Inovar, comofas?

Todo ano sites divulgam por aí as trends de design. E os designers não se tocam que, na verdade, eles têm que FUGIR das tendências… De modo algum estou dizendo que as tendências de design têm resultados ruins. Longe disso. O problema é que tudo cai na mesmice.

Lembram quando a Apple começou com os designs estilo Aqua que, como dizia tio Jobs, “eram tão bonitos que davam vontade lamber”? Virou a marca registrada do estilinho web 2.0, os sites e até a mídia impressa, todos com a mesma cara, a mesma paleta de cores, os mesmos brilhinhos artificiais. Esse estilo apareceu por volta do início desta década, com o lançamento do Mac OS X. Hoje a Apple nem usa mais, mas tem gente que ainda apela pra ele.


Yummy!

O meio da década, em compensação, foi dominado pelos toy arts e ilustrações vetoriais fofinhas. E agora, o sketchy se juntou aos toy arts, e é trendy, é o novo Aqua.


Pra quê pensar? O brush do Illustrator faz pra mim!

Outra coisa que tá na moda também: letterpress. Faça QUALQUER COISA com efeitinho de letterpress e fará sucesso. Não sabe? Pois tome aí uma listinha de dez tutoriais com o maldito efeito letterpress que, já vou avisando, só fica legal em papel de verdade.

Chefe diz: Aprovado! Tá igualzinho o do concorrente!

Mas sabe o que me irrita mesmo no design hoje? Aquela montagens de Photoshop hipercoloridas e cheias de “swoosh” dos @abduzeedo da vida. E aquela imagens cafonésimas em HDR que todo mundo acha a última bolacha do pacote, como bem lembrou minha ex-colega de faculdade, @azedinho.

Se algum dia eu abrir o Photoshop e fizer uma coisa DESSAS, por favor me matem, eu cheguei no fundo do poço. Esse é o tipo de coisa que, por mais frustrada e mal paga que eu seja, jamais vou fazer na VIDA. Não me levem a mal, a maior parte do conteúdo do @abduzeedo é ótima, mas IMHO essas digital arts já deram tudo o que tinham que dar, estão pra lá de gastas.

Mas quem sou eu pra dizer? Tem uma ilustra estilinho toy art no meu site!

Eu também não sou grande coisa como designer. Tenho vergonha do meu DeviantArt, faz mais de um ano que estou enrolando pra fazer meu portfolio – e perdendo ótimas oportunidades de trabalho por causa disso -, porque sinceramente não sei o que botar nele. Só que eu tenho senso crítico. Talvez este mesmo senso crítico que esteja me atrapalhando a conseguir algo melhor, mas é justamente ele que me faz correr atrás de aperfeiçoamento. É ele quem me alerta que a coisa ainda não está legal.

O problema é que designer se forma, se descobre num mercado de trabalho maluco, acaba se prostituindo por salário de 3 dígitos e, descontente, faz qualquer coisa, topa qualquer parada. Tá uma merda, mas o cliente gostou? Ótimo, não preciso gastar minha massa encefálica tentando melhorar isso aqui, eu só quero bater o cartão e ir embora. Com a regulamentação da profissão, pisos salariais e outras regalias pode ser que a situação tende a melhorar e não sejamos mais registrados como “operadores de software gráfico”.

Achou exagerada a situação do parágrafo anterior? Pois é o que estou vivendo neste exato momento.

E aí você vira pra mim e diz: OK, Fabi, você venceu. Agora me diga, como vamos inovar? E eu respondo: Não sei! Eu não faço idéia, e se fizesse, com toda certeza NÃO te contaria, pois estaria muito ocupada ganhando dinheiro com minha idéia exclusiva.

Agora é eu quem pergunto: e tem como fazer algo diferente, inventar algo que nunca foi feito antes, ou pelo menos foi pouco explorado? Vários twitteiros sugeriram passear, buscar referências, esfriar a cabeça e misturar novas e velhas idéias. Isso pode ajudar, mas nem sempre podemos dar aquela pausa e ir no sebo mais próximo olhar capas de discos dos anos 70 para incorporar algumas idéias em nossos layouts.

Na maior parte das vezes, estamos presos, acorrentados às nossas estações de trabalho, quem sabe até sem nem poder usar o Google Images devido a políticas hiper-restritivas de uso da internet por empresas retrógradas. Já sentiu isso na pele? Eu e alguns colegas já, e também ouvi outras histórias bem escabrosas.

Cobram-nos designs bonitos, criativos, inovadores, usáveis. No fim, a tal da criatividade e da inovação acabam sendo confundidos com um copão de café ao lado do monitor, porque só mesmo muita cafeína pra manter certos peões sob a alcunha de designers animados o suficiente para mover o mouse e criar um layout minimamente aceitável. Pobre de mim que sou imune a tão preciosa substância!

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P.S.: O desabafo descordenado acima é fruto de uma epifania que tive no Twitter esta manhã. Se você se sente como eu, quer partilhar experiências, ou até mesmo dar umas dicas de como sair dessa, por favor faça uso do campo de comentários abaixo.

P.S. 2: Cada um dos exemplos de efeitos gráficos usados no texto foi feito em cinco minutos (ou menos) no Illustrator por esta que vos escreve.

15 thoughts on “Inovar, comofas?

  1. As pessoas veem a palavra “inovar” de um jeito muito extremista, muito radical. Quando você leva a palavra ao pé da letra, fica impossível fazer algo “verdadeiramente” novo. Importante mesmo é experimentar, misturar, adquirir o máximo de conteúdo e experiência. Só assim é possível encontrar o seu próprio estilo. Ou não.

  2. Interessante notar que esse tipo de arte que você citou como mau exemplo vive frequentando meu RSS precedida dos adjetvos “Awesome”, “Outstanding”, e etc.
    Lembremos sempre que em design (na verdade, acho que em arte e comunicação de uma forma geral) “você é o que você come”, ou melhor, se as referências visuais da pessoa se limitam unicamente ao que os blogs de design estão achando bacana marcar como “Tendências para 2010″, é só isso o que vai sair do mouse/tablet/pena/pincel da figura.
    Tenho consciência de que o acesso a literatura e bons sites com referências realmente valiosas não é tão fácil quanto possa parecer, mas será que essa não é a oportunidade de procurar referências mais inusitadas? Estamos falando de fugir do lugar comum, afinal.
    Quantas das texturas de cartaz rasgado que você vê nos muros a caminho do trabalho não vão de ajudar mais do que o post “15 awesome photoshop textures” lá do blog X? Será que a blusa listrada da moça no ponto de ônibus não tem um esquema de cores mais surpreendente que a última postagem do colourlovers?
    De resto, uma jovem designer escrevendo um post sobre isso já mostra que AINDA não há razão pra desanimar…

  3. Faço das suas palavras as minhas. Sempre (SEMPRE!) o que querem é aquilo que já existe e que “supostamente” está na moda do design.

    Essa galera de hoje se acha designer porque sabe usar o Photoshop, e isso é beeem grave. O que acaba sendo esquecido é que por trás de uma bela peça está o conceito. Se aquilo lá não tiver uma razão, uma boa ideia por trás, não serve pra absolutamente nada. De verdade.

    E o que você falou de estarmos presos é bem uma verdade. E eu percebi que, quando você quiser inovar, mas estiver trabalhando para outras pessoas, não vai conseguir. Parece que não existe isso hoje em dia. Ou você faz o que te pediram, ou faz o que te pediram. Você pode tentar fazer do seu jeito, mas o “cliente” sempre vai ter uma ideia que ele considera melhor do que a sua.

    Existem hoje designers e diretores de arte que trabalham “do jeito deles”. Você só consegue encomendar um trabalho se puderem fazer como querem. E eles não tem ninguém para dar ordens, nenhum “chefe”, saca?

    Infelizmente é assim que funciona – é o sistema. Enquanto você quiser ganhar o seu salário, trabalhando para os outros, é assim que vai ser. Mas nunca desista, um dia você chega lá e faz as coisas do seu jeito. ;)

  4. Primeiro, um disclaimer. Além de pastar nesse meio há quase 20 anos, sou um mantenedor de um site sobre Photoshop, que tem colaborações de leitores.
    Perto de metade dessas colaborações são fotocolagens com os mesmos surrados, bregas e ridículos swooshes florais, que recentemente andaram monopolizando a arte publicitária. Por quê? Simplesmente porque a revista ensinou a fazê-los, e as pessoas copiam os tutoriais como treino, substituindo a modelo da imagem original pela pretendente do momento.
    Essa constatação nos leva ao coração da questão: como inovar? Como não ser mais uma barata numa colônia de baratas?
    A resposta é: CULTURA.
    Se eu tenho uma personalidade distinta nos meus trabalhos gráficos, é porque estudei outras escolas visuais que estão distantes ou ocultas do que hoje é considerado “referência” pelo modismo do momento, que por definição é algo estreito em seu foco.
    Basta adquirir cultura. Muita dela. Mas isso vai ter que ser fora do mundinho acadêmico/profissional, totalmente tomado pelos modismos.
    Acabaram as ideias? Saia para a rua, viaje, visite um museu, leia um livro. Não dói tanto.

  5. Na Arquitetura, mesma coisa: inovar?!
    Meu filho, nem que você construa um prédio feito de BOSTA, vc estará inovando, até isso já existe por aí (vida egípcios e o Adobe).

    Bom, aqui no Brasil, tua profissão realmente é ingrata, prima.
    Não reconhecida, não regulamentada,
    sequer entendem o que vocês fazem.

    Se até ARQUITETO ainda precisa EXPLICAR o que faz, imagine um DESIGNER.
    Pfff…

    Vamos fugir?!

  6. Olha, Designer tem que fazer como eu: Ou inova ou copia o layout dos outros. Eu escolhi a segunda opção.

    Quando aprendi algo de análise de sistemas no curso técnico, o prof Neucy falava que a gente tem que pensar no que o cliente quer. Mas ele nunca sabe o que quer.

    Eu com minha DSC-H9, as vezes sou requisitado para fotografar eventos e profissionais aqui da região com câmeras tipo D90, D80, D40, e muito mais experiencia que eu nao são chamados (mesmo eu dizendo que vou cobrar o dobro) só por causa das fotos que eu tiro porcamente as vezes. O Cliente gosta? Faze-o-que?

    Escrevi dois artigos sobre quando chamar um profissional :
    http://oxenti.com/www/2009/09/25/quando-chamar-um-profissional-fotografia/

    http://oxenti.com/www/2009/09/19/quando-chamar-um-profissional-para-desenvolver-seu-site/

    Não adianta brigar com a torcida do flamengo, eles sempre vão achar que são hexacampeões. Não importa que a FIFA, o PAPA ou o próprio time diga que eles são penta e o Cliente é igual : Se ele cismar que um layout feito com tabelas no publisher é legal pra ele, bom, vc não poderá discordar.

  7. Como eu havia twittado anteriormente, o designer não pode também querer estar acima do cliente. Se o cliente gostou do layout/edição de um jeito, o designer não pode fazer nada muito além de aconselhar e tentar mudar a opinião do cliente, que se não concordar deve ser respeitado.

  8. confesso que eu ia falar “e teu site pessoal não tem um quê de modismo”?
    mas você mesma admitiu.

    infelizmente é difícil inovar, a não ser que você faça um trabalho extremamente autoral, ou que seus clientes sejam clientes utópicos, que te dão prazos mirabolantes, total liberdade criativa e te OUVEM. no mundo real, quando vc precisa ganhar 3 dígitos pra pagar as contas e é subordinado, você acaba se submetendo a fazer diversas merdas. somos todos umas prostitutas do design!

  9. só um adendo: não vejo como a regulamentação da profissão pode melhorar a questão da falta de inovação. ganhar mais e ter garantias não significa trabalhar melhor, no meu ponto de vista.

  10. Eu não sou designer, mas se você quer boas artes, imagine. A arte imaginada é melhor que a arte copiada e a arte imaginada com estilo de copiada pode ser melhor ainda.

    Você até pode ter técnicas para design, afinal isso é requirido mas você precisa ter imaginação e é dela que vem a criatividade.

    Pelomenos é o que acho…

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