Problemão de gênero, parte II, volume 1: “Mulheres”?

Antes de começar esse meu fichamento, vou esclarecer aqui que, antes de tudo, essa é uma leitura minha. Isso significa dizer que o que estou usando aqui pra confrontar o livro da Butler é o meu próprio repertório, e ele pode ser falho ou incompleto. Entretanto, tento fazer com que minha argumentação seja o mais clara e o mais coerente possível (já estou melhor que a Judith Butler, veja bem). Então, se surgir alguma dúvida, sugestão de leitura, ou se você também leu e notou que eu deixei escapar alguma coisa, não se acanhe de fazer um comentário. E se você caiu aqui de para-quedas, sugiro ler a primeira parte da série. 🙂

Outra coisa: o exemplar que estou usando de base é um PDF que foi transformado em Mobi para que eu pudesse ler no Kindle. Ele até tem as marcações de página originais, mas achei desnecessário colocá-las no corpo do meu próprio texto porque as seções do livro são bem curtinhas e, na transposição do PDF pro Mobi a coisa toda ficou um pouco cagadinha. Nada que impeça a leitura, no entanto; se você quiser uma cópia, podemos providenciar.

Mas vamos lá!

A Butler inicia o texto citando uma série de epígrafes. São textos que dizem basicamente que mulher não existe. Aí tem lá a Julia Kristeva dizendo que não dá pra se dizer que mulher exista, a Irigaray dizendo que mulheres não têm um sexo, a Wittig falando que sexo é uma categoria que estabelece a sociedade como heterossexual. O complicado é saber se essas citações realmente dizem o que a Butler está querendo que digam, porque ela cita aquela famosa frase da Simone de Beauvoir, inclusive. Essa (mas só aquela parte):

quote-beauvoir

E aí já viu, né.

“Mulheres” como sujeitos do feminismo

Esse é o primeiro item do capítulo “Sujeitos do Sexo/Gênero/Desejo”. Butler o começa dizendo que o feminismo entende mulher com uma categoria dada, uma identidade de onde partem os interesses feministas. Segundo ela, apesar de as mulheres serem pouco ou sequer representadas, essa assunção pode distorcer o que está abarcado na categoria mulher. Ela diz que na época — fins dos anos 1980 — havia muito debate sobre o que era mulher exatamente, o que ser mulher significava, e que, portanto, “mulher” não é uma categoria estável. Ela fala que tem “muito material” que questiona a mulher como sujeito do feminismo, mas ela não cita ninguém para saber em que termos esse questionamento é feito.

Então, Butler vai dizer que é preciso chegar num acordo primeiro antes de se conseguir a tal representatividade que querem as mulheres [1], e a partir daí, ela começa a teorizar sobre como se constituiu essa categoria “mulher” partindo de Foucault. Ela diz que o “Foucault aponta que os sistemas jurídicos de poder produzem os sujeitos que subsequentemente vão representar”, e que “Noções jurídicas de poder regulam a vida política puramente em termos negativos”, ou seja: limitação, proibição, regulação, controle etc. Os sujeitos regulados nessas estruturas, porém, são sujeitados a essas estruturas, e a linguagem jurídica que representa as mulheres como sujeito do feminismo tem essa carga, segundo ela. [2]

Ela vai dizer, pra resumir, que o sujeito do feminismo é constituído discursivamente dentro do sistema político do qual quer se emancipar, e que a categoria “mulher” estaria contaminada pelas estruturas de poder por causa disso e, portanto, não seria suficiente para definir nada. Isso porque, de acordo com ela, “os sujeitos jurídicos são invariavelmente produzidos através de certas práticas exclusionárias” que não revelam suas políticas; “O poder jurídico inevitavelmente ‘produz’ o que diz meramente representar”. Então essa categoria seria contaminada por definição.

Diz a Butler que a questão da mulher como sujeito do feminismo levanta a possibilidade de que não exista um sujeito antes da Lei [3]. Ela continua dizendo que assumir uma integridade ontológica do sujeito antes da Lei é um traço contemporâneo da hipótese do estado natural, que ela chama de “fábula fundacionalista constitutiva das estruturas jurídicas do liberalismo clássico”. Traduzindo: ela já assume por princípio que essa premissa de que existe uma realidade material que existe independente do discurso é falsa, e justifica isso dizendo que essa premissa que ela chama de fundacional garante que as pessoas consintam em ser governadas. Como exatamente assumir que existe uma realidade independente de haver humanos ali para dar nomes aos bois facilite a governabilidade desses mesmos humanos é algo que realmente foge à minha compreensão.

Ela aponta também o que considera ser um outro “problema político que o feminismo encontra em assumir que o termo mulher denota uma identidade comum”: ser rotulada como mulher, ser colocada nessa categoria, segundo ela, causa ansiedade. Isso porque o termo falharia em abarcar o que ser mulher significa sob diferentes contextos históricos, de raça, classe, localização geográfica etc. Aí ela diz que é impossível separar o gênero desses contextos, que é simplesmente impossível definir gênero e definir mulher.

Então ela continua dizendo que assumir que existe uma “base universal” pro feminismo acompanha a noção de que existe uma opressão masculina. Ou seja: a noção — já bastante estudada no feminismo — de que existe um patriarcado. Aí ela vai falar que assumir que exista um patriarcado é deixar de notar todas as especificidades culturais, como se… bem, como se todas as teóricas [4] que fizeram esse resgate não tivessem pelo menos dois neurônios para conceber o óbvio, tivessem deixado de considerar particularidades e não passassem páginas e páginas explicando que não, o patriarcado não se manifesta da mesma forma em todos os lugares, mas que em todos esses lugares cada uma dessas manifestações têm uma coisa em comum: a dominação das fêmeas da espécie humana pelos machos da espécie humana, com o propósito de explorar seu trabalho e seu potencial reprodutivo. Ela fala que a noção de patriarcado é uma invenção ocidental, basicamente, e que apesar da noção de patriarcado universal não ter mais tanta credibilidade (há controvérsias), a noção de mulher ainda tá aí firme e forte [5].

Dia desses eu postei no Twitter um trecho de uma crítica que a Denise Thompson fez a respeito desse trecho específico, e que eu estava traduzindo. Vou deixar ela falar por mim:

thompson-x-butler

Segue-se então uma série de perguntas que, pela própria lógica do argumento dela e dos pontos de partida de seu raciocínio, são virtualmente irrespondíveis, afinal, o que é respondível teria que seguir outra lógica, que ela imediatamente descarta. Por exemplo, ela questiona se “há alguma comunalidade entre as ‘mulheres’ que preexiste sua opressão ou as ‘mulheres’ têm um laço em virtude da opressão?”, e também pergunta se “Há uma região do ‘especificamente feminino’ que é ao mesmo tempo diferenciada do masculino e reconhecível em sua diferença não marcada por uma não notada e, logo, presumida universalidade das ‘mulheres’?”.

Porém, Butler vai negar completamente qualquer que seja o argumento em favor dessa comunalidade, porque para que seu argumento possa funcionar conforme o exposto até aqui, aceitar tal comunalidade seria ceder ao “fundamentalismo da diferença sexual” que de que ela fala em um dos prefácios do livro. Ela defende que as supostas (para ela) especificidades reconhecíveis entre as mulheres — e, consequentemente, entre os homens — são nada mais que criações de um sistema binário e exclusionário, que separa os indivíduos em categorias discretas, masculino e feminino.

Ela diz também que essas especificidades são descontextualizadas de suas intersecções com outros “eixos de poder” que “constituem a identidade”, tais como classe, raça e etnia. O problema aí é que ela até se preocupa em citar essas possíveis intersecções, mas parece não se dar conta de que nascer mulher, nascer em um corpo de fêmea também é um fator bastante importante (decisivo até) entre essas intersecções, e inclusive modifica a forma como tais intersecções se dão. [6]

Aí ela vai dizer que não dá para presumir a universalidade e a unidade do sujeito do feminismo uma forma efetiva. Para Butler, insistir numa categoria estável de sujeito do feminismo — ou seja, insistir que mulheres existem e têm uma realidade material — gera uma recusa em aceitar essa categoria. Ela diz que a categoria mulher é coercitiva e regulatória, e que, portanto, vai de encontro aos propósitos emancipatórios do feminismo. Aí ela vai dizer que a recusa de algumas mulheres em participar do feminismo indica que esses limites são limitantes (!), e que é uma consequência irônica que essa representação estreita possa quem sabe “fracassar o feminismo” por ele se recusar em levar em conta “os poderes constitutivos de suas próprias reinvindicações representacionais”. [vide nota 1]

E então, Butler diz que o feminismo precisa de uma crítica radical [7] e cita Marx de um jeito que não entendi e parece só estar ali para fazer figuração: “O ponto de partida crítico é o presente histórico, conforme Marx coloca”. Aí ela diz que se tem que formular uma crítica a essas estruturas jurídicas que engendram e imobilizam, de dentro do sistema. Ela tá certa ao afirmar que não dá pra sair de dentro do sistema — quantas de nós não batemos cabeça diariamente tentando abolir hábitos e costumes que o patriarcado ensinou para nós, muitas vezes sem sucesso? Mas ela está bem errada em dar a entender que é impossível mudar esse sistema, e que o melhor a fazer é uma revolta conformada, “in trouble. Se ela partisse da história poderia ver que transformações sociais são possíveis e acontecem o tempo todo. Mas é como ela disse no prefácio: se não dá pra vencê-los, junte se a eles e tente conviver da melhor forma possível.

A autora fala que esse período, chamado de pós-feminismo, é uma oportunidade de se repensar e construir o sujeito do feminismo [8], porque se precisa de uma repensada radical na construção ontológica de identidade dentro da prática política feminista. Ela fala que talvez seja a hora de uma crítica radical [vide nota 7] que procure libertar a teoria feminista da necessidade de se construir uma categoria incontestável que exclua aqueles que ela mantém de fora [9]. E aí ela faz outra pergunta (ela adora fazer perguntas): “As práticas exclusionárias que permeiam a teoria feminista na noção de ‘mulher’ como sujeito paradoxalmente minam os objetivos feministas no sentido das suas reivindicações de ‘representação’?” [vide nota 1]

Butler faz mais uma pergunta interessante: se a categoria “mulher” for tão estável como advoga o feminismo, isso não seria uma reificação [10] das relações de gênero? Para ela, “mulher” é uma categoria tão opressora e normatizadora que não são as mulheres que sofrem as normatizações de comportamento, opressões, e explorações de sua sexualidade e de seu trabalho. Não! Para Butler o grande problema é o fato de o feminismo deixar de fora quem não é mulher, porque achar que mulheres existem e são um grupo de pessoas com necessidades e especificidades próprias é se conformar à matriz heterossexual!

Ela vai dizer, então, que um novo tipo de política feminista é desejável (para quem?) para contestar a reificação do gênero, e que “traçar as operações políticas que produzem e escondem o que qualifica como sujeito jurídico do feminismo é precisamente a tarefa de uma genealogia feminista da categoria das mulheres” [grifo dela], que ela vai se propôr fazer. Diz também que não questionar a categoria “mulher” pode impedir a possibilidade de o feminismo ser uma política representacional [Já sabe, né? Vide nota 1].

Aí ela faz uma nova pergunta — naquele jeitinho de retórica dela com o qual já fiquei bem acostumada e que mais afirma que questiona —, querendo saber que relações de dominação e exclusão estão sustentadas nesse foco de representatividade nas mulheres. É no mínimo engraçado que no único momento de que me recordo ver Butler usando uma palavra mais incisiva para caracterizar a sujeição de um grupo por outro ela escolha justamente dominação para caracterizar mulheres estabelecendo as fronteiras de sua luta por libertação.

Ela encerra esse subcapítulo com uma afirmação categórica que resume muito bem tudo o que ela papagaiou até aqui:

A identidade do sujeito do feminismo não deve ser o fundamento das políticas feministas, se a formação desse sujeito tem lugar dentro de um campo de poder coberto regularmente pela afirmação desse fundamento. […] ‘representação’ só irá fazer sentido para o feminismo quando o sujeito ‘mulher’ não for presumido em lugar algum.

Interessante uma mulher que definitivamente não se mostra feminista de modo algum dizendo que faz uma crítica ao feminismo “de dentro” do próprio feminismo, que não usou até agora nenhum embasamento feminista, apontar com tanta certeza assim o que o feminismo deve fazer. Interessante também é notar a misoginia internalizada dela — que nem é difícil, porque é bastante visível —, ao enfatizar uma separação tão grande dela mesma do grupo “mulher” e ao sempre usar o termo entre aspas, ou meio que com desdém. Chego a ter pena, mas a verdade é que essa mulher provavelmente nunca leu uma linha de teoria feminista.


Notas

[1] Espera aí, Butler, vamos por partes para ver se eu entendi: 1) mesmo que o feminismo seja bastante variado, você jamais em tempo algum define o que exatamente você chama de feminismo; 2) ao mesmo tempo, você diz que não vai partir de nenhum feminismo específico porque isso seria muito normativo e limitante para o tipo de crítica que você pretende fazer aqui; 3) então, pelo seu texto, dá pra concluir que você acha que o objetivo do feminismo é uma representatividade emancipatória?! Mas o que exatamente seria isso?

[2] Na segunda nota de rodapé ela diz que o “sujeito diante da lei” é uma referência à interpretação do Derrida a Before the law do Kafka.

[3] Ela tá partindo daquela noção idealista de que a realidade se produz através do discurso; “penso, logo, existo”. Ao mesmo tempo, lembro do que ela disse a respeito do gênero que se faz no fazer, aí cruzo com Engels falando em Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem que “a mão não é apenas o órgão do trabalho; é também produto dele”, e minha mente dá um nó.

[4] Algumas das mulheres maravilhosas que vêm estudando este assunto desde o final dos anos 60: Mary Daly, Maria Mies, Rosalind Miles e Merlin Stone. No Brasil, temos a Heleieth Saffiotti. Recomendo dar uma olhadinha em todas elas, garanto que são bem mais fáceis de entender que a Butler; elas não acham chique escrever difícil.

[5] Deve ser culpa das TERFs.

[6] Isso é algo que nem Butler nem os seus discípulos parecem se importar: aparentemente, ser uma fêmea da espécie humana e tudo o que vem de brinde com essa característica pré-discursiva — a menarca, a menstruação, a relação com o corpo e com seus fluídos, a sombra constante do assédio sexual e do estupro, a possibilidade de uma gravidez indesejada e a impossibilidade de se optar pelo aborto… — não faz, para essa galera, a menor diferença. O corpo da mulher, mesmo quando significado pela cultura, aparentemente não existe.

[7] Tadinha… Miga, vem cá, vamos conversar.

[8] “Pós-feminismo” é um termo que em geral descreve exatamente o período de onde Judith Butler escreve esse texto, onde muitas críticas ao feminismo surgiram. Alegadamente, essas críticas têm a intenção de corrigir falhas do movimento, mas geralmente só tacando-lhe o pau mesmo. A Susan Faludi descreve bem o espírito de época desse finalzinho dos anos 1980 e início dos 1990 em seu ótimo Backlash. Mas já aviso que o livro é mó bad vibes: dá um belo de um desânimo.

[9] Mas pensa comigo: pra luta feminista dar certo em favor das mulheres, alguém vai ter que ficar de fora dessa construção, certo?

[10] Note a palavra: “Reificar” significa, num sentido mais amplo, tornar algo real, palpável, material. No Marxismo, reificar é tomar uma abstração ou um objeto e considerá-lo como possuindo existência viva. A qual desses sentidos Butler se refere? Reificação não deveria ser “o fazer que faz o gênero”, ou para Butler esse fazer não precisa de uma manifestação material? Ou, para ela, o problema com a existência material é o que ela chama de “ficção da existência pré-discursiva fundacionalista”? Será que o problema é a coisa (qualquer coisa!) já estar ali antes, e para sua existência ser válida essa coisa precisa ser construída através do discurso? Dúvidas…

2 responses to “Problemão de gênero, parte II, volume 1: “Mulheres”?”

  1. […] de Judith Butler praticamente parágrafo a parágrafo. Os textos anteriores podem ser lidos aqui e aqui. Como já disse anteriormente, essa crítica segue a minha visão pessoal, que é materialista e […]

  2. […] que me leva de volta a um texto muito bom da Denise Thompson que já citei nesta série [4]”. Colo aqui uma parte que, a meu ver, mata a charada do tal […]

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