Suicida Sans

Enquanto eu fazia propaganda da Hello Joana* no Twitter, a @Rekviem me sugeriu um projeto tipográfico. No início eu achei que fosse brincadeira, até que ela falou que gostaria realmente de uma fonte baseada num conceito assim, digamos, mais… pessimista. Que enfocasse o pessimismo auto-destrutivo, mas de maneira sutil, apesar do nome entregar de bandeja o conceito-chave.

Resolvi encarar o desafio e, alguns dias depois de a Hello Joana vir à público, comecei os primeiros rabiscos da Suicida Sans, mais exatamente no dia 3 de fevereiro, como se pode ver aqui. Me empolguei e, no dia seguinte, já tinha todo o alfabeto minúsculo pronto – ou seja, toda a base estrutural da fonte já estava pronta, bastava apenas desenhar toda a centena restante de caracteres…

Ao longo dos dias, fui trocando idéias com a @Rekviem sobre os desenhos dos caracteres e ela foi me ajudando a identificar erros ópticos, até que todos os carateres do set já estavam desenhados, importados no FontLab e prontos para serem kernados. Neste momento, a @Rekviem me perguntou quanto tempo levaria para terminar o trabalho e eu, lembrando das últimas vezes que tive que kernar uma fonte, disse “3 semanas”. Dois dias depois, eu já estava enviando a fonte pra ela.

O resultado você confere aí em baixo. Ou, também pode baixar o PDF specimen da fonte aqui.

Um trabalho que eu sinceramente adorei fazer. Permitiu-me aprender mais de tipografia tanto no sentido técnico (uso do FontLab e do Illustrator) quanto no sentido de composição visual/tipográfica (desenho dos glifos, contraste, arranjo formal, etc). E, claro, também adorei o resultado final: ficou foda, desculpe a minha falta de modéstia.

Gostou? Pois é, a fonte é exclusiva da @Rekviem e ela não quer dividir com ninguém. Egoísta, né? Fala com ela, quem sabe ela não te empresta?

*Hello Joana, em breve nos pesos Light e Bold.

Hello Joana

Esta bela fonte que você vê na imagem aí de cima é a Hello Joana. Acabou de sair do forno e não faz parte do conjunto de fontes sem compromisso que eu carinhosamente chamo de Bastardinhas.

Gostou? Ainda não a submeti a nenhum site de comercialização de fontes, mas se você quer adquiri-la logo, pode tratar diretamente comigo por email (fabianelim at gmail.com) ou pagar via Pay Pal, clicando no botão abaixo. Se escolher pagar em Reais, são 10 lulinhas; em dólares, 5 obamas.


Clique nesse botão aí em cima e ajude a fazer uma tipógrafa brasileira feliz!

UPDATE!

Agora também é possível comprar via Pag Seguro!

Inovar, comofas?

Todo ano sites divulgam por aí as trends de design. E os designers não se tocam que, na verdade, eles têm que FUGIR das tendências… De modo algum estou dizendo que as tendências de design têm resultados ruins. Longe disso. O problema é que tudo cai na mesmice.

Lembram quando a Apple começou com os designs estilo Aqua que, como dizia tio Jobs, “eram tão bonitos que davam vontade lamber”? Virou a marca registrada do estilinho web 2.0, os sites e até a mídia impressa, todos com a mesma cara, a mesma paleta de cores, os mesmos brilhinhos artificiais. Esse estilo apareceu por volta do início desta década, com o lançamento do Mac OS X. Hoje a Apple nem usa mais, mas tem gente que ainda apela pra ele.


Yummy!

O meio da década, em compensação, foi dominado pelos toy arts e ilustrações vetoriais fofinhas. E agora, o sketchy se juntou aos toy arts, e é trendy, é o novo Aqua.


Pra quê pensar? O brush do Illustrator faz pra mim!

Outra coisa que tá na moda também: letterpress. Faça QUALQUER COISA com efeitinho de letterpress e fará sucesso. Não sabe? Pois tome aí uma listinha de dez tutoriais com o maldito efeito letterpress que, já vou avisando, só fica legal em papel de verdade.

Chefe diz: Aprovado! Tá igualzinho o do concorrente!

Mas sabe o que me irrita mesmo no design hoje? Aquela montagens de Photoshop hipercoloridas e cheias de “swoosh” dos @abduzeedo da vida. E aquela imagens cafonésimas em HDR que todo mundo acha a última bolacha do pacote, como bem lembrou minha ex-colega de faculdade, @azedinho.

Se algum dia eu abrir o Photoshop e fizer uma coisa DESSAS, por favor me matem, eu cheguei no fundo do poço. Esse é o tipo de coisa que, por mais frustrada e mal paga que eu seja, jamais vou fazer na VIDA. Não me levem a mal, a maior parte do conteúdo do @abduzeedo é ótima, mas IMHO essas digital arts já deram tudo o que tinham que dar, estão pra lá de gastas.

Mas quem sou eu pra dizer? Tem uma ilustra estilinho toy art no meu site!

Eu também não sou grande coisa como designer. Tenho vergonha do meu DeviantArt, faz mais de um ano que estou enrolando pra fazer meu portfolio – e perdendo ótimas oportunidades de trabalho por causa disso -, porque sinceramente não sei o que botar nele. Só que eu tenho senso crítico. Talvez este mesmo senso crítico que esteja me atrapalhando a conseguir algo melhor, mas é justamente ele que me faz correr atrás de aperfeiçoamento. É ele quem me alerta que a coisa ainda não está legal.

O problema é que designer se forma, se descobre num mercado de trabalho maluco, acaba se prostituindo por salário de 3 dígitos e, descontente, faz qualquer coisa, topa qualquer parada. Tá uma merda, mas o cliente gostou? Ótimo, não preciso gastar minha massa encefálica tentando melhorar isso aqui, eu só quero bater o cartão e ir embora. Com a regulamentação da profissão, pisos salariais e outras regalias pode ser que a situação tende a melhorar e não sejamos mais registrados como “operadores de software gráfico”.

Achou exagerada a situação do parágrafo anterior? Pois é o que estou vivendo neste exato momento.

E aí você vira pra mim e diz: OK, Fabi, você venceu. Agora me diga, como vamos inovar? E eu respondo: Não sei! Eu não faço idéia, e se fizesse, com toda certeza NÃO te contaria, pois estaria muito ocupada ganhando dinheiro com minha idéia exclusiva.

Agora é eu quem pergunto: e tem como fazer algo diferente, inventar algo que nunca foi feito antes, ou pelo menos foi pouco explorado? Vários twitteiros sugeriram passear, buscar referências, esfriar a cabeça e misturar novas e velhas idéias. Isso pode ajudar, mas nem sempre podemos dar aquela pausa e ir no sebo mais próximo olhar capas de discos dos anos 70 para incorporar algumas idéias em nossos layouts.

Na maior parte das vezes, estamos presos, acorrentados às nossas estações de trabalho, quem sabe até sem nem poder usar o Google Images devido a políticas hiper-restritivas de uso da internet por empresas retrógradas. Já sentiu isso na pele? Eu e alguns colegas já, e também ouvi outras histórias bem escabrosas.

Cobram-nos designs bonitos, criativos, inovadores, usáveis. No fim, a tal da criatividade e da inovação acabam sendo confundidos com um copão de café ao lado do monitor, porque só mesmo muita cafeína pra manter certos peões sob a alcunha de designers animados o suficiente para mover o mouse e criar um layout minimamente aceitável. Pobre de mim que sou imune a tão preciosa substância!

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P.S.: O desabafo descordenado acima é fruto de uma epifania que tive no Twitter esta manhã. Se você se sente como eu, quer partilhar experiências, ou até mesmo dar umas dicas de como sair dessa, por favor faça uso do campo de comentários abaixo.

P.S. 2: Cada um dos exemplos de efeitos gráficos usados no texto foi feito em cinco minutos (ou menos) no Illustrator por esta que vos escreve.

Bruno Maag na Positivo



Imagem: Danish Faces

Bruno Maag, tipógrafo suíço cujo escritório possui ramificações por todo o mundo (incluindo países como Egito e Brasil), deu uma palestra na minha saudosa universidade na última quarta-feira. E eu, claro, fui lá assistir.

A palestra foi dividida em duas partes, onde na primeira ele falou de conceitos de design, poluição e ruído visual. Ele não falou nada demais, nada que designer com diploma na mão já não devesse saber de cor e salteado. Porém, falou de forma espetacular e envolvente; o cara é muito bem articulado. Na segunda parte, Maag mostrou trabalhos de seu estúdio e a forma como encontrou soluções para cada um dos problemas.

Juntamente com Maag, Fábio Haag – como ele próprio disse, o único puto no Brasil que vive exclusivamente de desenhar letra – também palestrou, dando exemplos, falando de sua própria experiência na Dalton Maag, e auxiliando na comunicação entre brasileiros que não falavam inglês e o suíço.

Maag e Haag reacenderam em mim a chama da tipografia, que estava meio sufocada entre o dia-a-dia corrido e o desânimo com a profissão. Não tenho, de modo algum, a mais remota ilusão de que um dia vou poder viver de desenhar letras. Mas a vontadezinha de criar fontes e tentar ganhar um troquinho com elas, voltou.