{"id":669,"date":"2019-10-05T16:47:41","date_gmt":"2019-10-05T19:47:41","guid":{"rendered":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/?p=669"},"modified":"2019-10-05T18:08:35","modified_gmt":"2019-10-05T21:08:35","slug":"compreendendo-o-feminismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/compreendendo-o-feminismo\/","title":{"rendered":"Compreendendo o Feminismo: THOMPSON, 2001"},"content":{"rendered":"\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"172\" height=\"229\" src=\"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-content\/uploads\/deniseside04website.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-672\"\/><figcaption>A autora Denise Thompson<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>O texto abaixo \u00e9 um fichamento para uso pessoal que fiz de duas pequenas se\u00e7\u00f5es do livro <em><a href=\"https:\/\/www.dropbox.com\/s\/tdleffvp2rl48t4\/Radical%20Feminism%20Today.pdf?dl=0\">Radical Feminism Today<\/a><\/em>, de <a href=\"http:\/\/users.spin.net.au\/~deniset\/aboutdt.htm\">Denise Thompson<\/a>. \u00c9 um livro curto, claro e bem escrito, direto ao ponto e, provavelmente, um dos meus livros feministas favoritos. Me foi apresentado anos atr\u00e1s em um grupo de estudos independente do qual participei e que infelizmente teve vida curta. As se\u00e7\u00f5es fichadas abaixo s\u00e3o os cap\u00edtulos 1 e 4. As cita\u00e7\u00f5es est\u00e3o no original em ingl\u00eas, mas \u00e9 poss\u00edvel encontrar uma tradu\u00e7\u00e3o do cap\u00edtulo 1 <a href=\"http:\/\/manaschicas.wordpress.com\/definindo-o-feminismo-capitulo-1-de-radical-feminism-today-denise-thompson\/\">aqui<\/a>, e do cap\u00edtulo 4 <a href=\"http:\/\/radfem.info\/feminismo-indefinido\">aqui<\/a>. Boa leitura!<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Refer\u00eancia bibliogr\u00e1fica<\/h4>\n\n\n\n<p>THOMPSON, Denise. <strong>Radical Feminism Today<\/strong>. Londres: SAGE, 2001.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Introdu\u00e7\u00e3o (P. 1-4)<\/h3>\n\n\n\n<p>A rotulagem de abordagens e a separa\u00e7\u00e3o do feminismo em &#8220;vertentes&#8221; abre espa\u00e7o no movimento para que linhas de pensamento \u2014 que n\u00e3o identificam a domina\u00e7\u00e3o masculina e nem a combatem \u2014 possam se autoidentificar como feministas. Essa tend\u00eancia a uma recusa de se identificar a domina\u00e7\u00e3o masculina \u00e9 observada principalmente na academia, um espa\u00e7o tradicionalmente masculino de pensamento que n\u00e3o abre espa\u00e7o para posi\u00e7\u00f5es mais cr\u00edticas, principalmente quando essas cr\u00edticas abordam a domina\u00e7\u00e3o masculina dentro do campo propriamente dito. Os trabalhos feministas que mais diretamente identificam a domina\u00e7\u00e3o acabam sendo classificados de forma pejorativa dentro do pensamento acad\u00eamico.<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho da Denise Thompson n\u00e3o tem a inten\u00e7\u00e3o de separar quem \u00e9 feminista e quem n\u00e3o \u00e9. Mas definir o que \u00e9 feminismo \u00e9 importante principalmente porque n\u00e3o d\u00e1 para o feminismo continuar se desenvolvendo enquanto movimento se ele continuar a ser definido implicitamente como qualquer coisa que diga qualquer pessoa autoidentificada como feminista.<\/p>\n\n\n\n<p>A autora vai apontar que a teoria feminista emerge da pr\u00e1tica pol\u00edtica das mulheres. Ela especifica aqui o feminismo radical, mas no pensamento dela &#8220;feminismo radical&#8221; \u00e9 feminismo propriamente dito. Por causa disso, a teoria em si n\u00e3o \u00e9 expl\u00edcita, e tamb\u00e9m por causa disso ela n\u00e3o \u00e9 bem-vinda na academia \u2014 e nem tem a pretens\u00e3o de ser bem recebida por l\u00e1. O objetivo da teoria feminista \u00e9 expor as pr\u00e1ticas da domina\u00e7\u00e3o masculina, e n\u00e3o criar teoria em fun\u00e7\u00e3o de teoria.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;[\u2026] feminism as a moral and political struggle of opposition to the social relations of male domination structured around the principle that only men count as &#8216;human&#8217;, and as a struggle for a genuine human status for women outside male definition and control.&#8221; (P. 4)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Definindo o feminismo (P. 5-21)<\/h3>\n\n\n\n<p>Existe muita hesita\u00e7\u00e3o na teoria feminista em se definir o feminismo, de modo que muita coisa contradit\u00f3ria e at\u00e9 mesmo anti-feminista acaba ficando mascarada como parte do movimento. A autora argumenta que definir os termos auxilia no desenvolvimento do debate, porque permite ao leitor tamb\u00e9m fazer parte dele e construir significado. Definir, segundo ela, n\u00e3o limita algo de forma definitiva, mas permite que as autoras assumam a responsabilidade pelo que est\u00e3o dizendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Existe uma \u00eanfase na teoria feminista de se definir a posi\u00e7\u00e3o das mulheres como &#8220;socialmente constru\u00edda&#8221;, na busca por combater as explica\u00e7\u00f5es que naturalizam a opress\u00e3o. Thompson argumenta que este \u00e9 um uso limitado dessa ideia \u2014 que nem \u00e9 exatamente nova e vem da sociologia \u2014 se ela n\u00e3o estiver associada a uma an\u00e1lise que aponte de que tipo de sociedade n\u00f3s estamos falando. Ela tamb\u00e9m argumenta que o feminismo est\u00e1 no campo da moral e da \u00e9tica porque visa a mudan\u00e7a social. Al\u00e9m disso, a pol\u00edtica feminista \u00e9 diferente do uso tradicional da palavra &#8220;pol\u00edtica&#8221; (gen\u00e9rica), porque aponta as interse\u00e7\u00f5es entre o p\u00fablico e o privado e as formas como a opress\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o das mulheres acabam n\u00e3o reconhecidas por estarem no dom\u00ednio privado, e questiona essa dicotomia.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Women cannot be &#8216;equal&#8217; with men as long as there is no equality among men. In feminist terms, what women want is a human status where rights, benefits and dignities are gained at no one&#8217;s expense, and where duties and obligations do not fall disproportionately on the shoulders of women. Such a project promises to transform politics altogether.&#8221; (P. 8)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O desafio do feminismo \u00e9 a domina\u00e7\u00e3o masculina: identificar como ela funciona e combat\u00ea-la. A domina\u00e7\u00e3o masculina, por sua vez, \u00e9 um processo social que n\u00e3o torna os homens benefici\u00e1rios dela totalmente poderosos em rela\u00e7\u00e3o as mulheres, bem como n\u00e3o torna as mulheres seres totalmente incapazes sob seu dom\u00ednio. Mas, como se trata de uma estrutura social, ela est\u00e1 incrustada na realidade cotidiana e na mente das pessoas, tanto dos dominadores quanto das dominadas. Al\u00e9m disso, a domina\u00e7\u00e3o masculina n\u00e3o \u00e9 um sistema monol\u00edtico e hegem\u00f4nico, mas se adapta conforme o contexto e as a\u00e7\u00f5es dos indiv\u00edduos em sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>A autora discute algumas formas de teorizar o &#8220;poder&#8221;, que o enxergam como &#8220;restri\u00e7\u00f5es&#8221; e &#8220;habilita\u00e7\u00f5es&#8221; socialmente negociadas no sentido de cumprir objetivos coletivos (<em>poder-enquanto-capacidade<\/em>). Mas ela questiona isso como uma vis\u00e3o que indica um ethos masculino, que assume maior liberdade de a\u00e7\u00e3o social, porque n\u00e3o enxerga o poder como uma ferramenta de domina\u00e7\u00e3o quando mal distribu\u00eddo (<em>poder-enquanto-domina\u00e7\u00e3o<\/em>). Uma perspectiva feminista deve levar em conta as formas sutis e n\u00e3o deliberadas de exerc\u00edcio desse poder, e a manuten\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia das dominadas no sentido de n\u00e3o se verem como subordinadas e contribu\u00edrem para sua pr\u00f3pria domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Because women are not human within the terms and under the conditions of male supremacy, they are not allowed access to the rights and dignities of being human. Because women are not recognized as human, they can be treated with contempt. What happens to them does not matter, their needs do not have to be considered, their interest can be trivialized and denied. Because women are not human they become nothing but objects for men&#8217;s use. This creates a contradiction at the heart of the world order that is male supremacy. The chief contradiction structuring and rupturing male supremacist conditions is the existence of women which continually gives the lie to the male as the standard of &#8216;human&#8217; existence, a lie which is managed by acknowledging women only to the extent that they serve men&#8217;s interests.&#8221; (P. 12)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A autora tamb\u00e9m argumenta que a desumaniza\u00e7\u00e3o das mulheres tamb\u00e9m desumaniza os homens, porque a tirania da domina\u00e7\u00e3o corrompe o car\u00e1ter humano dos homens. Ela continua dizendo que o aspecto que mais recebeu aten\u00e7\u00e3o dentro do feminismo \u00e9 o seu foco na mulher e na busca por sua humaniza\u00e7\u00e3o; isso leva a discuss\u00f5es infinitas e in\u00fateis sobre o que est\u00e1 envolvido na categoria &#8220;mulher&#8221;, o que tamb\u00e9m leva \u00e0 divis\u00e3o das mulheres em m\u00faltiplas e incompat\u00edveis categorias sociais. Ainda que o centro e o ponto de partida do feminismo sejam as mulheres, \u00e9 a sua oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 domina\u00e7\u00e3o masculina que o caracteriza como relevante \u00e0s mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Thompson fala um pouco sobre o lesbianismo no feminismo como uma forma das mulheres se reconhecerem entre si como humanas sem o homem como referente ou ponto de partida. Ela tamb\u00e9m fala sobre como o lesbianismo como pr\u00e1tica sexual foi sequestrado pelos liberais, que colocaram o sexo em termos de &#8220;corpos e prazeres&#8221;, longe da cr\u00edtica pol\u00edtica, definindo o lesbianismo meramente como uma prefer\u00eancia sexual de uma minoria de mulheres individuais. O lesbianismo, no entanto, questiona a natureza do desejo heterossexual, que coloca a excita\u00e7\u00e3o e a realidade na subordina\u00e7\u00e3o das mulheres pelos homens.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da discuss\u00e3o do lesbianismo ela entra na discuss\u00e3o do separatismo, como sendo uma forma de pol\u00edtica que envolve a recusa de participar das rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o dentro da supremacia masculina. Trata-se de uma necessidade estrat\u00e9gica para se organizar de forma independente dos prop\u00f3sitos dos homens, e n\u00e3o um fim em si mesmo; a domina\u00e7\u00e3o masculina \u00e9 uma forma de organiza\u00e7\u00e3o social que envolve homens e mulheres, e se isolar do conv\u00edvio com homens \u00e9 bem pouco realista.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Women&#8217;s exclusion from positions of power and influence has a purpose \u2014 to keep the majority of women tied to men, promoting male interests, nourishing and fostering male subjectivities, doing the work and providing the ground from which men can launch themselves into those projects so highly valuable within male supremacist conditions.&#8221; (P. 15)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O campo de a\u00e7\u00e3o do feminismo \u00e9 o significado. Uma vez que o significado est\u00e1 em toda parte, tamb\u00e9m est\u00e1 a luta feminista. Assim, o feminismo pode acontecer onde quer que as mulheres estejam, e avan\u00e7ar onde quer que as mulheres avancem. A autora defende que a defini\u00e7\u00e3o de feminismo apresentada por ela \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o de <em>feminismo<\/em>, sendo ampla o suficiente para incluir v\u00e1rias formas de pol\u00edticas feministas, e tamb\u00e9m suficientemente espec\u00edfica para identificar e excluir argumentos anti-feministas. Ela tamb\u00e9m diz que se referir a feminismo no plural \u00e9 uma evasiva frente \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es das asser\u00e7\u00f5es que competem entre si, muitas vezes anti-feministas, feitas em nome do feminismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Thompson vai argumentar que o feminismo acontece a partir de um ponto de vista feminista, que precisa ser especificamente feminista para n\u00e3o incluir as formas como as mulheres abra\u00e7am sua pr\u00f3pria opress\u00e3o, e excluir as formas mais essencialistas\/particularistas de se enxergar as a\u00e7\u00f5es das mulheres (empatia, cuidado, viv\u00eancia etc). O ponto de vista feminista identifica, questiona e se op\u00f5e a domina\u00e7\u00e3o masculina; essa consci\u00eancia parte do reconhecimento da posi\u00e7\u00e3o social das mulheres enquanto estruturada pela domina\u00e7\u00e3o masculina.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Feminism is a thouroughgoing critique of male domination wherever it is found and however it is manifested. It is a working towards ending male impositions of whatever form, in the creating of a community of women relating to women and creating our own human status that is unencumbered by meanings and values which include women in the human race on men&#8217;s terms or not at all. That can only be done from a standpoint which recognizes the existence of the social order of male supremacy which allows a &#8216;human&#8217; status only to men, a standpoint which involves a struggle to reinterpret and rearrange the world so that women can be recognized as human too.&#8221; (P. 21)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">Feminismo indefinido (P. 53-58)<\/h3>\n\n\n\n<p>Nessa parte, autora vai buscar defini\u00e7\u00f5es de feminismo, come\u00e7ando por dicion\u00e1rios feministas. Como a maior parte desses dicion\u00e1rios n\u00e3o especifica o termo ou o define de forma muito vaga em fun\u00e7\u00e3o de uma certa diversidade de abordagens, Thompson vai partir do pr\u00f3prio entendimento das autoras de suas inten\u00e7\u00f5es e objetivos com essas obras. Ela chega \u00e0 conclus\u00e3o que, apesar de as autoras terem clara para si a ideia de feminismo enquanto oposi\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e0 domina\u00e7\u00e3o masculina, isso aparece apenas nos textos introdut\u00f3rios ou de apresenta\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o no texto propriamente dito. <\/p>\n\n\n\n<p>A maior parte das defini\u00e7\u00f5es que ela encontra define o feminismo como uma preocupa\u00e7\u00e3o das mulheres no exerc\u00edcio de sua cidadania ou baseada na sua experi\u00eancia. A defini\u00e7\u00e3o de Karen Offen aborda a domina\u00e7\u00e3o masculina como ponto crucial da pol\u00edtica feminista, mas se preocupa com o feminismo como for\u00e7a antag\u00f4nica, propondo um &#8220;feminismo relacional&#8221; que reconhe\u00e7a as contribui\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias das mulheres, que somente elas podem prover (gestar, nutrir etc). Thompson aponta que a autora falha em reconhecer de onde vem o antagonismo direcionado ao feminismo: o problema do feminismo n\u00e3o \u00e9 que as mulheres exer\u00e7am determinadas atividades (caso exer\u00e7am), mas sim o papel de subservi\u00eancia que as mulheres exercem aos homens pela realiza\u00e7\u00e3o dessas atividades, nutrindo-os sem esperar reciprocidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Thompson questiona tamb\u00e9m os trabalhos que pensam a domina\u00e7\u00e3o masculina como uma forma de domina\u00e7\u00e3o n\u00e3o universal\/generaliz\u00e1vel na vida social humana, denominada por vezes de forma eufem\u00edstica como &#8220;sistema sexo\/g\u00eanero&#8221;. Aqui ela aponta tamb\u00e9m o trabalho de Judith Butler e sua acusa\u00e7\u00e3o de que as teorias feministas que apontam muito claramente a opress\u00e3o das mulheres s\u00e3o generalizantes ou vis\u00f5es coloniais sobre culturas n\u00e3o-ocidentais. Enquanto a maioria dos trabalhos evita o assunto da domina\u00e7\u00e3o masculina como sendo o principal antagonismo do feminismo, Butler vai al\u00e9m, se opondo inclusive \u00e0 ideia de que existe uma domina\u00e7\u00e3o dos homens sobre as mulheres. Thompson critica o argumento de Butler, dizendo que ela n\u00e3o apresenta nenhuma evid\u00eancia de sua acusa\u00e7\u00e3o de &#8220;falso universalismo&#8221;, e que apenas adjetiva de forma pejorativa certas formas te\u00f3ricas (que ela n\u00e3o identifica) como &#8220;no\u00e7\u00f5es altamente ocidentais&#8221;. Butler, por vezes, reconhece que a domina\u00e7\u00e3o masculina tamb\u00e9m existe no &#8220;Ocidente&#8221;, mas aparentemente ela n\u00e3o vem de lugar algum.<\/p>\n\n\n\n<p>Identificar a causa da subordina\u00e7\u00e3o das mulheres na domina\u00e7\u00e3o dos homens n\u00e3o significa universalizar uma no\u00e7\u00e3o ocidental. Mesmo no ocidente, a domina\u00e7\u00e3o masculina assume as mais variadas formas, mas sempre acontece \u00e0s custas das mulheres. A autora explica que essa relut\u00e2ncia em nomear e identificar a domina\u00e7\u00e3o dos homens acontece porque essas autoras querem evitar caracterizar as mulheres enquanto &#8220;v\u00edtimas&#8221;. Identificar as mulheres como v\u00edtimas dos homens poderia, na vis\u00e3o dessas autoras, fazer as mulheres se sentirem aprisionadas e passivas diante da viol\u00eancia. Algumas obras do &#8220;feminismo acad\u00eamico&#8221; afirmam que caracterizar as mulheres como v\u00edtimas inocentes e destitu\u00eddas de poder seria uma forma de &#8220;generalizar a experi\u00eancia das mulheres brancas&#8221;, mais uma vez sem apresentar nenhum trabalho feminista que utilize um argumento desse tipo desse modo como exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema com essa recusa de se apontar o antagonismo do feminismo \u00e9 que ela (a recusa) interpreta a domina\u00e7\u00e3o masculina como inevit\u00e1vel e monol\u00edtica. Se a busca do feminismo \u00e9 por acabar com essa domina\u00e7\u00e3o e por formas diferentes de ser humanas, fica claro que ele n\u00e3o define as mulheres somente enquanto v\u00edtimas. Esses argumentos tamb\u00e9m falham em ver que o apontamento da opress\u00e3o ajuda as mulheres a se livrarem desse papel perp\u00e9tuo de v\u00edtimas, identificando a opress\u00e3o enquanto tal e n\u00e3o como algo pessoal ou pr\u00f3prio das condi\u00e7\u00f5es daquela mulher espec\u00edfica. <\/p>\n\n\n\n<p>A dor n\u00e3o vai ser diminu\u00edda utilizando eufemismos ou mostrando mulheres como poderosas quando elas n\u00e3o o s\u00e3o. Nomear a domina\u00e7\u00e3o dos homens \u00e9 reconhecer os pontos de resist\u00eancia e colabora\u00e7\u00e3o que as mulheres t\u00eam com essa domina\u00e7\u00e3o. Nomear a domina\u00e7\u00e3o dos homens tamb\u00e9m ajuda a quantificar o tamanho do dano causado \u00e0s mulheres.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O texto abaixo \u00e9 um fichamento para uso pessoal que fiz de duas pequenas se\u00e7\u00f5es do livro Radical Feminism Today, de Denise Thompson. \u00c9 um livro curto, claro e bem escrito, direto ao ponto e, provavelmente, um dos meus livros feministas favoritos. 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