{"id":778,"date":"2026-05-09T21:37:05","date_gmt":"2026-05-10T00:37:05","guid":{"rendered":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/?p=778"},"modified":"2026-05-09T21:40:32","modified_gmt":"2026-05-10T00:40:32","slug":"conceituando-conceitos-genero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/conceituando-conceitos-genero\/","title":{"rendered":"Conceituando conceitos: \u201cg\u00eanero\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas discuss\u00f5es online, \u201cg\u00eanero\u201d por vezes \u00e9 tratado como um conceito social e, outras vezes, como um conceito biol\u00f3gico. Isso sempre vai depender do que \u00e9 conveniente para o interlocutor. Muitas vezes, em uma mesma discuss\u00e3o, ele pode ser tratado at\u00e9 como se fosse as duas coisas. Como dissidente dos chamados <em>Estudos de G\u00eanero<\/em>, eu sei uma coisinha ou outra sobre o assunto e vou tentar fazer aqui um apanhad\u00e3o. N\u00e3o sou nenhum g\u00eanio, mas sou esfor\u00e7ada e espero que os argumentos que trago aqui sejam \u00fateis para quem se aventurar a ler esse text\u00edculo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"816\" height=\"608\" src=\"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-content\/uploads\/Screenshot-2026-05-09-at-20.56.18.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-779\" srcset=\"https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-content\/uploads\/Screenshot-2026-05-09-at-20.56.18.png 816w, https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-content\/uploads\/Screenshot-2026-05-09-at-20.56.18-300x224.png 300w, https:\/\/fabianelima.com\/blog\/wp-content\/uploads\/Screenshot-2026-05-09-at-20.56.18-768x572.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 816px) 100vw, 816px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Se, segundo essa pessoa, ser \u201chomem\u201d \u00e9 um papel social completamente alheio ao fato sexual, o que as nomenclaturas \u201chomem\u201d e \u201cmulher\u201d designam, afinal? Se \u00e9 uma hierarquia, ela se estabelece com base em qu\u00ea exatamente?<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de entrar no tema do \u201cg\u00eanero\u201d, \u00e9 preciso entender a diferen\u00e7a entre teorias substantivas e teorias gerais, j\u00e1 que essa diferen\u00e7a tem tudo a ver com os diferentes campos do conhecimento a respeito dos quais vou falar nesse texto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As teorias gerais s\u00e3o as grandes teorias que explicam fen\u00f4menos universais, ou, pelo menos, universaliz\u00e1veis. A teoria da gravidade, por exemplo, pode ter muitos problemas quando a levamos para o n\u00edvel at\u00f4mico das micropart\u00edculas, mas ela \u00e9 boa o suficiente para explicar fen\u00f4menos em grande escala: ela funciona bem aqui no Brasil, no Afeganist\u00e3o, na Grande Barreira de Corais, e at\u00e9 mesmo na Lua e no restante do Sistema Solar. Na matem\u00e1tica, a teoria dos conjuntos ajuda a explicar abstra\u00e7\u00f5es num\u00e9ricas e as rela\u00e7\u00f5es entre diferentes agrupamentos de elementos. A teoria da evolu\u00e7\u00e3o surgiu como um entendimento sobre os processos da vida que partiu da observa\u00e7\u00e3o direta dos fen\u00f4menos e vem sendo corroborada dia ap\u00f3s dia na biologia. As teorias gerais podem n\u00e3o ser perfeitas, mas elas s\u00e3o explica\u00e7\u00f5es boas o bastante para que, a partir delas, possamos entender melhor o mundo a nossa volta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As teorias substantivas, por outro lado, s\u00e3o teorias localizadas. Elas buscam explicar um fen\u00f4meno espec\u00edfico dentro de um contexto ou grupo social delimitado. Elas surgem a partir de dados qualitativos, gerando conceitos pr\u00e1ticos e aplic\u00e1veis. Elas n\u00e3o s\u00e3o, por\u00e9m, generaliz\u00e1veis, ainda que \u00e0s vezes possam servir para apoiar outras teorias \u2014 as chamadas teorias formais, essas sim generalizantes e mais amplamente aplic\u00e1veis. As teorias formais s\u00e3o o pr\u00f3ximo passo das teorias substantivas, e mesmo elas costumam ter limita\u00e7\u00f5es. Isso porque, na Ci\u00eancias Sociais, a natureza dos fen\u00f4menos estudados \u00e9 bem mais incontrol\u00e1vel e imprevis\u00edvel do que a natureza dos fen\u00f4menos estudados nas ditas \u201cci\u00eancias duras\u201d: os objetos de estudo nas Ci\u00eancias Sociais n\u00e3o podem ser observados no ambiente controlado dos laborat\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cG\u00eanero\u201d, como um conceito das Ci\u00eancias Sociais, tem a ver com a representa\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is, geralmente dentro de uma hierarquia social que \u00e9 fundamentada na divis\u00e3o sexual do trabalho, e que \u00e9, por sua vez, fundamentada na diferen\u00e7a sexual e nos diferentes pap\u00e9is de homens e mulheres dentro do processo da reprodu\u00e7\u00e3o humana. Como conceito para explicar a domina\u00e7\u00e3o masculina, ele \u00e9 fraco justamente porque ignora a diferen\u00e7a de poder entre homens (os seres humanos do sexo masculino) e mulheres (os seres humanos do sexo feminino). Ele se abst\u00e9m de problematizar o sexo como o mediador dessas rela\u00e7\u00f5es, como se fosse poss\u00edvel existir uma \u201cdomina\u00e7\u00e3o por g\u00eanero\u201d das mulheres sobre os homens [1].<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, o conceito de \u201cg\u00eanero\u201d n\u00e3o dessexualiza as rela\u00e7\u00f5es sociais como se pretende; ele serve, no m\u00e1ximo, como um eufemismo. Esse conceito acabou fagocitando os finados Estudos das Mulheres justamente por promover esse afastamento das mulheres da sua realidade imediata e sexuada. Explicar a domina\u00e7\u00e3o masculina atrav\u00e9s do sexo n\u00e3o pega muito bem em um sistema educacional que foi constru\u00eddo por e para homens; \u00e9 justamente por isso que esse conceito foi \u00fatil para aquelas mulheres buscando construir uma carreira dentro desse sistema. Sendo as mulheres necessariamente vulner\u00e1veis \u00e0 atua\u00e7\u00e3o sexual dos homens sobre elas \u2014 s\u00e3o elas as produtoras dos grandes gametas; s\u00e3o elas o sexo que engravida, gesta e pare; s\u00e3o elas as <em>fabriquinhas de seres humanos<\/em>, os recursos mais valiosos deste planeta \u2014, a teoria de \u201cg\u00eanero\u201d, no contexto do pensamento das mulheres, \u00e9 insuficiente para explicar a domina\u00e7\u00e3o masculina, mas \u00e9 suficiente para produzir artigos e engordar curr\u00edculos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema \u00e9 que \u201cg\u00eanero\u201d tamb\u00e9m \u00e9 uma hip\u00f3tese dentro dos estudos da sexualidade, e foi exatamente da\u00ed que ele foi emprestado nas Ci\u00eancias Sociais. Nos estudos da sexualidade, \u201cg\u00eanero\u201d entrou como uma forma de separar a parte comportamental relativa ao sexo do sexo propriamente dito, o que \u00e9 quase o que acontece dentro das teorias sociais, mas com uma diferen\u00e7a importante. A hip\u00f3tese m\u00e9dica assume que todos n\u00f3s temos uma \u201cidentidade de g\u00eanero\u201d, que seria a autopercep\u00e7\u00e3o de ser um homem ou uma mulher.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas dentro da sexologia, al\u00e9m desse conceito estar permead\u00edssimo pelos vi\u00e9ses absolutamente firmados em estere\u00f3tipos dos m\u00e9dicos que o desenvolveram nos anos 1960 \u2014 Robert Stoller, John Money \u2014, ele \u00e9 tamb\u00e9m uma mera hip\u00f3tese sem base cient\u00edfica real. Na pr\u00e1tica do transgenerismo e do antigamente chamado \u201cprocesso transexualizador\u201d, ele serve mais como uma justificativa para a aplica\u00e7\u00e3o das t\u00e9cnicas cir\u00fargicas e hormonais de altera\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas sexuais secund\u00e1rias das pessoas que se submetem a ele do que como uma explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica propriamente dita para a tend\u00eancia de alguns homens de quererem ser do sexo feminino e\/ou assumir alguns dos pap\u00e9is sociais geralmente atribu\u00eddos a mulheres [2], e de algumas mulheres de quererem ser do sexo masculino ou simplesmente fugir do papel de submiss\u00e3o atribu\u00eddo \u00e0s mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nunca existiu na medicina da sexualidade um exame que comprove de fato a exist\u00eancia de uma \u201cidentidade de g\u00eanero\u201d dentro da pessoa que deseja passar por esse processo de modifica\u00e7\u00e3o corporal \u2014 ou sequer das pessoas que n\u00e3o querem, j\u00e1 que essa hip\u00f3tese assume que todos temos uma \u201cidentidade de g\u00eanero\u201d. N\u00e3o existe um exame para sondar o <em>fantasminha do g\u00eanero<\/em> dentro da m\u00e1quina humana sexuada. O diagn\u00f3stico de \u201cdisforia\u201d (i.e., de desalinhamento com os pap\u00e9is sociais atribu\u00eddos ao sexo da pessoa) \u00e9 cl\u00ednico, o que significa dizer que a pessoa senta na frente do m\u00e9dico, relata seus percal\u00e7os e recebe dele, de acordo com uma lista de par\u00e2metros acordados entre sociedades de m\u00e9dicos praticantes dessa arte, o seu diagn\u00f3stico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentro da petul\u00e2ncia generalizada das discuss\u00f5es sobre \u201cg\u00eanero\u201d na internet, algumas pessoas um pouquinho mais letradas nos processos de busca em bases de dados cient\u00edficas costumam jogar algumas refer\u00eancias para tentar provar que \u201cidentidade de g\u00eanero\u201d \u00e9 um fato cient\u00edfico ou, pelo menos, calar a boca da outra pessoa envolvida na discuss\u00e3o. Se essas pessoas sabem mesmo diferenciar interesse de pesquisa de fatos incontorn\u00e1veis ainda me \u00e9 um mist\u00e9rio, mas a verdade \u00e9 que em todos os artigos que me foram apresentados nessas discuss\u00f5es, a hip\u00f3tese da \u201cidentidade de g\u00eanero\u201d \u00e9 colocada a priori e n\u00e3o \u00e0 prova. Assume-se que ela existe e buscam-se evid\u00eancias da sua exist\u00eancia no alinhamento do comportamento e dos padr\u00f5es cerebrais encontrados em imagens geradas por resson\u00e2ncia magn\u00e9tica das pessoas que dizem n\u00e3o estar conformadas com o papel social do seu sexo de nascimento com o comportamento e os padr\u00f5es cerebrais do sexo cujos pap\u00e9is sociais elas buscam emular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, a plasticidade cerebral \u2014 a capacidade do c\u00e9rebro de compensar e se adaptar ao contexto e ao entorno no qual aquele ser humano que o possui atua, esse sim um fato cient\u00edfico comprovado \u2014 \u00e9 ignorada em estudos com amostras rid\u00edculas, n\u00e3o padronizados e, portanto, a partir dos quais n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer uma meta-an\u00e1lise conclusiva. E mesmo que esses estudos apontassem que homens que querem assumir alguns dos pap\u00e9is sociais das mulheres tivessem indubitavelmente os padr\u00f5es cerebrais das mulheres, mulheres n\u00e3o s\u00e3o padr\u00f5es cerebrais detect\u00e1veis em exames de resson\u00e2ncia magn\u00e9tica. Mulheres s\u00e3o os seres humanos do sexo feminino, com toda a complexidade inerente a esse fato generaliz\u00e1vel. Mulheres n\u00e3o s\u00e3o uma designa\u00e7\u00e3o gen\u00e9rica daquelas pessoas que cumprem certas fun\u00e7\u00f5es dentro de um contexto social determinado. Mulheres possuem uma realidade compartilhada relativa ao seu sexo e \u00e0s possibilidades reprodutivas que s\u00f3 os seus corpos t\u00eam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em algumas discuss\u00f5es, j\u00e1 houve vezes em que fui acusada de \u201cnegacionista\u201d por dizer uma frase que digo sempre e que repetirei a seguir: <strong>\u201cg\u00eanero\u201d \u00e9 um conceito dentro de uma tradi\u00e7\u00e3o acad\u00eamica espec\u00edfica a qual ningu\u00e9m \u00e9 obrigada a subscrever<\/strong>. Essa acusa\u00e7\u00e3o de negacionismo parte da ideia de que negar \u201cg\u00eanero\u201d seria como negar uma teoria geral complexa e comprovada como a teoria da evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies ou a teoria da gravidade, quando na verdade tem mais a ver com negar minha participa\u00e7\u00e3o em uma \u00e1rea das Ci\u00eancias Sociais da qual eu j\u00e1 n\u00e3o fa\u00e7o parte h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada e da qual me retirei voluntariamente ao notar que a investiga\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o das mulheres a partir de suas lentes n\u00e3o seria apenas improdutiva, mas contraproducente. \u201cG\u00eanero\u201d, al\u00e9m de n\u00e3o ser uma grande teoria social formal, n\u00e3o serve nem como teoria substantiva. \u00c9 s\u00f3 um conceito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00fanica coisa que \u201cg\u00eanero\u201d enquanto conceito tem sido capaz de fazer, de novo e de novo, seja na Ci\u00eancias Sociais ou nas ci\u00eancias m\u00e9dicas, \u00e9 esvanecer a realidade das mulheres enquanto grupo a partir de um punhado de ideias limitantes e limitadas sobre o que \u00e9 ser homem e ser mulher. Para quem gosta de conceituar conceitos, \u201cg\u00eanero\u201d \u00e9 um prato cheio; para quem tem interesse em desmantelar o sistema de domina\u00e7\u00e3o milenar dos homens sobre as mulheres que se constr\u00f3i a partir da domina\u00e7\u00e3o dos processos reprodutivos e mentais delas por eles, trata-se de uma ferramenta in\u00fatil.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\">\n<li>Se uma domina\u00e7\u00e3o das mulheres sobre os homens algum dia for poss\u00edvel, ela provavelmente n\u00e3o se dar\u00e1 em fun\u00e7\u00e3o do sexo, j\u00e1 que homens n\u00e3o produzem nada por si mesmos a partir da rela\u00e7\u00e3o sexual com mulheres.\u00a0<br><\/li>\n\n\n\n<li>N\u00e3o todos, importante frisar. Homens que afirmam ser mulheres dificilmente se interessam em desempenhar pap\u00e9is sociais femininos que colocam mulheres em subordina\u00e7\u00e3o real \u2014 trabalho dom\u00e9stico, por exemplo \u2014, a menos que seja uma subordina\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e fetichista.<\/li>\n<\/ol>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nas discuss\u00f5es online, \u201cg\u00eanero\u201d por vezes \u00e9 tratado como um conceito social e, outras vezes, como um conceito biol\u00f3gico. Isso sempre vai depender do que \u00e9 conveniente para o interlocutor. Muitas vezes, em uma mesma discuss\u00e3o, ele pode ser tratado at\u00e9 como se fosse as duas coisas. 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