{"id":418,"date":"2017-03-12T21:52:17","date_gmt":"2017-03-13T00:52:17","guid":{"rendered":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/?p=418"},"modified":"2017-03-12T21:52:17","modified_gmt":"2017-03-13T00:52:17","slug":"resenha-mad-men","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/resenha-mad-men\/","title":{"rendered":"Resenha: Mad Men"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-content\/uploads\/madmen.png\" alt=\"Mad Men\" width=\"100%\" class=\"aligncenter\" \/><\/p>\n<p>Foi dific\u00edl terminar <em>Mad Men<\/em>, mas eu sabia que evetualmente acabaria acontecendo. Tenho postergado esse evento o m\u00e1ximo poss\u00edvel: desde 2013, quando comecei a ver a s\u00e9rie, tenho tentado prolongar o ato de assisti-la o m\u00e1ximo poss\u00edvel. Pense, como no famoso slogan publicit\u00e1rio de uma famosa marca de cigarros cujo nome agora n\u00e3o me recordo, que assistir a s\u00e9rie de Matthew Weiner era <em>um raro prazer<\/em>. Acompanhar uma s\u00e9rie \u00e9 um empreendimento custoso, demanda tempo e desgaste emocional, duas coisas que n\u00e3o tenho sobrando e que me sinto desperdi\u00e7ar quando gasto com produ\u00e7\u00f5es culturais medianas. E se h\u00e1 algo que <em>Mad Men<\/em> passa longe \u00e9 da mediocridade.<\/p>\n<p><em>Mad Men<\/em> tem o protagonista mais odioso de que tenho not\u00edcia. Seu charme n\u00e3o me atinge [1], mas atinge a todos que conhe\u00e7o que acompanharam a s\u00e9rie, sejam homens ou mulheres. Don Drapper \u00e9 o cara de passado sofrido e presente atribulado por sua incr\u00edvel capacidade de fazer bosta. Na minha humilde opini\u00e3o, ele \u00e9 apenas uma desculpa para a s\u00e9rie existir. Ainda assim, a trama revolve no entorno de seu personagem de forma \u00fanica. Ele pr\u00f3prio n\u00e3o \u00e9 raso \u2014 ser odioso nunca impediu um personagem de ser interessante, afinal \u2014 e, ainda que seja uma m\u00e1quina de fazer merda, \u00e9 capaz de alguns atos nobres, que por vezes chegam tarde demais. Os defeitos de car\u00e1ter de Don, no entanto, nos colocam diante dos nossos pr\u00f3prios. Don frequentemente se sabota no que diz respeito a <em>timing<\/em>: ele faz coisas imbecis em horas inapropriadas e \u00e9 t\u00e3o autocentrado que esquece que as rela\u00e7\u00f5es \u00e0 sua volta podem se deteriorar a ponto de o perd\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o ser mais poss\u00edvel. Mesmo porque &#8220;perd\u00e3o&#8221; para ele consiste em uma indulg\u00eancia que o permite, t\u00e3o logo a poeira baixe, cometer os mesmos erros de sempre.<\/p>\n<p>Mas uma s\u00e9rie acontece para al\u00e9m de seus protagonistas, e \u00e9 quase um pecado considerar os personagens que existem na hist\u00f3ria de Don meros coadjuvantes. O percurso que a s\u00e9rie faz em suas trajet\u00f3rias ao longo de dez anos \u2014 sete, em termos de temporadas \u2014 \u00e9 progressivamente constru\u00eddo de forma coesa, mas imprevis\u00edvel [2]. Mesmo quando o p\u00fablico tem evid\u00eancias bastante expl\u00edcitas dos rumos de um personagem, \u00e9 poss\u00edvel se chocar e se surpreender quando a pista se torna fato. Exemplos s\u00e3o o suic\u00eddio de Lane Pryce e o crescimento exponencial da personagem de Elizabeth Moss, Peggy Olson \u2014 uma de minhas favoritas, principalmente por causa da identifica\u00e7\u00e3o quase imediata que tenho com ela.<\/p>\n<p>Assim que subiram os cr\u00e9ditos do d\u00e9cimo quarto epis\u00f3dio da s\u00e9tima temporada, tive dificuldade para entender que havia acabado. Veja, comecei a ver a s\u00e9rie em 2013, houveram alguns percal\u00e7os a\u00ed no que diz respeito ao meu compromisso comigo mesma de consumir produtos culturais, mas houve tamb\u00e9m um esfor\u00e7o deliberado de ir degustando tudo muito devagar. Eu teria terminado de ver tudo muito antes se o Netflix tivesse disponibilizado todos os epis\u00f3dios da \u00faltima temporada de uma s\u00f3 vez, mas a AMC s\u00f3 havia liberado os sete primeiros, sem previs\u00e3o alguma de quando chegariam os restantes. Uma amiga, que acompanhou a s\u00e9rie na mesma \u00e9poca que eu e quase na mesma velocidade, chegou a esse limite e foi ver os demais epis\u00f3dios de forma, digamos, <em>pouco oficial<\/em>. Eu resisti e fui cuidar da vida \u2014 e desde ent\u00e3o se passou algum tempo, pelo menos um ano. Quado retornei \u2014 e isso j\u00e1 era 2016, tempo consider\u00e1vel depois que a AMC j\u00e1 havia largado tudo no cat\u00e1logo do Netflix \u2014, decidi que precisaria de mais contexto para entender a trama, e resolvi assistir tudo de novo. E entre frui\u00e7\u00e3o irregular espor\u00e1dica intercalada com outras s\u00e9ries que foram entrando na fila, levei quase um ano para (re)ver tudo. Foi a melhor coisa que eu poderia ter feito.<\/p>\n<p>Por tudo o que \u00e9 e significa, por sua profundidade narrativa que eu, espectadora pouco dedicada de produ\u00e7\u00f5es audiovisuais em geral, e por fazer um retrato t\u00e3o impactante de uma era, lugar e contexto hist\u00f3rico t\u00e3o espec\u00edficos, <em>Mad Men<\/em> \u00e9, de longe, a melhor s\u00e9rie que j\u00e1 assisti em todos os meus quase trinta anos de vida, e duvido muito que possa ser superada. Pretendo assistir outras obras dos mesmos criadores, roteiristas, produtores, diretores e atores em busca do mesmo tipo de riqueza que \u00e9 poss\u00edvel encontrar aqui. N\u00e3o sou uma pessoa de eleger favoritos \u2014 n\u00e3o tenho livros, bandas ou filmes favoritos, apenas uma lista de refer\u00eancias que me marcaram e fazem parte do meu repert\u00f3rio cultural \u2014, mas posso dizer que <em>Mad Men<\/em> ganhou meu cora\u00e7\u00e3o. &lt;3<\/p>\n<p>Finalizo essa resenha com uma cita\u00e7\u00e3o da <a href=\"http:\/\/birthmoviesdeath.com\/2015\/05\/18\/film-crit-hulk-smash-the-mad-men-finale-and-the-mantra-of-don-draper\">resenha do Film Crit Hulk<\/a>, livremente traduzida no bloco abaixo, e que tamb\u00e9m recomendo a leitura:<\/p>\n<blockquote>\n<p>A vida inteira de Don \u00e9 constru\u00edda ao redor da mentira. Ele faz parecer que a eleg\u00e2ncia \u00e9 f\u00e1cil. Ele consegue falar atrav\u00e9s do sil\u00eancio. Ele consegue manipular e ver as pessoas a partir do que falta a elas. Ele transborda carisma. Resumindo: Don Drapper \u00e9 a personifica\u00e7\u00e3o de tudo o que \u00e9 terr\u00edvel a respeito da Publicidade&#8230; Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. Afinal, mesmo que a exist\u00eancia de Don Drapper seja uma realidade c\u00ednica \u2014 seu mantra n\u00e3o \u00e9 sobre cinismo, \u00e9? Todo mundo pensou a respeito de porque Don \u00e9 bom em Publicidade, mas ningu\u00e9m realmente se perguntou porque ela \u00e9 t\u00e3o importante para ele. Por que ele \u00e9 t\u00e3o estranhamente apaixonado por ela? Por que ele consegue fazer as pessoas chorarem? S\u00e9rio, por que Publicidade? [&#8230;]<\/p>\n<p>A raz\u00e3o porque Don Drapper \u00e9 t\u00e3o bom em Publicidade \u00e9 porque ele precisa do que ela oferece mais do que qualquer um. E de fato, <em>ele tamb\u00e9m acredita nela<\/em> mais do que qualquer um.<\/p>\n<\/blockquote>\n<hr \/>\n<h4>Notas<\/h4>\n<p>[1] Me sinto insuficientemente heterossexual para isso.<\/p>\n<p>[2] <em>Mad Men<\/em> \u00e9 mestre na imprevisibilidade: nunca se sabe quando algu\u00e9m pode perder o p\u00e9 com um cortador de grama no alto de um edif\u00edcio em Manhattan.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi dific\u00edl terminar Mad Men, mas eu sabia que evetualmente acabaria acontecendo. Tenho postergado esse evento o m\u00e1ximo poss\u00edvel: desde 2013, quando comecei a ver a s\u00e9rie, tenho tentado prolongar o ato de assisti-la o m\u00e1ximo poss\u00edvel. 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