Toda discussão com cristãos, sejam eles da orientação que for, e dos mais variados graus de sensatez, tem algo em comum: o argumento de que, se há algo de absurdo na bíblia, diz-se que ela é obra humana; se tem uma ordem sem razão aparente – como por exemplo o ódio gratuito a gays -, ela é infalível. Por algum motivo que até mesmo eu, que fui crente e estudiosa do santo livro, desconheço, ninguém é capaz de enxergar o absurdo dessa fala.
Se a bíblia é perfeita e verdadeira, todas as crueldades e preconceitos que ela destila são igualmente verdadeiros e justos. Se o são, justificativas para hábitos abandonados – como por exemplo o trato injusto e desigual que Paulo determina que mulheres devam ser tratadas; abandonadas não por todos os membros de nossa sociedade, como é possível ver todos os dias -, de que essas coisas “não valem mais” e que apelam para a humanidade de seus autores ou para o zeitgeist da época, em contraste com zeitgeist atual, são improcedentes. Ainda: se é verdadeira e justa, tem alguma coisa de muito errada com esse deus e com a moral de quem escolheu segui-lo.
Se a bíblia é trabalho humano e é apenas um recorte da época e dos anseios dos homens que a escreveram, ela não pode ser santa nem perfeita. Não pode sequer ser considerada um guia moral, ou um guia para qualquer outra coisa – principalmente ciência; sim, criacionistas, estou olhando pra vocês. A própria validade do cristianismo como um todo e de suas inúmeras vertentes deve ser posta em xeque.
Decidam-se: ou a bíblia é a palavra de deus perfeita (ainda que escrita por homens imperfeitos, mas divinamente inspirados), ou ela é retrato e fruto de sua época, e ainda que divinamente inspirada, escrita por homens imperfeitos. Não dá pra ser os dois, são mutuamente excludentes.