Problemão de gênero, parte II, volume 6: poder e os limites da sexualidade

Antes de iniciar mais esta seção da série “Problemão de Gênero” gostaria de tecer algumas considerações que podem esclarecer algumas coisas a respeito do viés pelo qual estou criticando a teoria de Judith Butler. O que o Feminismo Radical propõe é que a dominação masculina tem caráter sexual. O Feminismo Radical não está preocupado com questões específicas da ciência que estuda a diferenciação sexual — seja ela qual for —, ainda que leituras tangenciando este feminismo possam ser feitas. Se a Genética, a Psicologia, a Neurociência ou a Biologia descobriram x, y ou z a respeito das mulheres, não é problema do Feminismo Radical. O dimorfismo sexual na espécie humana é um fato — científico, inclusive. O que o Feminismo Radical advoga é que não é possível entender as relações sociais de dominação das mulheres pelos homens tirando da balança o peso do sexo [1] como ferramenta para esta dominação.

Linguagem, Poder, e as Estratégias de Deslocamento

O último subcapítulo da primeira parte de “Gender Trouble” inicia-se dizendo que uma grande porção do feminismo — que ela não vai citar qual é — assume que há um fazedor por trás do feito [2], ou seja, não há ação sem agente. A Monique Wittig vai propôr isso, mas ainda vai, segundo Butler, enxergar essas relações no interior da cultura. Só que pra Butler isso é um problema porque confunde causa e efeito. Como para a Butler o gênero não tem a ver com a materialidade do corpo e é uma expressão em si mesma, ela dá a entender que isso é contraditório, e vai usar como exemplo um trecho do texto da Wittig que diz que o “mito da mulher” não precede a opressão das mulheres [3].

A seguir, Butler discute a forma como a Monique Wittig vai falar do termo “sexo”: “uma marca que é de algum modo aplicada por uma heterossexualidade institucionalizada, uma marca que pode ser apagada ou ofuscada através de práticas que efetivamente contestem essa instituição” [Tradução livre, p. 34]. Ela então vai comparar essa definição e outros conceitos e idéias da Wittig com as da Luce Irigaray. Por exemplo, ela vai dizer que, para a Irigaray, as “‘marcas’ de gênero” influenciam a linguagem a ponto de influenciar compreensões de mundo, e que a única forma de escapar disso seria a possibilidade de uma linguagem radicalmente nova. Mas para a Wittig, a linguagem propriamente dita não é misógina em si mesma, mas o é em suas aplicações. Posicionamentos como os da Irigaray, para a Butler, só acirram o caráter bipolarizado dessa disputa.

Como materialista [4], Wittig vai ver a linguagem apenas como mais um lugar onde essas coisas se manifestam, de modo que o sexo como ficção vai ser algo inventado no sentido de restringir o surgimento de identidades fora do que Butler chama de matriz heterossexual. A “proliferação de prazeres fora da economia reprodutiva” aponta para uma nova forma de se pensar a sexualidade, uma forma que vá além da sua relação com a genitália [5]. De acordo com Butler, Wittig vai pegar o conceito de “inversão” proposto por Freud ao definir a homossexualidade, dando destaque justamente para o que Freud dizia ser características de uma sexualidade infantilizada — a própria noção de “sexualidade desenvolvida” do pai da psicanálise está de acordo com a norma. Butler questiona se essa é a única leitura possível de Freud, e se essa “inversão” não estaria de acordo com a normalização que busca enfrentar, porque Wittig não dá tanto peso pra linguagem na questão das “marcas de gênero” quanto Butler — bem daquele jeitinho irritante dela de fazer perguntas que na verdade afirmam coisas. O que ela questiona, na real, é que esse modelo proposto pela Wittig não dá margem ao que a própria Butler propõe, ou seja: infinitas possibilidades de se questionar a tal da matriz heterossexual através da linguagem.

A seguir, Butler aborda a leitura feita por Irigaray da teoria de Lacan [6] sobre as tais das “marcas de gênero”. Enquanto o masculino é uma ficção construída pela Lei que proíbe o incesto, o feminino marca uma falta simbólica, de modo que seria a diferença linguística que marcaria a diferença sexual; assim, os gêneros seriam construídos através do tabu do incesto. Segundo Butler, tentar teorizar o feminino — ou qualquer “identidade sexual” [7] — a partir disso é um empreendimento destinado ao fracasso, porque neste modelo a identidade é construída através da proibição feita sobre “um set de polaridades sexuadas”, e a proibição é ineficaz.

Contrapondo as duas visões, e criticando ambas, ela conclui esse trecho dizendo que as duas posições falham ao assumir um sujeito antes da Lei, ou seja: que fora da linguagem exista um ser íntegro, não afetado pelas relações normativas de gênero. Assim, as “subversões, desestabilizações ou deslocamentos requereriam uma sexualidade que de algum modo escapasse das proibições hegemônicas do sexo”. Citando Foucault, ela argumenta que as próprias restrições da sexualidade acabam sendo a matéria-prima do sujeito na construção desses “deslocamentos”, porque não existe acesso a essa sexualidade “pura”, fora das relações de poder. A produção dessa sexualidade estaria atuando mais na “expansão” do que existe a partir dessas relações, e menos na criação de coisa nova.

Em seguida, Butler chama de “utópicas” as tentativas feministas e lesbo-feministas de teorizar uma sexualidade fora dos construtos heterossexuais, ou para além da genitália. Para ela, essas tentativas falham em perceber como as relações de poder continuam afetando a sexualidade das mulheres, seja em relações hétero “liberadas” (aspas dela) ou lésbicas. Mais uma vez ela critica Wittig em sua tentativa de falar sobre sexualidade feminina a partir da anatomia feminina. Se você imagina que ela chama isso de “essencialista”, é isso aí mesmo: para Butler, é impossível significar a sexualidade feminina fora da masculina. Ela também volta sua crítica à Irigaray, porque não teria ficado claro em sua obra se a sexualidade é culturalmente construída ou se ela é culturalmente construída em torno do falo.

Butler então vai dizer que o “movimento pró-sexualidade dentro da teoria e prática feminista” [8] argumenta que a sexualidade é sempre construída nos termos das normas instituídas — ou seja, heterossexualidade e a centralidade no caralho. Criticar essas normas não vai necessariamente desfazer essas construções, porque isso seria uma “impossibilidade cultural e um sonho politicamente impraticável”, segundo a autora.

Ativistas feministas anti-pornografia nos anos 1980

Ativistas feministas anti-pornografia na Broadway nos anos 1980, fotografia de Richard Greene

Até aqui, nenhuma novidade. Tudo isso que Butler desenvolve é mesmo muito interessante, e falo isso aqui sem ironia alguma. De fato, como construir uma sexualidade livre de abusos reais e simbólicos, em uma sociedade onde o sexo é usado como arma de guerra? É uma pergunta que o feminismo tem se feito há muito tempo, e tentativas de respondê-la, como as de Irigaray e Wittig abordadas no livro, são apenas algumas delas. Muita coisa foi escrita tratando desse assunto. Antes mesmo de se pensar em dividir a história do movimento das mulheres em ondas, escritoras de inclinação feminista como Emma Goldman, Rosa Luxemburgo e (a quase xará da Judith) Josephine Butler já discutiam formas de como tornar a sexualidade mais livre das amarras da dominação masculina. Alguns exemplos recentes de que me lembro agora e que posso citar de memória são, obviamente, as obras de Andrea Dworkin como Intercourse e Pornography: Men Possessing Women, e também alguns dos trabalhos da maravilhosa Sheila Jeffreys, como Anticlimax e The Lesbian Heresy. Se é através do sexo, do estupro e da retirada da autonomia das mulheres sobre sua reprodução que o patriarcado atua, este não é exatamente um tema que dê pra gente se desviar. É preciso falar, e discutir, e debater sim.

Mas o que a autora propõe é:

No lugar de uma sexualidade “macho identificada”, onde “macho” serve como a causa e o sentido irredutível dessa sexualidade, devemos desenvolver uma noção de sexualidade construída em termos das relações fálicas de poder que refazem e redistribuem as possibilidades desse falicismo precisamente através de operações subversivas de “identificação” que são, dentro do campo de poder da sexualidade, inevitáveis. […] Se não há [possibilidade de haver] nenhuma rejeição de uma sexualidade socialmente construída, o que sobra é a questão de como reconhecer isso e “fazer” a construção dentro de onde invariavelmente se se encontra. [9]

Um tanto fatalista, a meu ver. Butler prossegue se perguntando que possibilidades dentro da matriz de gênero são possíveis. Ela diz que a simples presença de vestígios da heterossexualidade em sexualidades divergentes não quer dizer necessariamente uma reafirmação desses valores, e exemplifica isso com os estilos sexuais (termo dela) “butch” e “femme”. Essas repetições de padrões da heterossexualidade não seriam cópias da heterossexualidade em si, mas uma cópia de uma cópia [10], uma repetição em forma de paródia. Ela complementa afirmando que se a própria ficção criada no entorno do sexo e do gênero são possíveis de contestação, e que não necessariamente as regras criadas têm qualquer função ou relação com a biologia em si [11], então as possibilidades de construção de uma nova sexualidade estariam justamente nessas brechas criadas pela própria regulação.

Aqui, nesse finalzinho, descobrimos de onde a galera tira a citação de Beauvoir fora de contexto. O que geralmente se cita não é mesmo Beauvoir, mas um simulacro, uma reinterpretação sem qualquer fundamento no texto real:

Se há algo de correto na afirmação de Beauvoir de que não se nasce mulher, mas torna-se mulher, é que mulher em si é um termo em processo, um vir a ser, uma construção da qual não se pode dizer legitimamente onde começa ou termina. Como uma prática discursiva em andamento, está aberta à intervenções e significações. [12]

É possível entender aqui que mulher se refere às construções artificiais a respeito da mulheridade, o que se convencionou chamar de “feminilidade”. No entanto, no texto original de Beauvoir, não é exatamente à essa construção artificial que a referência è feita, mas a quem recebe esse atributo: mulheres, fêmeas, seres humanos do sexo feminino. A feminilidade é construída e atribuída a quem se convém dominar a propósito dos recursos que se podem extrair a partir dessa dominação. Ainda que alguns pontos da feminilidade não tenham qualquer relação com o corpo ou o ser sobre o qual essa construção artificial se faz, ela tem um propósito bem definido. É contra isso que criamos esse troço chamado feminismo, afinal.

Butler encerra o capítulo com uma série de reflexões a respeito da própria noção de gênero que ela usa em seu texto. Ela reafirma a ideia de construção social do gênero, e como essa “artificialidade” por vezes toma o lugar do “real”, como uma estilização do corpo dentro de uma rígida coleção de regras que “produz a aparência da substância”. A proposta dela, que será desenvolvida nos capítulos seguintes, é então a de semear a discórdia. Projeto político? Quem precisa disso?


Notas

1. “Sexo”, aqui, pode ser compreendido tanto enquanto prática quanto como manifestação material/corpórea. Então, sim, o que os campos de investigação científica dizem a respeito das mulheres é sim uma preocupação feminista, mas não é esse o ponto principal.

2. Em inglês, "a doer behind the deed". Não sei como isso foi traduzido em edições brasileiras, mas acredito que a explicação a seguir ao termo é clara o suficiente. Caso eu tenha me enganado, deixe seu comentário ao final do texto.

3. Porque o mito foi criado para manter esse sistema funcionando, ora bolas! A gente não acredita no mito da feminilidade porque ele tem algum fundo de verdade, mas porque nos foi ensinado, e às gerações que vieram antes de nós. Mas é bizonho achar que as primeiras mulheres que foram submetidas à força não opuseram nenhuma resistência e nem viram esse mito ser passado adiante sem dor no coração — da mesma forma como hoje a gente ainda vê tantos mitos da mesma natureza passando incólumes como se fossem verdades e atrasando ainda mais a libertação das mulheres. Pelo menos foi o que entendi.

4. Toda vez que Butler se refere a Wittig como materialista, ela põe aspas na palavra. Achei meio picuinha dela e não vou pôr aqui justamente pra dizer que entendi qualé a tua, e porque eu mesma me considero materialista.

5. Percebe o “perigo”? Sim, é muito legal de se pensar uma sexualidade que vá além do papai-e-mamãe clássico, da função reprodutiva e, por que não?, além do “mete-mete-sem-consentimento”, uma expressão de sexualidade perfeitamente de acordo com os ideais de seja lá quem for que esteja por trás da matriz sexual. Quem será o Arquiteto do patriarcado?

6. Sobre psicanálise, recomendo os episódios sobre o assunto do Mitografias, o podcast do site Papo Lendário.

7. Note que Butler já assume que “mulher” (ou que valores associados às mulheres) é uma identidade a ser vestida ou encarnada pelo indivíduo, sem exatamente uma base paupável. Para entender melhor o que ela pensa do assunto, veja no texto anterior dessa série a nota de número 6, sobre “metafísica da substância”.

8. Butler, pra variar, não cita quem ou que obras representariam esse “movimento pro-sexualidade” dentro do feminismo, mas é provável que ela esteja se referindo às Feminist Sex Wars. Tratam-se de debates calorosos que ocorreram no movimento no fim do período que a gente costuma chamar de Segunda Onda Feminista — que, não, não é sinônimo de feminismo radical. De um lado, feministas críticas aos usos e abusos da pornografia — que naquela época estava começando a tomar a forma que a gente conhece hoje — e, de outro, os grupos auto-denominados sex-positive. Como nos debates contra e a favor do aborto, em que um lado se advoga defensor da “vida”, o termo "sex-positive" dá a entender que o outro lado é formado por feministas carrancudas que não gostam de sexo e querem acabar com a alegria de todo mundo. O estopim dessas discussões foi o movimento anti-pornografia e a mobilização, encabeçada por Andrea Dworkin e Catherine MacKinnon, na tentativa de aprovar uma lei nos Estados Unidos que visse a pornografia como uma violação aos direitos humanos das mulheres. Foram, obviamente, taxadas de puritanas. Esses episódios só mostram como a história das mulheres anda em círculos.

9. Tradução livre do original: “In the place of a “maleidentified” sexuality, in which “male” serves as the cause and irreducible meaning of that sexuality, we might develop a notion of sexuality constructed in terms of phallic relations of power that replay and redistribute the possibilities of that phallicism precisely through subversive operations of “identification” that are, within the the power field of sexuality, inevitable. […] If there is no radical repudiation of a culturally constructed sexuality, what is left is the question of how to acknowledge and “do” the construction one is invariably in.”

10. Aqui, uma clara referência não referenciada ao Baudrillard e seu livro Simulacro e Simulação.

11. Não têm mesmo: vale relembrar a citação da MacKinnon sobre como as limitações das mulheres são um efeito de sua dominação, e não uma causa dela (vide o texto sobre os prefácios).

12. Tradução livre do original: “If there is something right in Beauvoir’s claim that one is not born a woman, but rather becomes a woman, it follows that woman itself it’s a term in process, a becoming, a constructing that cannot rightfully be said to originate or to end. As an ongoing discursive practice, it is open to intervention and signification.”

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