Problemão de gênero, parte II, volume 2: Sexo e gênero

Este é mais um post da minha série “Problemão de Gênero”, onde faço uma leitura crítica da mais famosa obra de Judith Butler praticamente parágrafo a parágrafo. Os textos anteriores podem ser lidos aqui e aqui. Como já disse anteriormente, essa crítica segue a minha visão pessoal, que é materialista e usa como ponto de partida o feminismo radical. Puxa uma cadeira e senta, porque lá vem lorota!

A Ordem Compulsória do Sexo/Gênero/Desejo

Este é o segundo subcapítulo do capítulo “Sujeitos do Sexo/Gênero/Desejo”. É bem curtinho, e Butler não vai discorrer muito sobre o assunto, talvez porque ela não tenha muito o que falar. Aqui ela vai fazer uma série de afirmações que eu achei um tanto bizarras — principalmente porque ela não firma o argumento em lugar algum; você lê e fica se perguntando de onde ela tirou isso tudo, apesar de conseguir captar algumas referências.

Butler vai iniciar o texto dizendo que a categoria “não problematizada” de mulher sofreu uma quebra com a introdução do conceito sexo/gênero. Ela não vai dizer quando, porque, nem quem fez isso, então faço eu: era 1972 quando Ann Oakley, uma feminista britânica, escreveu o artigo entitulado “Sex, Gender and Society” (a introdução em inglês desse artigo pode ser encontrada aqui), onde discorria sobre até que ponto as diferenças entre os homens e as mulheres eram naturais ou fruto da sociedade. Três anos depois, a Gayle Rubin vai usar este mesmo conceito no seu famoso “Traffic on Women”, e é a partir daí que ele vai fazer sucesso e tomar de assalto a teoria feminista. Isso aconteceu porque a mulherada ficou realmente muito empolgada por finalmente ter encontrado um bom argumento [1] contra a naturalização das diferenças sociais. A princípio, Butler concorda com isso.

O problema é que o argumento não é tão bom assim, como bem avisa a Maria Mies, ao afirmar que homens e mulheres interagem com a natureza com corpos qualitativamente diferentes, mas que (2014; tradução livre):

Essa distinção de categorias entre sexo como biológico, e gênero como sócio-cultural, pode à primeira vista parecer útil, porque remove a irritação de que a opressão das mulheres é atribuída o tempo todo à sua anatomia. Mas essa distinção segue o padrão bem conhecido de separar a ‘natureza’ da ‘cultura’ (…). Para as mulheres essa divisão tem uma tradição longa e desastrosa no pensamento ocidental porque as mulheres têm sido colocadas ao lado da natureza desde o surgimento da ciência moderna (…). Se as feministas agora tentam sair dessa tradição definindo sexo como algo puramente material e biológico, e gênero como a expressão mais alta, cultural e humana desse algo, então elas continuam o trabalho daqueles filósofos e cientistas idealistas patriarcais que dividiam o mundo em matéria crua ‘ruim’ (a ser explorada e colonizada) e espírito ‘bom’ (a ser monopolizado por padres, mandarim e cientistas). [2]

Butler vai dizer que gênero é sim socialmente construído, e não um resultado causal do sexo, porque o gênero não vem exatamente do sexo, mas vai além dos limites do corpo. Até aí, todas as feministas concordam: gênero define uma série de práticas e marcadores culturais de diferença entre homens e mulheres, que inclui (mas não se restringe a) vestimenta, comportamentos etc. A Lierre Keith nos ajuda a entender:

Gênero não é binário. Ele é uma hierarquia. Ele é global em seu alcance, é sádico em sua prática, e assassino em sua realização. Assim como raça, e assim como classe. O gênero demarca os limites geopolíticos do patriarcado — o que quer dizer, nos divide ao meio. Essa metade não é horizontal — ela é vertical. E caso você tenha perdido essa parte, os homens estão sempre no topo. [3]

Esse não é, obviamente, o caminho que a Judith Butler vai seguir, porém. Ela diz que “homem” não se aplica só a corpos machos, assim como “mulher” não se aplica sempre a corpos fêmea [4]. E é bem aqui que o argumento dela parece cada vez mais fruto de um matinho mágico suspeito desses que a gente arranja por aí: ela vai falar que nem o dimorfismo sexual pode ficar sem ser problematizado (coisa que, se não me engano, ela vai fazer mais adiante no livro). Achar que o gênero é binário é achar que o sexo também é restrito por esse dimorfismo, segundo ela.

A autora aqui está provavelmente partindo da idéia de construção social da sexualidade [5]. Esse é um assunto que ultimamente, pelo menos nas discussões internéticas, tem dado muito pano pra manga. Isso porque as pessoas entendem essa expressão das mais variadas formas possíveis. Algumas pessoas têm uma compreensão muito parecida com a de Butler, e alguns ainda parecem soltar essa expressão nas discussões sem fazer a menor noção do que ela significa exatamente, apenas para tentar argumentar contra a idéia do que chamam de essencialismo biológico.

Vou tentar explicar aqui como é que as feministas materialistas vêem esse conceito. Tudo em que os humanos colocaram a mão desde que se organizaram em grupos é, obviamente, socialmente construído. A forma como encaramos a sexualidade, não só a nossa mas até mesmo a de outros animais, [6] não fica de fora dessa. Nós inventamos regras específicas para seres de tal e tal sexo — que é, aliás, o significado original para que o conceito de “gênero” foi concebido, veja bem —, inventamos regras e contratos sexuais específicos para situações específicas, inventamos formas de controlar nossa fertilidade, inventamos práticas sexuais variadas… A lista é literalmente sem fim. Isso não significa, porém, que as nossas funções biológicas deixem de existir por causa disso; o fato de algumas dessas normas e costumes existirem inclusive atestam que essas funções biológicas existem.

Butler vai continuar dizendo que o gênero é independente do sexo e que se trata de “um artifício que flutua livremente” (free-floating artifice). Então ela questiona como é feita a atribuição do sexo a alguém, e segue fazendo um monte daquelas perguntas retóricas que ela adora:

  • “Afinal, o que é sexo?”
  • “Sexo é natural, anatômico, cromossômico, hormonal, e como é uma crítica feminista para se acessar esses discursos científicos que se propõem a estabelecer tais ‘fatos’ para nós”?
  • “Existe uma história de como a dualidade do sexo foi estabelecida, um genealogia que possa expôr as opções binárias como uma construção variável?”
  • “Existem fatos ostensivamente naturais do sexo discursivamente produzidos pelos vários discursos científicos a serviço de interesses políticos e sociais alheios?”

Apesar do blablabla anterior e da forma como a frase foi composta, essa última pergunta é muito válida, na verdade. É a pergunta que basicamente toda a crítica feminista de ciência já fez muitas décadas atrás. Investigar como a ciência pode ser usada para validar pressupostos mentirosos e preconceituosos a respeito das pessoas foi (e ainda é) uma tarefa do feminismo que ajudou a desvelar muitas das formas como as mulheres foram (e ainda são) subjugadas ao longo da história. Eu mesma estudei isso, mais especificamente na área da Computação. Não é uma pergunta boba.

O problema é que, diferente das críticas feministas às ciências e à produção tecnocientífica — que estavam preocupadas com a negligência médica em relação às mulheres, com a exclusão das mulheres dos campos do saber que possibilitavam melhores oportunidades de trabalho ou uma investigação mais específica sobre como tal e tal procedimento afeta especificamente as mulheres e coisas do tipo —, a Butler vai envenenar essas perguntas. Na verdade verdadeira mesmo, ela sequer vai tentar dar uma resposta satisfatória a elas. Ela vai apenas dizer que o sexo é tão culturalmente construído quanto o gênero. E que talvez o sexo sempre foi gênero, de modo que não há distinção entre sexo e gênero, porque segundo ela “Não faria sentido então definir gênero com uma interpretação cultural do sexo, se o sexo mesmo é uma categoria gendrada”! [7]

Esse raciocínio dela leva a noção de construção social da sexualidade às últimas consequências. O que Butler diz, para resumir, é que uma vez que as práticas sexuais e a forma com entendemos o sexo é socialmente construída, e uma vez que o gênero também o é, então não precisa haver uma distinção entre sexo e gênero, porque sexo e gênero seriam necessariamente a mesma coisa e não importariam para uma análise feminista. Ela deixa de considerar — e aqui me adianto, porque nada mais me lembro da primeira leitura que fiz desse livro então não sei dizer se ela vai fazer isso futuramente, mas de qualquer forma até o momento ela deixa de considerar — os motivos que levaram à dominação masculina, e isso porque ela não acredita em uma dominação masculina a nível estrutural.

Ela diz:

Sexo não deve ser concebido puramente como a inscrição cultural de significado em um sexo pré dado (uma concepção jurídica); gênero deve também designar o próprio aparato de produção através do qual o sexo propriamente dito é estabelecido. Como resultado, o gênero não está para a cultura como o sexo para a natureza; gênero é também os significados discursivos/culturais pelos quais “a natureza sexuada” ou “sexo natural” é produzido e estabelecido como “pré-discursivo”, antes da cultura, uma superfície politicamente neutra na qual a cultura age. (BUTLER, 1999)

Butler encerra esse capítulo com mais uma pergunta: “como então o gênero precisaria ser reformulado para englobar as relações de poder que produzem o efeito de um sexo pré-discursivo e então abarcar as operações próprias da produção discursiva?”

Ou seja: além de pegar uma categoria que em si já tem problemas o suficiente (vide a citação da Maria Mies), ela ainda vai desconsiderar completamente a realidade material, como se nosso corpo físico não tivesse qualquer peso na forma como interpretamos e interagimos com o mundo e entre nós mesmos; isto é, não é uma superfície politicamente neutra. Além disso, ela ainda vai tentar reformular essa categoria problemática de uma forma que tampouco resolve seus problemas.

Fiquei realmente impressionada com o tanto de bobagem que ela consegue colocar dentro de tão pouco texto!


Notas


[1] Porque nós ficamos tão preocupadas com a melhor maneira de responder questões idiotas que os homens nos colocam, e ainda por cima nos termos deles, é algo que não consigo entender, principalmente porque eu mesma também faço isso.

[2] Tradução livre de: MIES, Maria. Patriarchy and Accumulation on a World Scale: Women in the International Division of Labour. Londres: Zed Books, 2014.

[3] Tradução livre de: KEITH, Lierre. Patriarchy vs. Planet Earth. RadFem Reboot 2012. Portland, 2012.

[4] O que até faz sentido, se você pensar em figuras de linguagem, como por exemplo quando uma mulher diz “sou mais macho que muito homem”. “Macho”, nesse caso, significaria “forte”, “corajosa”. Não significa, no entanto, “ser humano do sexo masculino”. E, olha só que interessante: funciona direitinho dentro da lógica do gênero como marcador de diferença e hierarquia.

[5] Confesso que esse é um assunto que me interessa apenas superficialmente. É um debate meio infrutífero, na verdade, que surgiu provavelmente com o Michel Foucault questionando de que forma se dá a orientação sexual das pessoas, de onde ela vem, porque algumas pessoas são héterossexuais e outras não. O Foucault era completamente contra a idéia de que a orientação sexual é inata, aquela coisa de “baby, I was born this way” (um discurso que está muito em voga hoje): para ele, são as experiências das pessoas que podem levá-las a tal e tal comportamento/desejo. Algumas pessoas ainda dizem que a orientação sexual é uma escolha — e qual seria o problema se fosse, não é mesmo?

[6] Vide a notícia do inseto fêmea encontrado no Brasil que se dizia que tinha um pênis porque era ela quem penetrava o macho de sua espécie, e não o contrário, como normalmente se espera (“normalmente”, aqui, pode ser interpretado no sentido de “norma” mesmo) de uma relação sexual macho/fêmea. Tal notícia foi amplamente celebrada pelos transativistas, como sendo uma prova de que fêmeas também têm pênis. Alguns biólogos desmentiram essa idéia: há muita (muita mesmo) variedade genital entre os insetos, e que uma protuberância por onde a fêmea busca o material genético do macho não pode ser simplesmente chamada de pênis; sequer faz sentido comparar a fisiologia dos invertebrados e dos mamíferos nesse sentido.

[7] Socorro!!

3 responses to “Problemão de gênero, parte II, volume 2: Sexo e gênero”

  1. […] desejos de fundo sexual [4] das pessoas, então gênero — que já é uma categoria problemática, é bom lembrar — é, essencialmente, uma categoria […]

  2. […] e Luce Irigaray vão discordar em pontos fundamentais acerca de como funciona a assimetria entre os gêneros: segundo ela, Beauvoir vê os gêneros como categorias dialéticas assimétricas, e Irigaray, de um […]

  3. […] sexos de nascimento, e que isso seria confundir sexo e gênero — que, vamos lembrar, ela disse em outra ocasião que não faz sentido separar um conceito do outro — o que, segundo ela, ajudaria a manter uma […]

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