{"id":62,"date":"2015-03-13T16:45:32","date_gmt":"2015-03-13T16:45:32","guid":{"rendered":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/?p=62"},"modified":"2015-03-13T16:50:11","modified_gmt":"2015-03-13T16:50:11","slug":"reaper-man","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/reaper-man\/","title":{"rendered":"Reaper Man"},"content":{"rendered":"<p>Exatamente no dia em que decido que preciso voltar a escrever com frequ\u00eancia sou incumbida da tarefa de escrever sobre Terry Pratchett, em <a href=\"http:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/caderno-g\/a-cor-da-magiafez-de-pratchett-um-dos-meus-autores-favoritos-0k17bt4izf5gn7zm19478emyg\">meu primeiro trabalho jornal\u00edstico profissional<\/a> onde produzo texto ao inv\u00e9s de imagem. Foi uma experi\u00eancia interessante. J\u00e1 escrevi uma mat\u00e9ria uma vez \u2014 e ilustrada, de p\u00e1gina inteira \u2014, mas ela est\u00e1 na gaveta h\u00e1 tanto tempo que n\u00e3o tenho muita certeza de que o editor gostou ou est\u00e1 afim de publicar. Soube da morte de Pratchett e fui correndo avisar o editor do caderno de cultura. N\u00e3o o conheciam, e o editor disse que se eu quisesse escrever alguma coisa tudo bem. Voltei pra minha mesa e vinte minutos depois tinha vomitado um textinho razo\u00e1vel de 3.500 toques.<\/p>\n<p>A morte \u00e9 um neg\u00f3cio engra\u00e7ado. Evidente que Morte, o personagem de Discworld, \u00e9 engra\u00e7ado, mas no momento estou mesmo falando daquele fato da vida. Ou da n\u00e3o-mais-vida. Eu n\u00e3o sei se sou s\u00f3 eu, mas lido com a morte de uma maneira um tanto estranha. Algu\u00e9m pode achar que \u00e9 porque Pratchett n\u00e3o era exatamente uma pessoa presente em minha vida e que conhe\u00e7o a obra dele tem apenas um ano, mas mesmo pela morte de pessoas queridas eu passo meio ap\u00e1tica. Tem o choque, claro: &#8220;e agora?, essa pessoa maravilhosa n\u00e3o vai mais ser quem ela \u00e9, vai sumir da exist\u00eancia, n\u00e3o vai produzir mais nada e, se n\u00e3o tomar cuidado ela vai at\u00e9 esvanecer da nossa mem\u00f3ria!&#8221; <\/p>\n<p>Meu av\u00f4 materno, por exemplo. Eu o amava muito, ele era um ex\u00edmio contador de hist\u00f3rias com aquele jeit\u00e3o despachado de espanhol que adora falar pelos cotovelos. Morreu em 2007, do cora\u00e7\u00e3o. Eu o vi deitado no caix\u00e3o, vi todo o sofrimento dos meus familiares \u00e0 minha volta, e s\u00f3 consegui me sentir extremamente envergonhada por n\u00e3o conseguir sentir aquela perda. Hoje tenho plena no\u00e7\u00e3o de que o mundo ficou bem diferente por causa da aus\u00eancia dele, mas n\u00e3o consigo n\u00e3o pensar que ele possa estar apenas viajando. <\/p>\n<p>No entanto, se me pego pensando no dia em que minha m\u00e3e vai morrer, quase entro em desespero. S\u00f3 de escrever isso parece que uma bolota de ang\u00fastia cresceu na garganta e o olho deu uma ardida. Talvez porque tantas vezes a assisti, impotente, sofrer de falta de ar enquanto recusava ajuda m\u00e9dica. N\u00e3o penso na morte de mais ningu\u00e9m dessa mesma forma.<\/p>\n<p>J\u00e1 pensei muito na minha pr\u00f3pria morte. J\u00e1 desejei muito morrer. Mas hoje, h\u00e1 um ano curada da depress\u00e3o (acho; uma ansiedade do tamanho de um monstro tomou o lugar dela), as \u00fanica vezes em que realmente temo esse momento \u00e9 quando, numa rua escura, algu\u00e9m aperta o passo atr\u00e1s de mim. Mas n\u00e3o \u00e9 exatamente um medo de morrer. Mesmo quando quis, n\u00e3o era o medo de morrer que me aterrorizava, era o medo de n\u00e3o dar certo e eu virar um vegetal, algo assim. Em geral n\u00e3o penso muito nisso, porque n\u00e3o tem muito o que pensar. N\u00e3o d\u00e1 pra conceber a pr\u00f3pria inexist\u00eancia. Deixar tudo pra tr\u00e1s, pra quem morre, deve ser indiferente. Deve ser bom. De certa forma, a epifania que me tirou do estado depressivo foi mais ou menos isso: &#8220;sossega, um dia voc\u00ea vai morrer e nada disso vai importar mais porque nada importa de qualquer jeito, <em>so enjoy the ride<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei muito bem como terminar esse texto. J\u00e1 n\u00e3o sabia quando o comecei. Quase como a vida, n\u00e9?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Exatamente no dia em que decido que preciso voltar a escrever com frequ\u00eancia sou incumbida da tarefa de escrever sobre Terry Pratchett, em meu primeiro trabalho jornal\u00edstico profissional onde produzo texto ao inv\u00e9s de imagem. Foi uma experi\u00eancia interessante. 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