Sobre o “politicamente correto”

Estava lendo o blog da @fatimatardelli e em seu post mais recente, ela destrincha quatro temas que acha pertinente ensinar sua filha a respeito quando ela for maior, mas eu, que sou chata e sempre tenho que discordar de alguma coisa, fui lá comentar. Por causa de uma preferência habilitada no Askmet, meu comentário foi barrado. Segue abaixo:

Não sei se o politicamente correto é assim tão ruim. Claro que a deputada processar Luiz Caldas por uma letra escrita nos anos 80 é meio descabido. A época era outra, os costumes e zeitgeist cultural, igualmente outros. Seria passível de punição se hoje, quase 30 anos depois, ele fizesse uma música dessas. Não sei, pra falar a verdade. Mas explico.

Quanto à suposta “modificação” das obras de Machado e Lobato, há um porém que ninguém nunca cita: a primeira vez que li “Os Miseráveis”, foi uma versão adaptada para crianças que tinha 200 páginas. Versões adaptadas de obras sempre existiram às pencas, mas isso não impede que você vá lá e pegue a versão original e leia, porque a versão original não vai deixar de existir por causa da versão adaptada.

Agora, pára e pensa: uma criança negra vai na biblioteca da escola, pega um livro do Lobato (dito o “melhor escritor da literatura infantil brasileira”) e lê que a Tia Nastácia, apesar de ser amada e querida por todos, é constantemente chamada de “preta fedida”, “macaca”, e outros apelidos assim não tão carinhosos. O que acontece com a auto-estima dessa criança? Que valores essa criança vai internalizar a respeito de si própria? Eu aprendi, a duras penas, que uma auto-estima estraçalhada literalmente impede a pessoa de viver. Eu nem sei o que é ter alguma auto-estima, e olha que apesar de ser loira branca de olho verde, eu sempre passei apertos por não ser bonita, ou “fora do padrão” – que é um eufemismo pra meninas feias. E uma criança negra que cresce achando que o cabelo dela é feio, que a cor da pele dela não é desejável, e que é natural que os homens prefiram as mulheres brancas loiras de olhos azuis? É claro que isso está certo, oras! É claro que é assim! Ela leu isso, aos dez anos de idade, na obra do melhor escritor infantil de língua portuguesa! Se pá, nem além-mar os portugueses têm um cara tão supimpa na área quanto a gente. E ele deve estar certo.

Lobato é de uma época em que negros nem sabiam ler. Lobato não escreveu para negros. Todo mundo que importa, na obra do Lobato é branquinho de nariz arrebitado. Naquela época, era completamente aceitável chamar negros de “pretos fedidos”. Hoje não, nosso zeitgeist é outro. Nosso zeitgeist, ainda que permita que gays apanhem de lâmpada na rua, não permite mais que se fale contra negros sem punição. Ainda bem. Acho completamente aceitável uma adaptação nas obras do Lobato; Mark Twain (que eu também adoro) passou pelo mesmo nos EUA. Crianças pequenas, com personalidade em formação, não precisam saber que, no passado, negros não eram tratados como gente.

Eu acho que o politicamente correto não é ruim quando ele protege a auto-estima das crianças (e de quem for).

One thought on “Sobre o “politicamente correto”

  1. Fabi, sinceramente não sei porque o comentário foi barrado, vou ter de pedir ao @Lealcy para verificar. Tomei a liberdade de colar o seu comentário lá, se você preferir que eu retire, retirarei.

    Quanto ao que você disse, eu realmente não havia pensado sob esse prisma e agora, depois de ler seu comentário, achei que deveria mudar de idéia no caso de livros adaptados PARA CRIANÇAS.

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