{"id":760,"date":"2023-06-05T00:27:00","date_gmt":"2023-06-05T03:27:00","guid":{"rendered":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/?p=760"},"modified":"2023-06-05T01:18:28","modified_gmt":"2023-06-05T04:18:28","slug":"monotematica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/monotematica\/","title":{"rendered":"Monotem\u00e1tica"},"content":{"rendered":"\n<p>Uma vez um amigo em quem eu estava dando uns beijos me disse que um dos motivos porque ele estava terminando o nosso rolo naquele dia era que, segundo ele, eu ainda n\u00e3o tinha superado um ex-namorado abusador. Completamente apaixonada por aquele exemplar absolutamente comum de \u201chomem bom\u201d que estava na minha frente e finalmente certa da reciprocidade, fiquei confusa com aquela acusa\u00e7\u00e3o. Gra\u00e7as \u00e0 medica\u00e7\u00e3o (e \u00e0 \u201cautomedica\u00e7\u00e3o\u201d) que eu tomava na \u00e9poca, nem lembrava direito da cara do ex. Como assim? Aquilo era passado! Do que ele estava falando? O que eu queria era ele, ali, agora. N\u00e3o estava claro o suficiente? O problema era que ele, infelizmente, queria montar a fam\u00edlia da propaganda de margarina e j\u00e1 tinha arquitetado o plano completo. Definitivamente, eu n\u00e3o cabia naquilo que era meu pior pesadelo. Mas quem estava pensando no meu ex era ele, n\u00e3o eu!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Voc\u00ea fala o tempo todo de viol\u00eancia sexual. Voc\u00ea n\u00e3o superou aquele cara!<\/p>\n\n\n\n<p>Eu fiquei em choque.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Como muitos \u201chomens bons\u201d do meu entorno que acabaram casando e tendo filhos e seguindo aquele script todo de fam\u00edlia feliz \u2014 e eu acredito que esses amigos estejam fazendo o melhor que podem dentro do que eles escolheram para si e para suas parceiras \u2014, esse meu amigo nunca tinha se ligado da pervasividade da viol\u00eancia sexual, nem mesmo quando me contava chocado as experi\u00eancias ruins das suas amigas. Do cunhado ao ex-peguete, do meu pai ao marido da minha amiga, \u00e9 s\u00f3 quando esses \u201chomens bons\u201d come\u00e7am a passar perrengue intimamente com uma mulher, em primeir\u00edssima m\u00e3o, que muitos deles se d\u00e3o conta disso. A maioria deles na verdade nem chega a ser dar conta das piores partes do que isso significa, j\u00e1 que eles, supostamente, n\u00e3o tomam parte disso. Mas quero crer que todos esses \u201chomens bons\u201d, principalmente aqueles pais de meninas, com certeza um dia v\u00e3o chegar a essa dura conclus\u00e3o. Pais presentes que espero que eles todos sejam (e, ainda, meus amigos), eventualmente eles acabam descobrindo que n\u00e3o sou eu que falo de viol\u00eancia sexual o tempo todo \u2014 \u00e9 que <em>a viol\u00eancia sexual acontece o tempo todo<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Para alguns desses \u201chomens bons\u201d, o problema est\u00e1 justamente em n\u00e3o seguir esse percurso de fazer e manter uma fam\u00edlia. Meu pai certamente acredita nisso, meu cunhado, primos e outros aparentados bem ajustados acreditam nisso, e aquele mocinho ador\u00e1vel com quem eu trocava beijos em meados da d\u00e9cada passada provavelmente tamb\u00e9m. Se cada homem se dedicar a ser bom, tiver sua pr\u00f3pria esposinha e cuidar bem dela, todo mundo sai ganhando. E a maioria deles tenta, justamente porque nas Condi\u00e7\u00f5es Ideais de Temperatura e Press\u00e3o, a fam\u00edlia (por enquanto) ainda \u00e9 o melhor arranjo social poss\u00edvel (principalmente para eles, os homens, independente de serem bons ou n\u00e3o). N\u00e3o que n\u00e3o possa funcionar para as mulheres desses \u201chomens bons\u201d, mas estamos falando de probabilidade aqui. \u00c9 t\u00e3o natural para os \u201chomens bons\u201d que suas esposas possam tirar anos de suas vidas para se dedicar inteiramente \u2014 ou majoritariamente, ou significativamente, ou pelo menos com uma robusta rede de apoio ao seu redor para dar conta do que ela n\u00e3o puder \u2014 ao cuidado dos filhos, que muitos deles nunca imaginaram que, na m\u00e9dia, n\u00e3o seja assim que acontece. At\u00e9 que se prove o contr\u00e1rio, eu acredito que esses \u201chomens bons\u201d do meu entorno realmente amem e honrem e protejam as suas esposas, como firmaram no pacto do dia do seu casamento. O problema \u00e9 que, mesmo nas condi\u00e7\u00f5es mais ideais, <em>as mulheres s\u00e3o colocadas em desvantagem dentro do casamento<\/em>. Quando um homem ama uma mulher (em geral, ele n\u00e3o ama), se casa com ela (em geral, por dever) e a engravida (em geral, apenas uma consequ\u00eancia esperada do arranjo todo, ainda que n\u00e3o necessariamente nessa ordem), na imensa maioria das vezes quem perdeu foi ela: <em>game over<\/em>, mais uma guerreira abatida.<\/p>\n\n\n\n<p>Creio que as esposas desses \u201chomens bons\u201d, acusadas por vezes de \u201cprivilegiadas\u201d por poder abrir m\u00e3o de todo o resto de suas vidas para se dedicar somente \u00e0 \u00e1rdua miss\u00e3o de trazer outro ser humano a este Vale de L\u00e1grimas e gui\u00e1-lo por um caminho mais ou menos decente \u2014 uma responsabilidade t\u00e3o absurdamente aterradora para mim que nunca me julguei digna da tarefa; tem outros trofeu \u2014, provavelmente est\u00e3o vivendo a melhor vida poss\u00edvel dentro do que as suas escolhas permitiram. Espero que elas possam ter a for\u00e7a de vontade que eu n\u00e3o tenho e que \u00e9 necess\u00e1ria para criar seres humanos razo\u00e1veis, e as ajudo no que for sempre que poss\u00edvel. Tento ser uma influ\u00eancia positiva nas vidas das mulheres casadas com os \u201chomens bons\u201d do meu entorno mesmo que as suas suspeitas de que eu seja uma daquelas for\u00e7as dedicadas a destruir essa estrutura que supostamente protege a n\u00f3s mulheres da viol\u00eancia sexual inerente \u00e0 domina\u00e7\u00e3o masculina \u2014 <em>a fam\u00edlia<\/em> \u2014 estejam corretas.<\/p>\n\n\n\n<p>Creio e espero, e escrevo a tudo isso como um sortil\u00e9gio, um feiti\u00e7o, uma profiss\u00e3o de f\u00e9. F\u00e9 de que essas mulheres \u2014 tanto as pr\u00f3ximas quanto as distantes, por quem me preocupo \u00e0s vezes at\u00e9 sem conhecer direito \u2014, esposas desses \u201chomens bons\u201d, possam ter a melhor experi\u00eancia poss\u00edvel dentro desse formato antinatural de microcomunidade que vende um regime de co-depend\u00eancia econ\u00f4mica disfar\u00e7ado de contrato afetivo que, se n\u00e3o fossem as reformas lentas e de oportunidade nas leis feitas com muita insist\u00eancia de um grupo relativamente pequeno de mulheres estridentes e teimosas, necessariamente deixaria essas mulheres em ainda mais desvantagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque, diante da ubiq\u00fcidade da viol\u00eancia sexual que a manuten\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o masculina exige, tudo o que eu posso ter nos \u201chomens bons\u201d do meu entorno \u2014 desses que escolheram casar aos que escolheram festar, dos em quem eu nem encosto aos com quem me relaciono intimamente \u2014 \u00e9 <em>f\u00e9<\/em>. Se fosse depender das evid\u00eancias, eles estavam lascados no meu conceito.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>O problema \u00e9 que a defini\u00e7\u00e3o de f\u00e9 \u00e9 justamente acreditar em algo que n\u00e3o possui base na realidade. Acreditar \u00e9 dar cr\u00e9dito adiantado e \u00e9, por isso, dar um voto de confian\u00e7a. \u00c9 um investimento. Acredito que, por mais que discordem ou achem minhas ideias radicais demais \u2014 elas nem s\u00e3o minhas e muito menos novas, mas s\u00e3o sim fortes \u2014, os \u201chomens bons\u201d do meu entorno tentem entender o que eu digo e, por isso, insistem nesse v\u00ednculo. Creio que planto nesses \u201chomens bons\u201d uma sementinha de reflex\u00e3o. Creio que a meia d\u00fazia deles que me l\u00ea e ouve quando insisto em falar de viol\u00eancia sexual n\u00e3o fa\u00e7a grupos secretos onde trocam prints e ca\u00e7oam das minhas falas.<\/p>\n\n\n\n<p>Acredito que alguns homens possam estar fazendo esse tipo de coisa exatamente agora em algum lugar da internet, mas n\u00e3o os \u201chomens bons\u201d que s\u00e3o meus amigos. Os \u201chomens bons\u201d que s\u00e3o meus amigos n\u00e3o trocam di\u00e1logos onde dizem:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Olha ela ali de novo esperneando, n\u00e3o cansa? Supera esse macho que te fez mal, amiga! Qual deles? Qualquer um e todos eles! A vida \u00e9 melhor que isso e voc\u00ea sabe. Arruma um \u201chomem bom\u201d (ou at\u00e9 uma mulher, veja s\u00f3) e casa bonitinho que isso p\u00e1ra de acontecer!<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o os \u201chomens bons\u201d que eu conhe\u00e7o. Eles n\u00e3o. Nem todo homem.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Outro dia, em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, eu estava em um \u00f4nibus relativamente vazio e um cara desviou do seu caminho original para propositalmente se esfregar em mim. Outro dia, um homem em quem tentei dar uns beijos teve dificuldade de manter o pirulito ereto porque n\u00e3o p\u00f4de praticar algum tipo de viol\u00eancia supostamente consentida e de mentirinha contra mim, j\u00e1 que eu, t\u00e3o pudica, disse \u201cn\u00e3o\u201d. Outro dia, mas de noite, quando eu trabalhava no jornal, um homem s\u00f3 desistiu de me assediar na rua quando o ameacei de volta com uma lapiseira de a\u00e7o afiad\u00edssima que podia sim fazer um estrago nele. Outro dia, na mesma \u00e9poca mas \u00e0 tarde, um cara me agarrou do nada na rua no meu intervalo do trabalho e as pessoas em volta riram \u2014 quero crer que \u00e9 porque fui \u00e1gil e consegui escapar, mas estar coberta dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a com um sobretudo n\u00e3o me protegeu. Outro dia, no trabalho, um colega achou que podia colocar as m\u00e3os nos meus ombros e ficar com elas ali pelo tempo que quisesse; ele n\u00e3o sabia se podia, mas estava sendo muito educado, decidiu que podia e o fez. Outro dia, quando eu era ainda uma jovem rebelde explorando a noite curitibana, um homem homossexual passou a m\u00e3o pelo meu corpo em um bar a caminho do banheiro simplesmente porque achou que, se ele dissesse que eu estava linda, ele podia. Outro dia, muitos anos atr\u00e1s, o tal do ex-namorado supracitado abusou de mim enquanto eu estava chapada de rem\u00e9dio para dormir. Outro dia, esse mesmo ex-namorado tamb\u00e9m me estuprou s\u00f3bria, para se certificar de que eu tinha aprendido a li\u00e7\u00e3o de que eu era dele e apenas dele. Outro dia, eu tentei ver o notici\u00e1rio local em v\u00e1rios hor\u00e1rios diferentes ao longo de uma semana, mas em todos eles havia a not\u00edcia de uma mulher morta ou abusada pelo parceiro \u2014 eu s\u00f3 queria saber a previs\u00e3o do tempo, n\u00e3o receber uma descarga de cortisol e adrenalina gratuitamente \u00e0s sete da noite! Outro dia, no ano passado, um revisor de um peri\u00f3dico disse, na minha \u00faltima tentativa obstinada de publicar algo sobre mulheres no esquema de revis\u00e3o por pares oficial da academia, que eu n\u00e3o poderia escrever sobre a natureza sexual da domina\u00e7\u00e3o masculina que massacra mulheres todos os dias o tempo inteiro porque essa era uma ideia ultrapassada e perigosa, e que eu corria o risco de ferir os sentimentos dos homens. Outro dia, muitos anos atr\u00e1s, milhares de homens \u2014 e mulheres que acreditavam que estariam protegidas da viol\u00eancia masculina se estivessem do lado que a perpetra \u2014 mudaram completamente a forma como eu uso a internet ao inundar minha timeline com viol\u00eancia sexual gr\u00e1fica e verbal de todo tipo porque eu estava, mais uma vez, teimosamente, falando de viol\u00eancia sexual. Outro dia, o escriv\u00e3o da delegacia onde tentei denunciar esse ataque online protegeu os meus assediadores e me coagiu a retirar a queixa; os meus assediadores sa\u00edram no jornal como blogueiros inovadores e disruptivos semanas depois. Outro dia, semana passada, um m\u00e9dico me tocou de forma inapropriada e manteve a t\u00e9cnica que acompanhava o procedimento ocupada anotando termos t\u00e9cnicos que ele n\u00e3o precisava ter usado s\u00f3 para que ela n\u00e3o visse que ele estava quase se deitando por cima do meu t\u00f3rax nu \u2014 e eu, uma mulher independente e bem informada, s\u00f3 travei e dissociei, e \u2014 pior! \u2014 ainda n\u00e3o sei se \u00e9 realmente poss\u00edvel fazer algo a respeito disso. Outro dia, tamb\u00e9m na semana passada, um velho cuspiu no ch\u00e3o \u00e0 minha frente e rosnou em minha dire\u00e7\u00e3o porque eu n\u00e3o estava sendo <em>feminina<\/em> o suficiente para que ele pudesse apreciar. Outro dia, antes da pandemia, um homem que se veste <em>diferentinho<\/em> me reconheceu da internet numa festa em outra cidade e juntou um grupo de amigos para tentar me intimidar porque, entre outras coisas, eu falo o tempo todo da viol\u00eancia de base sexual perpetrada pelo grupo de homens do qual ele faz parte. Eles s\u00f3 n\u00e3o foram adiante porque eu estava acompanhada de \u201chomens bons\u201d que, por acaso, tamb\u00e9m eram amigos deles; mas esses \u201chomens bons\u201d foram todos mais tarde devidamente alertados sobre a gravidade dos meus crimes e alguns deles at\u00e9 pararam de falar comigo. Ufa, que sorte! Ser\u00e1 que o problema sou eu?<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Sei que cometo umas ousadias que podem ser consideradas um convite aos homens n\u00e3o-bons, como andar sozinha \u00e0 noite pelo centro da cidade ou me vestir exibindo a polpa da bunda quando faz calor o suficiente, mas duvido que seja isso. Por mais que esse par\u00e1grafo acima seja apenas um breve relato da minha pr\u00f3pria experi\u00eancia pessoal de existir nesse corpo de f\u00eamea em um mundo que odeia mulheres nos \u00faltimos quinze anos, eu n\u00e3o o escrevi para me fazer de v\u00edtima. O que eu tentei ali, nesse meu modo meio truncado de prosa, foi fazer poesia. Juro! Essas experi\u00eancias s\u00e3o reais e pessoais, n\u00e3o inventei nada. Esse texto \u00e9 justamente um exerc\u00edcio para tentar processar as mais recentes delas. S\u00e3o experi\u00eancias comuns a mulheres do mundo todo e de todo tipo, considerando-se, claro, as diferen\u00e7as de contexto e cultura e recortes e eteceteras. S\u00e3o experi\u00eancias comuns tanto a mulheres que foram levadas a decidir que a seguran\u00e7a sufocante do casamento valia mais a pena ou era mais c\u00f4moda que a incerteza que vem com a liberdade quanto \u00e0s que escolheram a liberdade ou acabaram escolhidas por ela. S\u00e3o experi\u00eancias que evidenciam que n\u00e3o importa em quantas camadas de privil\u00e9gio ou disfarce uma mulher se envolva, dificilmente elas v\u00e3o esconder o fato de ser mulher e de ser subjugada em um mundo que se estrutura sobre a nossa explora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Se eu falo de viol\u00eancia sexual o tempo todo \u00e9 porque ela est\u00e1 acontecendo agora em algum lugar, e vai acontecer depois, e j\u00e1 aconteceu antes, e vai continuar acontecendo, e de novo e de novo e de novo. Falo porque ela acontece comigo e com todas as mulheres todos os dias, mesmo que a gente insista em ignor\u00e1-la, mesmo que \u00e0s vezes a gente nem a perceba. Falo de viol\u00eancia sexual o tempo todo porque o tempo todo sou lembrada que ela existe, e me acontece, e acontece \u00e0s minhas iguais, e n\u00e3o \u00e9 a exist\u00eancia de um punhado de \u201chomens bons\u201d que vai resolv\u00ea-la, muito menos contrair casamento com algum deles. Falo de viol\u00eancia sexual o tempo todo porque uma vez que a gente treina os nossos olhos para enxerg\u00e1-la, quando aprendemos a parar de ignor\u00e1-la, \u00e9 imposs\u00edvel desver.<\/p>\n\n\n\n<p>Falo de viol\u00eancia sexual o tempo todo porque sou incapaz de n\u00e3o falar, porque me desespera n\u00e3o falar, porque n\u00e3o poder pelo menos cometer o singelo ato de apontar para ela me deixa doida da cabe\u00e7a e me mostra o quanto eu, individualmente, sou um nadinha de nada diante disso que nos acontece a n\u00f3s mulheres. Falo de viol\u00eancia sexual porque se eu n\u00e3o puder falar \u2014 e estou ciente de todas as pontes que queimei ao longo da vida por insistir nisso \u2014, serei uma pessoa a menos falando, e t\u00e3o poucas de n\u00f3s pode realmente falar abertamente sobre ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Se existe um lado bom em resistir \u00e0 viol\u00eancia sexual perpetrada diariamente pelos homens \u00e9 que ela afia a nossa faca interior. A gente vai ficando mais espertinha com o passar do tempo, ainda que nem sempre consiga controlar nossa resposta naquele circuito do c\u00e9rebro que decide se a gente vai fugir, bater ou congelar. \u00c0s vezes a gente congela e se frustra por isso, mas talvez seja melhor que reagir e passar por louca naquele momento espec\u00edfico. \u00c9 nisso que quero acreditar. <\/p>\n\n\n\n<p>Se falo de viol\u00eancia masculina o tempo todo, n\u00e3o \u00e9 por ser incapaz de superar os seus efeitos na minha vida. Mas justamente porque a tenho superado e sobrevivido a ela com certo sucesso todos os dias, mesmo naqueles em que n\u00e3o consigo escapar das suas garras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma vez um amigo em quem eu estava dando uns beijos me disse que um dos motivos porque ele estava terminando o nosso rolo naquele dia era que, segundo ele, eu ainda n\u00e3o tinha superado um ex-namorado abusador. 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