E então que hoje, não me lembro por que meios, me chega aos olhos essa notícia, que conta que um pequeno grupo de ativistas negros, vestidos com trajes típicos africanos, estava fazendo um protesto às portas do Fashion Rio contra a discriminação racial nas passarelas e exigindo cotas.

Fonte: AFP
Pois bem. Enquanto a maioria das pessoas no tuinto riu ou lamentou a “praga do politicamente correto”, só consegui me lembrar de um mini-documentário que vi meses atrás, e a minha reação ao vê-lo foi basicamente a mesma que tive ao saber do protesto pela notícia: dó da ingenuidade dessas pessoas.
Não sei quanto a vocês, mas eu não nasci ontem, apesar de alguns amigolinos acharem que sim, ao contrastar meus vinte e cinco anos com sua própria história de vida. Nasci em finzinhos da tal “década perdida”, anos depois de o padrão de beleza de modelo de passarela já estar bastante bem estabelecido, e justamente por estar por fora desse padrão com meus olhos pequenos demais e nariz grande demais, sei bem como ele funciona.
Então é o seguinte, xeu contar uma novidade pra vocês: acontece que esse padrão de beleza é exclusivista. De propósito. Bata o pé o quanto for, mas isso não vai mudar. Não tão rápido, pelo menos. Uma hora ou outra ele vai admitir um olho puxado, um cabelo afro, mas isso é muito pontual, dependente de inúmeros fatores, e é completamente desproporcional perto da quantidade de moças em toda a população do mundo que apresenta essas características – e a menina ainda vai ser taxada apenas de “exótica”, e perder muitos trabalhos por causa desse exotismo.
Por que vocês acham que a modelo brasileira de maior fama internacional não é uma garota morena-jambo de cabelo cacheado e ancas largas (características comuns à brasileira média)? Ou, pelo menos, uma morena-jambo magrinha? Pensa um tiquinho, só um tiquinho. Vai, eu espero.
Pensou? Então. Porque não dá.
Se você quer mesmo entrar nesse esquema, tem que jogar de acordo com as regras dele. Pode bater o pé o quanto quiser, o esquema não vai mudar, assim, num estalo. Mudança de paradigma leva muito tempo, como bem disse Thomas Kuhn, ainda que em um contexto bem diverso. Depende de mudança de zeitgeist, e meua migo, em um mundo onde as pessoas estão se branqueando e tacando formol no cabelo pra poder se ajustar ao referido esquema, ele vai demorar um bom bocado pra mudar.
Ou isso, ou você muda de esquema.
Eu continuo achando as modelos estranhas, as mulheres bonitas, em geral, sem graça, e as “feias”, muito mais interessantes.
Creio que beleza está associada à raridade. Não tenho nenhum dado empírico para confirmar isto, apenas meu achismo, mas me parece que quanto mais raro um tipo de corpo for, mais desejado ele é. Hoje em dia é difícil ser extremamente magra; por isso, o padrão vigente.
Lembrando que tem gente que faz clareamento anal.
Dias atrás, no primeiro momento que li a notícia, achei a ação meio ridícula, desesperada. Depois de pensar um pouco cheguei a conclusão que essa é a única maneira de conseguirem isso. Falando de negros no mundo da moda, eles não são contratados pela sua beleza, mas como você mesmo disse Fabi, pelo exotismo.
Mas não dá pra culpar exclusivamente os estilistas dessa cultura preconceituosa que está enraizada até o rabo clareado de 99% das pessoas.
E me incluo aí nessa estatística, menos no fato do clareamento anal.
Não posso bater no peito e dizer que sou um cara sem preconceitos, alías, não conheço pessoalmente ninguém que possa fazer isso. Mas posso dizer que tento melhorar cada vez mais, ter um pensamento mais crítico com as babaquices aprendidas na infância e adolescência, tanto direta quanto indiretamente. Preconceito não é um troço instintivo, é algo que você aprendeu que era o padrão em algum momento da sua vida, tipo a obrigatoriedade de ter uma religião ou acreditar em alguma coisa. Quanta coisa a gente poderia ter aprendido se não tivesse que perder tempo lutando contra essa coisas hoje em dia, não?
Não mesmo. Isso é da cultura, e dela que foi pro mundo da moda. É a cultura.
Eles precisam protestar na porta da casa de negras que querem obedecer o padrão cabelo liso e toneladas de maquiagem. Fashion Rio é um negício comercial, não cabe este tipo de protesto boçal.
Se meu público é branco não vou fazer um anúncio com negros, apenas isso. A presença de negros remete a popular. Se você está anunciando no Faustão e querendo atingir o maior número de pessoas, ok. Mas se você quer atingir um público exigente e celeto, não tem como ter negros. Não é minha opinião, é o mercado que gira assim.
“Presença de negros remete a popular”? “Se você quer atingir um público exigente e celeto, não tem como ter negros”? Mas, amigolino, é JUSTAMENTE isso que estou criticando no texto. Leia novamente, faz favor.
Affe, dá zero pra ele.
E outra, estar ali não é motivo de orgulho não. Estão ali porque precisam de grana. As dançarinas do Fausto por exemplo, são meras peças de decoração do cenário. Só quem sonha em estar ali é mulher sem nada na cabeça, jamais uma mulher inteligente e moderna vai aceitar estar ali atrás daquele bobalhão servindo de enfeite. Modelos são enfeites! Se eu fosse negro protestaria para não permitir negras participando desta palhaçada, e sendo tratada como objeto. Estilistas ocntratam as mais belas para poder mostrar – estou investindo grana, vocês estão vendo – é o falso mundo do glamour e ostentação. Larga disso e vai ler/escrever um livro, siga adiante com sua vida.
Há alguns anos atrás li uma explicação simples e sensata do Isaac Asimov sobre este fenômeno, no prefácio do livro “Coma e Emagreça com Ficção Científica” (uma tradução absurda do título do livro que, se não me falha a memória, se chama em inglês “The Science Fiction Diet Book”): Na época da Renascença, o ideal de beleza eram as formas roliças, porque a comida produzida era relativamente escassa e distribuída prioritáriamente para os nobres, que não exerciam muitas atividades físicas. Assim, era “belo” ser mais gordo, pois denotava o poder de comer mais e fazer menos. Hoje, a distribuição de comida democratizou-se, permitindo maior acesso a todos. Ao mesmo tempo, a medicina descobriu malefícios causados pelo excesso de gordura, de modo que emagrecer tornou-se uma obsessão. Em paralelo, as atividades do dia a dia exigem menor esforço para serem feitas. Como as pessoas mais pobres não teriam tanto tempo e recurso para academias e dietas, o corpo magro e musculoso de quem pode passar o dia a malhar se torna o “novo ideal de beleza”.