Complicada e perfeitinha

Toda discussão com cristãos, sejam eles da orientação que for, e dos mais variados graus de sensatez, tem algo em comum: o argumento de que, se há algo de absurdo na bíblia, diz-se que ela é obra humana; se tem uma ordem sem razão aparente – como por exemplo o ódio gratuito a gays -, ela é infalível. Por algum motivo que até mesmo eu, que fui crente e estudiosa do santo livro, desconheço, ninguém é capaz de enxergar o absurdo dessa fala.

Se a bíblia é perfeita e verdadeira, todas as crueldades e preconceitos que ela destila são igualmente verdadeiros e justos. Se o são, justificativas para hábitos abandonados – como por exemplo o trato injusto e desigual que Paulo determina que mulheres devam ser tratadas; abandonadas não por todos os membros de nossa sociedade, como é possível ver todos os dias -, de que essas coisas “não valem mais” e que apelam para a humanidade de seus autores ou para o zeitgeist da época, em contraste com zeitgeist atual, são improcedentes. Ainda: se é verdadeira e justa, tem alguma coisa de muito errada com esse deus e com a moral de quem escolheu segui-lo.

Se a bíblia é trabalho humano e é apenas um recorte da época e dos anseios dos homens que a escreveram, ela não pode ser santa nem perfeita. Não pode sequer ser considerada um guia moral, ou um guia para qualquer outra coisa – principalmente ciência; sim, criacionistas, estou olhando pra vocês. A própria validade do cristianismo como um todo e de suas inúmeras vertentes deve ser posta em xeque.

Decidam-se: ou a bíblia é a palavra de deus perfeita (ainda que escrita por homens imperfeitos, mas divinamente inspirados), ou ela é retrato e fruto de sua época, e ainda que divinamente inspirada, escrita por homens imperfeitos. Não dá pra ser os dois, são mutuamente excludentes.

Carta de Excomunhão

Curitiba, 19 de dezembro de 2009.

“A maioria das pessoas preferiria morrer a pensar; de fato, muitas o fazem.”
- Bertrand Russell -

Por meio desta carta gostaria de pedir o meu completo e absoluto afastamento das atividades da Igreja Batista no Bairro Novo Mundo. Peço também a exclusão de meu nome do rol de membros da mesma, e a minha excomunhão desta comunidade religiosa.

Os motivos que levaram-me a tomar esta decisão foram a completa descrença na doutrina e nos ensinamentos pregados por esta ou qualquer outra seita e/ou denominação cristã, e a compreensão de que conduzir minha vida nos preceitos da entidade sobrenatural outrora considerada senhor de minha vida prejudicava-me mais do que fazia-me bem. Uma vez que a fé não exige provas, e provas eram o que eu necessitava para crer na existência de um ser supremo, não fazia sentido permanecer na igreja somente para deixar felizes parentes, amigos e completos desconhecidos, em detrimento de minha própria felicidade.

Peço a compreensão dos antes irmãos em Cristo para com a minha decisão. Tenho a certeza de que, caso eu esteja errada e o Deus de sua crença seja mesmo real, Ele compreender-me-á e preferirá que eu tenha uma descrença honesta a uma falsa fé. Peço também que os irmãos examinem seus próprios corações e espíritos com a mente aberta e reflitam a respeito de suas crenças.

Além de sua compreensão, também gostaria que evitassem perder seu tempo (e o meu) tentando recuperar esta ovelha desgarrada, como alguns de vocês já tentaram. Caso desejem ter uma conversa franca a respeito, sem proselitismo de qualquer forma, estarei de braços abertos e à disposição para recebê-los.

Fabiane Alves de Lima