Problemão de gênero, parte I: os prefácios

Faz já algum tempo que venho pensando em ler o Gender Trouble, que é basicamente a bíblia do movimento queer hoje. Esse livro surgiu de uma tese de doutorado escrita por Judith Butler em fins dos anos 80, e é seu trabalho mais conhecido, citado e reverenciado. Curiosamente, esse é um livro que, apesar de ser bastante citado nos chamados Estudos de Gênero, é muito provável que se alguém leu, o fez somente por trechos selecionados e xerox.

Sempre que falo desse texto, aponto para a ótima resenha do Rodrigo do Ó, que resume muito bem o ponto central discutido na obra e ainda dá uma contextualizada nos autores citados para sustentar o argumento. Se você ainda não leu o livro e pretende ter uma noção geral do que trata ali, sugiro que leia a resenha do Rodrigo, antes mesmo até de ler esse texto aqui. Vai lá, eu espero. 🙂

Confesso que, apesar de ter lido uma boa porção dele quando comecei o mestrado, ainda não tinha a carga de leitura que tenho hoje e, na época, não entendi metade do que foi dito e mal consegui contextualizar. É justamente por causa disso — e da sua influência (e dos embates que provoca) nos estudos feministas — que resolvi lê-lo de cabo a rabo e, ao mesmo tempo, ir fazendo uma leitura crítica por escrito dele. É disso que vai tratar essa série de posts que começo hoje e que não tem data ou periodicidade definidas, mas cuja leitura certamente vai acontecer nas minhas tediosas madrugadas insones e pode ser acompanhada on the fly no Twitter através da hashtag #livereadingGT.

Esse texto especificamente vai tratar dos dois prefácios do livro: o primeiro, escrito em 1999, fala das influências, reações e críticas que o livro provocou desde que foi publicado pela Routledge em 1990; o segundo, de 1990, é mais curto e serve mais para apresentar o conteúdo da obra propriamente dita. Já aviso que minha leitura crítica vai partir da minha própria orientação teórica, então deixo de sobreaviso ao eventual leitor ou leitora que aqui é feminismo radical, meu bem!

Prefácio (1999)

Então vamos lá: no primeiro prefácio (segundo na ordem de escrita), a autora vai falar de como ela não imaginava que sua tese seria tida como algo “inovador” na academia e, mais precisamente, na teoria feminista quando do envio dos originais à editora. Ela deixa meio implícito, acho eu, que sua intenção era exatamente essa: Butler afirma que o que queria com esse trabalho era combater algumas formas de teoria feminista, ela mesma se situando como parte do feminismo, olhando de dentro [1]. Ela usa o termo “embattled“, aliás.

Ela continua, então, dizendo que quando começou a escreveu sua tese de doutorado, incomodava bastante a ela o fato de que as noções de masculinidade e feminilidade serem tão exclusionárias e fechadas. Do seu ponto de vista, que enxerga gênero como uma expressão identitária, esse desconforto é até compreensível: se tais coisas fazem parte da expressão do ser das pessoas, e as pessoas acabam sendo punidas caso queiram se expressar de outra forma, é óbvio que se vai frustrar quando se mija fora da bacia. Porém, quando se estuda as formas como se deram essas construções da masculinidade e da feminilidade — que podem ser variar bastante de uma cultura para a outra, mas que são semelhantes o suficiente para serem definidas como duas categorias sociais bastante distintas e hierarquizadas, com uma dominando sobre a outra com base no papel que a pessoa desempenha na reprodução sexuada na espécie humana —, a gente entende que, apesar desses signos acabarem sendo adotados pelas pessoas como expressão de identidade, eles são frutos de um sistema que tem outra intenção. Aliás, ser adotado voluntariamente como parte de si mesmo, tanto pelos dominadores quanto pelos dominados, é justamente onde está a graça e a genialidade desse sistema de opressão, e é justamente o motivo porque é tão difícil se desvencilhar dele.

Butler, no entanto, não entra nessas questões. Ela acha que a estratégia mais apropriada pra lidar com esses “problemas de gênero” é justamente multiplicar as suas formas de expressão de modo a libertar as pessoas dessas amarras. Pensei comigo enquanto lia essa parte que a idéia dela é muito semelhante a tentar evoluir uma espécie que no momento se encontra envenenada por seus próprios hábitos hiperpoluindo seu meio ambiente [2]!

A autora vai ser bastante enfática ao falar de algumas teorizações feministas. Ela defende que algumas críticas feministas tendem à homofobia, mas mais adiante dá para entender que, ou ela entendeu errado o que essas feministas escreveram, ou ela deliberadamente se recusa a se ater ao ponto central do que essas feministas dizem. Butler defende que é preciso ser livre ao se falar de gênero, mas ela mesma diz o assunto não deveria ser tratado da forma como essas feministas o fazem. Ela inclusive usa a expressão “fundamentalismo da diferença sexual” (!). O problema é que ela não se dá ao trabalho de citar essas mulheres todas as vezes, e aí fica complicado saber exatamente do que ela está falando e o que exatamente ela está criticando.

Então, Butler vai falar da sua fundamentação teórica. Ela usa uma expressão que me fez parar para pensar no quanto eu era verde e absolutamente sem repertório algum quando entrei na academia: “Feminismo Francês”. Há algum tempo venho lendo vários livros mais ou menos ao mesmo tempo e, em um deles (Radically Speaking) há uma seção destinada a falar desse tal de Feminismo Francês e do pós-modernismo em geral: o que se costuma chamar de Feminismo Francês é um amálgama americano de alguns autores homens e mulheres que a) sequer são feministas ou têm qualquer relação com o feminismo, b) sequer “conversam” entre si, e, c) sequer são lidos e usados na teoria francesa feminista. A própria Butler vai reconhecer isso, dizendo que assim se corre o risco de ser franco-eurocêntrica, mas que na verdade isso pode ser tomado, segundo ela, como uma americanização da França, uma apropriação subversiva [3].

Ela vai assumir que vai fazer uma reformulação do feminismo dentro dos moldes pós-estruturalistas — feminismo este que ela nunca vai definir ou delimitar, ou seja… —, mas se justifica dizendo que o pós-estruturalismo não é mais formalista porque a teoria crítica rompeu com os estudos culturais, mas que isso ainda não é o suficiente pra dizer que se tratam de escolas diferentes [4]. Como, segundo ela, se apoiar na História não torna uma teoria generalizável, ela vai se apoiar em quê? Isso mesmo, nessa salada de autores franceses: Lacan, Foucault, Lévi-Strauss, Julia Kristeva, e Monique Wittig, principalmente.

Judith Butler vai partir, então, de taras e subversões sexuais para fazer a teoria dela, e não da existência material das mulheres — que foi o que de fato revolucionou os estudos das mulheres nos anos 1970, deu base e fundamento para se montar uma plataforma política de luta, e ajudou a estabelecer as prioridades nessa luta, coisa que, se for ver, hoje se perdeu muito por causa dessas contribuições que teóricos como a Butler deram. Ela cita, então, aquele artigo famoso da Gayle Rubin como ponto de partida. Veja bem: o artigo trata de tráfico de mulheres de um ponto de vista antropológico (isso está no título dele e do livro onde ele se encontra, caso não tenha ficado claro). Ou seja, “práticas sexuais”, nesse contexto, é tráfico e exploração sexual de mulheres! [5]

Aí ela vai falar de como algumas pessoas “expressam gênero” de forma diferentes, questionando, inclusive, “Quando e por quê […] algumas lésbicas butch quando têm filhos, se transformam em ‘pais’ e outras se transformam em ‘mães’?”. Ela acha um paradoxo uma mulher se masculinizar em busca de um status social mais elevado. Já eu acho bastante compreensível [6].

Butler cita Catherine MacKinnon para dizer que as diferenças sociais entre os sexos [ou seja, o gênero] são o que provocam as desigualdades entre os sexos. Esse texto é de 1987 (Feminism Unmodified), e eu mesma o cito em minha dissertação, tanto que o reconheci imediatamente quando li a versão parafraseada de Butler, e sei dizer até mesmo em que página ele se encontra. A MacKinnon trata de gênero como uma forma de hierarquizar as pessoas socialmente a partir de seu sexo, e o que ela está querendo dizer aí é que “a diferenças que atribuímos aos sexos são linhas desenhadas pela desigualdade” (p. 8): as diferenças biológicas não explicam a opressão das mulheres, porque sua opressão não é porque elas são inferiores, mas sua inferioridade é um efeito posterior de uma divisão social que as coloca para baixo na hierarquia.

Butler, por sua vez, vai pegar esse texto para dizer que MacKinnon comete uma tautologia: segundo Butler, o que MacKinnon quis dizer é que o gênero produz o gênero! Ela basicamente iguala sexo a gênero, sendo que — pelo amor da deusa! — a MacKinnon nunca fez isso; o que ela fez foi usar gênero em uma relação de correspondência ao sexo, que é basicamente a forma como a Gayle Rubin propôs a coisa toda quando formulou o sistema sexo/gênero.

É aqui que a coisa toda fica mais clara, e que a gente vai se dar conta de como é que a Judith Butler vai encarar a situação das mulheres na sociedade: ela já parte do pressuposto de que gênero é identidade. O fato de as divisões gendradas existirem, para ela, não significa que gênero seja necessariamente algo hierárquico, porque ela vai pegar o gênero — um conceito usado no feminismo para descrever e desnaturalizar a opressão das mulheres; eu falo um pouco disso neste texto aqui — e vai separá-lo do que ela chama de “discriminação sexual”. Para ela, hierarquia de gênero é basicamente fiscalização de cu [7], e não, como disseram as feministas, uma estrutura social organizada.

A expressão “discriminação sexual” é reveladora aqui, porque mostra que a autora não acredita em opressão/exploração estrutural das mulheres [vide nota 5]. Para a Butler, o machismo é apenas mais um preconceito bobo que existe só na esfera cultural da sociedade, que não tem uma origem, uma história ou um porquê. Ela afirma que não é o fato de marcarem as mulheres numa casta separada/gendrada que as coloca em sujeição aos homens [8], e que por isso não dá pra assumir que gênero é necessariamente hierárquico e, portanto, necessariamente opressivo, porque segundo ela “a performance de subversão de gênero não dá nenhum indício a respeito da sexualidade ou da prática sexual”; de acordo com a Butler, esse é o motivo de porque o argumento da MacKinnon é homofóbico (!).

Butler então vai dizer que tirou sua idéia de performatividade do Derrida, e vai dizer, citando Derrida citando Kafka, que esperar que uma “lei de gênero” funcione acaba produzindo a lei de gênero, numa espécie de self fulfilling profecy: gênero seria performativo no sentido de que a tal essência do gênero é fabricada através de atos gendrados que estilizam o corpo. Ou seja, ela diz que é no fazer que o gênero é feito. Como ela não se apóia na história, ela tá basicamente cometendo a tautologia que lá atrás ela acusou a MacKinnon de fazer! Que é no fazer que o gênero é feito é óbvio, qualquer coisa é feita no fazer [9]. Mas é preciso saber como isso é feito, e pra isso é preciso historicizar a parada. Mas ela escolheu justamente não fazer isso, então…

Ela fala que esse livro não é fruto somente dos estudos acadêmicos dela, mas de sua militância na Costa Leste. Ela diz que foi “em vários encontros, bares e marchas” e que viu “muitos tipos de gênero”. Ela parece buscar legitimizar seu texto falando em militância presencial talvez por causa do seu caráter completamente teórico, mas a mim pareceu como se eu dissesse “vivo dando rolê na Trajano e na São Francisco, sou muito militante, acreditem em mim!” Ela não descreve em nenhum momento o caráter dessa militância. Faz sentido, feminismo virou rolê, né?

Mas divago. Voltando para o texto, Butler dedica um bom pedaço desse prefácio às críticas ao seu estilo de escrita. Segundo ela, não é que ela escreva mal, são as pessoas que subestimam o público. Ela diz que “aprender as regras que governam o discurso inteligível é uma inculcação à linguagem normalizada” e que (se eu entendi e consegui traduzir de forma satisfatória) “os que não se conformam pagam o preço de uma perda para a própria inteligibilidade”. Ela diz que contestar a gramática faz parte de contestar o gênero propriamente dito. Mais adiante: “O que está escondido por trás da insistência em modelos paroquiais de transparência como requisito para todas as comunicações? O que a ‘transparência’ esconde?” A impressão que deu é que ela ficou ofendidíssima com as críticas e está realmente dizendo que a gramática é malvada, tudo isso pra se defender de quem disse que ela escreve mal. Só posso concluir que ela escreve mal de maneira deliberada porque acha chique.

Então, ela fala um pouco sobre o preconceito que sofreu por ser lésbica. Ela não atribui a lesbofobia sofrida ao fato de ser mulher, pelo contrário: ela vai desvincular completamente a sexualidade dela do fato de ser mulher. O que é bem contraditório. Me pareceu aquela coisa do “Não sou uma mulher como as outras” [vide nota 6]. Ela não se vincula às mulheres como sendo parte de uma classe porque isso seria admitir que se está numa posição subalterna na sociedade; isso pra galera liberal é um pecado (“Onde já se viu? Eu, uma mulher sofrida? Não! Eu tenho agência!”).

Butler diz que a premissa do texto dela não é apontar a nenhum feminismo específico [vide nota 1], porque aparentemente usar uma visão feminista para falar de feminismo é normativo demais. Isso talvez explique a ânsia dela de se desvincular de qualquer coisa que a coloque na mesma categoria que as mulheres. Para ela, do drag à transexualidade, é impossível determinar se alguém é homem ou mulher, porque usar vestimenta ou anatomia como critério não dá a ninguém certeza nenhuma [10]. “Quando se questiona tais categorias a realidade do gênero também entra em crise: se torna incerto como se distingue o real do irreal”. O que se tem como real, para ela, “invoca o conhecimento naturalizado do que gênero é”. Ela diz que a missão do livro é “insistir na extensão da legitimidade de corpos que têm sido tomados como falsos, irreais e ininteligíveis”.

Ela continua dizendo que reconsiderou e estendeu alguns pontos do que escreve em Gender Trouble em obras posteriores. Por exemplo, ela diz que algumas pessoas interpretam o modo como ela fala de gênero como sendo algo inventado na cabeça das pessoas, ou algo superficial. Ela justifica essas interpretações como sendo fruto de limitações da linguagem, que a impediram de ser clara o suficiente, porque “o discurso não pertence exclusivamente nem à representação corpórea nem à linguagem” [11]. Diz então que, se fosse reescrever o livro, incluiria discussões a respeito da transgenereidade, da intersexualidade, da sexualidade racializada (tabus contra miscigenação, sexo interracial etc).

Butler encerra o prefácio dizendo que acha muito precipitado reduzir poder à hierarquia, e que isso seria recusar suas dimensões políticas positivas, porque não existiria, segundo ela — e aqui acho que ela faz alusão à Foucault —, posição política sem poder. Eu, pessoalmente, acho que essa é que é uma visão reducionista: só alguém em coma seria vítima por direito (!).

Prefácio (1990)

Aí vamos então ao segundo prefácio, o prefácio original do livro, publicado em 1990. Ela começa dizendo os debates da época acerca da definição do que era gênero eram tão bizarros que não definir gênero parecia que poderia “eventualmente culminar no fracasso do feminismo”. Então ela vai falar de trouble: as normas são um problema, e se rebelar contra elas também causa problemas para o rebelde; já que esses problemas são inevitáveis, ela propõe que o jeito é arranjar a melhor forma de se estar “in trouble” [12].

Depois ela cita Beauvoir para dizer que ser mulher numa cultura masculinista é ser um mistério para os homens. Butler diz que Sartre confirma isso falando que todo desejo é masculino e heterossexual, logo trouble. E se uma mulher, objeto desse desejo, responde ou contesta a autoridade masculina, ela também tá encrencada.

Aí ela vai afirmar que uma vez que o “Outro” fêmea é dependente do macho nessa relação masculinista, a autonomia dela é ilusória, e que é dessa relação de poderes que se vai construir o binário “homem/mulher”, e que tal binário consequentemente se conforma à matriz heterossexual. Então, questiona: “Qual a melhor forma de perturbar as categorias que sustentam a hierarquia de gênero e a heterossexualidade compulsória?”

Então ela vai dizer que o “gênero é um tipo de personificação que passa por real”, e pergunta se o drag, em sua performance, imita o gênero ou “dramatiza os significantes pelos quais o gênero é estabelecido?”. Essa parte é bem interessante porque mostra duas coisas: que o gênero, como teorizado anteriormente pelas feministas dos anos 1970, é uma coisa artificial “que passa por real”, ou seja, sustenta a tese do domínio masculino de que se as mulheres parecem fracas com essas coisas delicadas e saltos altos que usam, então elas são de fato fracas e acabam ficando fracas de fato por internalizarem essas coisas; e que essas “personificações temporárias” do estereótipo feminino, ao mesmo tempo em que faz uso de significantes que não representam a “realidade” da mulher, mas algo que “passa por real”, acabam fazendo uma representação fajuta do real e do que se tem por real. Ou, pra tentar deixar mais claro onde eu quero chegar: esses estereótipos fazem uma imitação da imitação even better than the real thing, mas não chegam a sequer se aproximar minimamente da coisa em si, porque é uma ficção em cima de outra! Porém, a Butler não vai se alongar muito sobre isso aqui — acredito que ela o faça no último capítulo do livro —, e vai se perguntar se ser fêmea é um fato natural ou se sua natureza é construída discursiva e performativamente [13].

Ela explica então que vai usar a genealogia de Foucault/Nietzche para analizar sexo, gênero e desejo como efeitos de uma relação de poder. Segundo ela, esse método se recusa a buscar nas origens dessas coisas seus motivos e meios de funcionamento, porque tá mais preocupada com os efeitos dessas instituições/práticas/discursos, porque segundo ela, eles têm origens muito diversas. Fiquei me perguntando como se faz uma pesquisa dessas sem situar as coisas historicamente, porque a mim me parece impossível, mas vamos lá.

Butler parte do falogocentrismo e da heterossexualidade compulsória, e vai dizer que até mesmo a noção de “fêmea” é problemática. Segundo ela, “fêmea” e “mulher” não têm mais significados estáveis porque são termos relacionais, que só têm significado em relação a outros termos. Ela faz alguns questionamentos que tive que ler umas quinze vezes para entender, mas que dizem basicamente que afirmar que as mulheres têm alguma coisa em comum que as une enquanto classe é limitante. Uma vez que ela não acredita em opressão estrutural e que tudo não passa de uma “discriminação sexual” boba, e não está preocupada com história, origens, desenvolvimentos, e estratégias de ação baseadas nessa realidade de classe, ela provavelmente não espera que as mulheres se unam e lutem juntas por uma causa comum. A questão, pra ela, é individual.

Então ela vai fazer uma apresentação das três partes do livro: no primeiro capítulo, ela vai “reconsiderar o status de ‘mulheres’ enquanto sujeitos do feminismo e a distinção sexo/gênero”, porque segundo ela, sexo é uma “construção fictícia” que “sustenta esses vários regimes de poder”; no segundo, ela vai pegar estruturalismo, psicanálise e estudos feministas acerca do tabu do incesto para mostrar como as categorias discretas de gênero são reforçadas (o famoso “binarismo”); e, finalmente, no terceiro, ela vai usar a Kristeva para mostrar “normas implícitas que governam a inteligibilidade cultural do sexo e da sexualidade”. Ela diz que o livro foi construído pra facilitar convergência do feminismo, do pós-estruturalismo e das perspectivas de gênero gays e lésbicas, e diz que gênero é interdisciplinar demais pra ficar confinado aos estudos de gênero ou estudos das mulheres. Butler afirma que quer radicalizar a crítica feminista [14].

Ela encerra agradecendo os financiamentos aos seus estudos, e falando dos seminários e orientações que recebeu de gente muito fora da casinha durante o doutorado. Os três nomes que conheço da lista: Joan Scott, Donna Haraway (doida) e Linda Nicholson (acha que se você criar seu filho direitinho, ele pode passar pelas mesmíssimas experiências de uma menina [15]).

Enfim, é isso. Vamos ver se dessa vez vou aguentar ler esse delírio todo até o fim.


Notas

[1] Apesar disso, ela não define, até o momento, o que ela tem por feminismo, então fica bastante confuso saber a que ela se refere quando usa esse termo, e até mesmo quais os posicionamentos políticos dela em relação ao feminismo. Os posicionamentos políticos dela, independentemente do que ela considera feminista, ficam bastante claros só de ler esse prefácio, mas é bem complicado chamar isso de feminismo.

[2] Um amigo fez um comentário bastante pertinente no Twitter: “clássico pensamento neoliberal norte-americano, achar que liberdade é ter várias opções de consumo”. Se for pensar em toda a indústria que está por trás da manutenção dessas “categorias de gênero”, faz muito sentido. Vide o que Janice Raymond (1979) chama de “império transexual“, e todo o dinheiro que se movimenta na manutenção de um ideal de beleza feminino.

[3] Eu quase cochilei quando li isso.

[4] Confesso que sei bem marromeno o que todas essas coisas significam, mas deixei essa parte aí caso algum leitor saiba melhor que eu e queira dar umas diquinhas nos comentários. Eu devia ter prestado mais atenção nas aulas de “Fundamentos em Interação”, mas tergiverso.

[5] O jeito que a Butler escreve leva a crer que ela não acredita que as mulheres sejam exploradas, oprimidas, e parte de uma casta inferior na sociedade. Isso vai ficar muito claro mais adiante no texto, porque a autora é culturalista e não materialista: pra ela, as mulheres sofrem, sim, mas apenas porque são diferentes. Para mim isso deixa bastante claro que o tal feminismo da Butler é puramente nominal, porque ela não parece se importar nem um pouco com mulheres e sua situação enquanto mulheres.

[6] A velha história do “ah, você não é como as outras” é uma estratégia de sobrevivência, e uma forma de se masculinizar dentro da própria feminilidade. É uma forma de fugir da feminilidade aprovada pelos homens e, portanto, com menos chances de a mulher em questão sair perdendo individualmente (mas ela pode sair perdendo no contexto geral, ou mais adiante): se sua estratégia é não entrar em confronto direto com os detentores do poder — ou seja, os homens — você vai acabar usando ferramentas do próprio patriarcado para tentar se libertar dele individualmente. Essa libertação individual é uma característica bem marcante do feminismo liberal, e explica porque ele se deu tão bem com a teoria queer.

[7] Os leitores que me desculpem, mas não encontrei expressão mais apropriada.

[8] De fato não é a separação propriamente dita que oprime as mulheres. Essa separação, no entanto, foi necessária para que um sistema de opressão e exploração pudesse funcionar de forma mais eficiente e surgiu junto com ele. Mas vai explicar isso pra quem não gosta de estudar história?

[9] Doh!

[10] Eu tenho alguns critérios para saber se alguém é homem ou mulher. Um deles é se a pessoa me ameaça com estupro.

[11] Tudo é muito ambíguo, nada é real, não se pode ter certeza de nada, a linguagem não ajuda, tudo é ilusão… Que cômoda e muito boa forma ela encontrou de justificar a própria incompetência!

[12] Não dá pra lutar contra o sistema, então conforme-se de outra forma.

[13] Me pergunto se essa mulher nunca sofreu de cólicas menstruais na vida…

[14] Tadinha…

[15] Sério.

13 responses to “Problemão de gênero, parte I: os prefácios”

  1. […] seria ceder ao “fundamentalismo da diferença sexual” que de que ela fala em um dos prefácios do livro. Ela defende que as supostas (para ela) especificidades reconhecíveis entre as mulheres […]

  2. Camila says:

    Adorei seu texto! Que bom que você não escreve como a Butler. Hehehe

    Quanto à questão da história eu concordo com você que é preciso historicizar tudo, mas essa percepção já foi capturada pelos estudos culturalistas e muitos historiadores e historiadoras também não gostam de trabalhar com origem, genealogias, e sexo não é natural, é histórico (quê?), assim como disse a Linda Nicholson.

    • fabianelima says:

      Sim, concordo, sexo é histórico e socialmente construído. Mas isso no sentido de que lidamos com ele de forma diferente a depender do contexto. Isso não significa que o sexo biológico deixa de existir por isso.

      E Linda Nicholson não é lá uma referência muito boa, hahahaha! Eu acho que não, pelo menos [vide nota 15]. u_u

  3. Camila says:

    Não ficou claro, essa é a noção dos estudos históricos atuais, que bebem muito da Butler e Scott. Sexo é histórico e a categoria mulher do século XX foi originada no século XIX. Porque a mulher para Aristóteles era um homem incompleto. Bla bla bla. Agora você imagina aí como é difícil estudar história com essa conversa toda.

    • fabianelima says:

      Repito: Sim, concordo, sexo é histórico e socialmente construído. Mas isso no sentido de que lidamos com ele de forma diferente a depender do contexto. Isso não significa que o sexo biológico deixa de existir por isso. 🙂

  4. […] obra de Judith Butler praticamente parágrafo a parágrafo. Os textos anteriores podem ser lidos aqui e aqui. Como já disse anteriormente, essa crítica segue a minha visão pessoal, que é […]

  5. Nayara says:

    Gostei muito do seu texto e achei a proposta do blog bem interessante.
    Você já deve ter visto, mas eu li esse texto da Martha Nussbaum sobre a Butler hoje: http://xibolete.uk/judith-butler/

  6. Renata says:

    Só descobri seu blog hoje, favoritando pra vida!

  7. […] 11. Não têm mesmo: vale relembrar a citação da MacKinnon sobre como as limitações das mulheres são um efeito de sua dominação, e não uma causa dela (vide o texto sobre os prefácios). […]

  8. Luigi says:

    Quero te agradecer imensamente pela colaboração, viu?!
    Sei que estou muito cru nessas discussões, mas me interesso muito sobre o assunto…Passando por acaso aqui, me deparei com essa resenha extremamente detalhada que me ajudou pra caramba!
    Eu comprei o livro e tive a sensação de ser a pessoa mais burra da face da terra…porque não conseguia acompanhar o raciocínio, achei a escrita da Autora extremamente truncada! Agora com essa tua contextualização, ficou menos sofrível…hehehehe. Muitoo obrigado!

  9. Alice says:

    Eu tô lendo suas análises há algumas semanas pro meu TCC, e tô muito feliz que consigo entender, finalmente o que ela tá falando hahahaha peguei o livro pra base teórica do tcc, mas usarei suas análises pra minha base de vida!

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