Problemão de gênero, parte II, volume 6: poder e os limites da sexualidade

Antes de iniciar mais esta seção da série “Problemão de Gênero” gostaria de tecer algumas considerações que podem esclarecer algumas coisas a respeito do viés pelo qual estou criticando a teoria de Judith Butler. O que o Feminismo Radical propõe é que a dominação masculina tem caráter sexual. O Feminismo Radical não está preocupado com questões específicas da ciência que estuda a diferenciação sexual — seja ela qual for —, ainda que leituras tangenciando este feminismo possam ser feitas. Se a Genética, a Psicologia, a Neurociência ou a Biologia descobriram x, y ou z a respeito das mulheres, não é problema do Feminismo Radical. O dimorfismo sexual na espécie humana é um fato — científico, inclusive. O que o Feminismo Radical advoga é que não é possível entender as relações sociais de dominação das mulheres pelos homens tirando da balança o peso do sexo [1] como ferramenta para esta dominação.

Linguagem, Poder, e as Estratégias de Deslocamento

O último subcapítulo da primeira parte de “Gender Trouble” inicia-se dizendo que uma grande porção do feminismo — que ela não vai citar qual é — assume que há um fazedor por trás do feito [2], ou seja, não há ação sem agente. A Monique Wittig vai propôr isso, mas ainda vai, segundo Butler, enxergar essas relações no interior da cultura. Só que pra Butler isso é um problema porque confunde causa e efeito. Como para a Butler o gênero não tem a ver com a materialidade do corpo e é uma expressão em si mesma, ela dá a entender que isso é contraditório, e vai usar como exemplo um trecho do texto da Wittig que diz que o “mito da mulher” não precede a opressão das mulheres [3].

A seguir, Butler discute a forma como a Monique Wittig vai falar do termo “sexo”: “uma marca que é de algum modo aplicada por uma heterossexualidade institucionalizada, uma marca que pode ser apagada ou ofuscada através de práticas que efetivamente contestem essa instituição” [Tradução livre, p. 34]. Ela então vai comparar essa definição e outros conceitos e idéias da Wittig com as da Luce Irigaray. Por exemplo, ela vai dizer que, para a Irigaray, as “‘marcas’ de gênero” influenciam a linguagem a ponto de influenciar compreensões de mundo, e que a única forma de escapar disso seria a possibilidade de uma linguagem radicalmente nova. Mas para a Wittig, a linguagem propriamente dita não é misógina em si mesma, mas o é em suas aplicações. Posicionamentos como os da Irigaray, para a Butler, só acirram o caráter bipolarizado dessa disputa.

Como materialista [4], Wittig vai ver a linguagem apenas como mais um lugar onde essas coisas se manifestam, de modo que o sexo como ficção vai ser algo inventado no sentido de restringir o surgimento de identidades fora do que Butler chama de matriz heterossexual. A “proliferação de prazeres fora da economia reprodutiva” aponta para uma nova forma de se pensar a sexualidade, uma forma que vá além da sua relação com a genitália [5]. De acordo com Butler, Wittig vai pegar o conceito de “inversão” proposto por Freud ao definir a homossexualidade, dando destaque justamente para o que Freud dizia ser características de uma sexualidade infantilizada — a própria noção de “sexualidade desenvolvida” do pai da psicanálise está de acordo com a norma. Butler questiona se essa é a única leitura possível de Freud, e se essa “inversão” não estaria de acordo com a normalização que busca enfrentar, porque Wittig não dá tanto peso pra linguagem na questão das “marcas de gênero” quanto Butler — bem daquele jeitinho irritante dela de fazer perguntas que na verdade afirmam coisas. O que ela questiona, na real, é que esse modelo proposto pela Wittig não dá margem ao que a própria Butler propõe, ou seja: infinitas possibilidades de se questionar a tal da matriz heterossexual através da linguagem.

A seguir, Butler aborda a leitura feita por Irigaray da teoria de Lacan [6] sobre as tais das “marcas de gênero”. Enquanto o masculino é uma ficção construída pela Lei que proíbe o incesto, o feminino marca uma falta simbólica, de modo que seria a diferença linguística que marcaria a diferença sexual; assim, os gêneros seriam construídos através do tabu do incesto. Segundo Butler, tentar teorizar o feminino — ou qualquer “identidade sexual” [7] — a partir disso é um empreendimento destinado ao fracasso, porque neste modelo a identidade é construída através da proibição feita sobre “um set de polaridades sexuadas”, e a proibição é ineficaz.

Contrapondo as duas visões, e criticando ambas, ela conclui esse trecho dizendo que as duas posições falham ao assumir um sujeito antes da Lei, ou seja: que fora da linguagem exista um ser íntegro, não afetado pelas relações normativas de gênero. Assim, as “subversões, desestabilizações ou deslocamentos requereriam uma sexualidade que de algum modo escapasse das proibições hegemônicas do sexo”. Citando Foucault, ela argumenta que as próprias restrições da sexualidade acabam sendo a matéria-prima do sujeito na construção desses “deslocamentos”, porque não existe acesso a essa sexualidade “pura”, fora das relações de poder. A produção dessa sexualidade estaria atuando mais na “expansão” do que existe a partir dessas relações, e menos na criação de coisa nova.

Em seguida, Butler chama de “utópicas” as tentativas feministas e lesbo-feministas de teorizar uma sexualidade fora dos construtos heterossexuais, ou para além da genitália. Para ela, essas tentativas falham em perceber como as relações de poder continuam afetando a sexualidade das mulheres, seja em relações hétero “liberadas” (aspas dela) ou lésbicas. Mais uma vez ela critica Wittig em sua tentativa de falar sobre sexualidade feminina a partir da anatomia feminina. Se você imagina que ela chama isso de “essencialista”, é isso aí mesmo: para Butler, é impossível significar a sexualidade feminina fora da masculina. Ela também volta sua crítica à Irigaray, porque não teria ficado claro em sua obra se a sexualidade é culturalmente construída ou se ela é culturalmente construída em torno do falo.

Butler então vai dizer que o “movimento pró-sexualidade dentro da teoria e prática feminista” [8] argumenta que a sexualidade é sempre construída nos termos das normas instituídas — ou seja, heterossexualidade e a centralidade no caralho. Criticar essas normas não vai necessariamente desfazer essas construções, porque isso seria uma “impossibilidade cultural e um sonho politicamente impraticável”, segundo a autora.

Ativistas feministas anti-pornografia nos anos 1980

Ativistas feministas anti-pornografia na Broadway nos anos 1980, fotografia de Richard Greene

Até aqui, nenhuma novidade. Tudo isso que Butler desenvolve é mesmo muito interessante, e falo isso aqui sem ironia alguma. De fato, como construir uma sexualidade livre de abusos reais e simbólicos, em uma sociedade onde o sexo é usado como arma de guerra? É uma pergunta que o feminismo tem se feito há muito tempo, e tentativas de respondê-la, como as de Irigaray e Wittig abordadas no livro, são apenas algumas delas. Muita coisa foi escrita tratando desse assunto. Antes mesmo de se pensar em dividir a história do movimento das mulheres em ondas, escritoras de inclinação feminista como Emma Goldman, Rosa Luxemburgo e (a quase xará da Judith) Josephine Butler já discutiam formas de como tornar a sexualidade mais livre das amarras da dominação masculina. Alguns exemplos recentes de que me lembro agora e que posso citar de memória são, obviamente, as obras de Andrea Dworkin como Intercourse e Pornography: Men Possessing Women, e também alguns dos trabalhos da maravilhosa Sheila Jeffreys, como Anticlimax e The Lesbian Heresy. Se é através do sexo, do estupro e da retirada da autonomia das mulheres sobre sua reprodução que o patriarcado atua, este não é exatamente um tema que dê pra gente se desviar. É preciso falar, e discutir, e debater sim.

Mas o que a autora propõe é:

No lugar de uma sexualidade “macho identificada”, onde “macho” serve como a causa e o sentido irredutível dessa sexualidade, devemos desenvolver uma noção de sexualidade construída em termos das relações fálicas de poder que refazem e redistribuem as possibilidades desse falicismo precisamente através de operações subversivas de “identificação” que são, dentro do campo de poder da sexualidade, inevitáveis. […] Se não há [possibilidade de haver] nenhuma rejeição de uma sexualidade socialmente construída, o que sobra é a questão de como reconhecer isso e “fazer” a construção dentro de onde invariavelmente se se encontra. [9]

Um tanto fatalista, a meu ver. Butler prossegue se perguntando que possibilidades dentro da matriz de gênero são possíveis. Ela diz que a simples presença de vestígios da heterossexualidade em sexualidades divergentes não quer dizer necessariamente uma reafirmação desses valores, e exemplifica isso com os estilos sexuais (termo dela) “butch” e “femme”. Essas repetições de padrões da heterossexualidade não seriam cópias da heterossexualidade em si, mas uma cópia de uma cópia [10], uma repetição em forma de paródia. Ela complementa afirmando que se a própria ficção criada no entorno do sexo e do gênero são possíveis de contestação, e que não necessariamente as regras criadas têm qualquer função ou relação com a biologia em si [11], então as possibilidades de construção de uma nova sexualidade estariam justamente nessas brechas criadas pela própria regulação.

Aqui, nesse finalzinho, descobrimos de onde a galera tira a citação de Beauvoir fora de contexto. O que geralmente se cita não é mesmo Beauvoir, mas um simulacro, uma reinterpretação sem qualquer fundamento no texto real:

Se há algo de correto na afirmação de Beauvoir de que não se nasce mulher, mas torna-se mulher, é que mulher em si é um termo em processo, um vir a ser, uma construção da qual não se pode dizer legitimamente onde começa ou termina. Como uma prática discursiva em andamento, está aberta à intervenções e significações. [12]

É possível entender aqui que mulher se refere às construções artificiais a respeito da mulheridade, o que se convencionou chamar de “feminilidade”. No entanto, no texto original de Beauvoir, não é exatamente à essa construção artificial que a referência è feita, mas a quem recebe esse atributo: mulheres, fêmeas, seres humanos do sexo feminino. A feminilidade é construída e atribuída a quem se convém dominar a propósito dos recursos que se podem extrair a partir dessa dominação. Ainda que alguns pontos da feminilidade não tenham qualquer relação com o corpo ou o ser sobre o qual essa construção artificial se faz, ela tem um propósito bem definido. É contra isso que criamos esse troço chamado feminismo, afinal.

Butler encerra o capítulo com uma série de reflexões a respeito da própria noção de gênero que ela usa em seu texto. Ela reafirma a ideia de construção social do gênero, e como essa “artificialidade” por vezes toma o lugar do “real”, como uma estilização do corpo dentro de uma rígida coleção de regras que “produz a aparência da substância”. A proposta dela, que será desenvolvida nos capítulos seguintes, é então a de semear a discórdia. Projeto político? Quem precisa disso?


Notas

1. “Sexo”, aqui, pode ser compreendido tanto enquanto prática quanto como manifestação material/corpórea. Então, sim, o que os campos de investigação científica dizem a respeito das mulheres é sim uma preocupação feminista, mas não é esse o ponto principal.

2. Em inglês, "a doer behind the deed". Não sei como isso foi traduzido em edições brasileiras, mas acredito que a explicação a seguir ao termo é clara o suficiente. Caso eu tenha me enganado, deixe seu comentário ao final do texto.

3. Porque o mito foi criado para manter esse sistema funcionando, ora bolas! A gente não acredita no mito da feminilidade porque ele tem algum fundo de verdade, mas porque nos foi ensinado, e às gerações que vieram antes de nós. Mas é bizonho achar que as primeiras mulheres que foram submetidas à força não opuseram nenhuma resistência e nem viram esse mito ser passado adiante sem dor no coração — da mesma forma como hoje a gente ainda vê tantos mitos da mesma natureza passando incólumes como se fossem verdades e atrasando ainda mais a libertação das mulheres. Pelo menos foi o que entendi.

4. Toda vez que Butler se refere a Wittig como materialista, ela põe aspas na palavra. Achei meio picuinha dela e não vou pôr aqui justamente pra dizer que entendi qualé a tua, e porque eu mesma me considero materialista.

5. Percebe o “perigo”? Sim, é muito legal de se pensar uma sexualidade que vá além do papai-e-mamãe clássico, da função reprodutiva e, por que não?, além do “mete-mete-sem-consentimento”, uma expressão de sexualidade perfeitamente de acordo com os ideais de seja lá quem for que esteja por trás da matriz sexual. Quem será o Arquiteto do patriarcado?

6. Sobre psicanálise, recomendo os episódios sobre o assunto do Mitografias, o podcast do site Papo Lendário.

7. Note que Butler já assume que “mulher” (ou que valores associados às mulheres) é uma identidade a ser vestida ou encarnada pelo indivíduo, sem exatamente uma base paupável. Para entender melhor o que ela pensa do assunto, veja no texto anterior dessa série a nota de número 6, sobre “metafísica da substância”.

8. Butler, pra variar, não cita quem ou que obras representariam esse “movimento pro-sexualidade” dentro do feminismo, mas é provável que ela esteja se referindo às Feminist Sex Wars. Tratam-se de debates calorosos que ocorreram no movimento no fim do período que a gente costuma chamar de Segunda Onda Feminista — que, não, não é sinônimo de feminismo radical. De um lado, feministas críticas aos usos e abusos da pornografia — que naquela época estava começando a tomar a forma que a gente conhece hoje — e, de outro, os grupos auto-denominados sex-positive. Como nos debates contra e a favor do aborto, em que um lado se advoga defensor da “vida”, o termo "sex-positive" dá a entender que o outro lado é formado por feministas carrancudas que não gostam de sexo e querem acabar com a alegria de todo mundo. O estopim dessas discussões foi o movimento anti-pornografia e a mobilização, encabeçada por Andrea Dworkin e Catherine MacKinnon, na tentativa de aprovar uma lei nos Estados Unidos que visse a pornografia como uma violação aos direitos humanos das mulheres. Foram, obviamente, taxadas de puritanas. Esses episódios só mostram como a história das mulheres anda em círculos.

9. Tradução livre do original: “In the place of a “maleidentified” sexuality, in which “male” serves as the cause and irreducible meaning of that sexuality, we might develop a notion of sexuality constructed in terms of phallic relations of power that replay and redistribute the possibilities of that phallicism precisely through subversive operations of “identification” that are, within the the power field of sexuality, inevitable. […] If there is no radical repudiation of a culturally constructed sexuality, what is left is the question of how to acknowledge and “do” the construction one is invariably in.”

10. Aqui, uma clara referência não referenciada ao Baudrillard e seu livro Simulacro e Simulação.

11. Não têm mesmo: vale relembrar a citação da MacKinnon sobre como as limitações das mulheres são um efeito de sua dominação, e não uma causa dela (vide o texto sobre os prefácios).

12. Tradução livre do original: “If there is something right in Beauvoir’s claim that one is not born a woman, but rather becomes a woman, it follows that woman itself it’s a term in process, a becoming, a constructing that cannot rightfully be said to originate or to end. As an ongoing discursive practice, it is open to intervention and signification.”

Problemão de Gênero, parte II, volume 5: o Verbo se faz carne

Desde o último texto publicado na série “Problemão de Gênero”, resolvi instituir um cronograma para, até julho de 2016, conseguir terminar de ler e analisar todo o “Gender Trouble”. Tem sido um desafio, principalmente pelo fato de que, bem, há muita coisa que quero ler, há muita coisa a se estudar, e o fato de eu discordar diametralmente da autora e ter ojeriza de seu estilo de escrita também não ajudam. O caso é que ler esse livro e escrever essa série tem me dado uma base teórica muito boa para entender não só a teoria feminista em voga atualmente na academia e sua manifestação mainstream, mas também como anda o mundo e como tudo isso tem se construído ideologicamente nos últimos séculos.

A partir do estudo independente desse livro — coisa que jamais me seria possível fazer sob o selo institucional do departamento de “estudos de gênero” de uma universidade —, estou estudando uma série de assuntos que me interessam, ajudando pessoas a entender melhor o que raios anda acontecendo no feminismo, e de que forma rebater esses argumentos. Se isso algum dia vai me trazer algum tipo de fruto que eu possa ostentar no meu currículo Lattes já é outra história, mas divago.

Identidade, Sexo, e as Metafísicas da Substância

A autora começa esse subcapítulo abordando a noção de “identidade”, e o que as formulações comuns a respeito desse conceito têm a dizer sobre o que ela chama de “identidade de gênero”. Essa parte específica do texto é bastante truncada e confusa, apesar de sua conclusão poder ser resumida em menos de 140 caracteres, mas vamos lá.

Butler questiona o que pode ser entendido como “identidade”, e em que sentido as identidades podem ser entendidas como internamente coerente, fixas, idênticas entre si, e o que essas assunções dizem sobre “identidade de gênero”. Ela diz que seria errado imaginar que a discussão sobre identidade propriamente dita vem antes da discussão sobre identidade de gênero pelo simples fato de que pessoas só são entendidas através do processo de engendramento em padrões de conformidade. Isso porque a “coerência” e a “continuidade” da “pessoa” não são características lógicas e analíticas da personalidade, mas normas de inteligibilidade instituídas e mantidas socialmente — de modo que a “pessoa” em si deixaria de existir se não estivesse nos conformes, e apareceria apenas como uma perversão ou impossibilidade lógica. [1] As normas de gênero buscariam assegurar uma interpretação única dos conceitos de sexo, gênero e sexualidade, e dentro dessa noção de igualar [identidade de] gênero à personalidade é “a heterossexualização do desejo” que cria oposições entre “feminino” e “masculino”.

Se, por um lado, esse argumento parece bom porque considera as pessoas como indivíduos com sentimentos e características próprias inseridas em um contexto de práticas opressivas com o intuito de os manipular em função de poderes superiores, ele deixa de levar em consideração alguns fatores essenciais para compreender porque essas “normas gendradas” existem, pra começar. Butler não considera que esses poderes que regulam as práticas sexuais dos indivíduos possuem vetores de ação e finalidades bastante específicas; se estamos realmente falando de feminismo — e Butler afirma em um momento anterior do texto que é esse o assunto (ou, pelo menos, um dos assuntos) que ela aborda no livro — isso significa dizer que esse objetivo é o controle do potencial reprodutivo das mulheres. Mas uma vez que a autora desconsidera a própria existência evidente do patriarcado — uma “noção altamente ocidental” —, é por outro caminho que ela vai seguir.

A partir daqui ela vai discorrer sobre o que ela chama de “matriz de inteligibilidade” do gênero, e de que modo o gênero, enquanto “efeito das práticas discursivas” da relação entre sexo, gênero, práticas sexuais e desejo, resulta na heterossexualidade compulsória [2]. Ela também questiona como a “heterossexualidade compulsória meramente toma o lugar do falogocentrismo como causa monolítica da opressão de gênero” [3]. Para isso, ela vai se voltar novamente ao tal do “feminismo francês” [4] e às teorias pós-estruturalistas para explicar como regimes de poder produzem as identidades sexuais, e suas contradições. Ela lista a seguir o argumento de sexo único da Irigaray — o masculino, o feminino seria o “Outro”, indefinível e irrepresentável; o conceito do Foucault de que “masculino” e “feminino” seriam resultados da “difusa economia regulatória da sexualidade”; e o argumento da Wittig de que dentro da idéia de heterossexualidade compulsória, o único sexo que existe é o feminino, pois o masculino seria o universal não marcado/estabelecido, e que o sexo desapareceria sem essa regulação. Uma vez que haja tanta variância conceitual a respeito do sexo, Butler argumenta que o sexo vai ser entendido de formas diferentes de acordo com o campo onde o poder é articulado.

Ela vai dizer que todas essas conceituações têm em comum a noção de que o sexo aparece na linguagem como substância através de uma torção no discurso: “ser” um sexo ou um gênero seria impossível, e as noções de “masculino” e “feminino” seriam frutos de um discurso falogocêntrico hegemônico que abafaria a expressão das múltiplas sexualidades.

Butler faz, então, uma breve análise do argumento de Monique Wittig:

Para Wittig, a restrição binária do sexo serve aos objetivos reprodutivos de um sistema de heterossexualidade compulsória […]. Em outro momento textual parece que “a lésbica” emerge como um terceiro gênero que promete transceder a restrição binária do sexo imposta pelo sistema de heterossexualidade compulsória. Em sua defesa do “sujeito cognitivo”, Wittig parece não ter qualquer discordância metafísica com os modos de significação ou representação […]. Ela não critica “o sujeito” como invariavelmente masculino de acordo com as regras de um Simbólico inevitavelmente patriarcal, mas propõe em seu lugar o equivalente a um sujeito lésbico como usuário da linguagem.

A identificação da mulher com o “sexo”, tanto para Beauvoir quanto para Wittig, é a fusão da categoria mulher com as características ostensivamente sexualizadas de seus corpos e, consequentemente, uma recusa em se conceder às mulheres liberdade e autonomia da mesma forma que ela é supostamente desfrutada pelos homens. (p. 26. Tradução livre)

Me parece que Butler ficou ul-tra-ja-da com a sugestão de Wittig de se destruir o sexo como hierarquia, e do “ponto de vista feminino” como uma possibilidade discursiva. A impressão que tive quando li esse trecho foi que ele foi escrito por um Ativista dos Direitos dos Homens [5] indignado com o fato de as mulheres estarem conseguindo mais direitos civis, porque senão — imagine! — vai chegar uma hora em que isso aqui vai se tornar um matriarcado, onde já se viu! Dá pra notar também o quanto ela nega de todas as formas possíveis a materialidade do sexo feminino: a menor sugestão de sua existência é vista por ela como um exagero, uma fantasia, quase como a Vênus de Willendorf, cujos atributos sexuais bem marcados representam — heresia! — um culto ao potencial reprodutivo das fêmeas.

Vênus de Willendorf

Butler continua dizendo que a lésbica proposta por Wittig “confirma, mais que contesta, a promessa normativa dos ideais humanistas pressupostos na metafísica da substância” — grifo meu [6]. As idéias da Irigaray, segundo Butler, também vão se encaixar nessa idéia de metafísica da substância, mas vão divergir das de Wittig no sentido de que a primeira separa em conceitos diferentes a “lésbica” da “mulher”, enquanto Irigaray defende a existência de uma “pessoa” antes do gênero. De acordo com ela, isso “confirma o modelo normativo do humanismo como estrutura para o feminismo”, e só contribui para a “própria produção e naturalização da categoria do sexo” [7].

A partir daí, o texto discorre sobre as análises gramaticais do gênero na língua francesa feitas pela Wittig, que defende que o gênero gramatical não só designa pessoas, mas é a ferramenta através da qual o gênero se universaliza. Butler lembra que o francês é uma língua latina, onde tudo tem gênero, mas destaca que a Wittig diz que análises semelhantes poderiam se aplicar à língua inglesa. Ela rebate esse argumento dizendo que a visão da Wittig corrobora a idéia de que as pessoas “são” gêneros, ou são suas sexualidades em virtude de seus sexos de nascimento, e que isso seria confundir sexo e gênero — que, vamos lembrar, ela disse em outra ocasião que não faz sentido separar um conceito do outro — o que, segundo ela, ajudaria a manter uma estrutura que exige coerência entre sexo, gênero e desejo. Isso porque, segundo a autora, afirmar-se homem ou mulher implica necessariamente uma diferenciação de seu “gênero oposto”, o que restringiria tudo a um par binário de “ser”.

O argumento de Judith Butler aqui é que o gênero só designaria uma “unidade de experiências” em relação a sexo e desejo quando ele está de acordo com as exigências da heterossexualidade, criando uma relação de oposição entre os gêneros que se desejam, algo que a “heterossexualidade instituída” requer e exige.

A instituição de uma heterossexualidade compulsória e naturalizada requer e regula o gênero como uma relação binária na qual o território [8] masculino é diferenciado do território feminino, e essa diferenciação é conseguida através das práticas do desejo sexual. O ato de se diferenciar esses dois momentos opostos do binário resultam em uma consolidação de cada território, a coerência interna respectiva de sexo, gênero, e desejo. (p. 30. Tradução livre)

Até aí, lendo esse parágrafo isolado, tudo muito bom, tudo muito que bem. Sim, a heterossexualidade compulsória exige que, bom, que a norma sejam os relacionamentos heterossexuais. Se é “compulsória”, significa que é obrigatória e normativa; se é “heterossexualidade”, significa que regula relações sexuais entre homens e mulheres, e consequentemente seus desejos e práticas sexuais. Que gênero ou sexo — principalmente quando dentro do que ela chama de “matriz heterossexual” — não sejam suficientes para designar a experiência de se ser uma pessoa completa, isso ninguém questiona. Butler, no entanto, não se dá ao trabalho de investigar o porquê de isso ser assim. O termo “instituição” demanda que alguém tenha instituído a heterossexualidade como norma, e essa institucionalização, independente de ter sido feita de forma consciente ou insconsciente, deve ter um objetivo. Ela também não se preocupa em investigar de que lado essas forças de poder vêm, como exatamente atuam — que tipo de normas de comportamento a heterossexualidade compulsória exige de machos e fêmeas? As mesmas normas se aplicam a um e outro grupo? Por quê? —, e nem que lado se beneficia do quê em função de quem. Butler apenas atesta que o poder existe e atua por aí, cerceando as taras da galera.

Ela então continua o texto afirmando que categorias como “homem”, “mulher”, “macho” e “fêmea” são produzidas dentro dessa estrutura binária heterossexual. Citando “A História da Sexualidade” de Foucault, ela afirma que casos como o de Herculine Barbin — uma intersexual francesa que foi designada como sendo do sexo feminino, e que posteriormente foi “diagnosticada” como homem — sugerem que a diferença sexual surge não do sexo propriamente dito, mas de formas específicas e históricas de se encarar a sexualidade. Herculine seria uma impossibilidade identitária, dentro da noção apresentada por Butler. Segundo a autora, a própria existência de Herculine ferra com as convenções de inteligibilidade, porque convergiria a hétero e a homossexualidade em um mesmo indivíduo.

Isso mesmo que você leu: um caso limítrofe serve muito bem como prova de que sexo não importa, ou pelo menos seria irrelevante no processo de significação. Não me entenda mal: a diferença sexual é irrelevante quanto aos significados atribuídos a machos e fêmeas, sim. Os atributos culturalmente considerados femininos não têm, realmente, qualquer relação com a realidade de se ser uma mulher, um ser humano do sexo feminino; mulheres não são fracas, submissas, sentimentais, ou burras por natureza. Mas que sequer lhe tenha passado pela cabeça em nenhum momento que sexo entre homens e mulheres pode produzir gente, e que o controle da produção e reprodução de gente possa ter motivado a instituição de normas para o comportamento sexual é algo que realmente me incomoda. Não! Jamais! Isso é coisa de feminista radical essencialista de teorias ultrapassadas, certamente. Não importa que seja a própria Butler que tenha assumido, no início de sua argumentação, que “homem” e “mulher” sejam tidos como expressões de uma substância, de uma personalidade, e tenha partido daí para criar um espantalho argumentativo contra o qual ela iria duelar ao longo desse subcapítulo inteiro. O que importa é que o argumento que ela criou dá margem a entender que atribuir o termo “homem” ou “mulher” a um ser é uma “construção fictícia” porque em alguns casos isso não necessariamente se aplica [9].

Finalizando, Butler escreveu tudo isso apenas para dizer que o gênero seria, então, puramente performativo porque constitui a própria identidade do indivíduo. Mas aí vem a pegadinha: “Não há identidade de gênero por trás da expressão de gênero; porque a identidade é performativamente constituída pelas suas próprias ‘expressões’ que são tidas como sendo seu resultado”. Se eu entendi bem, gênero seria a expressão do gênero em si mesma, sem nada por trás. Nada: nenhum contexto, nenhum motivo, nenhuma origem e nenhum fim.

Gênero é o que as pessoas quiserem que ele seja. Não é à toa que algumas feministas advogam parar de usar esse termo.


Notas

1. Aquela zoeirinha que os críticos mais perspicazes dos Social Justice Warriors fazem ao dizer que o pessoal do Tumblr se acha um bando de “floquinhos de neve especiais” porque gostam de uma determinada tendência da moda é extremamente acertada, se for assim. Lembrando que as críticas que páginas do Facebook como “Aventuras na Justiça Social” e assemelhadas fazem não são nem um pouco perspicazes. Se aproximam em grande medida, aliás, das da galera masculinista.

2. “Heterossexualidade compulsória” é um conceito desenvolvido pela Adrienne Rich no que acredito ser seu trabalho mais famoso. Nele, Rich enfatiza o caráter sexual da exploração patriarcal e usa, inclusive, exemplos de práticas como a mutilação genital feminina para mostrar como a alienação que o patriarcado inflige sobre as mulheres funciona. Se você é feminista de qualquer vertente e ainda não leu esse artigo, não perca mais tempo. Sério.

3. Me pergunto de onde foi que ela tirou que certas feministas dizem que é a “centralidade no pau” que causa a opressão das mulheres. O que causa a opressão das mulheres, nós, feministas radicais, já dissemos um milhar de vezes. Não vou repetir aqui porque eles se ofendem facilmente e podem transformar a seção de comentários do meu blog numa sucursal do inferno, mas vocês sabem de quem estou falando.

4. Sim, eu também estou incomodada com tantas notas de rodapé no mesmo parágrafo, mas essa é necessária: “feminismo francês” é um conjunto de autores e autoras não exatamente relacionados, não exatamente feministas, e não exatamente as principais referências da teoria feminista produzida na França, sendo uma invenção de intelectuais americanos. Butler admite isso já nos prefácios. “A única forma objetiva de definir [o ‘feminismo francês’] é dizer que se trata de um corpo de comentários feito por escritores anglo-americanos sobre uma seleção de escritores franceses e não franceses: Lacan, Freud, Kristeva, Cixous, Derrida e Irigaray são o grupo central. Mas há outros. ‘Feminismo francês’ é então uma corrente da produção intelectual dentro do contexto anglo-americano” (Tradução livre de: DELPHY, Christine. “French Feminism: An Imperialist Invention”. In: BELL, Diane; KLEIN, Renate (org). Radically Speaking: Feminism Reclaimed. North Meolbourne: Spinifex Press, 1996).

5. Sim, eles existem.

6. “Metafísica da substância” seria uma armadilha filosófica em que alguns argumentos acabariam presos, por confundir a formulação gramatical dos conceitos com sua realidade ontológica. Envolve aquela noção de “em que medida uma mulher é do sexo feminino?”, porque a formulação “mulher” não seria suficiente para abarcar o ser que essa formulação busca representar. Esse texto aqui tem uma explicação bem de acordo com o pensamento de Judith Butler, mas ajuda a entender o que raios é isso.

7. Porque, como todo mundo sabe, sexo não existe. Nós surgimos nesse mundo trazidos por uma cegonha, que nos cultiva ela mesma em pés de repolho, que brotam e têm em seu miolo os bebês humanos. Agora, como as plantas se reproduzem, aí já é outra história. Mas uma coisa é certa: nunca vi um pé de repolho inserindo suas protuberâncias dentro de outro para gerar novas plantas, que saem inteiras de dentro do repolho impregnado. Isso é obviamente um conceito ridículo; logo, terei de concordar com Butler.

8. A palavra que ela usa no original é “term”, que pode significar “período”, “lógica”, “relação entre dois grupos”. Traduzi como “território” pois me lembrei que “terms” também pode designar fronteiras de um país ou pedaço de terra. Se você tiver uma sugestão melhor, deixe nos comentários.

9. Segundo Anne Fausto-Sterling, numa estimativa bastante otimista que agrega os mais diferentes e variados tipos de alterações no desenvolvimento embrionário, em torno de 1,7% da população manifestaria algum tipo de intersexualidade, arredondando para cima. Isso seria, segundo ela, mais ou menos a quantidade da população que tem albinismo. (FAUSTO-STERLING, Anne. Sexing The Body: Gender politics and the construction of sexuality. Nova York: Basic Books, 2000.)

Problemão de Gênero, parte II, volume 4: o universal e o específico

Finalmente mais um pedaço da minha grande e pretenciosa análise da obra de Judith Butler vê a luz do dia. Neste trecho — que é bem pequeno no livro, mas que rendeu um texto relativamente substancioso —, analiso o subcapítulo Teorizando o binário, o unitário e além, onde nossa teórica queer favorita desce o pau nas perspectivas ditas universalizantes. Para ler os outros textos da série, clique aqui.

Teorizando o binário, o unitário e além

Butler inicia esse item do seu texto dizendo que Simone de Beauvoir e Luce Irigaray vão discordar em pontos fundamentais acerca de como funciona a assimetria entre os gêneros: segundo ela, Beauvoir vê os gêneros como categorias dialéticas assimétricas, e Irigaray, de um modo mais amplo em alguns sentidos, como uma dialética elaborada pelo que ela chama de “economia masculinista”. Só que Butler diz que o enfoque dado por Irigaray é monolítico e universalizante, e que por isso sua teoria falharia em captar cada uma das especificidades culturais; Butler vai inclusive chamar isso “imperialismo epistemológico”.

A autora vai usar termos ainda mais fortes: de acordo com ela, essa tática equivale a usar as armas do inimigo, mimetizando as estratégias do opressor. Apesar de em certo ponto Butler dizer algo que faz muito sentido e até que bastante óbvio, ou seja, que as estruturas de opressão atuam para muito além da opressão sexual, seu texto dá a entender que as feministas têm os mesmos poderes e as mesma condições de atuar em um mundo onde impera a dominação masculina [1].

É aí que vem a deixa para questionar certas feministas que ela chama de “essencialistas”, e suas “alegações universalizantes”. Nos termos de Butler, essas teóricas acreditam na existência de uma identidade própria e única das mulheres. Mas tirando algumas correntes ecofeministas — que, e me contestem nisso se eu estiver errada, acreditam em um poder quase divino intrínseco à concepção e aos ciclos do corpo feminino [2], o que é bem diferente de se afirmar que exista uma essência feminina —, não tenho conhecimento de qualquer corrente feminista que advogue que todas as mulheres, sem exceção, compartam universalmente de uma mesma cultura/identidade unificada cujo ponto de partida seja sua materialidade corporal. Butler diz que essas “alegações universalizantes” partem de um ponto de vista epistemológico compartilhado que torna a categoria “mulher” algo normativo, exclusionário, e que não dá conta de abarcar as tais intersecções de raça, classe etc [3].

O que me leva de volta a um texto muito bom da Denise Thompson que já citei nesta série [4]”. Colo aqui uma parte que, a meu ver, mata a charada do tal “imperialismo epistemológico” do qual Butler acusa certas feministas. O trecho é um pouco longo, mas garanto que vale a pena a leitura:

Seu argumento é uma instância da acusação de ‘falso universalismo’, e funciona da mesma maneira que todas as acusações do tipo contra a teoria feminista funcionam, ou seja, negando a dominação masculina. Ela [Butler] caracteriza o ‘patriarcado’ como uma ‘noção altamente ocidental’. Ela insiste que ele não é apropriado quando aplicado às ‘atuações da opressão de gênero’ e ‘experiência de subjugação das mulheres’ em culturas diferentes das ‘ocidentais’, negando assim que o conceito de ‘patriarcado’ é relevante para culturas outras que não do ‘ocidente’. No entanto, ela reconhece que a ‘opressão de gênero’ e ‘subjugação das mulheres’ existe em culturas outras que não do ‘ocidente’. Mas se a subjugação das mulheres não é resultado da dominação masculina, de onde ela vem? Parece que o ‘universalismo’ só é falso quando o que está sendo ‘universalizado’ é a dominação masculina. Não há problema, ao que parece, em ver a opressão das mulheres como ‘universal’ no sentido de que ela existe em outras culturas que não o ‘ocidente’. O que é proibido sob o risco de ser acusado de ‘falso universalismo’ é nomear o inimigo.

Localizar a causa da subordinação das mulheres na dominação masculina não é ‘universalizar’ uma noção peculiar do ‘ocidente’ e aplicá-la a ‘outras culturas’. Identificar a dominação das mulheres pelos homens (e de alguns homens sobre outros homens) não é afirmar que há somente uma forma singular de dominação masculina. Mesmo no ‘ocidente’, ela tem a multiplicidade de diferentes formas. Onde quer que os interesses dos homens prevaleçam às custas das mulheres, e os interesses de alguns homens prevaleçam sobre os de outros homens, a dominação masculina existe, seja que forma tome. Enquanto algumas vezes ela é violenta e descaradamente desumanizadora, ela também é multifacetada e pervasiva na vida cotidiana. Ela toma diferentes formas em diferentes culturas sob diferentes condições históricas, contanto que a existência ‘humana’ continue a ser definida nos termos dos homens, e que a existência ‘humana’ de alguns homens exista às custas de outros homens, ela continua sendo dominação masculina, em todas as suas ‘infinitas variedades e monótonas similaridades’ […].

Butler continua dizendo que alguns esforços têm sido feitos no sentido de fazer uma política que não assuma uma forma pré-definida de “mulher”, mas que abarque as várias identidades das várias mulheres em variados contextos, de modo a não se assumir uma unidade, e que ao mesmo tempo abrace as contradições. Só que, logo a seguir, ela diz que “[a] própria noção de ‘diálogo’ é culturalmente específica e historicamente fundada, e enquanto um falante pode sentir-se seguro de que a conversa esteja acontecendo, outro pode ter a certeza de que não está”, e que faz-se necessário questionar as condições em que este diálogo ocorre. Que as questões de raça, classe, etnia, orientação sexual etc não podem ser simplesmente adicionadas à condição “mulher” para que a “categoria mulher” seja de fato completa — como ela diz a seguir — é algo bastante razoável. Mas a recusa de Butler em reconhecer a existência, a materialidade, e tudo o que implica viver em um corpo de fêmea, como a autora fez até aqui sob o temor de se cair em uma análise essencialista, é simplesmente estranho, na falta de uma palavra melhor.

O que Butler propõe é que se assuma uma “incompletude definicional”, porque segundo a autora afirma em mais uma pequena série de perguntas retóricas, é a insistência em se encontrar uma unidade que causa os rachas na ação política e estabelece uma “norma exclusionária de solidariedade a nível de identidade”. De acordo com ela, o fato de não existir uma identidade unificada a respeito de quem é o agente do feminismo pode fazer com que um maior número de “mulheres” [5] possam ser incluídas no feminismo, tornando a luta feminista mais efetiva, porque a própria noção de “identidade” não é algo fundacional e/ou estático.

Mas Butler esquece que o que unifica as mulheres no feminismo não é sua identidade enquanto mulher. Mesmo as feministas radicais advogam que a identidade feminina é algo que depende de significantes culturais; ser mulher no Brasil é diferente de ser mulher em Angola, bem como ser mulher no Norte do Brasil é bem diferente de ser uma mulher sul-brasileira, bem como ser uma mulher negra brasileira no sul do Brasil é bem diferente de ser uma mulher indígena lésbica no Oeste americano. Só que o feminismo não é uma disputa para ver quem grita mais alto. O que pega nessa questão — e que Butler ou não se informou direito a respeito, ou deliberadamente distorceu, nunca saberemos — é que o objetivo do feminismo não é ser uma luta pela representatividade identitária das mulheres no âmbito cultural, mas uma luta das mulheres contra a dominação masculina partindo do fato de que as mulheres se encontram em uma posição de subjugação pelos homens — que estão com elas em uma relação de parasitismo que apropria econômica, cultural e socialmente em amplas esferas as funções sexuais e reprodutivas das mulheres. E mulher, fêmea, que dentro do contexto da reprodução da espécie tem um papel bem específico, tem no mundo todo. Não sei se Butler notou este pequeno detalhe, mas aguardemos com paciência o desenrolar do argumento.


Notas

1. Não que Butler acredite que exista uma dominação masculina, mas enfim…

2. E, sinceramente, em um mundo que demoniza, erotiza e objetifica o corpo feminino, e ainda prega e incentiva a total ignorância das mulheres a respeito de seus próprios corpos, não consigo, por mais que tente, ver muito problema nisso. Até vejo alguns, mas isso eu conto para quem quiser me pagar uma cervejinha. 🙂

3. Para entender melhor a origem, o que significa exatamente, e quais os problemas e limites dessa abordagem chamada “interseccional”, recomendo a leitura de um texto de Danièle Kergoat, “Dinâmica e consubstancialidade das relações sociais“.

4. Tradução livre de: THOMPSON, Denise. Radical Feminism Today. Londres: SAGE, 2001. p. 53-58.

5. Aspas da autora.

Update

As gurias do Radfem.info acabaram de publicar na íntegra o texto da Denise Thompson que é citado aqui. Por favor, leiam!

Problemão de Gênero, parte II, volume 3: corpo e alma

Finalmente retornando com mais uma parte da série Problemão de Gênero. Dessa vez vou analisar o subcapítulo As ruínas circulares do debate contemporâneo — título que faz referência a um conto de Borges do livro Ficciones, coisa que eu nem tinha captado e quem me alertou para isso foi a @juliana_m —, onde a Judith Butler vai falar dos significados do feminino e da construção de gênero na teoria feminista; ou melhor, na teoria de duas mulheres (que sequer utilizam a palavra “gênero”): Luce Irigaray e Simone de Beauvoir.

Antes de prosseguir, gostaria de dizer que, para tentar entender o que caralhos está havendo na teoria feminista hoje por causa da influência do livro Gender Trouble, fui ler algo que falasse especificamente do pós-modernismo, esse negócio meio amorfo e sem sentido que ninguém sabe exatamente o que é, mas sabe exatamente como identificar pois é inconfundível. É o Explicando o Pós-Modernismo, de Stephen R. C. Hicks. O livro é muito interessante e muito bem escrito, e dá pra ter uma ótima noção de porque essa galerinha toda pensa o que pensa, e de onde vem todas essas ideiazinhas mirabolantes que eles propagam.

Muito bem, apertem os cintos! E não esqueça que você pode ler todos os textos da série clicando aqui.

As ruínas circulares do debate contemporâneo

Butler inicia esse segundo item perguntando se gênero é algo que a pessoa tem, se é algo essencial que faz parte da pessoa, e quando feministas dizem que gênero é uma construção social como é feita a sua construção. Ela também pergunta se a construção do gênero é determinista socialmente de modo a impedir que essa construção seja feita de forma diferente. “Que sentido podemos fazer”, ela pergunta, “de uma construção que não pode assumir um construtor humano anterior a essa construção?”

A autora então afirma que alguns estudos — que ela não vai citar quais são — vêem a construção do gênero como determinista, de modo que os significados dos gêneros não mudam, e que as pessoas são recipientes passivos dessa lei cultural inexorável, e que afirmar que a cultura é determinista a esse ponto é o mesmo que acreditar que biologia é destino. Não sei que estudos são esses a que ela se refere, mas não me lembro de ter visto nada assim na teoria feminista, e principalmente nunca vi nada assim na teoria radical, que é a que ela critica desde o início, ainda que não cite nomes. O que as feministas têm dito a respeito da construção social do gênero é que trata-se de um processo que serve à manutenção de uma hierarquia social específica. Ou seja, enquanto for conveniente para quem detém o poder, ele vai se manter da forma que está; se não for, algumas práticas obviamente vão mudar [1].

É nesse momento que Butler dá um passo ousado, citando “O Segundo Sexo” e a famosa frase que todo mundo (inclusive ela) adora citar fora de contexto: “ninguém nasce mulher”. Butler afirma que, nessa sua formulação, Beauvoir dá a entender que nessa construção de gênero existe uma mente — um cogito — que pensa e se apropria do gênero, e que o gênero seria variável e volúvel. Para Butler, no texto de Beauvoir o gênero não provém do sexo, e não há nada ali que garanta que a pessoa que “se torna” mulher é uma fêmea.

O problema aqui é que a Beauvoir nunca disse isso, não da forma que Butler está propondo em seu próprio livro. Primeiro, porque quando ela escreveu O Segundo Sexo sequer existia essa conceituação abstrata chamada “gênero”, que justamente faz essa separação do que é cultural e do que a corporal; sequer existia uma teoria feminista empenhada em destrinchar as origens e métodos da opressão e da exploração das mulheres pelos homens. Isso só foi feito depois dela, na Segunda Onda do movimento feminista, justamente da qual seus livros são um marco. Segundo, que apesar de a teoria feminista de Simone de Beauvoir apontar especificamente para a artificialidade das estruturas que mantém as mulheres hierarquicamente abaixo dos homens, ela diz especificamente que essa construção artificial tem sim um propósito — um cogito? — e é feita tendo como base as funções biológicas dos humanos na reprodução sexuada da espécie [2]. O que se diz a respeito das fêmeas de nossa espécie é uma mentira vil, mas continuamos sendo fêmeas. É nesse sentido que o sexo não têm relação com significado que lhe atribuem na sociedade: porque o que se diz a respeito das mulheres trata-se de uma ficção.

Butler retorna, então, à questão do duelo entre o livre arbítrio e o determinismo, e do corpo como mero vaso receptor [3] dos significados culturais. Ela diz que o corpo não pode ser considerado como algo que existe antes das marcas do gênero pois existe uma miríade de corpos, e, logo, existiria uma miríade de gêneros. “Como”, ela pergunta, “reconceituamos o corpo não mais como meio passivo ou instrumento esperando a capacidade vivificadora de uma vontade imaterial distinta?” Para ela, que gênero ou sexo sejam fixos ou livres é uma função do discurso que limita a análise, e que esses limites são afixados dentro de um discurso cultural hegemônico e binário. “A coação é então construída no que aquela linguagem constitui como o domínio imaginável do gênero”.

Ora, que as normas do que se chama gênero são limitantes é justamente a razão porque se introduziu esse conceito na teoria feminista, pra começar! Que o gênero trata-se de uma arma cultural para se manter uma hegemonia específica que organiza a sociedade em uma hierarquia de castas que restringe comportamentos, ações e pensamentos é justamente o motivo que leva as feministas (não só as radicais) a buscarem se libertar desses padrões prescritivos. Se gênero não for isso, se gênero não for nada mais que uma expressão da identidade e dos desejos de fundo sexual [4] das pessoas, então gênero — que já é uma categoria problemática, é bom lembrar — é, essencialmente, uma categoria inútil.

Butler começa a partir daqui a falar de como o gênero é utilizado na teoria social e no feminismo: como marca de diferença, como em relação a um outro, como um conjunto de relações (e não um atributo individual). Ela vai então falar de como a Luce Irigaray vê “mulher”. Para a Irigaray, mulher seria um paradoxo, uma contradição dentro do discurso identitário, porque é uma ausência linguística. Logo, mulher não é um sexo, mas vários, porque tanto o sexo masculino quanto o Outro são constituídos por um pensamento masculinista, e não serviriam para representar as mulheres, uma vez que toda a estrutura de representação seria inadequada. Para Butler, essa interpretação bate de frente com a mulher como o Outro da Beauvoir. Concordo com isso. Mas esse modo de pensar da Irigaray é, nada mais nada menos, que uma forma de colocar logicamente o que todas nós, enquanto feministas, já sabemos desde quando ainda dávamos os primeiros passos no movimento das mulheres: que o que os homens definiram como “feminino” não nos representa; ao contrário, nos restringe.

Butler continua:

A circularidade problemática de uma investigação feminista do gênero é sublinhada pela presença de posições que, por um lado, presumem que gênero é uma característica secundária das pessoas, e aquelas que, por outro, argumentam que a própria noção de pessoa, posicionada na linguagem como um “sujeito”, é uma construção masculinista e prerrogativa que efetivamente exclui as possibilidades estruturais e semânticas do gênero feminino. A consequência de discordâncias tão agudas sobre o significado do gênero […] estabelece a necessidade de uma repensada radical das categorias de identidade dentro do contexto de relações de uma assimetria radical de gênero.

Ou seja: por causa da assimetria nas relações entre homens e mulheres há uma discordância bastante grande na forma como as teóricas feministas definem gênero, uma contradição que ela mesma vai se propôr a resolver. É uma discordância meramente conceitual, no entanto. Ambas as feministas citadas por ela (Beauvoir e Irigaray) reconhecem a flagrante diferença nas relações entre homens e mulheres, ambas têm formas diferentes mas muito interessantes de pensar essas relações, e cada uma dessas formas de pensar são não contraditórias, mas complementares. Para mim, pelo menos, parece que sim [5].

Mas continuemos. Para Beauvoir, o sujeito é masculino e universal, diferenciando-se do Outro, que é particular e específico. Isso implica, pra Butler, uma crítica fundamental à separação do corpo e da alma, porque o feminino está, nessa concepção, preso ao corpo, e o masculino significaria a verdadeira liberdade porque suas ações não estariam limitadas pela corporalidade como no caso das mulheres. Aquela coisa de imanência e transcendência. Beauvoir propõe então que o corpo feminino deve ser a situação e o instrumento da liberdade das mulheres na sua luta por se livrar das amarras do patriarcado, e não algo que defina e limite sua essência. Faz muito sentido se você pensar que o corpo das mulheres em uma sociedade que as limita de todas as formas possíveis é tudo que elas têm.

Butler vai criticar esse posicionamento porque, segundo ela, Beauvoir estaria mantendo a velha ideia cartesiana do dualismo corpo/alma, onde o corpo está sujeito à alma, e a alma é superior e o campo masculino de atuação por excelência. Butler vai achar essa associação problemática, mas poxa! Quem faz essa associação são os partidários do masculinismo, do patriarcado, não a Beauvoir, que está justamente criticando esse dualismo! Para Beauvoir, as mulheres têm de se apropriar dos seus corpos — que, numa sociedade patriarcal, é de propriedade dos homens —, e não se circunscrever dentro de uma lógica da qual querem se libertar, é justamente o contrário!

Depois de ter lido um terço do livro do Hicks sobre o pós-modernismo, eu cheguei à conclusão de que as escorregadas interpretativas da Butler são sim propositais, e que ela usa justamente a lógica pós-moderna de que nada é verdade e nenhuma interpretação é definitiva para justificar as distorções que faz nos textos alheios sem culpa.


Notas

[1] Um exemplo disso é a indústria da beleza se voltando aos homens e ao mercado gay. Homens mais poderosos que esses homens consumidores decidiram que agora que os movimentos sociais levaram a uma maior aceitação dos homens gays, homens em geral agora também fazem parte desse mercado. Apesar dessa ressignificação, os homens continuam sendo detentores do poder, independente do fato de serem gays ou heterossexuais. Não é porque alguns homens estão em desvantagem em relação a outros homens que eles são necessariamente um grupo oprimido enquanto classe. Podem ser oprimidos enquanto gays, enquanto negros, enquanto proletários, mas jamais enquanto homens. Essa mudança em momento algum trouxe qualquer é resultado positivo para as mulheres. Pelo contrário, serviu apenas para reforçar as bases do poder de uma indústria misógina.

[2] Beauvoir usa a palavra “fêmea” mais de duzentas vezes ao longo dos dois volumes de sua obra máxima.

[3] Interessante notar que as mulheres é que sempre foram vistas como vasos receptores, seja dos filhos ou das ações dos homens.

[4] Sexual, aqui, apenas no sentido fornicatório da palavra, porque para Butler sexo é gênero, e gênero é o que você quiser que ele seja.

[5] Li Beauvoir, mas tudo o que conheço de Luce Irigaray é o que é citado pela Butler em seu livro, então é uma impressão pessoal não muito bem fundamentada, já que deu pra perceber que Butler não tem lá muito forte em si o compromisso de respeitar o contexto dos textos que cita. Deve ser alguma mania pós-moderna, já que a verdade não existe, tudo é subjetivo, todas as interpretações são igualmente válidas, etc… Se a verdade e o autor, por definição, não existem, por que se comprometer com citar o autor direitinho, não é mesmo?

Problemão de gênero, parte II, volume 2: Sexo e gênero

Este é mais um post da minha série “Problemão de Gênero”, onde faço uma leitura crítica da mais famosa obra de Judith Butler praticamente parágrafo a parágrafo. Os textos anteriores podem ser lidos aqui e aqui. Como já disse anteriormente, essa crítica segue a minha visão pessoal, que é materialista e usa como ponto de partida o feminismo radical. Puxa uma cadeira e senta, porque lá vem lorota!

A Ordem Compulsória do Sexo/Gênero/Desejo

Este é o segundo subcapítulo do capítulo “Sujeitos do Sexo/Gênero/Desejo”. É bem curtinho, e Butler não vai discorrer muito sobre o assunto, talvez porque ela não tenha muito o que falar. Aqui ela vai fazer uma série de afirmações que eu achei um tanto bizarras — principalmente porque ela não firma o argumento em lugar algum; você lê e fica se perguntando de onde ela tirou isso tudo, apesar de conseguir captar algumas referências.

Butler vai iniciar o texto dizendo que a categoria “não problematizada” de mulher sofreu uma quebra com a introdução do conceito sexo/gênero. Ela não vai dizer quando, porque, nem quem fez isso, então faço eu: era 1972 quando Ann Oakley, uma feminista britânica, escreveu o artigo entitulado “Sex, Gender and Society” (a introdução em inglês desse artigo pode ser encontrada aqui), onde discorria sobre até que ponto as diferenças entre os homens e as mulheres eram naturais ou fruto da sociedade. Três anos depois, a Gayle Rubin vai usar este mesmo conceito no seu famoso “Traffic on Women”, e é a partir daí que ele vai fazer sucesso e tomar de assalto a teoria feminista. Isso aconteceu porque a mulherada ficou realmente muito empolgada por finalmente ter encontrado um bom argumento [1] contra a naturalização das diferenças sociais. A princípio, Butler concorda com isso.

O problema é que o argumento não é tão bom assim, como bem avisa a Maria Mies, ao afirmar que homens e mulheres interagem com a natureza com corpos qualitativamente diferentes, mas que (2014; tradução livre):

Essa distinção de categorias entre sexo como biológico, e gênero como sócio-cultural, pode à primeira vista parecer útil, porque remove a irritação de que a opressão das mulheres é atribuída o tempo todo à sua anatomia. Mas essa distinção segue o padrão bem conhecido de separar a ‘natureza’ da ‘cultura’ (…). Para as mulheres essa divisão tem uma tradição longa e desastrosa no pensamento ocidental porque as mulheres têm sido colocadas ao lado da natureza desde o surgimento da ciência moderna (…). Se as feministas agora tentam sair dessa tradição definindo sexo como algo puramente material e biológico, e gênero como a expressão mais alta, cultural e humana desse algo, então elas continuam o trabalho daqueles filósofos e cientistas idealistas patriarcais que dividiam o mundo em matéria crua ‘ruim’ (a ser explorada e colonizada) e espírito ‘bom’ (a ser monopolizado por padres, mandarim e cientistas). [2]

Butler vai dizer que gênero é sim socialmente construído, e não um resultado causal do sexo, porque o gênero não vem exatamente do sexo, mas vai além dos limites do corpo. Até aí, todas as feministas concordam: gênero define uma série de práticas e marcadores culturais de diferença entre homens e mulheres, que inclui (mas não se restringe a) vestimenta, comportamentos etc. A Lierre Keith nos ajuda a entender:

Gênero não é binário. Ele é uma hierarquia. Ele é global em seu alcance, é sádico em sua prática, e assassino em sua realização. Assim como raça, e assim como classe. O gênero demarca os limites geopolíticos do patriarcado — o que quer dizer, nos divide ao meio. Essa metade não é horizontal — ela é vertical. E caso você tenha perdido essa parte, os homens estão sempre no topo. [3]

Esse não é, obviamente, o caminho que a Judith Butler vai seguir, porém. Ela diz que “homem” não se aplica só a corpos machos, assim como “mulher” não se aplica sempre a corpos fêmea [4]. E é bem aqui que o argumento dela parece cada vez mais fruto de um matinho mágico suspeito desses que a gente arranja por aí: ela vai falar que nem o dimorfismo sexual pode ficar sem ser problematizado (coisa que, se não me engano, ela vai fazer mais adiante no livro). Achar que o gênero é binário é achar que o sexo também é restrito por esse dimorfismo, segundo ela.

A autora aqui está provavelmente partindo da idéia de construção social da sexualidade [5]. Esse é um assunto que ultimamente, pelo menos nas discussões internéticas, tem dado muito pano pra manga. Isso porque as pessoas entendem essa expressão das mais variadas formas possíveis. Algumas pessoas têm uma compreensão muito parecida com a de Butler, e alguns ainda parecem soltar essa expressão nas discussões sem fazer a menor noção do que ela significa exatamente, apenas para tentar argumentar contra a idéia do que chamam de essencialismo biológico.

Vou tentar explicar aqui como é que as feministas materialistas vêem esse conceito. Tudo em que os humanos colocaram a mão desde que se organizaram em grupos é, obviamente, socialmente construído. A forma como encaramos a sexualidade, não só a nossa mas até mesmo a de outros animais, [6] não fica de fora dessa. Nós inventamos regras específicas para seres de tal e tal sexo — que é, aliás, o significado original para que o conceito de “gênero” foi concebido, veja bem —, inventamos regras e contratos sexuais específicos para situações específicas, inventamos formas de controlar nossa fertilidade, inventamos práticas sexuais variadas… A lista é literalmente sem fim. Isso não significa, porém, que as nossas funções biológicas deixem de existir por causa disso; o fato de algumas dessas normas e costumes existirem inclusive atestam que essas funções biológicas existem.

Butler vai continuar dizendo que o gênero é independente do sexo e que se trata de “um artifício que flutua livremente” (free-floating artifice). Então ela questiona como é feita a atribuição do sexo a alguém, e segue fazendo um monte daquelas perguntas retóricas que ela adora:

  • “Afinal, o que é sexo?”
  • “Sexo é natural, anatômico, cromossômico, hormonal, e como é uma crítica feminista para se acessar esses discursos científicos que se propõem a estabelecer tais ‘fatos’ para nós”?
  • “Existe uma história de como a dualidade do sexo foi estabelecida, um genealogia que possa expôr as opções binárias como uma construção variável?”
  • “Existem fatos ostensivamente naturais do sexo discursivamente produzidos pelos vários discursos científicos a serviço de interesses políticos e sociais alheios?”

Apesar do blablabla anterior e da forma como a frase foi composta, essa última pergunta é muito válida, na verdade. É a pergunta que basicamente toda a crítica feminista de ciência já fez muitas décadas atrás. Investigar como a ciência pode ser usada para validar pressupostos mentirosos e preconceituosos a respeito das pessoas foi (e ainda é) uma tarefa do feminismo que ajudou a desvelar muitas das formas como as mulheres foram (e ainda são) subjugadas ao longo da história. Eu mesma estudei isso, mais especificamente na área da Computação. Não é uma pergunta boba.

O problema é que, diferente das críticas feministas às ciências e à produção tecnocientífica — que estavam preocupadas com a negligência médica em relação às mulheres, com a exclusão das mulheres dos campos do saber que possibilitavam melhores oportunidades de trabalho ou uma investigação mais específica sobre como tal e tal procedimento afeta especificamente as mulheres e coisas do tipo —, a Butler vai envenenar essas perguntas. Na verdade verdadeira mesmo, ela sequer vai tentar dar uma resposta satisfatória a elas. Ela vai apenas dizer que o sexo é tão culturalmente construído quanto o gênero. E que talvez o sexo sempre foi gênero, de modo que não há distinção entre sexo e gênero, porque segundo ela “Não faria sentido então definir gênero com uma interpretação cultural do sexo, se o sexo mesmo é uma categoria gendrada”! [7]

Esse raciocínio dela leva a noção de construção social da sexualidade às últimas consequências. O que Butler diz, para resumir, é que uma vez que as práticas sexuais e a forma com entendemos o sexo é socialmente construída, e uma vez que o gênero também o é, então não precisa haver uma distinção entre sexo e gênero, porque sexo e gênero seriam necessariamente a mesma coisa e não importariam para uma análise feminista. Ela deixa de considerar — e aqui me adianto, porque nada mais me lembro da primeira leitura que fiz desse livro então não sei dizer se ela vai fazer isso futuramente, mas de qualquer forma até o momento ela deixa de considerar — os motivos que levaram à dominação masculina, e isso porque ela não acredita em uma dominação masculina a nível estrutural.

Ela diz:

Sexo não deve ser concebido puramente como a inscrição cultural de significado em um sexo pré dado (uma concepção jurídica); gênero deve também designar o próprio aparato de produção através do qual o sexo propriamente dito é estabelecido. Como resultado, o gênero não está para a cultura como o sexo para a natureza; gênero é também os significados discursivos/culturais pelos quais “a natureza sexuada” ou “sexo natural” é produzido e estabelecido como “pré-discursivo”, antes da cultura, uma superfície politicamente neutra na qual a cultura age. (BUTLER, 1999)

Butler encerra esse capítulo com mais uma pergunta: “como então o gênero precisaria ser reformulado para englobar as relações de poder que produzem o efeito de um sexo pré-discursivo e então abarcar as operações próprias da produção discursiva?”

Ou seja: além de pegar uma categoria que em si já tem problemas o suficiente (vide a citação da Maria Mies), ela ainda vai desconsiderar completamente a realidade material, como se nosso corpo físico não tivesse qualquer peso na forma como interpretamos e interagimos com o mundo e entre nós mesmos; isto é, não é uma superfície politicamente neutra. Além disso, ela ainda vai tentar reformular essa categoria problemática de uma forma que tampouco resolve seus problemas.

Fiquei realmente impressionada com o tanto de bobagem que ela consegue colocar dentro de tão pouco texto!


Notas


[1] Porque nós ficamos tão preocupadas com a melhor maneira de responder questões idiotas que os homens nos colocam, e ainda por cima nos termos deles, é algo que não consigo entender, principalmente porque eu mesma também faço isso.

[2] Tradução livre de: MIES, Maria. Patriarchy and Accumulation on a World Scale: Women in the International Division of Labour. Londres: Zed Books, 2014.

[3] Tradução livre de: KEITH, Lierre. Patriarchy vs. Planet Earth. RadFem Reboot 2012. Portland, 2012.

[4] O que até faz sentido, se você pensar em figuras de linguagem, como por exemplo quando uma mulher diz “sou mais macho que muito homem”. “Macho”, nesse caso, significaria “forte”, “corajosa”. Não significa, no entanto, “ser humano do sexo masculino”. E, olha só que interessante: funciona direitinho dentro da lógica do gênero como marcador de diferença e hierarquia.

[5] Confesso que esse é um assunto que me interessa apenas superficialmente. É um debate meio infrutífero, na verdade, que surgiu provavelmente com o Michel Foucault questionando de que forma se dá a orientação sexual das pessoas, de onde ela vem, porque algumas pessoas são héterossexuais e outras não. O Foucault era completamente contra a idéia de que a orientação sexual é inata, aquela coisa de “baby, I was born this way” (um discurso que está muito em voga hoje): para ele, são as experiências das pessoas que podem levá-las a tal e tal comportamento/desejo. Algumas pessoas ainda dizem que a orientação sexual é uma escolha — e qual seria o problema se fosse, não é mesmo?

[6] Vide a notícia do inseto fêmea encontrado no Brasil que se dizia que tinha um pênis porque era ela quem penetrava o macho de sua espécie, e não o contrário, como normalmente se espera (“normalmente”, aqui, pode ser interpretado no sentido de “norma” mesmo) de uma relação sexual macho/fêmea. Tal notícia foi amplamente celebrada pelos transativistas, como sendo uma prova de que fêmeas também têm pênis. Alguns biólogos desmentiram essa idéia: há muita (muita mesmo) variedade genital entre os insetos, e que uma protuberância por onde a fêmea busca o material genético do macho não pode ser simplesmente chamada de pênis; sequer faz sentido comparar a fisiologia dos invertebrados e dos mamíferos nesse sentido.

[7] Socorro!!

Problemão de gênero, parte II, volume 1: “Mulheres”?

Antes de começar esse meu fichamento, vou esclarecer aqui que, antes de tudo, essa é uma leitura minha. Isso significa dizer que o que estou usando aqui pra confrontar o livro da Butler é o meu próprio repertório, e ele pode ser falho ou incompleto. Entretanto, tento fazer com que minha argumentação seja o mais clara e o mais coerente possível (já estou melhor que a Judith Butler, veja bem). Então, se surgir alguma dúvida, sugestão de leitura, ou se você também leu e notou que eu deixei escapar alguma coisa, não se acanhe de fazer um comentário. E se você caiu aqui de para-quedas, sugiro ler a primeira parte da série. 🙂

Outra coisa: o exemplar que estou usando de base é um PDF que foi transformado em Mobi para que eu pudesse ler no Kindle. Ele até tem as marcações de página originais, mas achei desnecessário colocá-las no corpo do meu próprio texto porque as seções do livro são bem curtinhas e, na transposição do PDF pro Mobi a coisa toda ficou um pouco cagadinha. Nada que impeça a leitura, no entanto; se você quiser uma cópia, podemos providenciar.

Mas vamos lá!

A Butler inicia o texto citando uma série de epígrafes. São textos que dizem basicamente que mulher não existe. Aí tem lá a Julia Kristeva dizendo que não dá pra se dizer que mulher exista, a Irigaray dizendo que mulheres não têm um sexo, a Wittig falando que sexo é uma categoria que estabelece a sociedade como heterossexual. O complicado é saber se essas citações realmente dizem o que a Butler está querendo que digam, porque ela cita aquela famosa frase da Simone de Beauvoir, inclusive. Essa (mas só aquela parte):

quote-beauvoir

E aí já viu, né.

“Mulheres” como sujeitos do feminismo

Esse é o primeiro item do capítulo “Sujeitos do Sexo/Gênero/Desejo”. Butler o começa dizendo que o feminismo entende mulher com uma categoria dada, uma identidade de onde partem os interesses feministas. Segundo ela, apesar de as mulheres serem pouco ou sequer representadas, essa assunção pode distorcer o que está abarcado na categoria mulher. Ela diz que na época — fins dos anos 1980 — havia muito debate sobre o que era mulher exatamente, o que ser mulher significava, e que, portanto, “mulher” não é uma categoria estável. Ela fala que tem “muito material” que questiona a mulher como sujeito do feminismo, mas ela não cita ninguém para saber em que termos esse questionamento é feito.

Então, Butler vai dizer que é preciso chegar num acordo primeiro antes de se conseguir a tal representatividade que querem as mulheres [1], e a partir daí, ela começa a teorizar sobre como se constituiu essa categoria “mulher” partindo de Foucault. Ela diz que o “Foucault aponta que os sistemas jurídicos de poder produzem os sujeitos que subsequentemente vão representar”, e que “Noções jurídicas de poder regulam a vida política puramente em termos negativos”, ou seja: limitação, proibição, regulação, controle etc. Os sujeitos regulados nessas estruturas, porém, são sujeitados a essas estruturas, e a linguagem jurídica que representa as mulheres como sujeito do feminismo tem essa carga, segundo ela. [2]

Ela vai dizer, pra resumir, que o sujeito do feminismo é constituído discursivamente dentro do sistema político do qual quer se emancipar, e que a categoria “mulher” estaria contaminada pelas estruturas de poder por causa disso e, portanto, não seria suficiente para definir nada. Isso porque, de acordo com ela, “os sujeitos jurídicos são invariavelmente produzidos através de certas práticas exclusionárias” que não revelam suas políticas; “O poder jurídico inevitavelmente ‘produz’ o que diz meramente representar”. Então essa categoria seria contaminada por definição.

Diz a Butler que a questão da mulher como sujeito do feminismo levanta a possibilidade de que não exista um sujeito antes da Lei [3]. Ela continua dizendo que assumir uma integridade ontológica do sujeito antes da Lei é um traço contemporâneo da hipótese do estado natural, que ela chama de “fábula fundacionalista constitutiva das estruturas jurídicas do liberalismo clássico”. Traduzindo: ela já assume por princípio que essa premissa de que existe uma realidade material que existe independente do discurso é falsa, e justifica isso dizendo que essa premissa que ela chama de fundacional garante que as pessoas consintam em ser governadas. Como exatamente assumir que existe uma realidade independente de haver humanos ali para dar nomes aos bois facilite a governabilidade desses mesmos humanos é algo que realmente foge à minha compreensão.

Ela aponta também o que considera ser um outro “problema político que o feminismo encontra em assumir que o termo mulher denota uma identidade comum”: ser rotulada como mulher, ser colocada nessa categoria, segundo ela, causa ansiedade. Isso porque o termo falharia em abarcar o que ser mulher significa sob diferentes contextos históricos, de raça, classe, localização geográfica etc. Aí ela diz que é impossível separar o gênero desses contextos, que é simplesmente impossível definir gênero e definir mulher.

Então ela continua dizendo que assumir que existe uma “base universal” pro feminismo acompanha a noção de que existe uma opressão masculina. Ou seja: a noção — já bastante estudada no feminismo — de que existe um patriarcado. Aí ela vai falar que assumir que exista um patriarcado é deixar de notar todas as especificidades culturais, como se… bem, como se todas as teóricas [4] que fizeram esse resgate não tivessem pelo menos dois neurônios para conceber o óbvio, tivessem deixado de considerar particularidades e não passassem páginas e páginas explicando que não, o patriarcado não se manifesta da mesma forma em todos os lugares, mas que em todos esses lugares cada uma dessas manifestações têm uma coisa em comum: a dominação das fêmeas da espécie humana pelos machos da espécie humana, com o propósito de explorar seu trabalho e seu potencial reprodutivo. Ela fala que a noção de patriarcado é uma invenção ocidental, basicamente, e que apesar da noção de patriarcado universal não ter mais tanta credibilidade (há controvérsias), a noção de mulher ainda tá aí firme e forte [5].

Dia desses eu postei no Twitter um trecho de uma crítica que a Denise Thompson fez a respeito desse trecho específico, e que eu estava traduzindo. Vou deixar ela falar por mim:

thompson-x-butler

Segue-se então uma série de perguntas que, pela própria lógica do argumento dela e dos pontos de partida de seu raciocínio, são virtualmente irrespondíveis, afinal, o que é respondível teria que seguir outra lógica, que ela imediatamente descarta. Por exemplo, ela questiona se “há alguma comunalidade entre as ‘mulheres’ que preexiste sua opressão ou as ‘mulheres’ têm um laço em virtude da opressão?”, e também pergunta se “Há uma região do ‘especificamente feminino’ que é ao mesmo tempo diferenciada do masculino e reconhecível em sua diferença não marcada por uma não notada e, logo, presumida universalidade das ‘mulheres’?”.

Porém, Butler vai negar completamente qualquer que seja o argumento em favor dessa comunalidade, porque para que seu argumento possa funcionar conforme o exposto até aqui, aceitar tal comunalidade seria ceder ao “fundamentalismo da diferença sexual” que de que ela fala em um dos prefácios do livro. Ela defende que as supostas (para ela) especificidades reconhecíveis entre as mulheres — e, consequentemente, entre os homens — são nada mais que criações de um sistema binário e exclusionário, que separa os indivíduos em categorias discretas, masculino e feminino.

Ela diz também que essas especificidades são descontextualizadas de suas intersecções com outros “eixos de poder” que “constituem a identidade”, tais como classe, raça e etnia. O problema aí é que ela até se preocupa em citar essas possíveis intersecções, mas parece não se dar conta de que nascer mulher, nascer em um corpo de fêmea também é um fator bastante importante (decisivo até) entre essas intersecções, e inclusive modifica a forma como tais intersecções se dão. [6]

Aí ela vai dizer que não dá para presumir a universalidade e a unidade do sujeito do feminismo uma forma efetiva. Para Butler, insistir numa categoria estável de sujeito do feminismo — ou seja, insistir que mulheres existem e têm uma realidade material — gera uma recusa em aceitar essa categoria. Ela diz que a categoria mulher é coercitiva e regulatória, e que, portanto, vai de encontro aos propósitos emancipatórios do feminismo. Aí ela vai dizer que a recusa de algumas mulheres em participar do feminismo indica que esses limites são limitantes (!), e que é uma consequência irônica que essa representação estreita possa quem sabe “fracassar o feminismo” por ele se recusar em levar em conta “os poderes constitutivos de suas próprias reinvindicações representacionais”. [vide nota 1]

E então, Butler diz que o feminismo precisa de uma crítica radical [7] e cita Marx de um jeito que não entendi e parece só estar ali para fazer figuração: “O ponto de partida crítico é o presente histórico, conforme Marx coloca”. Aí ela diz que se tem que formular uma crítica a essas estruturas jurídicas que engendram e imobilizam, de dentro do sistema. Ela tá certa ao afirmar que não dá pra sair de dentro do sistema — quantas de nós não batemos cabeça diariamente tentando abolir hábitos e costumes que o patriarcado ensinou para nós, muitas vezes sem sucesso? Mas ela está bem errada em dar a entender que é impossível mudar esse sistema, e que o melhor a fazer é uma revolta conformada, “in trouble. Se ela partisse da história poderia ver que transformações sociais são possíveis e acontecem o tempo todo. Mas é como ela disse no prefácio: se não dá pra vencê-los, junte se a eles e tente conviver da melhor forma possível.

A autora fala que esse período, chamado de pós-feminismo, é uma oportunidade de se repensar e construir o sujeito do feminismo [8], porque se precisa de uma repensada radical na construção ontológica de identidade dentro da prática política feminista. Ela fala que talvez seja a hora de uma crítica radical [vide nota 7] que procure libertar a teoria feminista da necessidade de se construir uma categoria incontestável que exclua aqueles que ela mantém de fora [9]. E aí ela faz outra pergunta (ela adora fazer perguntas): “As práticas exclusionárias que permeiam a teoria feminista na noção de ‘mulher’ como sujeito paradoxalmente minam os objetivos feministas no sentido das suas reivindicações de ‘representação’?” [vide nota 1]

Butler faz mais uma pergunta interessante: se a categoria “mulher” for tão estável como advoga o feminismo, isso não seria uma reificação [10] das relações de gênero? Para ela, “mulher” é uma categoria tão opressora e normatizadora que não são as mulheres que sofrem as normatizações de comportamento, opressões, e explorações de sua sexualidade e de seu trabalho. Não! Para Butler o grande problema é o fato de o feminismo deixar de fora quem não é mulher, porque achar que mulheres existem e são um grupo de pessoas com necessidades e especificidades próprias é se conformar à matriz heterossexual!

Ela vai dizer, então, que um novo tipo de política feminista é desejável (para quem?) para contestar a reificação do gênero, e que “traçar as operações políticas que produzem e escondem o que qualifica como sujeito jurídico do feminismo é precisamente a tarefa de uma genealogia feminista da categoria das mulheres” [grifo dela], que ela vai se propôr fazer. Diz também que não questionar a categoria “mulher” pode impedir a possibilidade de o feminismo ser uma política representacional [Já sabe, né? Vide nota 1].

Aí ela faz uma nova pergunta — naquele jeitinho de retórica dela com o qual já fiquei bem acostumada e que mais afirma que questiona —, querendo saber que relações de dominação e exclusão estão sustentadas nesse foco de representatividade nas mulheres. É no mínimo engraçado que no único momento de que me recordo ver Butler usando uma palavra mais incisiva para caracterizar a sujeição de um grupo por outro ela escolha justamente dominação para caracterizar mulheres estabelecendo as fronteiras de sua luta por libertação.

Ela encerra esse subcapítulo com uma afirmação categórica que resume muito bem tudo o que ela papagaiou até aqui:

A identidade do sujeito do feminismo não deve ser o fundamento das políticas feministas, se a formação desse sujeito tem lugar dentro de um campo de poder coberto regularmente pela afirmação desse fundamento. […] ‘representação’ só irá fazer sentido para o feminismo quando o sujeito ‘mulher’ não for presumido em lugar algum.

Interessante uma mulher que definitivamente não se mostra feminista de modo algum dizendo que faz uma crítica ao feminismo “de dentro” do próprio feminismo, que não usou até agora nenhum embasamento feminista, apontar com tanta certeza assim o que o feminismo deve fazer. Interessante também é notar a misoginia internalizada dela — que nem é difícil, porque é bastante visível —, ao enfatizar uma separação tão grande dela mesma do grupo “mulher” e ao sempre usar o termo entre aspas, ou meio que com desdém. Chego a ter pena, mas a verdade é que essa mulher provavelmente nunca leu uma linha de teoria feminista.


Notas

[1] Espera aí, Butler, vamos por partes para ver se eu entendi: 1) mesmo que o feminismo seja bastante variado, você jamais em tempo algum define o que exatamente você chama de feminismo; 2) ao mesmo tempo, você diz que não vai partir de nenhum feminismo específico porque isso seria muito normativo e limitante para o tipo de crítica que você pretende fazer aqui; 3) então, pelo seu texto, dá pra concluir que você acha que o objetivo do feminismo é uma representatividade emancipatória?! Mas o que exatamente seria isso?

[2] Na segunda nota de rodapé ela diz que o “sujeito diante da lei” é uma referência à interpretação do Derrida a Before the law do Kafka.

[3] Ela tá partindo daquela noção idealista de que a realidade se produz através do discurso; “penso, logo, existo”. Ao mesmo tempo, lembro do que ela disse a respeito do gênero que se faz no fazer, aí cruzo com Engels falando em Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem que “a mão não é apenas o órgão do trabalho; é também produto dele”, e minha mente dá um nó.

[4] Algumas das mulheres maravilhosas que vêm estudando este assunto desde o final dos anos 60: Mary Daly, Maria Mies, Rosalind Miles e Merlin Stone. No Brasil, temos a Heleieth Saffiotti. Recomendo dar uma olhadinha em todas elas, garanto que são bem mais fáceis de entender que a Butler; elas não acham chique escrever difícil.

[5] Deve ser culpa das TERFs.

[6] Isso é algo que nem Butler nem os seus discípulos parecem se importar: aparentemente, ser uma fêmea da espécie humana e tudo o que vem de brinde com essa característica pré-discursiva — a menarca, a menstruação, a relação com o corpo e com seus fluídos, a sombra constante do assédio sexual e do estupro, a possibilidade de uma gravidez indesejada e a impossibilidade de se optar pelo aborto… — não faz, para essa galera, a menor diferença. O corpo da mulher, mesmo quando significado pela cultura, aparentemente não existe.

[7] Tadinha… Miga, vem cá, vamos conversar.

[8] “Pós-feminismo” é um termo que em geral descreve exatamente o período de onde Judith Butler escreve esse texto, onde muitas críticas ao feminismo surgiram. Alegadamente, essas críticas têm a intenção de corrigir falhas do movimento, mas geralmente só tacando-lhe o pau mesmo. A Susan Faludi descreve bem o espírito de época desse finalzinho dos anos 1980 e início dos 1990 em seu ótimo Backlash. Mas já aviso que o livro é mó bad vibes: dá um belo de um desânimo.

[9] Mas pensa comigo: pra luta feminista dar certo em favor das mulheres, alguém vai ter que ficar de fora dessa construção, certo?

[10] Note a palavra: “Reificar” significa, num sentido mais amplo, tornar algo real, palpável, material. No Marxismo, reificar é tomar uma abstração ou um objeto e considerá-lo como possuindo existência viva. A qual desses sentidos Butler se refere? Reificação não deveria ser “o fazer que faz o gênero”, ou para Butler esse fazer não precisa de uma manifestação material? Ou, para ela, o problema com a existência material é o que ela chama de “ficção da existência pré-discursiva fundacionalista”? Será que o problema é a coisa (qualquer coisa!) já estar ali antes, e para sua existência ser válida essa coisa precisa ser construída através do discurso? Dúvidas…

Problemão de gênero, parte I: os prefácios

Faz já algum tempo que venho pensando em ler o Gender Trouble, que é basicamente a bíblia do movimento queer hoje. Esse livro surgiu de uma tese de doutorado escrita por Judith Butler em fins dos anos 80, e é seu trabalho mais conhecido, citado e reverenciado. Curiosamente, esse é um livro que, apesar de ser bastante citado nos chamados Estudos de Gênero, é muito provável que se alguém leu, o fez somente por trechos selecionados e xerox.

Sempre que falo desse texto, aponto para a ótima resenha do Rodrigo do Ó, que resume muito bem o ponto central discutido na obra e ainda dá uma contextualizada nos autores citados para sustentar o argumento. Se você ainda não leu o livro e pretende ter uma noção geral do que trata ali, sugiro que leia a resenha do Rodrigo, antes mesmo até de ler esse texto aqui. Vai lá, eu espero. 🙂

Confesso que, apesar de ter lido uma boa porção dele quando comecei o mestrado, ainda não tinha a carga de leitura que tenho hoje e, na época, não entendi metade do que foi dito e mal consegui contextualizar. É justamente por causa disso — e da sua influência (e dos embates que provoca) nos estudos feministas — que resolvi lê-lo de cabo a rabo e, ao mesmo tempo, ir fazendo uma leitura crítica por escrito dele. É disso que vai tratar essa série de posts que começo hoje e que não tem data ou periodicidade definidas, mas cuja leitura certamente vai acontecer nas minhas tediosas madrugadas insones e pode ser acompanhada on the fly no Twitter através da hashtag #livereadingGT.

Esse texto especificamente vai tratar dos dois prefácios do livro: o primeiro, escrito em 1999, fala das influências, reações e críticas que o livro provocou desde que foi publicado pela Routledge em 1990; o segundo, de 1990, é mais curto e serve mais para apresentar o conteúdo da obra propriamente dita. Já aviso que minha leitura crítica vai partir da minha própria orientação teórica, então deixo de sobreaviso ao eventual leitor ou leitora que aqui é feminismo radical, meu bem!

Prefácio (1999)

Então vamos lá: no primeiro prefácio (segundo na ordem de escrita), a autora vai falar de como ela não imaginava que sua tese seria tida como algo “inovador” na academia e, mais precisamente, na teoria feminista quando do envio dos originais à editora. Ela deixa meio implícito, acho eu, que sua intenção era exatamente essa: Butler afirma que o que queria com esse trabalho era combater algumas formas de teoria feminista, ela mesma se situando como parte do feminismo, olhando de dentro [1]. Ela usa o termo “embattled“, aliás.

Ela continua, então, dizendo que quando começou a escreveu sua tese de doutorado, incomodava bastante a ela o fato de que as noções de masculinidade e feminilidade serem tão exclusionárias e fechadas. Do seu ponto de vista, que enxerga gênero como uma expressão identitária, esse desconforto é até compreensível: se tais coisas fazem parte da expressão do ser das pessoas, e as pessoas acabam sendo punidas caso queiram se expressar de outra forma, é óbvio que se vai frustrar quando se mija fora da bacia. Porém, quando se estuda as formas como se deram essas construções da masculinidade e da feminilidade — que podem ser variar bastante de uma cultura para a outra, mas que são semelhantes o suficiente para serem definidas como duas categorias sociais bastante distintas e hierarquizadas, com uma dominando sobre a outra com base no papel que a pessoa desempenha na reprodução sexuada na espécie humana —, a gente entende que, apesar desses signos acabarem sendo adotados pelas pessoas como expressão de identidade, eles são frutos de um sistema que tem outra intenção. Aliás, ser adotado voluntariamente como parte de si mesmo, tanto pelos dominadores quanto pelos dominados, é justamente onde está a graça e a genialidade desse sistema de opressão, e é justamente o motivo porque é tão difícil se desvencilhar dele.

Butler, no entanto, não entra nessas questões. Ela acha que a estratégia mais apropriada pra lidar com esses “problemas de gênero” é justamente multiplicar as suas formas de expressão de modo a libertar as pessoas dessas amarras. Pensei comigo enquanto lia essa parte que a idéia dela é muito semelhante a tentar evoluir uma espécie que no momento se encontra envenenada por seus próprios hábitos hiperpoluindo seu meio ambiente [2]!

A autora vai ser bastante enfática ao falar de algumas teorizações feministas. Ela defende que algumas críticas feministas tendem à homofobia, mas mais adiante dá para entender que, ou ela entendeu errado o que essas feministas escreveram, ou ela deliberadamente se recusa a se ater ao ponto central do que essas feministas dizem. Butler defende que é preciso ser livre ao se falar de gênero, mas ela mesma diz o assunto não deveria ser tratado da forma como essas feministas o fazem. Ela inclusive usa a expressão “fundamentalismo da diferença sexual” (!). O problema é que ela não se dá ao trabalho de citar essas mulheres todas as vezes, e aí fica complicado saber exatamente do que ela está falando e o que exatamente ela está criticando.

Então, Butler vai falar da sua fundamentação teórica. Ela usa uma expressão que me fez parar para pensar no quanto eu era verde e absolutamente sem repertório algum quando entrei na academia: “Feminismo Francês”. Há algum tempo venho lendo vários livros mais ou menos ao mesmo tempo e, em um deles (Radically Speaking) há uma seção destinada a falar desse tal de Feminismo Francês e do pós-modernismo em geral: o que se costuma chamar de Feminismo Francês é um amálgama americano de alguns autores homens e mulheres que a) sequer são feministas ou têm qualquer relação com o feminismo, b) sequer “conversam” entre si, e, c) sequer são lidos e usados na teoria francesa feminista. A própria Butler vai reconhecer isso, dizendo que assim se corre o risco de ser franco-eurocêntrica, mas que na verdade isso pode ser tomado, segundo ela, como uma americanização da França, uma apropriação subversiva [3].

Ela vai assumir que vai fazer uma reformulação do feminismo dentro dos moldes pós-estruturalistas — feminismo este que ela nunca vai definir ou delimitar, ou seja… —, mas se justifica dizendo que o pós-estruturalismo não é mais formalista porque a teoria crítica rompeu com os estudos culturais, mas que isso ainda não é o suficiente pra dizer que se tratam de escolas diferentes [4]. Como, segundo ela, se apoiar na História não torna uma teoria generalizável, ela vai se apoiar em quê? Isso mesmo, nessa salada de autores franceses: Lacan, Foucault, Lévi-Strauss, Julia Kristeva, e Monique Wittig, principalmente.

Judith Butler vai partir, então, de taras e subversões sexuais para fazer a teoria dela, e não da existência material das mulheres — que foi o que de fato revolucionou os estudos das mulheres nos anos 1970, deu base e fundamento para se montar uma plataforma política de luta, e ajudou a estabelecer as prioridades nessa luta, coisa que, se for ver, hoje se perdeu muito por causa dessas contribuições que teóricos como a Butler deram. Ela cita, então, aquele artigo famoso da Gayle Rubin como ponto de partida. Veja bem: o artigo trata de tráfico de mulheres de um ponto de vista antropológico (isso está no título dele e do livro onde ele se encontra, caso não tenha ficado claro). Ou seja, “práticas sexuais”, nesse contexto, é tráfico e exploração sexual de mulheres! [5]

Aí ela vai falar de como algumas pessoas “expressam gênero” de forma diferentes, questionando, inclusive, “Quando e por quê […] algumas lésbicas butch quando têm filhos, se transformam em ‘pais’ e outras se transformam em ‘mães’?”. Ela acha um paradoxo uma mulher se masculinizar em busca de um status social mais elevado. Já eu acho bastante compreensível [6].

Butler cita Catherine MacKinnon para dizer que as diferenças sociais entre os sexos [ou seja, o gênero] são o que provocam as desigualdades entre os sexos. Esse texto é de 1987 (Feminism Unmodified), e eu mesma o cito em minha dissertação, tanto que o reconheci imediatamente quando li a versão parafraseada de Butler, e sei dizer até mesmo em que página ele se encontra. A MacKinnon trata de gênero como uma forma de hierarquizar as pessoas socialmente a partir de seu sexo, e o que ela está querendo dizer aí é que “a diferenças que atribuímos aos sexos são linhas desenhadas pela desigualdade” (p. 8): as diferenças biológicas não explicam a opressão das mulheres, porque sua opressão não é porque elas são inferiores, mas sua inferioridade é um efeito posterior de uma divisão social que as coloca para baixo na hierarquia.

Butler, por sua vez, vai pegar esse texto para dizer que MacKinnon comete uma tautologia: segundo Butler, o que MacKinnon quis dizer é que o gênero produz o gênero! Ela basicamente iguala sexo a gênero, sendo que — pelo amor da deusa! — a MacKinnon nunca fez isso; o que ela fez foi usar gênero em uma relação de correspondência ao sexo, que é basicamente a forma como a Gayle Rubin propôs a coisa toda quando formulou o sistema sexo/gênero.

É aqui que a coisa toda fica mais clara, e que a gente vai se dar conta de como é que a Judith Butler vai encarar a situação das mulheres na sociedade: ela já parte do pressuposto de que gênero é identidade. O fato de as divisões gendradas existirem, para ela, não significa que gênero seja necessariamente algo hierárquico, porque ela vai pegar o gênero — um conceito usado no feminismo para descrever e desnaturalizar a opressão das mulheres; eu falo um pouco disso neste texto aqui — e vai separá-lo do que ela chama de “discriminação sexual”. Para ela, hierarquia de gênero é basicamente fiscalização de cu [7], e não, como disseram as feministas, uma estrutura social organizada.

A expressão “discriminação sexual” é reveladora aqui, porque mostra que a autora não acredita em opressão/exploração estrutural das mulheres [vide nota 5]. Para a Butler, o machismo é apenas mais um preconceito bobo que existe só na esfera cultural da sociedade, que não tem uma origem, uma história ou um porquê. Ela afirma que não é o fato de marcarem as mulheres numa casta separada/gendrada que as coloca em sujeição aos homens [8], e que por isso não dá pra assumir que gênero é necessariamente hierárquico e, portanto, necessariamente opressivo, porque segundo ela “a performance de subversão de gênero não dá nenhum indício a respeito da sexualidade ou da prática sexual”; de acordo com a Butler, esse é o motivo de porque o argumento da MacKinnon é homofóbico (!).

Butler então vai dizer que tirou sua idéia de performatividade do Derrida, e vai dizer, citando Derrida citando Kafka, que esperar que uma “lei de gênero” funcione acaba produzindo a lei de gênero, numa espécie de self fulfilling profecy: gênero seria performativo no sentido de que a tal essência do gênero é fabricada através de atos gendrados que estilizam o corpo. Ou seja, ela diz que é no fazer que o gênero é feito. Como ela não se apóia na história, ela tá basicamente cometendo a tautologia que lá atrás ela acusou a MacKinnon de fazer! Que é no fazer que o gênero é feito é óbvio, qualquer coisa é feita no fazer [9]. Mas é preciso saber como isso é feito, e pra isso é preciso historicizar a parada. Mas ela escolheu justamente não fazer isso, então…

Ela fala que esse livro não é fruto somente dos estudos acadêmicos dela, mas de sua militância na Costa Leste. Ela diz que foi “em vários encontros, bares e marchas” e que viu “muitos tipos de gênero”. Ela parece buscar legitimizar seu texto falando em militância presencial talvez por causa do seu caráter completamente teórico, mas a mim pareceu como se eu dissesse “vivo dando rolê na Trajano e na São Francisco, sou muito militante, acreditem em mim!” Ela não descreve em nenhum momento o caráter dessa militância. Faz sentido, feminismo virou rolê, né?

Mas divago. Voltando para o texto, Butler dedica um bom pedaço desse prefácio às críticas ao seu estilo de escrita. Segundo ela, não é que ela escreva mal, são as pessoas que subestimam o público. Ela diz que “aprender as regras que governam o discurso inteligível é uma inculcação à linguagem normalizada” e que (se eu entendi e consegui traduzir de forma satisfatória) “os que não se conformam pagam o preço de uma perda para a própria inteligibilidade”. Ela diz que contestar a gramática faz parte de contestar o gênero propriamente dito. Mais adiante: “O que está escondido por trás da insistência em modelos paroquiais de transparência como requisito para todas as comunicações? O que a ‘transparência’ esconde?” A impressão que deu é que ela ficou ofendidíssima com as críticas e está realmente dizendo que a gramática é malvada, tudo isso pra se defender de quem disse que ela escreve mal. Só posso concluir que ela escreve mal de maneira deliberada porque acha chique.

Então, ela fala um pouco sobre o preconceito que sofreu por ser lésbica. Ela não atribui a lesbofobia sofrida ao fato de ser mulher, pelo contrário: ela vai desvincular completamente a sexualidade dela do fato de ser mulher. O que é bem contraditório. Me pareceu aquela coisa do “Não sou uma mulher como as outras” [vide nota 6]. Ela não se vincula às mulheres como sendo parte de uma classe porque isso seria admitir que se está numa posição subalterna na sociedade; isso pra galera liberal é um pecado (“Onde já se viu? Eu, uma mulher sofrida? Não! Eu tenho agência!”).

Butler diz que a premissa do texto dela não é apontar a nenhum feminismo específico [vide nota 1], porque aparentemente usar uma visão feminista para falar de feminismo é normativo demais. Isso talvez explique a ânsia dela de se desvincular de qualquer coisa que a coloque na mesma categoria que as mulheres. Para ela, do drag à transexualidade, é impossível determinar se alguém é homem ou mulher, porque usar vestimenta ou anatomia como critério não dá a ninguém certeza nenhuma [10]. “Quando se questiona tais categorias a realidade do gênero também entra em crise: se torna incerto como se distingue o real do irreal”. O que se tem como real, para ela, “invoca o conhecimento naturalizado do que gênero é”. Ela diz que a missão do livro é “insistir na extensão da legitimidade de corpos que têm sido tomados como falsos, irreais e ininteligíveis”.

Ela continua dizendo que reconsiderou e estendeu alguns pontos do que escreve em Gender Trouble em obras posteriores. Por exemplo, ela diz que algumas pessoas interpretam o modo como ela fala de gênero como sendo algo inventado na cabeça das pessoas, ou algo superficial. Ela justifica essas interpretações como sendo fruto de limitações da linguagem, que a impediram de ser clara o suficiente, porque “o discurso não pertence exclusivamente nem à representação corpórea nem à linguagem” [11]. Diz então que, se fosse reescrever o livro, incluiria discussões a respeito da transgenereidade, da intersexualidade, da sexualidade racializada (tabus contra miscigenação, sexo interracial etc).

Butler encerra o prefácio dizendo que acha muito precipitado reduzir poder à hierarquia, e que isso seria recusar suas dimensões políticas positivas, porque não existiria, segundo ela — e aqui acho que ela faz alusão à Foucault —, posição política sem poder. Eu, pessoalmente, acho que essa é que é uma visão reducionista: só alguém em coma seria vítima por direito (!).

Prefácio (1990)

Aí vamos então ao segundo prefácio, o prefácio original do livro, publicado em 1990. Ela começa dizendo os debates da época acerca da definição do que era gênero eram tão bizarros que não definir gênero parecia que poderia “eventualmente culminar no fracasso do feminismo”. Então ela vai falar de trouble: as normas são um problema, e se rebelar contra elas também causa problemas para o rebelde; já que esses problemas são inevitáveis, ela propõe que o jeito é arranjar a melhor forma de se estar “in trouble” [12].

Depois ela cita Beauvoir para dizer que ser mulher numa cultura masculinista é ser um mistério para os homens. Butler diz que Sartre confirma isso falando que todo desejo é masculino e heterossexual, logo trouble. E se uma mulher, objeto desse desejo, responde ou contesta a autoridade masculina, ela também tá encrencada.

Aí ela vai afirmar que uma vez que o “Outro” fêmea é dependente do macho nessa relação masculinista, a autonomia dela é ilusória, e que é dessa relação de poderes que se vai construir o binário “homem/mulher”, e que tal binário consequentemente se conforma à matriz heterossexual. Então, questiona: “Qual a melhor forma de perturbar as categorias que sustentam a hierarquia de gênero e a heterossexualidade compulsória?”

Então ela vai dizer que o “gênero é um tipo de personificação que passa por real”, e pergunta se o drag, em sua performance, imita o gênero ou “dramatiza os significantes pelos quais o gênero é estabelecido?”. Essa parte é bem interessante porque mostra duas coisas: que o gênero, como teorizado anteriormente pelas feministas dos anos 1970, é uma coisa artificial “que passa por real”, ou seja, sustenta a tese do domínio masculino de que se as mulheres parecem fracas com essas coisas delicadas e saltos altos que usam, então elas são de fato fracas e acabam ficando fracas de fato por internalizarem essas coisas; e que essas “personificações temporárias” do estereótipo feminino, ao mesmo tempo em que faz uso de significantes que não representam a “realidade” da mulher, mas algo que “passa por real”, acabam fazendo uma representação fajuta do real e do que se tem por real. Ou, pra tentar deixar mais claro onde eu quero chegar: esses estereótipos fazem uma imitação da imitação even better than the real thing, mas não chegam a sequer se aproximar minimamente da coisa em si, porque é uma ficção em cima de outra! Porém, a Butler não vai se alongar muito sobre isso aqui — acredito que ela o faça no último capítulo do livro —, e vai se perguntar se ser fêmea é um fato natural ou se sua natureza é construída discursiva e performativamente [13].

Ela explica então que vai usar a genealogia de Foucault/Nietzche para analizar sexo, gênero e desejo como efeitos de uma relação de poder. Segundo ela, esse método se recusa a buscar nas origens dessas coisas seus motivos e meios de funcionamento, porque tá mais preocupada com os efeitos dessas instituições/práticas/discursos, porque segundo ela, eles têm origens muito diversas. Fiquei me perguntando como se faz uma pesquisa dessas sem situar as coisas historicamente, porque a mim me parece impossível, mas vamos lá.

Butler parte do falogocentrismo e da heterossexualidade compulsória, e vai dizer que até mesmo a noção de “fêmea” é problemática. Segundo ela, “fêmea” e “mulher” não têm mais significados estáveis porque são termos relacionais, que só têm significado em relação a outros termos. Ela faz alguns questionamentos que tive que ler umas quinze vezes para entender, mas que dizem basicamente que afirmar que as mulheres têm alguma coisa em comum que as une enquanto classe é limitante. Uma vez que ela não acredita em opressão estrutural e que tudo não passa de uma “discriminação sexual” boba, e não está preocupada com história, origens, desenvolvimentos, e estratégias de ação baseadas nessa realidade de classe, ela provavelmente não espera que as mulheres se unam e lutem juntas por uma causa comum. A questão, pra ela, é individual.

Então ela vai fazer uma apresentação das três partes do livro: no primeiro capítulo, ela vai “reconsiderar o status de ‘mulheres’ enquanto sujeitos do feminismo e a distinção sexo/gênero”, porque segundo ela, sexo é uma “construção fictícia” que “sustenta esses vários regimes de poder”; no segundo, ela vai pegar estruturalismo, psicanálise e estudos feministas acerca do tabu do incesto para mostrar como as categorias discretas de gênero são reforçadas (o famoso “binarismo”); e, finalmente, no terceiro, ela vai usar a Kristeva para mostrar “normas implícitas que governam a inteligibilidade cultural do sexo e da sexualidade”. Ela diz que o livro foi construído pra facilitar convergência do feminismo, do pós-estruturalismo e das perspectivas de gênero gays e lésbicas, e diz que gênero é interdisciplinar demais pra ficar confinado aos estudos de gênero ou estudos das mulheres. Butler afirma que quer radicalizar a crítica feminista [14].

Ela encerra agradecendo os financiamentos aos seus estudos, e falando dos seminários e orientações que recebeu de gente muito fora da casinha durante o doutorado. Os três nomes que conheço da lista: Joan Scott, Donna Haraway (doida) e Linda Nicholson (acha que se você criar seu filho direitinho, ele pode passar pelas mesmíssimas experiências de uma menina [15]).

Enfim, é isso. Vamos ver se dessa vez vou aguentar ler esse delírio todo até o fim.


Notas

[1] Apesar disso, ela não define, até o momento, o que ela tem por feminismo, então fica bastante confuso saber a que ela se refere quando usa esse termo, e até mesmo quais os posicionamentos políticos dela em relação ao feminismo. Os posicionamentos políticos dela, independentemente do que ela considera feminista, ficam bastante claros só de ler esse prefácio, mas é bem complicado chamar isso de feminismo.

[2] Um amigo fez um comentário bastante pertinente no Twitter: “clássico pensamento neoliberal norte-americano, achar que liberdade é ter várias opções de consumo”. Se for pensar em toda a indústria que está por trás da manutenção dessas “categorias de gênero”, faz muito sentido. Vide o que Janice Raymond (1979) chama de “império transexual“, e todo o dinheiro que se movimenta na manutenção de um ideal de beleza feminino.

[3] Eu quase cochilei quando li isso.

[4] Confesso que sei bem marromeno o que todas essas coisas significam, mas deixei essa parte aí caso algum leitor saiba melhor que eu e queira dar umas diquinhas nos comentários. Eu devia ter prestado mais atenção nas aulas de “Fundamentos em Interação”, mas tergiverso.

[5] O jeito que a Butler escreve leva a crer que ela não acredita que as mulheres sejam exploradas, oprimidas, e parte de uma casta inferior na sociedade. Isso vai ficar muito claro mais adiante no texto, porque a autora é culturalista e não materialista: pra ela, as mulheres sofrem, sim, mas apenas porque são diferentes. Para mim isso deixa bastante claro que o tal feminismo da Butler é puramente nominal, porque ela não parece se importar nem um pouco com mulheres e sua situação enquanto mulheres.

[6] A velha história do “ah, você não é como as outras” é uma estratégia de sobrevivência, e uma forma de se masculinizar dentro da própria feminilidade. É uma forma de fugir da feminilidade aprovada pelos homens e, portanto, com menos chances de a mulher em questão sair perdendo individualmente (mas ela pode sair perdendo no contexto geral, ou mais adiante): se sua estratégia é não entrar em confronto direto com os detentores do poder — ou seja, os homens — você vai acabar usando ferramentas do próprio patriarcado para tentar se libertar dele individualmente. Essa libertação individual é uma característica bem marcante do feminismo liberal, e explica porque ele se deu tão bem com a teoria queer.

[7] Os leitores que me desculpem, mas não encontrei expressão mais apropriada.

[8] De fato não é a separação propriamente dita que oprime as mulheres. Essa separação, no entanto, foi necessária para que um sistema de opressão e exploração pudesse funcionar de forma mais eficiente e surgiu junto com ele. Mas vai explicar isso pra quem não gosta de estudar história?

[9] Doh!

[10] Eu tenho alguns critérios para saber se alguém é homem ou mulher. Um deles é se a pessoa me ameaça com estupro.

[11] Tudo é muito ambíguo, nada é real, não se pode ter certeza de nada, a linguagem não ajuda, tudo é ilusão… Que cômoda e muito boa forma ela encontrou de justificar a própria incompetência!

[12] Não dá pra lutar contra o sistema, então conforme-se de outra forma.

[13] Me pergunto se essa mulher nunca sofreu de cólicas menstruais na vida…

[14] Tadinha…

[15] Sério.

Breve história do Gênero

Olá, meu nome é Fabiane, e vou guiá-la/o agora através de uma curta mas informativa jornada sobre a origem e os usos do termo “gênero”. Tentei ser o mais clara e o menos acadêmica possível, mas se dúvidas surgirem é só usar os comentários. 🙂

A palavra “gênero”, originalmente, designa um sistema de classificação nominal das línguas, que atua sobre substantivos, adjetivos etc, e é mais ou menos arbitrário. Em geral ele se relaciona ao sexo biológico, mas isso não necessariamente acontece em todos os idiomas. Nos idiomas indoeuropeus há essa relação com o sexo biológico, e geralmente existem três gêneros: masculino, feminino e neutro. Em português, o gênero neutro também existe, e é flexionado no masculino. Isso é tema para outro texto — e definitivamente não é o maior dos nosso problemas.

Por em geral se relacionar ao sexo dos indivíduos aos quais se refere em determinado idioma, o termo foi emprestado da linguística para a medicina por John Money, que passou a utilizá-lo entre os anos 1950 e 1960, também arbitrariamente, para diferenciar aspectos sócio-culturais de comportamento entre homens e mulheres. Ele defendia que tais comportamentos — surgidos, propagados e reforçados no interior da cultura — eram inatos: ou seja, mulheres e homens agem de tal e tal forma pois são “programados” para agir assim. Money também fez experimentos eticamente duvidosos em crianças, intersexuais e homossexuais, pois para ele quem não se conformava ao seu “gênero” só podia ser doente e necessitado de tratamento*. Se o termo “cura gay” passou pela sua cabeça neste momento, não é por acaso.

Na teoria feminista, o termo “gênero” foi popularizado pela antropóloga Gayle Rubin em 1975 no artigo “The Traffic in Women: Notes on the ‘Political Economy’ of Sex” [em português, “O trafico de mulheres: notas sobre a ‘economia política’ do sexo”]. O artigo é muito bem estruturado e o argumento de Rubin, muito bem desenvolvido. Mas tudo o que ela escreveu neste ensaio poderia ter sido escrito sem o termo “gênero” como mediador, porque só descreve a velha relação de exploração que tem como base o sexo biológico, infligida às mulheres pelos homens. Resumindo: “gênero” é um eufemismo que esconde a dinâmica dessa relação. E não que eu queira envenenar o poço, mas quase dez anos mais tarde, Gayle Rubin escreveu um artigo onde advoga abertura para se lidar e pensar o que ela chama de “cross-generational encounters“**. Sim, é exatamente isso que você está pensando.

Por causa desse artigo divisor de águas na história da teoria feminista, o termo “gênero” passou a ser utilizado largamente*** e, desde então, já sofreu modificações bastante drásticas em seu conceito e significado. Hoje se diz nos círculos acadêmicos que gênero é uma identificação com os signos usados socialmente para demarcar os territórios masculinos e femininos, e diferenciar homens e mulheres — saltos para restringir nossos movimentos, maquiagem como forma de dizer que o que importa é nossa aparência e que nunca seremos boas o suficiente nem nisso, implicações a respeito de uma suposta inferioridade intelectual das mulheres em relação aos homens como desculpa para nos manter longe da educação formal… a lista é imensa —, e que o ser mulher ou homem não é uma característica dada**** e independente de vontade individual, como o é a cor da pele ou a nacionalidade, mas uma identidade. É quase como dizer que os escravos romanos se identificavam com seus grilhões e gostavam muito de usá-los. Quase.

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Com essa breve história do gênero, eu queria apenas esclarecer e pedir encarecidamente a todas e todos que fazem uso desse conceito para que, se o forem utilizar, não o façam desinformados. E lembrar que não precisamos dele para teorizar sobre o patriarcado.


*Na mesma época em que foi feita a primeira cirurgia transsexualizante, Alan Turing foi condenado a tomar os mesmos hormônios utilizados no tratamento de mudança de sexo para que abandonasse a homossexualidade. Tendo estudado esse assunto à fundo, eu não acredito que isso seja mera coincidência.

**”[…] cross-generational encounters are still viewed as unmodulated horrors incapable of involving affection, love, free choice, kindness, or transcendence.” (RUBIN, 1984. p. 153)

***Já em 1975, quando “gênero” ainda não era popular e Gayle Rubin estava rascunhando sua obra mais famosa, uma publicação feminista fez uma crítica e um apelo para que se parasse de usar o eufemismo “sex role” em artigos feministas.

****Existe toda uma discussão a respeito da construção social da sexualidade, e eu não de todo discordo dela. Não vou abordá-la aqui para não me estender muito, mas deixo alguns exemplos: nós construímos nossos hábitos sexuais socialmente quando tomamos pílula e quando, enquanto sociedade, condenamos a promiscuidade nas mulheres. Isso não significa, porém, que machos e fêmeas deixam de existir. Pelo contrário: as relações humanas são bastante marcadas por essa característica biológica.