{"id":754,"date":"2022-11-03T18:44:47","date_gmt":"2022-11-03T21:44:47","guid":{"rendered":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/?p=754"},"modified":"2022-11-03T18:44:47","modified_gmt":"2022-11-03T21:44:47","slug":"afinal-existe-ideologia-de-genero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/afinal-existe-ideologia-de-genero\/","title":{"rendered":"Afinal, existe \u201cideologia de g\u00eanero\u201d?"},"content":{"rendered":"\n<p>Antes de come\u00e7ar, \u00e9 importante em um primeiro momento pensar que o contexto onde se costuma usar essa express\u00e3o no Brasil \u00e9 um tanto diferente do contexto de outros pa\u00edses. Em lugares como o Reino Unido e a Espanha \u2014 em que os conflitos entre militantes \u201clgbtqia+\u201d e mulheres chegaram ao ponto do embate f\u00edsico \u2014 esse debate est\u00e1 muito mais avan\u00e7ado ou, pelo menos, polarizado a ponto de ter se tornado um tema de discuss\u00e3o de n\u00edvel nacional. Certos absurdos promovidos por transativistas j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o mais poss\u00edveis de serem escondidos, tendo se tornado esc\u00e2ndalos de grandes propor\u00e7\u00f5es \u2014 como \u00e9 o caso da <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/news\/uk-62335665\">cl\u00ednica Tavistock do NHS<\/a> e as inflamadas discuss\u00f5es sobre a chamada <a href=\"https:\/\/www.rfi.fr\/es\/europa\/20221028-la-ley-trans-divide-a-la-izquierda-y-al-feminismo-en-espa%C3%B1a\">\u201cLey Trans\u201d espanhola<\/a>. Existe nesses lugares uma consci\u00eancia um tanto mais desenvolvida de que a ideia de \u201cidentidade de g\u00eanero\u201d, quando incorporada a leis e regula\u00e7\u00f5es, destr\u00f3i os direitos das mulheres porque eles s\u00e3o fundamentados na diferen\u00e7a sexual.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"575\" src=\"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-content\/uploads\/keirabell.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-756\" srcset=\"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-content\/uploads\/keirabell.jpeg 1024w, https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-content\/uploads\/keirabell-300x168.jpeg 300w, https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-content\/uploads\/keirabell-768x431.jpeg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Keira Bell, a mo\u00e7a que foi o estopim do esc\u00e2ndalo da cl\u00ednica Tavistock.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>No Brasil, por outro lado, quem utiliza a express\u00e3o \u201cideologia de g\u00eanero\u201d em geral s\u00e3o pessoas de direita, mas nem sempre. Muitas mulheres interessadas na defesa dos direitos de base sexual de sua classe, feministas ou n\u00e3o, e informadas pelas discuss\u00f5es que j\u00e1 ocorrem nesses outros pa\u00edses, \u00e0s vezes tamb\u00e9m fazem uso do termo. O problema \u00e9 que, uma vez que esse termo \u00e9 colocado em alguma discuss\u00e3o no contexto brasileiro \u2014 e aqui essa discuss\u00e3o ainda ocorre pelas beiradas, restritas a grupos fechados e caixas privadas de mensagens \u2014, ele acaba chamando toda a aten\u00e7\u00e3o para si mesmo e o debate acaba interditado. N\u00e3o que exista qualquer boa vontade dos defensores da no\u00e7\u00e3o de \u201cidentidade de g\u00eanero\u201d de realizar um debate justo e baseado na realidade das mulheres, mas aparentemente se referir \u00e0s pol\u00edticas promovidas por transativistas e \u00e0 no\u00e7\u00e3o de \u201cidentidade de g\u00eanero\u201d como \u201cideologia de g\u00eanero\u201d parece ser um pecado mortal e imperdo\u00e1vel, mesmo quando o assunto \u00e9 a defesa dos direitos humanos das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a direita utiliza esse termo, raramente ela est\u00e1 preparada para responder seus cr\u00edticos e argumentar de acordo. Basta ver os assuntos que essas pessoas costumam elencar em conjunto com o que chamam de \u201cideologia de g\u00eanero\u201d: seu objetivo n\u00e3o \u00e9 fazer uma defesa dos direitos das mulheres de base sexual, mas uma cr\u00edtica generalizada e mal ajambrada a um am\u00e1lgama de coisas, que v\u00e3o desde institui\u00e7\u00f5es que atuam em frentes culturais (como as universidades e a m\u00eddia) at\u00e9 os direitos reprodutivos das mulheres e a quest\u00e3o da hormoniza\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as no chamado \u201cprocesso transexualizador\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E a esquerda, quando responde a isso, em geral adota duas estrat\u00e9gias. Uma delas \u00e9 dizer que esta \u00e9 \u201c<a href=\"https:\/\/escrevalolaescreva.blogspot.com\/2016\/06\/pelo-fim-da-transfobia-em-todos-os.html\">uma pauta importada<\/a>\u201d, fazendo refer\u00eancia justamente aos debates j\u00e1 em estado avan\u00e7ado que ocorrem em outros pa\u00edses, como se mulheres daqui e desses outros pa\u00edses n\u00e3o tivessem interesses comuns. Outra estrat\u00e9gia \u00e9 afirmar que \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=EuFUGUeKxCg&amp;ab_channel=MeteoroBrasil\">\u2018ideologia de g\u00eanero\u2019 n\u00e3o existe<\/a>\u201d; o que os conservadores chamariam de \u201cideologia de g\u00eanero\u201d seriam os chamados Estudos de G\u00eanero, um campo das Ci\u00eancias Sociais. O problema \u00e9 que esses dois movimentos argumentativos da esquerda s\u00e3o na verdade uma forma de fugir da discuss\u00e3o sobre os choques de interesses entre o movimento \u201clgbtqia+\u201d e os movimentos de mulheres. Al\u00e9m disso, se busca exigir do interlocutor a aceita\u00e7\u00e3o incondicional das pautas dos transativistas em um pacote fechado com os direitos das mulheres, sem direito a questionamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Fica claro ent\u00e3o que existem duas inst\u00e2ncias nessa discuss\u00e3o que disputam o significado dessa express\u00e3o: a esquerda e a direita. Enquanto isso, as mulheres, ainda em processo de estabelecer uma linguagem pr\u00f3pria para falar do assunto e por vezes n\u00e3o informadas a respeito de desenvolvimentos de d\u00e9cadas anteriores dessa discuss\u00e3o, n\u00e3o possuem uma l\u00edngua comum e acabam adotando termos j\u00e1 fortemente carregados de significados, alguns deles inconvenientes \u00e0 sua pr\u00f3pria luta. Um desses termos inconvenientes \u00e9 justamente o \u201cg\u00eanero\u201d, sozinho: se antes, na teoria feminista, esse termo buscava significar a diferen\u00e7a social que prioriza os homens em detrimento das mulheres estabelecida sobre a diferen\u00e7a sexual, hoje ele se refere a performatividades identit\u00e1rias manifestadas em roupas e trejeitos. Esses termos mais atravancam a discuss\u00e3o do que a esclarecem.<\/p>\n\n\n\n<p>Parte dessa impossibilidade de di\u00e1logo diz respeito a como o movimento \u201clgbtqia+\u201d alcan\u00e7ou notoriedade e relev\u00e2ncia, e se perdeu em seus prop\u00f3sitos depois da conquista do casamento civil. Assim que esse movimento conseguiu assegurar para si direitos matrimoniais \u2014 depois de ter ignorado completamente discuss\u00f5es anteriores sobre como o casamento em si \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o que serve para manter o poder masculino sobre as mulheres, sem que se deixasse espa\u00e7o para discutir outros tipos de contrato que n\u00e3o presumem obrigatoriamente o contato genital \u2014, sua agenda j\u00e1 n\u00e3o era mais t\u00e3o clara. Como em <a href=\"https:\/\/www.bbc.co.uk\/news\/magazine-26352378\">outros momentos<\/a> de sua hist\u00f3ria, esse movimento acabou infiltrado (mais uma vez) por pessoas com interesses escusos e at\u00e9 mesmo <a href=\"https:\/\/www.spiked-online.com\/2022\/09\/20\/trans-activism-is-homophobia-in-drag\/\">homof\u00f3bicos<\/a>. Isso se deu (novamente) porque, como na segunda metade dos anos 1970, <a href=\"https:\/\/youtu.be\/qE-tBu-hIVU\">a cr\u00edtica feminista da sexualidade perdeu for\u00e7a<\/a> e foi jogada para debaixo do \u00f4nibus sob a pecha do \u201cmoralismo\u201d. Eventualmente, os transativistas lograram sucesso e o movimento que antes se colocava em defesa dos direitos civis dos homossexuais passou a priorizar a pauta \u201ctrans\u201d, indo totalmente na contram\u00e3o do que significa a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de homossexualidade. Reconhecendo homens como mulheres iguais a qualquer outra mulher em fun\u00e7\u00e3o de suas autoafirma\u00e7\u00f5es \u2014 ou talvez como <em>ainda mais mulheres do que as mulheres<\/em>, como se fosse uma caracter\u00edstica mensur\u00e1vel quantitativamente \u2014, os transativistas tamb\u00e9m se infiltraram nos movimentos e nos grupos de estudos de mulheres. No fim das contas, o debate \u00e9 sim ideologizado: ele move for\u00e7as sem\u00e2nticas, sociais e econ\u00f4micas de modo direto, com objetivos claramente pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>O fato de mais mulheres terem chegado na academia n\u00e3o protegeu o seu campo espec\u00edfico de estudos da extin\u00e7\u00e3o: todos os programas antigamente conhecidos como \u201cestudos das mulheres\u201d acabaram eventualmente se convertendo em \u201cestudos de g\u00eanero\u201d. Uma vez que as mulheres se disponham a estudar sua condi\u00e7\u00e3o dentro dessa tradi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica espec\u00edfica, fica dif\u00edcil teorizar sobre certas coisas relativas ao seu estado de oprimidas e exploradas em fun\u00e7\u00e3o de suas possibilidades reprodutivas sem desmembrar as mulheres de seus corpos, sem uma cis\u00e3o cartesiana entre corpo e mente. \u201cG\u00eanero\u201d, afinal, foi justamente uma tentativa de desvincular a opress\u00e3o das mulheres de seus corpos, tentando desculp\u00e1-las de uma opress\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 causada por elas; no entanto, \u201cg\u00eanero\u201d tamb\u00e9m desculpa os culpados, evitando nome\u00e1-los e evitando tamb\u00e9m apontar as suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse desmembramento n\u00e3o acontece por acaso: desde que se estabeleceu a domina\u00e7\u00e3o masculina, algumas mulheres buscam se desvincular de sua condi\u00e7\u00e3o de mulheres na tentativa de alcan\u00e7ar o status humano. \u00c9 por isso que os transativistas usam essas estrat\u00e9gias ret\u00f3ricas de valida\u00e7\u00e3o por partes. Por exemplo, quando eles dizem que \u201cLino \u00e9 mulher porque colocou pr\u00f3teses de silicone\u201d ou perguntam aos questionadores se \u201cFulana deixa de ser mulher quando remove o \u00fatero?\u201d, o que eles est\u00e3o fazendo \u00e9 um jogo em que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel para as mulheres ganhar. Eles desumanizam as mulheres, nos fatiando em partes e impedindo o reconhecimento das nossas partes como constituidoras do nosso todo humano. \u00c9 de fato uma estrat\u00e9gia de desumaniza\u00e7\u00e3o disfar\u00e7ada de inclus\u00e3o: se \u00e9 imposs\u00edvel definir mulheres sem incluir homens nessa defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 porque a humanidade reconhec\u00edvel nas mulheres est\u00e1 de alguma forma subsumida a eles. Como na no\u00e7\u00e3o de \u201chonra\u201d, que estabelece a dignidade das mulheres por seus v\u00ednculos masculinos, a no\u00e7\u00e3o de \u201cidentidade de g\u00eanero\u201d torna imposs\u00edvel \u00e0s f\u00eameas da esp\u00e9cie humana se reconhecerem enquanto humanas de forma independente dos machos.<\/p>\n\n\n\n<p>Qualquer tipo de ideia politicamente carregada que mexa com as cren\u00e7as e valores mais profundos das pessoas \u2014 seus valores morais, mas tamb\u00e9m o seu senso de justi\u00e7a e de poder contribuir para alcan\u00e7\u00e1-la \u2014 pode ser definida como ideol\u00f3gica. Se isso \u00e9 uma coisa boa ou ruim, vai depender de como se define o termo \u201cideologia\u201d; por exemplo, o significado mais brando do termo o define como um conjunto de cren\u00e7as pelas quais os sujeitos justificam as suas a\u00e7\u00f5es e os seus objetivos pol\u00edticos. No entanto, ideologizadores \u2014 ou seja, operadores de linguagem, porque o ve\u00edculo de qualquer ideologia \u00e9 necessariamente a linguagem \u2014 n\u00e3o t\u00eam poder total de domina\u00e7\u00e3o e n\u00e3o podem manter seu p\u00fablico rendido o tempo todo, dado que \u00e9 precisamente no campo do significado que essas disputas acontecem; <em>emissores<\/em> n\u00e3o t\u00eam o monop\u00f3lio da constru\u00e7\u00e3o do sentido porque essa constru\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 co-autorada pelos <em>receptores<\/em>. Por isso, as suas estrat\u00e9gias de legitima\u00e7\u00e3o s\u00e3o v\u00e1rias mas, principalmente, no caso dos ideologizadores do \u201cg\u00eanero&#8221;, elas se fazem em duas frentes: pela manuten\u00e7\u00e3o da cren\u00e7a da ideia de \u201cidentidade de g\u00eanero\u201d atrav\u00e9s da legitimidade conferida pela medicina partindo de pressupostos preconceituosos e anticient\u00edficos, e pela coa\u00e7\u00e3o das vozes dissidentes atrav\u00e9s de amea\u00e7as e chantagens.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cG\u00eanero\u201d, conforme posto pelos transativistas, \u00e9 uma cren\u00e7a na exist\u00eancia de ess\u00eancias masculinas ou femininas que regeriam comportamentos t\u00edpicos independente do sexo, mas ao mesmo tempo atrelados a ele. Trata-se de um paradoxo, que na mente do crente n\u00e3o existe porque, em seu \u00edmpeto de justi\u00e7a, ele \u00e9 capaz de aceitar duas cren\u00e7as conflitantes ao mesmo tempo. \u00c9 uma cren\u00e7a porque n\u00e3o se trata de uma posi\u00e7\u00e3o cient\u00edfica: n\u00e3o adianta fazer ci\u00eancia estatisticamente correta constru\u00edda sobre pressupostos bambos. O <a href=\"https:\/\/www.intramed.net\/contenidover.asp?contenidoid=98925\">diagn\u00f3stico<\/a> de \u201cincongru\u00eancia de g\u00eanero\u201d \u00e9 baseado em pressupostos homof\u00f3bicos e mis\u00f3ginos altamente question\u00e1veis, os mesmos que serviam para definir a homossexualidade como uma doen\u00e7a at\u00e9 os anos 1990. O seu uso \u201ccient\u00edfico\u201d \u00e9 ideol\u00f3gico precisamente porque perpetua essas ideias, sem qualquer base na realidade; a pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica n\u00e3o \u00e9 neutra nem desvinculada do seu contexto social, mas \u00e9 tamb\u00e9m enviesada em fun\u00e7\u00e3o das convic\u00e7\u00f5es dos seus produtores.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"437\" src=\"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-content\/uploads\/naziprop.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-757\" srcset=\"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-content\/uploads\/naziprop.jpeg 600w, https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-content\/uploads\/naziprop-300x219.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Quando a direita decalca est\u00e9tica nazista a gente logicamente recha\u00e7a, mas o que fazer quando a esquerda defende ideias eugenistas?<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>No discurso pol\u00edtico brasileiro, a express\u00e3o \u201cideologia de g\u00eanero\u201d j\u00e1 foi abra\u00e7ada pela direita e virou um shibolete: quem faz uso dessa express\u00e3o \u00e9 necessariamente vinculado \u00e0 direita se o seu interlocutor for de esquerda. \u00c9 um termo que, pelo menos no Brasil, j\u00e1 est\u00e1 perdido e sem qualquer chance de salva\u00e7\u00e3o a partir do momento em que \u00e9 agregado a discursos e est\u00e9ticas que flertam com o nazismo. Mas \u00e9 importante lembrar que existem muitas formas de dizer as coisas, e \u00e9 melhor que a gente n\u00e3o adote nenhum desses termos que j\u00e1 foram adotados ou mesmo criados por outros grupos: nem \u201cideologia de g\u00eanero\u201d, nem \u201cg\u00eanero\u201d ou mesmo a ideia de \u201cidentidade de g\u00eanero\u201d precisam ser salvas, ou usadas sem que se esteja empenhada em critic\u00e1-las. Esses termos s\u00f3 obscurecem o debate e evitam clareza na conversa. Aceitar esses termos legitima o apagamento das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel dizer que tanto a esquerda quanto a direita acreditam em \u201cidentidade de g\u00eanero\u201d e fazem uso dessa ideia de modo ideol\u00f3gico: a esquerda pretende expandir o seu escopo, a direita pretende mant\u00ea-lo como est\u00e1. Poder conversar direito sobre esse assunto faz parte do processo de defascistiza\u00e7\u00e3o pelo qual o Brasil precisa passar, e parte da responsabilidade por isso \u00e9 da esquerda. Fazer pouco caso das queixas das mulheres sob pretexto de que se tratam de \u201cpautas morais\u201d n\u00e3o contribui nem para os direitos espec\u00edficos das mulheres, nem para a promo\u00e7\u00e3o dos direitos humanos em geral. Isso acontece porque muitas das nossas pautas est\u00e3o sim vinculadas ao campo da moral: a forma como a esquerda tem tratado os direitos das mulheres \u2014 nos definindo enquanto ess\u00eancia e priorizando a explora\u00e7\u00e3o sexual de nossa casta sem preocupa\u00e7\u00e3o real com nossa autonomia \u2014, por outro lado, \u00e9 que tem sido imoral. Enquanto a direita oferece algum n\u00edvel de reformismo relativo \u00e0s suas posi\u00e7\u00f5es mais tradicionais ou \u201cespecializa\u201d as suas f\u00eameas em determinadas frentes pol\u00edticas, dando a elas senso de prop\u00f3sito (e, por consequ\u00eancia, as desviando de seus interesses comuns enquanto mulheres), a esquerda tem amea\u00e7ado o ganha-p\u00e3o dos cr\u00edticos enquanto os rotula de \u201cfascistas\u201d, \u201cpreconceituosos\u201d ou ainda \u201cde direita\u201d. Muitas dessas pessoas s\u00e3o simples e trabalhadoras, fazendo nada mais que sua obriga\u00e7\u00e3o de atender aos apelos das mulheres que ousam reclamar da invas\u00e3o de homens em seus espa\u00e7os separados por sexo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes de come\u00e7ar, \u00e9 importante em um primeiro momento pensar que o contexto onde se costuma usar essa express\u00e3o no Brasil \u00e9 um tanto diferente do contexto de outros pa\u00edses. Em lugares como o Reino Unido e a Espanha \u2014 em que os conflitos entre militantes \u201clgbtqia+\u201d e mulheres chegaram ao ponto do embate f\u00edsico &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/afinal-existe-ideologia-de-genero\/\" class=\"more-link\">Continue reading<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Afinal, existe \u201cideologia de g\u00eanero\u201d?&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[51,47,205,190,203],"class_list":["post-754","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-fem","tag-feminismo","tag-genero","tag-identidade","tag-ideologia","tag-transativismo","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/754","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=754"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/754\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":758,"href":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/754\/revisions\/758"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=754"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=754"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=754"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}