos humanos a respeito do Novo Evangelho, com estudos e interpretações feitos até o momento, aprovados pelo próprio Pai Celestial. Ao todo, eram quinze. Jorge segurou o livro de capa de couro nas mãos. Estava emocionado por tê-lo em mãos e ao mesmo tempo arrependido de ter atirado à lixeira o panfleto recebido naquele fatídico dia em fins dos anos oitenta do vigésimo século da era moderna. Sentou-se ao chão com o livro e pôs-se a ler, enquanto o Porteiro o observava.</p>
<p>- Leve o tempo que precisar, garoto. Aqui não temos essa noção humana.</p>
<p>Quando Jorge finalmente chegou à última página, mal podia acreditar no que acabara de ler. Estava em choque. O Porteiro estava ansioso para saber o que ele tinha achado do livro e quase arrancava a longa barba ao puxá-la, entre preocupado e satisfeito por ter tentado ajudar mais uma boa alma a escapar do lago de fogo e enxofre.</p>
<p>- O que achou, garoto? &#8211; pergutou o Porteiro, com alguns fiapos de barba nas mãos.</p>
<p>- Uma batata?</p>
<p>- A Batata. A Grande Batata Búlgara, olha o respeito!</p>
<p>- Mas por quê?</p>
<p>Ambos estavam assentados em uma pequena mesa, tomando qualquer coisa quente em grandes canecas de porcelana. Uma bela garota de avental branco serviu-lhes bolinhos, mas Jorge nem a olhou. Não tinha necessidades humanas ou libido, aquele cenário servia apenas para tentar confortá-lo. Ainda estava abalado. O Porteiro Celestial tentava esclarecer as coisas.</p>
<p>- Quando o Pai Amado percebeu que vocês eram tapados demais &#8211; o Porteiro balbuciou um &#8220;desculpe&#8221; sem jeito, depois da última frase incompleta. -, digo, que você não tinham, assim, como posso dizer?&#8230; Uma compreensão do todo e da complexidade da beleza do universo que Ele criou para vocês habitarem, decidiu que era melhor simplificar as coisas tanto quanto fosse possível. Eu e alguns santos tentamos advertir o Velho de que isso poderia dar problema, mas Ele foi irredutível. E sabe como é, todas essas eras administrando tudo isso, quem éramos nós pra querer saber de alguma coisa mais que o Mestre, né? </p>
<p>Jorge sorvia o conteúdo da caneca. Era doce, mas de um doce delicioso que ele jamais imaginara provar em sua existência terrena ou em qualquer outra existência possível. Mas ignorava aquele sabor divino e tinha o olhar perdido nas fibras da mesa de madeira.</p>
<p>- Mas&#8230; uma batata?</p>
<p>- A Grande Batata Búlgara. &#8211; corrigiu-o o Porteiro.</p>
<p>- Isso. A Grande Batata Búlgara. Por quê?</p>
<p>O Porteiro Celestial bebeu mais um gole da caneca e prosseguiu na explicação.</p>
<p>- Como eu estava dizendo, o Maravilhoso achou melhor que vocês concentrassem suas adorações em algo mais fácil de imaginar. Ele achou que um ser que sabe de tudo, está em tudo e pode fazer tudo era muita coisa para a cabecinha de vocês lidar e achou que uma batata mágica&#8230;</p>
<p>- A Grande Batata Búlgara. &#8211; corrigiu-o Jorge.</p>
<p>- Isso, a Grande Batata Búlgara. Ele achou que a Grande Batata Búlgara era um conceito menos abstrato e mais fácil de ser entendido por vocês.</p>
<p>- E está sendo bem entendido?</p>
<p>O aparelinho onde o Porteiro consultou os arquivos de Jorge apareceu novamente em suas mãos. Ele tocou algumas vezes na tela e continuou:</p>
<p>- Segundo as últimas pesquisas, o Novíssimo Testamento está se saindo relativamente bem. Não tão bem quanto o anterior, mas pelo menos não temos mais tanta gente vindo parar aqui depois de ter sido devorada por leões ou queimada em postes por imperadores loucos, né? &#8211; Ele deu uma risadinha para quebrar o gelo. &#8211; Mas sempre tivemos esses incrédulos que achavam tudo uma loucura no começo. É normal, eu acho. Com o passar dos séculos, logo o pessoal se acostuma. Que Javé me perdoe pelo que vou dizer agora, mas quer loucura maior que aquela coisa toda de matar carneiros e fazer churrasco pro Senhor dos Exércitos?</p>
<p>- É, acho que você tem razão. &#8211; concordou Jorge, já mais calmo.</p>
<p>- Bom, então acho que você está pronto.</p>
<p>- Com certeza!</p>
<p>Sorridente, o Porteiro Celestial conduziu Jorge pelos portões do Paraíso e ele então adentrou à Morada Divina, onde passaria a eternidade. Seu corpo se desfez e seu espírito flutuou calmamente até o altar onde ele e as demais almas salvas ao longo dos séculos louvariam o Eu Sou Quem Sou, que no momento tinha a forma de uma batata gorducha e repousava dentro de uma redoma brilhante.</p>
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		<title>Marina</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Mar 2011 21:24:02 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabiane Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[assassinato]]></category>
		<category><![CDATA[ficção]]></category>

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		<description><![CDATA[Os dois policiais interrogavam Marina. Um deles, o mais simpático, andava de um lado para outro tentando ligar as pontas do nada de informações de que dispunham sobre o assassinato para preencher os relatórios que ambos deveriam entregar ao fim &#8230; <a href="http://fabianelima.com/blog/marina/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os dois policiais interrogavam Marina. Um deles, o mais simpático, andava de um lado para outro tentando ligar as pontas do nada de informações de que dispunham sobre o assassinato para preencher os relatórios que ambos deveriam entregar ao fim do dia. O outro, mais dado a acessos de raiva e impaciente, estava sentado à mesa encarando a moça. Não conseguira extrair nada dela.</p>
<p>- Conte-nos, Marina. Por que motivo atirou no seu marido?</p>
<p>Ela permaneceu no mesmo silêncio em que estava nas últimas duas horas, desde que fora presa ainda empunhando o revólver de cabo de madrepérola. Dos três tiros, um acertou o ombro, outro o abdômen, mas um deles foi certeiro no coração da vítima, tornando cruelmente literal o que John havia descrito em palavras na última briga que ele e Marina tiveram. Ela destruía corações.</p>
<p>John não sabia o que fazer com as mãos. Tinha as pernas trêmulas e esbarrava com freqüência nos móveis enquanto caminhava de um lado a outro, tentando conter o nervosismo e não acordar as crianças. Marina estava há horas trancada no quarto, e quando saiu, tinha as malas feitas.<br />
- Marina, não vai se despedir dos nossos filhos?</p>
<p>John pediu-lhe que ficasse. Pelas crianças. Ela estava decidida e caminhou em passos firmes em direção à porta da rua. Não se deixou abalar nem colocou óculos escuros; não havia o que disfarçar, Marina estava feliz em abandonar aquela vida simples e pobre.</p>
<p>O belo Cadillac a esperava na porta e a levou para uma bonita casa do outro lado da cidade, pra bem longe de seus primeiros anos fora da casa dos pais, quando fugiu aos dezesseis. Abandonou a escola e tomou um ônibus em direção a outro estado. Tornou-se garçonete e amante do dono do estabelecimento, até que John entrou pela porta da lanchonete fazendo-a mudar os planos.</p>
<p>Marina era jovem mas sempre teve os homens que quis. Mudou novamente os planos por Ronald, que deu-lhe luxos que ela jamais imaginaria com John, e foi por isso que ela o trocou por este. Ronald a levava para passear de carro e a fazia delirar com a velocidade que atingia atrás do volante. Dava-lhe vestidos e jóias, mas fez pouco disso depois que ela foi morar com ele, abandonando sem remorsos a família que formara quase que por acaso com John.</p>
<p>Depois que os filhos vieram, ela sentiu-se tragada pelas profundezas, obrigada a se fixar, e por isso quase morreu de tristeza. John pegou jornada dupla na companhia de construção para que ela pudesse ficar em casa com as crianças e chegava cansado tarde da noite. Também foi por isso que Marina o deixou.</p>
<p>Ronald, ao contrário, tinha o dobro da idade dela, era viúvo, rico, e tinha tempo para aproveitar sua riqueza. Teve muitas outras meninas como Marina, mas somente ela o convenceu a se casar. E casaram numa pequena cerimônia particular arranjada às pressas ao lado de um cassino, amarrando latinhas no para-choques do Cadillac. Marina, no entanto, não o agüentou nem por um mês depois disso, matando-o com três tiros numa estradinha em direção ao lago.</p>
<p>Marina tinha o olhar perdido na mesa da sala de interrogatórios. A arma com cabo de madrepérola, ainda manchada de sangue, repousava sobre a mesa dentro de um saco plástico. </p>
<p>- Ela deve estar em choque. Vou anotar aqui, &#8220;crime passional&#8221;. &#8211; disse o policial mais arredio, cansado de trabalhar sem resultados.</p>
<p>O mais simpático dos polícias era também o mais analítico da dupla, e olhava fixo para as unhas vermelhas nas mãos de Marina que estavam pousadas delicadamente sobre a mesa, ainda não convencido da motivação emocional do crime.</p>
<p>Marina, sem desviar os olhos do horizonte imaginário que perseguia, disse com voz calma:</p>
<p>- Eu não suportava o modo como ele dirigia.</p>
<p>Era com as unhas pintadas de vermelho que ela estava quando fugiu de casa, deixando um bilhete para a mãe.</p>
<hr/>
Baseado na música &#8220;<a href="http://www.brucespringsteen.net/songs/FromSmallThings.html">From small things (Big things one day come)</a>&#8221; do Bruce Springsteen.</p>
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		<title>Estupro? Ela pediu!</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Feb 2011 15:16:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabiane Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[mundo estranho]]></category>
		<category><![CDATA[estupro]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo]]></category>

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		<description><![CDATA[Ontem me chegou a notícia de que uma repórter americana a serviço da CBS no Egito, Lara Logan, foi cercada por uma turba de 200 animais (porque não dá pra chamar de gente) e brutalmente agredida e estuprada. Logan cobria &#8230; <a href="http://fabianelima.com/blog/estupro-ela-pediu/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ontem me chegou <a href="http://www1.folha.uol.com.br/mundo/876227-correspondente-da-cbs-foi-estuprada-na-praca-tahrir-no-egito.shtml">a notícia</a> de que uma repórter americana a serviço da CBS no Egito, Lara Logan, foi cercada por uma turba de 200 animais (porque não dá pra chamar de gente) e brutalmente agredida e estuprada. Logan cobria a revolução egípcia e estava na praça Tahrir, no centro da cidade do Cairo, quando tudo aconteceu.</p>
<p><iframe title="YouTube video player" width="640" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/BixK7Met588" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p>É interessante pensar que há quem diga que nós, ocidentais, somos muito mais civilizados que esse grupinho que habita essa distante parte do planeta, que aqui os direitos femininos, de gênero e raça são muito bem respeitados sim senhor, e que quem reclama quer só chamar a atenção, é feminazi e se faz de vítima. Esperar o quê de gente que é desde pequeno educado a pensar que, se uma mulher é abusada sexualmente, <a href="http://www.watchtower.org/t/my/article_20.htm">a culpa é dela</a>, ela que fez alguma coisa errada?</p>
<p><iframe title="YouTube video player" width="480" height="390" src="http://www.youtube.com/embed/NTxUWQ2IE6s" frameborder="0" allowfullscreen></iframe></p>
<p>Basta fazer uma busca rápida por &#8220;Lara Logan culpa&#8221; pra ver o pessoal destilando toda a sua humanidade e seus ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, dizendo coisas como (todas elas achadas em <a href="http://forum.esporte.uol.com.br/jornalista-americana-sofre-estupro-no-egito_t_1340134?&#038;page=1">um único fórum</a>):</p>
<blockquote><p>Quem pode culpar os caras&#8230;<br />
tambem, olha a jornalista q mandam pro meio daquele inferno<br />
Sofreria estupro em qualquer lugar perigoso.<br />
Também, olha essa mulher, quem não estupraria?<br />
Tá certo os caras, eu faria o mesmo<br />
Eu não estupraria, eu chamaria pra sair, daí sim, em caso de recusa&#8230;<br />
gata assim, no meio de um país só com mulhe feia e peluda, numa revolução, praticamente pedindo para ser estuprada&#8230;.<br />
EU FARIA O MESMO KKK<br />
MULHER BURRA, FALO MERMO.<br />
ELA DEVIA SABER QUE ELA FOI ENVIADA JUSTAMENTE POR ISSO, PRA BAUDUCAREM OS CARAS.<br />
QUEM EM SÃ CONSCIÊNCIA ENVIARIA UMA MULHER DESSA EM UM MOMENTO DE TENSÃO SOCIAL, DE BARBÁRIE??</p></blockquote>
<p>Brincadeira ou não, não tem a menor graça. Pode ter pra quem não é mulher nem tem medo de andar por aí sozinha de noite sem medo de ser agredida. Ah, mas é óbvio, né? Ela <em>pediu</em> por isso, deu mole, sabe que mulher tem que ter mais cuidado, etc. Pois eu digo somente: <strong>ninguém deveria ter medo de sair na rua por simplesmente ser quem é</strong>.</p>
<p>O dia em que piadinhas machistas, homofóbicas e racistas perderem a graça, aí sim poderemos falar em igualdade.</p>
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		<title>Dilema</title>
		<link>http://fabianelima.com/blog/dilema/</link>
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		<pubDate>Mon, 31 Jan 2011 18:03:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabiane Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[contos]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[dilema]]></category>
		<category><![CDATA[dinheiro]]></category>

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		<description><![CDATA[Foi tudo muito rápido. Um rapaz vestindo terno e portando um imenso microfone abordou Renato na rua, acompanhado de um cinegrafista, que zanzava em torno dele e de sua namorada tentando obter o melhor ângulo. O rapaz falava mais rápido &#8230; <a href="http://fabianelima.com/blog/dilema/">Continue reading <span class="meta-nav">&#8594;</span></a>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Foi tudo muito rápido. Um rapaz vestindo terno e portando um imenso microfone abordou Renato na rua, acompanhado de um cinegrafista, que zanzava em torno dele e de sua namorada tentando obter o melhor ângulo. O rapaz falava mais rápido do que qualquer ser humano estaria habilitado a entender, ainda mais sendo pego desprevenido e com um crescente punhadinho de pessoas ao redor.</p>
<p>- Vostrocriasuanamoradporumilhãoderais?</p>
<p>- Hã?</p>
<p>- Trocaria ou não trocaria?</p>
<p>- O quê?</p>
<p>- Sua namorada por um milhão de reais. Trocaria?</p>
<p>Nesse momento, Renato lembrou-se do famoso programa de televisão que fazia propostas indecentes a transeuntes aleatórios na rua. Dia de sorte?</p>
<p>Também nesse momento, a namorada lançou-lhe um olhar ameaçador. A platéia já tinha aumentado bastante e uma pequena torcida a favor da namorada, composta principalmente por mulheres, se formava ali. De repente, um outro rapaz apareceu abrindo caminho entre a multidão, cochichou alguma coisa no ouvido do entrevistador e sumiu tão rápido quanto apareceu.</p>
<p>- A produção acaba de me informar que o cheque de um milhão de reais já está esperando para ser entregue. Mas é preciso decidir agora! &#8211; disse o rapaz do microfone para a câmera.</p>
<p>O olhar da namorada agora já não era de ameaça, mas um misto de pavor, rancor e despeito, que fazia Renato engolir em seco temendo as conseqüências de sua escolha. Então sua face se iluminou.</p>
<p>Ele se lembrou de todos os momentos com a namorada, de todo o dinheiro gasto com programas chatos de casalzinho, de todos os amigos (e principalmente amigas) de quem tinha se afastado por conta da garota ao seu lado, e que além de tudo ainda regulava o pouco sexo que faziam. Lembrou-se de tudo o que passava para conseguir alguma coisa que realmente valesse a pena naquele relacionamento. E lembrou-se, não sem uma ponta de tristeza, que aquela sensação de tempo perdido não era recente. O momento era aquele. <em>Alea jacta est</em>.</p>
<p>- Trocaria.</p>
<p>A multidão aglomerada em torno do casal e da equipe de reportagem explodiu em êxtase. Vivas e gritos indignados competiam por espaço, e até a polícia foi chamada quando as pessoas descontroladas começaram a depredar postes, lixeiras, bancos, e lojas ao redor. Mas antes que a confusão tomasse maiores proporções, já estava controlada.</p>
<p>Enquanto isso, a namorada se debulhava em lágrimas e gritos histéricos, e tentava bater no agora ex, impedida apenas pelo rapaz de microfone em punho, que acabava levando a maioria dos tapas e socos.</p>
<p>Renato foi imediatamente levado a um prédio grande e cheio de vidros, onde funcionavam os estúdios de televisão para o qual o cinegrafista e o rapaz do terno trabalhavam. Recebeu tratamento de primeira: camarim privado, maquiadores, massagistas, bebidas caras, roupas novas. Estava gostando muito de toda aquela paparicação e quase não acreditando na reviravolta que sua vida tinha levado. &#8220;Pelo menos para alguma coisa me serviu aquela desgraçada&#8221;, pensava ele.</p>
<p>Naquela mesma noite, ele foi conduzido ao palco do programa de auditório que propunha o desafio, e recebido como um pop star. As muitas luzes o deixaram momentaneamente cego, e com alguma dificuldade ele chegou até a poltrona que o apresentador lhe oferecia. Ele estava na tevê, e no momento milhares de pessoas por todo o país o viam e acompanhavam sua rápida ascensão financeira.</p>
<p>O apresentador do programa fez as cerimônias usuais e as chamadas dos patrocinadores até que finalmente se dirigiu a Renato, entregando-lhe um microfone. E amigavelmente, começou o questionário:</p>
<p>- Qual o seu nome, garoto?</p>
<p>- Re-renato. &#8211; gaguejou ele.</p>
<p>- Então, Renato, parece que hoje é seu dia de sorte, não é mesmo?</p>
<p>A platéia vibrou em aplausos. Elegantemente vestido, o apresentador fez sinal para um assistente e uma grande caixa foi trazida ao palco. Cheio de afetação, ele então se dirigiu novamente a Renato:</p>
<p>- Você já conhece o nosso programa, Renato?</p>
<p>- Sim. &#8211; disse ele que, apesar de conhecer de ouvir falar, nunca tinha de fato assistido ao programa. Não queria parecer indelicado.</p>
<p>- Então você sabe como funciona a mecânica dele. Então você já sabe que não basta apenas aceitar o desafio de largar tudo por um milhão de reais. Há mais um desafio!</p>
<p>Um painel luminoso onde se lia a quantia de dinheiro do prêmio se acendeu atrás dos dois. A platéia novamente apladiu ruidosa, orientada pelo sinal dos assistentes. Renato balbuciou um quase ininteligível e surpreso &#8220;Como assim?&#8221;, e a grande caixa trazida ao palco foi posta ao seu lado.</p>
<p>- Dentro dessa caixa &#8211; começou o apresentador &#8211; há uma pessoa. Você deve interagir com ela por uma hora de forma, digamos assim, mais íntima. Haverá uma censura na televisão aberta, mas nossos espectadores do <em>pay-per-view</em> terão acesso a tudo o que acontecerá dentro da caixa. Ainda há tempo de desistir.</p>
<p>Renato começou a suar frio e tremer. Achou que fossem as luzes do estúdio quando sua pressão sangüínea começou a cair, mas um pressentimento ruim invadiu-lhe a mente e o nervosismo já não era mais disfarçável. Sentiu que tinha sido traído, levado para uma arapuca, um beco sem saída. </p>
<p>Uma fortuna estava em jogo. Toda uma nova vida cheia de regalos e luxos esperava por ele, bastava dizer sim e aguardar as conseqüências, fosse o que fosse. E fosse o que fosse, seriam apenas sessenta minutos. Quem quer que fosse que estivesse ali dentro, pensava ele, com toda a certeza não era uma linda mulher de seios avantajados. Havia um truque. Mas&#8230; um milhão de reais! Um milhão de reais não se ganha assim, de um dia para outro, e esse tipo de oportunidade certamente não bateria em sua porta de novo.</p>
<p>- Topa ou não topa o desafio?</p>
<p>A tensão na platéia era tão grande quanto a do palco. Câmeras, assistentes e operadores roíam unhas. Renato ouviu cochichos dizendo que ninguém antes havia topado o desafio, e sua certeza de que havia um truque ali aumentava ainda mais. Os índices de audiência estavam tão altos quanto há muito não se via na televisão em tempos de internet. Todos estavam em silêncio aguardando a resposta.</p>
<p>- Topo.</p>
<p>Um homem musculoso de cerca de dois metros de altura, besuntado de óleo e com uma tanga minúscula cobrindo-lhe as partes abriu a porta da caixa. Renato engoliu em seco. Estava milionário.</p>
<hr/>
<p>Inspirado em <a href="http://twitter.com/#!/luide/status/31928695237120000">dois</a> <a href="http://twitter.com/#!/luide/status/31928000006070272">tweets</a> do @luide.</p>
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		<title>Amigos</title>
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		<pubDate>Sun, 09 Jan 2011 20:48:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Fabiane Lima</dc:creator>
				<category><![CDATA[divagações]]></category>
		<category><![CDATA[mundo estranho]]></category>
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		<category><![CDATA[filhos]]></category>
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