{"id":158,"date":"2015-05-22T18:44:20","date_gmt":"2015-05-22T21:44:20","guid":{"rendered":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/?p=158"},"modified":"2015-05-23T12:14:08","modified_gmt":"2015-05-23T15:14:08","slug":"all-your-base-are-belong-to-us","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/all-your-base-are-belong-to-us\/","title":{"rendered":"All your base are belong to us"},"content":{"rendered":"<p>Agora que o perigo parece ter passado, posso contar essa hist\u00f3ria para voc\u00eas. \u00c9 sobre a internet.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Los Alguiens - El Internet (ORIGINAL VERSION)\" width=\"640\" height=\"360\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/LybAHotsvOg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>A internet antigamente era de acesso bem restrito. Antes dos civis poderem usar, e por um pre\u00e7o muito proibitivo para a maioria das pessoas, s\u00f3 o ex\u00e9rcito e as universidades tinham acesso. A maioria das pessoas acessava s\u00f3 ap\u00f3s a meia-noite e em fins de semana, porque o acesso era via telefone e o pulso era \u00fanico. A conta ficava mais barata assim, e tudo era muito, muito limitado. Com a tecnologia atual, a gente assiste filme pela internet, uma coisa literalmente imposs\u00edvel de se fazer com internet discada. A Fabiane de 2000 teria ficado maravilhada com coisas como Netflix e Spotify; a Fabiane de hoje fica muito brava quando o Netflix engasga, esquecendo completamente do estado das coisas quando as conheceu. A internet era uma merda, mas era fascinante.<\/p>\n<p>Uma coisa que n\u00e3o havia na internet era indexa\u00e7\u00e3o. Isso deixava toda a rede \u00e0s escuras, como \u00e9 hoje a Deepweb. Voc\u00ea s\u00f3 conseguia acessar um site se tivesse posse de uma informa\u00e7\u00e3o fundamental: seu endere\u00e7o*. Por causa dessa defici\u00eancia, come\u00e7ou-se a publicar \u00edndices impressos em papel. Assim, voc\u00ea teria visitas em seu site se tivesse acesso a essa parte do mundo material. Os agregadores de links eram o mais pr\u00f3ximo que se tinha de indexa\u00e7\u00e3o na internet, funcionavam basicamente como esses livros e tamb\u00e9m tinham seus endere\u00e7os catalogados em m\u00eddia impressa se fossem populares o suficiente. Boa parte das empresas que faliram no estouro da Bolha no fim dos anos 1990 eram agregadores, sites que dividiam links em categorias e traziam uma breve descri\u00e7\u00e3o sobre eles. A empresa daquele cara que d\u00e1 palestra sobre desapego gerenciava um site assim, o <em>Sobre Sites<\/em>. Eu gostava do <em>Sobre Sites<\/em>.<\/p>\n<p>Os blogs s\u00e3o descendentes diretos desses agregadores. O formato original do blog \u00e9 o de agregador de links; a diferen\u00e7a que o blog estabeleceu entre si e o agregador de links era a de que suas entradas eram registradas de forma organizada (e automatizada) por data. Antes disso, os <i>webmasters<\/i> apenas anotavam manualmente a data da \u00faltima atualiza\u00e7\u00e3o do site no rodap\u00e9. Agora era poss\u00edvel navegar pelo arquivo e revirar a hist\u00f3ria de uma p\u00e1gina espec\u00edfica de forma ordenada. Essa caracter\u00edstica cronol\u00f3gica aproximava esse formato intern\u00e9tico do log. Log, na computa\u00e7\u00e3o, geralmente \u00e9 um arquivo em texto puro que registra o que est\u00e1 havendo no sistema em um determinado momento, anotando data e fato. Um di\u00e1rio de bordo autom\u00e1tico. A diferen\u00e7a do log para o blog \u00e9 que o blog n\u00e3o \u00e9 feito por um rob\u00f4, mas por uma ou mais pessoas.<\/p>\n<p>Importante notar que o blog n\u00e3o \u00e9 nem um agregador, nem um log, apesar de todas as suas semelhan\u00e7as. \u00c9 uma coisa totalmente diferente desses dois, porque \u00e9 filha sua: um am\u00e1lgama**.<\/p>\n<p>O conte\u00fado dessas e de outras m\u00eddias passou a ser cada vez maior nominalmente, mas havia muita c\u00f3pia, muita informa\u00e7\u00e3o redundante. Quem se destacava n\u00e3o necessariamente era quem tinha o melhor conte\u00fado, mas quem melhor conseguia chama a aten\u00e7\u00e3o dentro e fora da rede. Alguns kibadores*** realmente fizeram e fazem sucesso com conte\u00fados que n\u00e3o s\u00e3o seus. E muita gente tamb\u00e9m atingia notoriedade <i>anonimamente<\/i>, ghost writers n\u00e3o oficiais de escritores como Arnaldo Jabor, Lu\u00eds Fernando Ver\u00edssimo e Clarice Lispector. N\u00e3o se sabe de quem s\u00e3o os textos atribu\u00eddos a estes escritores ou por que motivo foram atribu\u00eddos erroneamente. Duas maneiras de fazer sucesso, de qualquer modo.<\/p>\n<p>Uma vez que esse conte\u00fado acumulado vai ficando exponencialmente maior, mais irrelevante e caindo cada vez mais no olvido, h\u00e1 muito lixo. Muito, muito lixo! Muita coisa j\u00e1 saiu do ar ou foi substitu\u00edda, muita coisa ainda pode ser redescoberta. Muito conte\u00fado que j\u00e1 se julgava completamente perdido e esquecido pode voltar \u00e0 tona, como aquele beirute suspeito que voc\u00ea jantou ontem e jurava que j\u00e1 tinha digerido. <\/p>\n<p>Contei pra voc\u00eas a hist\u00f3ria da internet para dizer apenas uma coisa: nunca me senti t\u00e3o feliz de ter apagado \u2014 acredito que dessa vez em definitivo \u2014 conte\u00fado que eu mesma criei e compartilhei de livre e espont\u00e2nea vontade anos atr\u00e1s, e jurava que j\u00e1 n\u00e3o existia mais.<\/p>\n<hr\/>\n<p><small>*Isso d\u00e1 abertura para uma s\u00e9rie de teoriza\u00e7\u00f5es semi\u00f3ticas, mas acredito que n\u00e3o tenho compet\u00eancia suficiente para falar disso agora, e nem quero.<\/p>\n<p>**Por todas as suas caracter\u00edsticas, o blog ficou conhecido na cultura popular \u2014 isto \u00e9, <i>off line<\/i> \u2014 pelo nome de &#8220;di\u00e1rio virtual&#8221;. Muita gente tentou se desvencilhar dessa associa\u00e7\u00e3o, mas a rigor \u00e9 exatamente isso que um blog \u00e9. N\u00e3o importa o que voc\u00ea registra l\u00e1, o que importa \u00e9 que o fa\u00e7a de maneira cronol\u00f3gica, e seja uma pessoa escrevendo.<\/p>\n<p>***<i>Kibe<\/i>, um dos mais populares neologismos da internet do Brasil. Significa copiar sem autoriza\u00e7\u00e3o, e faz refer\u00eancia ao publicit\u00e1rio Antonio Tabet (Kibeloco), hoje parte do elenco do grupo Porta dos Fundos.<\/small><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agora que o perigo parece ter passado, posso contar essa hist\u00f3ria para voc\u00eas. \u00c9 sobre a internet. A internet antigamente era de acesso bem restrito. Antes dos civis poderem usar, e por um pre\u00e7o muito proibitivo para a maioria das pessoas, s\u00f3 o ex\u00e9rcito e as universidades tinham acesso. 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