Complicada e perfeitinha

Toda discussão com cristãos, sejam eles da orientação que for, e dos mais variados graus de sensatez, tem algo em comum: o argumento de que, se há algo de absurdo na bíblia, diz-se que ela é obra humana; se tem uma ordem sem razão aparente – como por exemplo o ódio gratuito a gays -, ela é infalível. Por algum motivo que até mesmo eu, que fui crente e estudiosa do santo livro, desconheço, ninguém é capaz de enxergar o absurdo dessa fala.

Se a bíblia é perfeita e verdadeira, todas as crueldades e preconceitos que ela destila são igualmente verdadeiros e justos. Se o são, justificativas para hábitos abandonados – como por exemplo o trato injusto e desigual que Paulo determina que mulheres devam ser tratadas; abandonadas não por todos os membros de nossa sociedade, como é possível ver todos os dias -, de que essas coisas “não valem mais” e que apelam para a humanidade de seus autores ou para o zeitgeist da época, em contraste com zeitgeist atual, são improcedentes. Ainda: se é verdadeira e justa, tem alguma coisa de muito errada com esse deus e com a moral de quem escolheu segui-lo.

Se a bíblia é trabalho humano e é apenas um recorte da época e dos anseios dos homens que a escreveram, ela não pode ser santa nem perfeita. Não pode sequer ser considerada um guia moral, ou um guia para qualquer outra coisa – principalmente ciência; sim, criacionistas, estou olhando pra vocês. A própria validade do cristianismo como um todo e de suas inúmeras vertentes deve ser posta em xeque.

Decidam-se: ou a bíblia é a palavra de deus perfeita (ainda que escrita por homens imperfeitos, mas divinamente inspirados), ou ela é retrato e fruto de sua época, e ainda que divinamente inspirada, escrita por homens imperfeitos. Não dá pra ser os dois, são mutuamente excludentes.

Ele vem saltando pelos montes

Um dos livros bíblicos mais mal compreendidos de todos os tempos é, sem sombra de dúvida, o Cantares de Salomão, a.k.a. Cânticos dos Cânticos, livro poético do Antigo Testamento atribuído ao rei israelita Salomão. Apesar de sua linguagem explícita e direta, há quem invente mil interpretações sobre seu conteúdo, deixando completamente de lado o bom senso e a Navalha de Occam.

Para que você não tenha o trabalho de ir pegar uma bíblia, achar o referido livro e ler seus oito capítulos, vou resumi-lo em poucas palavras: Salomão e Sulamita, sua amada (supostamente uma entre as centenas de esposas que o rei de Israel teve) numa dirty talk. E é isso, nada além disso. Porém, ao longo dos séculos, muita polêmica já foi feita em torno dessas não tão sagradas palavras. A Igreja Católica cogitou a possibilidade de bani-lo da coleção bíblica, e ainda hoje algumas denominações cristãs mais rigorosas dão pouca, ou nenhuma importância ao mesmo.

Uma grande porção de crentes e estudiosos da bíblia acreditam que, na verdade, o Cantares de Salomão seja uma alegoria, uma ilustração parabólica do amor do deus Yahweh pelo povo de Israel, do amor de Jesus pela igreja, ou ainda do amor de Deus pelos crentes. Entretanto, não se encontra em lugar algum do livro qualquer indicação ou sugestão que sustente esta teoria. São poemas de amor erótico e só.

Para que não restem dúvidas sobre o teor dos poemas do herdeiro do Rei Davi, transcrevo aqui alguns trechos:

Quão formosa, e quão aprazível és, ó amor em delícias!

A tua estatura é semelhante à palmeira; e os teus seios são semelhantes aos cachos de uvas.

Dizia eu: subirei à palmeira, pegarei em seus ramos; e então os seus seios serão como os cachos na vide, e o cheiro da tua respiração como o das maçãs.

[Cantares de Salomão 7:6-8]

A linguagem cheia de floreios prejudica a interpretação e mais confunde que esclarece? Eu traduzo: “Tu é mó gostosa, hein? Vô pegá nos seus peitinhos!”

Ainda assim, há quem ainda tenha alguma dúvida sincera. Isso porque, como se sabe, a religião cristã tem sérios problemas quando o assunto é sexo, e se esquiva dele como o Diabo foge da cruz – ops. O tabu ainda é muito grande, e em pleno século XXI cristãos ainda imploram aos seus fiéis que fiquem longe da pornografia e se casem virgens; compreensível, afinal estão apenas sendo coerentes com seus dogmas. Por mais que Salomão diga com todas as letras que quer pegar nos peitos da Sulamita, cristãos coram, suam frio, respiram fundo e dizem: não, calma, isso aqui é a Bíblia, deve ter um propósito para Deus ter posto um texto assim aqui, isso deve ser linguagem figurada.

Interessante notar que até mesmo o pilantra, digo, pastor Silas Malafaia tem uma interpretação mais correta do conteúdo erótico do livro do que boa parte dos cristãos*.

Estando errada ou não, esse tipo de interpretação de que a descrição do ato sexual entre um homem e uma mulher seria uma parábola a respeito da relação entre a Divindade e o Fiel faz pensar. Richard Dawkins, na página 256 de seu ótimo “Deus, um delírio”, dá alguns exemplos de como o comportamento de um religioso se assemelha ao comportamento de uma pessoa acometida pela paixão sexual, incluindo aí toda a resposta fisiológica decorrente desse estado de excitação.

Tenho pra mim que toda a repressão sexual imposta pelo Cristianismo tem uma razão de ser, e essa razão não deve ser apenas uma coincidência de fatores, mas uma estratégia muito bem arquitetada. Fazer com que seus sacerdotes sejam castos, a meu ver, não foi apenas uma decisão econômica da Igreja Católica – uma vez que foi tomada devido aos excessos que seus clérigos cometiam, abusando de seus privilégios enquanto clérigos.

Restringir seus fiéis sexualmente a um número limitado de condições específicas para a prática, opções de gênero e até modalidades e posições foi uma jogada de mestre. Um dos mais fortes impulsos do ser humano, ligado à sobrevivência e perpetuação da espécie; uma característica que é tão marcante que de fato define vários aspectos da vida como a sexualidade é um poder muito grande para ser deixado assim, livre.

Usar esse potencial e transformar a massa em agentes úteis de seus propósitos é o objetivo de toda religião. Direcionar o alvo dessa paixão sexual para o intangível e transformar o sexo em algo impuro e mundano, incompatível com o Divino não me parece apenas um medinho, um puritanismo bobo. Foi algo orquestrado e muito bem calculado, perfeitamente de acordo com mentes megalomaníacas cujo objetivo é literalmente dominar o mundo.


*Vale ressaltar que Malafaia é da Assembléia de Deus, uma igreja pentecostal menos rígida que boa parte das denominações cristãs não-católicas, descendente direta da Igreja Batista. Os batistas, por sua vez, formam uma denominação protestante surgida da união de dissidentes da Igreja Anglicana que simpatizavam com os ideais menonitas, estes últimos sendo originários dos anabatistas – uma ala mais radical da Reforma Protestante, iniciada por Martinho Lutero na Alemanha no século XVI.