Problemão de Gênero, parte II, volume 4: o universal e o específico

Finalmente mais um pedaço da minha grande e pretenciosa análise da obra de Judith Butler vê a luz do dia. Neste trecho — que é bem pequeno no livro, mas que rendeu um texto relativamente substancioso —, analiso o subcapítulo Teorizando o binário, o unitário e além, onde nossa teórica queer favorita desce o pau nas perspectivas ditas universalizantes. Para ler os outros textos da série, clique aqui.

Teorizando o binário, o unitário e além

Butler inicia esse item do seu texto dizendo que Simone de Beauvoir e Luce Irigaray vão discordar em pontos fundamentais acerca de como funciona a assimetria entre os gêneros: segundo ela, Beauvoir vê os gêneros como categorias dialéticas assimétricas, e Irigaray, de um modo mais amplo em alguns sentidos, como uma dialética elaborada pelo que ela chama de “economia masculinista”. Só que Butler diz que o enfoque dado por Irigaray é monolítico e universalizante, e que por isso sua teoria falharia em captar cada uma das especificidades culturais; Butler vai inclusive chamar isso “imperialismo epistemológico”.

A autora vai usar termos ainda mais fortes: de acordo com ela, essa tática equivale a usar as armas do inimigo, mimetizando as estratégias do opressor. Apesar de em certo ponto Butler dizer algo que faz muito sentido e até que bastante óbvio, ou seja, que as estruturas de opressão atuam para muito além da opressão sexual, seu texto dá a entender que as feministas têm os mesmos poderes e as mesma condições de atuar em um mundo onde impera a dominação masculina [1].

É aí que vem a deixa para questionar certas feministas que ela chama de “essencialistas”, e suas “alegações universalizantes”. Nos termos de Butler, essas teóricas acreditam na existência de uma identidade própria e única das mulheres. Mas tirando algumas correntes ecofeministas — que, e me contestem nisso se eu estiver errada, acreditam em um poder quase divino intrínseco à concepção e aos ciclos do corpo feminino [2], o que é bem diferente de se afirmar que exista uma essência feminina —, não tenho conhecimento de qualquer corrente feminista que advogue que todas as mulheres, sem exceção, compartam universalmente de uma mesma cultura/identidade unificada cujo ponto de partida seja sua materialidade corporal. Butler diz que essas “alegações universalizantes” partem de um ponto de vista epistemológico compartilhado que torna a categoria “mulher” algo normativo, exclusionário, e que não dá conta de abarcar as tais intersecções de raça, classe etc [3].

O que me leva de volta a um texto muito bom da Denise Thompson que já citei nesta série [4]”. Colo aqui uma parte que, a meu ver, mata a charada do tal “imperialismo epistemológico” do qual Butler acusa certas feministas. O trecho é um pouco longo, mas garanto que vale a pena a leitura:

Seu argumento é uma instância da acusação de ‘falso universalismo’, e funciona da mesma maneira que todas as acusações do tipo contra a teoria feminista funcionam, ou seja, negando a dominação masculina. Ela [Butler] caracteriza o ‘patriarcado’ como uma ‘noção altamente ocidental’. Ela insiste que ele não é apropriado quando aplicado às ‘atuações da opressão de gênero’ e ‘experiência de subjugação das mulheres’ em culturas diferentes das ‘ocidentais’, negando assim que o conceito de ‘patriarcado’ é relevante para culturas outras que não do ‘ocidente’. No entanto, ela reconhece que a ‘opressão de gênero’ e ‘subjugação das mulheres’ existe em culturas outras que não do ‘ocidente’. Mas se a subjugação das mulheres não é resultado da dominação masculina, de onde ela vem? Parece que o ‘universalismo’ só é falso quando o que está sendo ‘universalizado’ é a dominação masculina. Não há problema, ao que parece, em ver a opressão das mulheres como ‘universal’ no sentido de que ela existe em outras culturas que não o ‘ocidente’. O que é proibido sob o risco de ser acusado de ‘falso universalismo’ é nomear o inimigo.

Localizar a causa da subordinação das mulheres na dominação masculina não é ‘universalizar’ uma noção peculiar do ‘ocidente’ e aplicá-la a ‘outras culturas’. Identificar a dominação das mulheres pelos homens (e de alguns homens sobre outros homens) não é afirmar que há somente uma forma singular de dominação masculina. Mesmo no ‘ocidente’, ela tem a multiplicidade de diferentes formas. Onde quer que os interesses dos homens prevaleçam às custas das mulheres, e os interesses de alguns homens prevaleçam sobre os de outros homens, a dominação masculina existe, seja que forma tome. Enquanto algumas vezes ela é violenta e descaradamente desumanizadora, ela também é multifacetada e pervasiva na vida cotidiana. Ela toma diferentes formas em diferentes culturas sob diferentes condições históricas, contanto que a existência ‘humana’ continue a ser definida nos termos dos homens, e que a existência ‘humana’ de alguns homens exista às custas de outros homens, ela continua sendo dominação masculina, em todas as suas ‘infinitas variedades e monótonas similaridades’ […].

Butler continua dizendo que alguns esforços têm sido feitos no sentido de fazer uma política que não assuma uma forma pré-definida de “mulher”, mas que abarque as várias identidades das várias mulheres em variados contextos, de modo a não se assumir uma unidade, e que ao mesmo tempo abrace as contradições. Só que, logo a seguir, ela diz que “[a] própria noção de ‘diálogo’ é culturalmente específica e historicamente fundada, e enquanto um falante pode sentir-se seguro de que a conversa esteja acontecendo, outro pode ter a certeza de que não está”, e que faz-se necessário questionar as condições em que este diálogo ocorre. Que as questões de raça, classe, etnia, orientação sexual etc não podem ser simplesmente adicionadas à condição “mulher” para que a “categoria mulher” seja de fato completa — como ela diz a seguir — é algo bastante razoável. Mas a recusa de Butler em reconhecer a existência, a materialidade, e tudo o que implica viver em um corpo de fêmea, como a autora fez até aqui sob o temor de se cair em uma análise essencialista, é simplesmente estranho, na falta de uma palavra melhor.

O que Butler propõe é que se assuma uma “incompletude definicional”, porque segundo a autora afirma em mais uma pequena série de perguntas retóricas, é a insistência em se encontrar uma unidade que causa os rachas na ação política e estabelece uma “norma exclusionária de solidariedade a nível de identidade”. De acordo com ela, o fato de não existir uma identidade unificada a respeito de quem é o agente do feminismo pode fazer com que um maior número de “mulheres” [5] possam ser incluídas no feminismo, tornando a luta feminista mais efetiva, porque a própria noção de “identidade” não é algo fundacional e/ou estático.

Mas Butler esquece que o que unifica as mulheres no feminismo não é sua identidade enquanto mulher. Mesmo as feministas radicais advogam que a identidade feminina é algo que depende de significantes culturais; ser mulher no Brasil é diferente de ser mulher em Angola, bem como ser mulher no Norte do Brasil é bem diferente de ser uma mulher sul-brasileira, bem como ser uma mulher negra brasileira no sul do Brasil é bem diferente de ser uma mulher indígena lésbica no Oeste americano. Só que o feminismo não é uma disputa para ver quem grita mais alto. O que pega nessa questão — e que Butler ou não se informou direito a respeito, ou deliberadamente distorceu, nunca saberemos — é que o objetivo do feminismo não é ser uma luta pela representatividade identitária das mulheres no âmbito cultural, mas uma luta das mulheres contra a dominação masculina partindo do fato de que as mulheres se encontram em uma posição de subjugação pelos homens — que estão com elas em uma relação de parasitismo que apropria econômica, cultural e socialmente em amplas esferas as funções sexuais e reprodutivas das mulheres. E mulher, fêmea, que dentro do contexto da reprodução da espécie tem um papel bem específico, tem no mundo todo. Não sei se Butler notou este pequeno detalhe, mas aguardemos com paciência o desenrolar do argumento.


Notas

1. Não que Butler acredite que exista uma dominação masculina, mas enfim…

2. E, sinceramente, em um mundo que demoniza, erotiza e objetifica o corpo feminino, e ainda prega e incentiva a total ignorância das mulheres a respeito de seus próprios corpos, não consigo, por mais que tente, ver muito problema nisso. Até vejo alguns, mas isso eu conto para quem quiser me pagar uma cervejinha. 🙂

3. Para entender melhor a origem, o que significa exatamente, e quais os problemas e limites dessa abordagem chamada “interseccional”, recomendo a leitura de um texto de Danièle Kergoat, “Dinâmica e consubstancialidade das relações sociais“.

4. Tradução livre de: THOMPSON, Denise. Radical Feminism Today. Londres: SAGE, 2001. p. 53-58.

5. Aspas da autora.

Update

As gurias do Radfem.info acabaram de publicar na íntegra o texto da Denise Thompson que é citado aqui. Por favor, leiam!

One response to “Problemão de Gênero, parte II, volume 4: o universal e o específico”

  1. […] o último texto publicado na série “Problemão de Gênero”, resolvi instituir um cronograma para, até […]

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