Pequena Lista de Músicas Supostamente Engajadas com Letras Bobas e Batidas Ótimas

Tenho ouvido muito synthpop ultimamente. Quero saber o que anda tocando além das músicas que se envolvem em polêmicas no Facebook, mas não sei direito por onde começar. Muito do que é novo que ouço por acaso parece bom, mas não me lembro de ir atrás depois por não me cativar o suficiente. E o resto é baseado em algo que já foi feito trinta anos atrás e muito melhor.

Enfim, tenho ouvido muito synthpop ultimamente, coisa velha. No trabalho, em uma sala cheia de gente, em uma função que exige concentração, às vezes o putz-putz é a única opção viável. Além disso, fica ótimo com a dose certa de guaraná em pó. A alternativa é cair no sono. Dentro desse papo de letras ofensivas e/ou empoderadas que andou rolando no Facebook, comecei a prestar atenção nas letras das músicas que eu ouvia e resolvi elaborar esta Pequena Lista de Músicas Supostamente Engajadas com Letras Bobas e Batidas Ótimas.

Seja por sempre se assumir que a função desse estilo é dançar quase num estado de transe em festas de um tipo que são cada vez mais raras hoje em dia — em comparação com o auge da cultura clubber dos anos 1980 e 90, seja por ser de um estilo próprio de um nicho muito específico e fazer parte apenas de playlists entituladas com termos como (heresia!) “revival” ou “nostalgia”, não lembro de ver muita gente questionando ou discutindo o conteúdo lírico dessas produções artísticas.

Os Pet Shop Boys se apresentaram em Curitiba no ano passado com uma equipe relativamente enxuta, o que deixou ainda mais evidente algo que gosto muito na banda, que é sua simplicidade musical. Ainda que tecnicalidades a respeito de música não sejam exatamente uma especialidade minha (nem campainha ando tocando mais), suponho que seja possível reproduzir a maioria das suas músicas com certa fidelidade fazendo uso de um teclado sequenciador e uma drum machine.

No quesito lírico, a banda sempre me pareceu muito astuta. Um exemplo disso são os títulos das canções, como “I don’t know what you want, but I can’t give you anymore” e “How can you expect to be taken seriously?”. Quanto às letras propriamente ditas, eles não costumam ser nem muito econômicos nem muito dramáticos — os dois extremos pra onde tendem as letras na música eletrônica em geral. São ótimas músicas pop, ao mesmo tempo que têm nelas uma gracinha rara de se encontrar.

No ano passado, enquanto se aproximava o show dos Pet Shop Boys na cidade, comecei a pensar nas músicas que gostaria de ouvir ao vivo e me dei conta que uma das minhas músicas favoritas deles tem uma letra bem… boba, para dizer o mínimo. Em defesa da banda, a música é uma versão.

A “It’s alright” do PSB tem poucas diferenças para a original em termos eletrônicos, que é de Sterling Void e Paris Brightledge, e foi lançada em 1989. Segundo consta na Wikipedia, Lowe e Tennant ouviram a música em algum lugar, acharam o máximo e quiseram botar a versão deles no disco “Introspective”.

Lançada em 1988, já nos primeiros versos a música mostra a que veio em termos de letra: uma referência direta ao Taliban no Afeganistão — mas sem citar nomes —, seguida de algo igualmente vago sobre a África do Sul. Logo em seguida, talvez para não falar em União Soviética com todas as letras, talvez por falta de habilidade do letrista em distinguir o que havia atrás da cortina de ferro, fala-se em opressão na Eurásia. E acaba por aí a análise geopolítica [1]: a partir daqui, o que parecia ser uma prece pela melhora de todas essas complicadas situações se converte em um foda-se.

O clipe, cheio de bebezinhos, é de uma fofura que não dá para entender direito. Por mais que a mensagem de um futuro melhor esteja aí presente, a letra ainda é um hino hedonista. Gerações virão e irão, mas a Música durará até a Consumação dos Séculos, porque Ela é o que nos sustém, então vamos chapar o globo, tacar fogo na pista e apagar com o cabelo.

Se você chegou até aqui nesse texto, estou ciente de que posso ter passado a impressão errada a respeito do que acho da música comentada. Considere que eu estava enumerando músicas que eu gostaria muito, demais mesmo, de ver os Pet Shop Boys tocar ao vivo. Se eu gostaria disso, é porque gosto da música. A letra ajuda muito no gostar de uma música, e por vezes — como os exemplos das últimas semanas podem demonstrar —, são fatores determinantes justamente no não gostar. A letra boba não me incomoda de modo algum nessa música. Ingênua ou niilista, quem se importa, se junto vem essa melodia maravilhosa?

Pensei, depois, em algumas músicas para figurar uma possível lista para um possível texto como este aqui que você está lendo. O YouTube me presenteou com a pérola que você pode ver abaixo: uma pequena apresentação em algum momento dos anos 1980 onde Depeche Mode e New Order tocam no mesmo palco, na Alemanha, num festival chamado Musik Convoy. E qual música o DM escolhe para fazer lipsync e pagando um micão, com o New Order entrando ao vivaço depois deles [2]?

Eu poderia citar mais uma pá de música do Depeche Mode mais ou menos nessa linha além de “People Are People”, como “Everything Counts” — cuja letra tem o mesmo grau de vagueza que “It’s alright” e tenta aí ser um grito de protesto contra as grandes corporações, acho — ou “Blasphemous Rumours”, que supostamente fala de suicídio e a influência maligna da religião, algo que me fez gostar muito dela em uma certa época da minha vida. Mas, se não me engano, essas letras são todas do Martin Gore, que é darks desde antes de ser darks estar na moda. Chega uma hora que não dá mais pra separar pseudo-ativismo de drama.

Para fechar a lista, outra música sensacional [3], com um clipe idem, que você pode apreciar abaixo. Não estava conseguindo identificar muito bem a mensagem por trás de “Chorus”, do Erasure. Ainda que alguns versos isoladamente parecessem passar uma mensagem, no todo, a música parece uma colcha de retalhos de mensagens supostamente em favor do meio ambiente e anticonsumismo.

A Wikipedia não trouxe muitas informações relevantes a respeito da mensagens que os artistas quiseram passar com essa música. A letra, que evoca ganância algumas vezes, e aponta para um fim triste e seco dos recursos naturais, como eu disse, parece às vezes um poema daqueles que o pessoal das vanguardas artísticas faziam com versos recortados em papeizinhos tirados de forma aleatória de um saquinho. Parece não parece fazer muito sentido. O tema geral está aí, em algum lugar.

Resolvi apelar para o site Song Meaning, que na verdade trata-se do primeiro resultado na busca por “erasure chorus meaning“. Na thread onde se discute o significado da música, algumas pessoas inferem alguma coisa sobre destruição da natureza, mas um comentário em especial chamou a atenção: em um tom que cheira a teoria da conspiração, um comentarista afirma que o Erasure possa ter “previsto” o uso de “solar shields” para combater o aquecimento global nos primeiros versos do refrão. E aparentemente, para minha surpresa, é mesmo uma das possibilidades sendo consideradas.

A internet é um lugar maravilhoso.


[1] Retoma-se a análise na segunda estrofe da música, mas fome e meio ambiente são temas batidos na música engajada.

[2] Ainda que o baixo zoado do Paul Hook tenha sequestrado todo o som. E o microfone do Sumner estivesse baixo demais em relação ao teclado da Gillian. E a única pessoa ali fazendo algo 100% correto seja o Stephen Morris.

[3] Nesta lista só tem músicas sensacionais.

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