Dilema

Foi tudo muito rápido. Um rapaz vestindo terno e portando um imenso microfone abordou Renato na rua, acompanhado de um cinegrafista, que zanzava em torno dele e de sua namorada tentando obter o melhor ângulo. O rapaz falava mais rápido do que qualquer ser humano estaria habilitado a entender, ainda mais sendo pego desprevenido e com um crescente punhadinho de pessoas ao redor.

- Vostrocriasuanamoradporumilhãoderais?

- Hã?

- Trocaria ou não trocaria?

- O quê?

- Sua namorada por um milhão de reais. Trocaria?

Nesse momento, Renato lembrou-se do famoso programa de televisão que fazia propostas indecentes a transeuntes aleatórios na rua. Dia de sorte?

Também nesse momento, a namorada lançou-lhe um olhar ameaçador. A platéia já tinha aumentado bastante e uma pequena torcida a favor da namorada, composta principalmente por mulheres, se formava ali. De repente, um outro rapaz apareceu abrindo caminho entre a multidão, cochichou alguma coisa no ouvido do entrevistador e sumiu tão rápido quanto apareceu.

- A produção acaba de me informar que o cheque de um milhão de reais já está esperando para ser entregue. Mas é preciso decidir agora! – disse o rapaz do microfone para a câmera.

O olhar da namorada agora já não era de ameaça, mas um misto de pavor, rancor e despeito, que fazia Renato engolir em seco temendo as conseqüências de sua escolha. Então sua face se iluminou.

Ele se lembrou de todos os momentos com a namorada, de todo o dinheiro gasto com programas chatos de casalzinho, de todos os amigos (e principalmente amigas) de quem tinha se afastado por conta da garota ao seu lado, e que além de tudo ainda regulava o pouco sexo que faziam. Lembrou-se de tudo o que passava para conseguir alguma coisa que realmente valesse a pena naquele relacionamento. E lembrou-se, não sem uma ponta de tristeza, que aquela sensação de tempo perdido não era recente. O momento era aquele. Alea jacta est.

- Trocaria.

A multidão aglomerada em torno do casal e da equipe de reportagem explodiu em êxtase. Vivas e gritos indignados competiam por espaço, e até a polícia foi chamada quando as pessoas descontroladas começaram a depredar postes, lixeiras, bancos, e lojas ao redor. Mas antes que a confusão tomasse maiores proporções, já estava controlada.

Enquanto isso, a namorada se debulhava em lágrimas e gritos histéricos, e tentava bater no agora ex, impedida apenas pelo rapaz de microfone em punho, que acabava levando a maioria dos tapas e socos.

Renato foi imediatamente levado a um prédio grande e cheio de vidros, onde funcionavam os estúdios de televisão para o qual o cinegrafista e o rapaz do terno trabalhavam. Recebeu tratamento de primeira: camarim privado, maquiadores, massagistas, bebidas caras, roupas novas. Estava gostando muito de toda aquela paparicação e quase não acreditando na reviravolta que sua vida tinha levado. “Pelo menos para alguma coisa me serviu aquela desgraçada”, pensava ele.

Naquela mesma noite, ele foi conduzido ao palco do programa de auditório que propunha o desafio, e recebido como um pop star. As muitas luzes o deixaram momentaneamente cego, e com alguma dificuldade ele chegou até a poltrona que o apresentador lhe oferecia. Ele estava na tevê, e no momento milhares de pessoas por todo o país o viam e acompanhavam sua rápida ascensão financeira.

O apresentador do programa fez as cerimônias usuais e as chamadas dos patrocinadores até que finalmente se dirigiu a Renato, entregando-lhe um microfone. E amigavelmente, começou o questionário:

- Qual o seu nome, garoto?

- Re-renato. – gaguejou ele.

- Então, Renato, parece que hoje é seu dia de sorte, não é mesmo?

A platéia vibrou em aplausos. Elegantemente vestido, o apresentador fez sinal para um assistente e uma grande caixa foi trazida ao palco. Cheio de afetação, ele então se dirigiu novamente a Renato:

- Você já conhece o nosso programa, Renato?

- Sim. – disse ele que, apesar de conhecer de ouvir falar, nunca tinha de fato assistido ao programa. Não queria parecer indelicado.

- Então você sabe como funciona a mecânica dele. Então você já sabe que não basta apenas aceitar o desafio de largar tudo por um milhão de reais. Há mais um desafio!

Um painel luminoso onde se lia a quantia de dinheiro do prêmio se acendeu atrás dos dois. A platéia novamente apladiu ruidosa, orientada pelo sinal dos assistentes. Renato balbuciou um quase ininteligível e surpreso “Como assim?”, e a grande caixa trazida ao palco foi posta ao seu lado.

- Dentro dessa caixa – começou o apresentador – há uma pessoa. Você deve interagir com ela por uma hora de forma, digamos assim, mais íntima. Haverá uma censura na televisão aberta, mas nossos espectadores do pay-per-view terão acesso a tudo o que acontecerá dentro da caixa. Ainda há tempo de desistir.

Renato começou a suar frio e tremer. Achou que fossem as luzes do estúdio quando sua pressão sangüínea começou a cair, mas um pressentimento ruim invadiu-lhe a mente e o nervosismo já não era mais disfarçável. Sentiu que tinha sido traído, levado para uma arapuca, um beco sem saída.

Uma fortuna estava em jogo. Toda uma nova vida cheia de regalos e luxos esperava por ele, bastava dizer sim e aguardar as conseqüências, fosse o que fosse. E fosse o que fosse, seriam apenas sessenta minutos. Quem quer que fosse que estivesse ali dentro, pensava ele, com toda a certeza não era uma linda mulher de seios avantajados. Havia um truque. Mas… um milhão de reais! Um milhão de reais não se ganha assim, de um dia para outro, e esse tipo de oportunidade certamente não bateria em sua porta de novo.

- Topa ou não topa o desafio?

A tensão na platéia era tão grande quanto a do palco. Câmeras, assistentes e operadores roíam unhas. Renato ouviu cochichos dizendo que ninguém antes havia topado o desafio, e sua certeza de que havia um truque ali aumentava ainda mais. Os índices de audiência estavam tão altos quanto há muito não se via na televisão em tempos de internet. Todos estavam em silêncio aguardando a resposta.

- Topo.

Um homem musculoso de cerca de dois metros de altura, besuntado de óleo e com uma tanga minúscula cobrindo-lhe as partes abriu a porta da caixa. Renato engoliu em seco. Estava milionário.


Inspirado em dois tweets do @luide.

Reality Show

Durante um fim de semana extremamente quente e cansativo de faxina, eu e o namorado começamos a conversar sobre aqueles países em que, de tão ricos e igualitários, não existe o conceito de empregada doméstica, onde cada um tem que lavar sua própria privada e faxineiros e médicos têm salários equiparados. E ele começou a imaginar um reality show onde ricaços do nível de Eike Batista e Narcisa Tamborindeguy teriam de fazer exatamente aquilo que fazemos sempre: matar um leão por dia.

Dez participantes especialmente selecionados por suas características peculiares e incomuns – uma conta bancária (ou mais) recheada de dinheiro e muitos bens em seus nomes – confinados e monitorados 24 horas por dia em uma casa de classe média de pouco mais de setenta metros quadrados. Sem luxos ou confortos, apenas uma casa comum como a de qualquer brasileiro. Talvez um carro na garagem, mas apenas um, popular, sem ar condicionado, insulfilm ou direção hidráulica.

Além disso, os participantes do reality terão de limpar a própria casa, lavar roupa, fazer compras, desentupir encanamentos, etc, tudo isso sendo constantemente vigiados e com transmissão em tempo integral. A única coisa que poderão levar para a casa são três mudas de roupa para os primeiros dias, mas logo terão de apertar seu orçamento para realizar os gastos necessários. E para isso, terão de mudar de hábitos.

Durante dois meses e meio, os participantes terão de trabalhar em empregos comuns com salários cujos valores podem variar de setecentos a mil e quinhentos reais, mas nada além disso. Terão de batalhar pelos seus empregos para serem verdadeiramente merecedores do salário, e poderão sofrer penalidades caso não estejam agindo de acordo.

Devem organizar seu orçamento em conjunto, de modo a não se endividarem, e pagar suas contas em dia. E de tempos em tempos, a produção danificará propositadamente algum móvel ou eletrodoméstico, obrigando os moradores da casa a se apertarem economicamente para ajeitarem sua situação.

A cada semana, um participante será eliminado por voto popular. Conforme cada participante é eliminado, a situação dos restantes piora, uma vez que o orçamento doméstico não mais contará com o salário daquele integrante da “família”. Conflitos de alto teor dramático podem ser gerados a partir daí, levando o público a loucura, e revelando aspectos da personalidade dos participantes anteriormente desconhecidos, uma vez que o conforto e o dinheiro não permitiam que fossem revelados.

Se algum ricaço irá topar participar desse reality show, aí já é outra história. Pelo menos haverá a oportunidade de mostrar ao mundo se o dinheiro traz mesmo felicidade ou não. Se ninguém topar, a resposta já está dada.