Pois é, tirei do ar. Eram minhas notas pessoais, muito marcadas pelo meu próprio desconhecimento, de uma leitura que não consegui continuar — e a culpa disso não foi apenas o estilo pouco apreciado da escritora —, na qual não tive paciência de me aprofundar e que ficava por aqui ocupando espaço sob o rótulo de uma promessa. Esse ano de merda está chegando ao fim e tá na hora de resolver os assuntos inacabados.

Um número significativo de mulheres já me contatou para agradecer e dizer que meus textos serviram para que elas pudessem compreender melhor do que se trata o livro. Algumas chegaram na graduação ou na pós e se depararam com aquele texto hermético e ficaram injustamente se sentindo burras por não compreendê-lo; outras, atormentadas pelas questões recentes e prementes dos movimentos de mulheres, queriam compreender melhor porque havia tanto auê no entorno dessa escritora específica; outras, compreendendo a situação crítica na qual se encontra a noção das mulheres enquanto sujeitos de seu próprio movimento, buscavam se armar de argumentos para quando enfrentassem as infindáveis e desonestas discussões sobre “gênero”. Muita gente que, como eu, não têm origens tão nobres nem pais com formação superior e chega meio analfabeto de capital cultural na cidade grande quando vai pra universidade, acaba patinando muito na linguagem e nos jargões dos cursos superiores. É quase como adentrar uma sociedade secreta/discreta onde você precisa reproduzir e repetir os ensinamentos e rituais que são passados, às vezes sem muita reflexão crítica — que é justamente o oposto do objetivo de uma universidade! Minha realidade e experiência vivida não me permitiram ler Butler e tomar aquilo como uma teoria que reflete experiências de mulheres e contribui na sua emancipação, seja na minha primeira tentativa imatura de ler o livro, seja na leitura que gerou essa série e que já era mais informada.

Algo que passou a me incomodar a respeito da série ao longo dos anos (o primeiro post é de 2015) foi a forma como minha escrita dessa época envelheceu mal. Eu não tinha nem mesmo a disciplina que tenho hoje para escrever, e estava ainda seriamente prejudicada pelo péssimo hábito do Twitter. Além disso, tem a retórica tosca e a falta de embasamento em algumas afirmações que fiz que, ainda que eu tenha deixado claro o tamanho de minha ignorância, hoje são dúvidas sanadas ou ao menos assuntos melhor compreendidos. Para ficar satisfeita com esses textos, teria de reescrevê-los todos inteiramente, coletar mais referências e cruzar mais leituras, e acho que tem livros melhores para ler nesse mundo disputando minha atenção de peixinho dourado — alguns, inclusive, cujas séries estão paradas aqui também e são material de muito melhor qualidade que minhas interpretações do que Butler escreveu, ou mesmo muito melhores que o próprio Problemas de Gênero.

Não pretendo mais terminar o fichamento desse livro porque já queimei neurônios o suficiente com ele para precisar dar-lhe ainda mais atenção. Tem mulheres maravilhosas e muito mais instruídas que eu por aí falando dessa viragem queer no feminismo com referências muito melhores — aqui um exemplo, aqui outro, aqui outro, e aqui outro. Isso não significa que esses textos não vão mais estar disponíveis. Em algum dia que ainda não se sabe perdido no futuro, pretendo talvez quem sabe publicar essas minhas notas como e-book com alguma revisão. Isso vai depender da demanda, claro: me avise aí se você acha interessante que algo assim realmente veja a luz do dia, ou se não é melhor mesmo eu ir caçar outra coisa para fazer com meu tempo além de construir má fama perante meus pares nessa grande loja maçônica que é a academia.

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8 Comments

  1. Fabiane eu estava usando seus textos para um trabalho de faculdade que comecei ontem sobre a Judith Butler, por favor por favor preciso muito deles pois eram incríveis para mim. Se puder me ajudar eu agradeceria do fundo do meu coração. Meu email é enzoguimatrevisa@gmail.com

  2. Adoro a sua escrita! Por favor, não deixe de um dia publicar as suas anotações sobre a Butler, seria um prazer adquirir o livro.

  3. Pense em publicar sim. Infelizmente não há material desse tipo em português, seu texto é muito necessário!

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