{"id":576,"date":"2019-05-27T17:08:50","date_gmt":"2019-05-27T20:08:50","guid":{"rendered":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/?p=576"},"modified":"2019-05-29T10:22:18","modified_gmt":"2019-05-29T13:22:18","slug":"da-elite-para-as-massas-ensino-publico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/da-elite-para-as-massas-ensino-publico\/","title":{"rendered":"Da elite para as massas: ascens\u00e3o e queda da valoriza\u00e7\u00e3o do ensino superior p\u00fablico"},"content":{"rendered":"\n<p>Movimentos sociais de todos os tipos t\u00eam ido \u00e0s ruas com alguns assuntos em comum. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um tema recorrente nesses movimentos, seja diretamente \u2014 a greve do dia 15 de maio foi pela educa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m foi por <em>trabalho<\/em> \u2014, seja indiretamente, como a do \u00faltimo domingo que, em Curitiba, culminou na remo\u00e7\u00e3o da faixa posta na frente do pr\u00e9dio hist\u00f3rico da UFPR.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\nhttps:\/\/www.youtube.com\/watch?v=K0OnzqvbIdg\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que a educa\u00e7\u00e3o superior \u2014 ou seja, a educa\u00e7\u00e3o de adultos mas, principalmente, de <em>jovens adultos<\/em> \u2014 est\u00e1 sob ataque no Brasil. Temos &#8220;doutores demais&#8221;, <a href=\"https:\/\/cartacampinas.com.br\/2019\/05\/xzx-o-brasil-nao-precisa-formar-mais-doutores-diz-ministro-de-bolsonaro\/\">segundo o ministro dos chocolatinhos<\/a>, e muitos acreditam, mesmo com <a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/grafico\/2016\/10\/28\/Ensino-superior-pelo-mundo-quem-se-forma-e-em-que-\u00e1rea\">tantas<\/a> <a href=\"https:\/\/cartacampinas.com.br\/2019\/05\/brasil-precisa-dobrar-numero-de-doutores-para-atingir-o-nivel-mais-baixo-dos-paises-desenvolvidos\/\">evid\u00eancias<\/a> em contr\u00e1rio. Essa tentativa de desmonte na educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica como um todo acontece agora porque recentemente se consolidou no Brasil o longo processo de transforma\u00e7\u00e3o da universidade de um ambiente <em>de elite<\/em> para uma universidade <em>de massas<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 um fen\u00f4meno que aconteceu na cultura universit\u00e1ria de muitos pa\u00edses do mundo, em alguns deles com mais pressa que em outros, mas que pode ser tra\u00e7ado com alguma profus\u00e3o de evid\u00eancias desde os anos 60 e 70, mesmo no Brasil. Ecos de uma s\u00e9rie de <em>reformas universit\u00e1rias<\/em> podem ser encontrados em muitos livros de autores da \u00e9poca, sobretudo obviamente os que tratam de educa\u00e7\u00e3o, e tr\u00eas deles me v\u00eam \u00e0 mente. Em <a href=\"https:\/\/www.dropbox.com\/s\/74ns31joj38aj8a\/alvaro%20vieira%20pinto%20-%20a%20questao%20da%20universidadePB.pdf?dl=0\"><em>A Quest\u00e3o da Universidade<\/em><\/a>, Vieira Pinto denuncia as formas que a universidade \u00e9 insidiosamente usada para a manuten\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o na sociedade brasileira no in\u00edcio dos anos 60 [1], poucos anos antes do golpe militar. Em sua teoriza\u00e7\u00e3o dos mecanismos de funcionamento do capital cultural em um artigo cuja refer\u00eancia agora me escapa, Bourdieu aponta um mercado <em>saturado<\/em> de diplomas que s\u00e3o, mais que um marco na vida do estudante, certificados de compet\u00eancia. J\u00e1 Umberto Eco, em seu famoso <em>Como Se Faz Uma Tese<\/em>, apresenta uma outra vis\u00e3o do mesmo contexto:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Mas a universidade italiana \u00e9, hoje, uma <em>universidade de massa<\/em>. A ela chegam estudantes de todas as classes, sa\u00eddas dos mais diversos tipos de cursos secund\u00e1rios, que \u00e0s vezes se matriculam em filosofia e letras cl\u00e1ssicas depois de haver cursado uma escola t\u00e9cnica, onde jamais estudaram grego ou mesmo latim. E, se \u00e9 verdade que o latim n\u00e3o tem qualquer serventia para um sem-n\u00famero de atividades, em compensa\u00e7\u00e3o ele vale muito para quem segue filosofia ou letras.<\/p><p>Em determinados cursos, inscrevem-se milhares de alunos. [\u2026] Muitos t\u00eam boa condi\u00e7\u00e3o, crescidos que foram numa fam\u00edlia culta, em contato com ambiente cultural estimulante, podendo permitir-se o luxo de viagens de estudo ou de frequentar festivais art\u00edsticos e teatrais, e mesmo visitar pa\u00edses estrangeiros. E h\u00e1 os outros. S\u00e3o estudantes que trabalham e passam o dia no cart\u00f3rio de uma cidadezinha de dez mil habitantes, onde s\u00f3 existem papelarias. Estudantes que, desiludidos da universidade, escolheram a atividade pol\u00edtica e buscam outro tipo de forma\u00e7\u00e3o mas que, cedo ou tarde, ter\u00e3o de submeter-se \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o da tese. Estudantes muito pobres que, tendo de escolher um exame, calculam o custo dos v\u00e1rios testes prescritos e dizem: &#8220;Este \u00e9 um exame de doze mil liras&#8221;, e optam pelo mais barato. Estudantes que s\u00f3 vez por outra comparecem \u00e0s aulas e tem dificuldade em achar uma carteira vaga na sala superlotada e que, no final da aula, desejariam falar com o professor, mas h\u00e1 uma fila de trinta pessoas, e t\u00eam de apanhar o trem, pois n\u00e3o podem ficar num hotel. Estudantes a quem nunca se explicou como procurar livros na biblioteca e em qual biblioteca [\u2026] [2].<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>No Brasil, esse processo da transforma\u00e7\u00e3o de uma universidade de elite para uma universidade de massas aconteceu \u2014 ou me parece ter acontecido, pelo que posso me lembrar como estudante pouco engajada a um \u00fanico tema \u2014 em pelo menos duas &#8220;ondas&#8221; na hist\u00f3ria recente. O primeiro movimento, tratado por Vieira Pinto em 1961, o da <em>reforma<\/em> \u2014 que pretendia, entre outras coisas, fazer com que a universidade se integrasse melhor com as necessidades da sociedade e inclu\u00edsse o maior n\u00famero de pessoas poss\u00edvel \u2014, aqui foi atrasado ou retardado em fun\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de for\u00e7as em disputa deste espa\u00e7o. Ao longo de tr\u00eas d\u00e9cadas, e at\u00e9 os anos 90, essa abertura \u00e0s massas acompanhou a redemocratiza\u00e7\u00e3o e se deu principalmente em virtude de uma mudan\u00e7a no papel social da institui\u00e7\u00e3o: se antigamente os cursos superiores eram para serem feitos sem pressa, e esse momento da vida do jovem vivido como um momento de divertimentos e descobertas importantes para seu amadurecimento, luxo que alguns ainda desfrutam, hoje a universidade se v\u00ea com a fun\u00e7\u00e3o de preparar seus alunos para o tal do <em>mercado de trabalho<\/em>. Falhando nesta fun\u00e7\u00e3o, falha a universidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi apenas nos anos 2000, quando o <em>neg\u00f3cio<\/em> da educa\u00e7\u00e3o se massificou ainda mais, que este movimento da elite para a massa se concretizou. Por coincid\u00eancia, foi nessa primeira d\u00e9cada que ocorreram as maiores greves da hist\u00f3ria das universidades p\u00fablicas, uma no come\u00e7o da referida d\u00e9cada, e outra no in\u00edcio da seguinte [3]. A universidade p\u00fablica foi perdendo espa\u00e7o para a concorr\u00eancia das particulares, que agora buscavam se desvencilhar do estigma de &#8220;uniesquina&#8221;. As uniesquinas, por sua vez, se multiplicaram e se diversificaram conforme as demandas e necessidades dos consumidores\/estudantes, ajudadas por outra reforma universit\u00e1ria institucional, agora em governos progressistas. Uma grande massa de estudantes mais pobres chegou \u00e0 universidade: na p\u00fablica, atrav\u00e9s de cotas e amplia\u00e7\u00e3o de vagas, e tamb\u00e9m via programas de acesso ao ensino privado, como o ProUni e o FIES.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez que era inevit\u00e1vel a <em>universaliza\u00e7\u00e3o da universidade<\/em>, o mercado abra\u00e7ou a causa da educa\u00e7\u00e3o superior, dando-lhe novas roupagens, novos atributos, novos formatos e novos objetivos. Se antes a universidade era vista pelo pobre como um mecanismo de ascens\u00e3o social, hoje ela pode talvez garantir <em>alguma<\/em> ascens\u00e3o. Mas na economia dos diplomas da tal &#8220;sociedade do conhecimento&#8221; [4], a mera forma\u00e7\u00e3o superior j\u00e1 n\u00e3o garante nada. A r\u00e1pida muta\u00e7\u00e3o do mercado \u00e9 vista como uma desvantagem das &#8220;velhas universidades&#8221;, que &#8220;n\u00e3o educam para o futuro&#8221;. Os cursos das p\u00fablicas \u2014 muitos dos quais atualmente passando ou tendo h\u00e1 pouco passado por reformas curriculares \u2014 s\u00e3o vistos como tendo &#8220;perdido o bonde do mercado&#8221;, quando na realidade \u00e9 o mercado que se canibalizou e exige cada vez mais produtividade de um trabalhador com tempo e recursos finitos, responsabilizado individualmente por sua pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o como &#8220;empreendedor de si mesmo&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\nhttps:\/\/www.youtube.com\/watch?v=0P3owEhJHRY\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>Meu pr\u00f3prio exemplo pessoal \u00e9 um reflexo desse cen\u00e1rio. Tendo me formado em um curso chamado &#8220;Desenho Industrial&#8221;, estudei na gradua\u00e7\u00e3o as tecnicalidades da produ\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica e desenvolvi habilidades na composi\u00e7\u00e3o planificada de comunica\u00e7\u00f5es visuais que vou levar para a vida toda. Acabei, por\u00e9m, indo trabalhar com internet e intera\u00e7\u00e3o na maior parte da minha carreira profissional depois de formada, desenvolvendo de forma independente ao longo de minha trajet\u00f3ria as habilidades necess\u00e1rias para se lidar com isso, uma vez que n\u00e3o eram cobertas satisfatoriamente pelo meu curso de origem em uma conceituada universidade privada onde estudei de gra\u00e7a. Fiz um sem n\u00famero de treinamentos formais e informais para lidar com outras tecnicalidades que me foram sendo exigidas ao longo desse processo, que j\u00e1 dura mais de dez anos. Desenvolvi habilidades como pesquisadora em concomit\u00e2ncia a tudo isso porque quis muito, e por uma simples necessidade de sobreviv\u00eancia, de n\u00e3o poder parar porque meu sal\u00e1rio no mercado era maior (ainda que bem pouca coisa maior) que as t\u00e3o disputadas bolsas do meu programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Mesmo com forma\u00e7\u00e3o acima da m\u00e9dia, sinto-me despreparada para as exig\u00eancias permanentemente mutantes do mercado nessa <em>ind\u00fastria criativa<\/em> da qual fa\u00e7o parte, onde tudo se desmancha no ar&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Que na educa\u00e7\u00e3o superior se necessitam reformas, que a universidade precisa se abrir ainda mais para a sociedade, e que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um fator primordial para o pleno desenvolvimento de uma sociedade, a n\u00edvel pessoal e coletivo, disso n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas. As discuss\u00f5es a respeito s\u00e3o prol\u00edficas dentro e fora desses ambientes educacionais, e os movimentos nas ruas \u2014 \u00e0 esquerda e \u00e0 direita, ainda que n\u00e3o exatamente em igualdade de condi\u00e7\u00f5es na disputa \u2014 refletem a necessidade de se pensar um ensino superior de qualidade, onde ele acerta e onde falha. No entanto, a universidade <strong>contra<\/strong> a qual se luta agora \u00e9 justamente aquela que nos p\u00f5e a pensar nesses movimentos todos: o dos interesses de educadores e educandos, o das elites e o das massas.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Notas<\/h4>\n\n\n\n<p><small>[1] No Brasil, a Reforma Universit\u00e1ria se deu em plena ditadura militar (1968) e visava n\u00e3o apenas controlar ideologicamente essas institui\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m remodelar o antigo sistema de c\u00e1tedras vigente. Essa reforma modificou a estrutura universit\u00e1ria de modo a acompanhar mudan\u00e7as conjunturais da \u00e9poca, que tamb\u00e9m provocavam mudan\u00e7as nas institui\u00e7\u00f5es do tipo em outros pa\u00edses, puxadas por movimentos de classe e estudantil.<\/small><\/p>\n\n\n\n<p><small>[2] ECO, Umberto. <strong>Como Se Faz Uma Tese<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Gilson S\u00e9rgio Cardoso de Souza. 22\u00aa edi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Perspectiva, 2009. p. XIII-XIV.<\/small><\/p>\n\n\n\n<p><small>[3] Esta \u00faltima foi uma greve que vivi na pele, mas n\u00e3o do jeito engajado que agora pode parecer. Durante quatro meses do ano de 2012, fui esporadicamente ao meu campus universit\u00e1rio apenas para checar se meu desprendimento da realidade estava em n\u00edveis normais devido ao agravamento de um quadro de depress\u00e3o mal tratado e a um relacionamento de merda. Se o mundo \u00e0 minha volta dizia que a greve persistia, era porque a greve persistia. Cumpri obriga\u00e7\u00f5es mecanicamente e me culpei durante todo o tempo por n\u00e3o estar lendo o que deveria ler em Condi\u00e7\u00f5es Ideais, nem aproveitando o tempo para ir &#8220;adiantando as coisas&#8221;, mesmo sem saber que coisas seriam essas a adiantar. Li toda a s\u00e9rie <em>A Song of Ice and Fire<\/em> publicada at\u00e9 aquele momento, e um dos meus livros favoritos, <em>Decl\u00ednio e Queda do Imp\u00e9rio Romano<\/em>. Persisti na fuga da realidade, uma vez que tudo estava em suspenso por tempo indeterminado. Dessa \u00faltima parte espec\u00edfica, n\u00e3o me arrependo.<\/small><\/p>\n\n\n\n<p><small>[4] Ou &#8220;sociedade da informa\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;sociedade cognitiva&#8221;, ou &#8220;intelig\u00eancia coletiva&#8221;. Depende do autor ou do n\u00edvel de ingenuidade de quem faz uso desses termos.<\/small><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Movimentos sociais de todos os tipos t\u00eam ido \u00e0s ruas com alguns assuntos em comum. 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