Resenha: World War Z (2006)

Quando iniciou a pandemia, resolvi ler o World War Z do Max Brooks. Não é o tipo de literatura que costumo ler — não que eu tenha lido muita literatura nos últimos anos, e ainda houve um momento na última década que eu não conseguia ouvir a palavra “zumbi” sem revirar o zoinho —, mas justamente isso, somados a elogios de amigos e o fato de o autor ser filho daquele outro Brooks me motivaram. Aliás, o fato de estarmos em uma pandemia sem precedentes de proporções globais e esta entrevista do autor também influenciaram a decisão.

A ideia geral do livro é bastante interessante, resumida no subtítulo: consiste em uma história oral da guerra zumbi, uma coletânea de entrevistas com depoimentos dos mais variados agentes que tiveram algum papel na contenção daquela pandemia. É uma extensão de um livro anterior, uma aplicação prática do Zombie Survival Guide que o autor publicou em 2003. Apesar da proposta e do formato interessante, tive trabalho pra terminar a leitura, e a culpa nem foi dos zumbis.

Depois que o plot inicial (bom, por sinal) se exaure, tudo fica muito chato — a pandemia começa na China, que treta com Taiwan e a porra toda explode em países subdesenvolvidos através de tráfico de órgãos; qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Toda a narrativa parece existir em função de exibir os conhecimentos bélicos e geopolíticos do autor — veículos de terra e ar, rifles, bases, armas e equipamentos em geral, a posição estratégica de sei o que lá etc. A premissa dos conflitos políticos e até a crítica social foda acaba se perdendo no meio dessa nerdarage tediosa.

O problema principal, imho: não existe voz, todos os personagens soam iguais. Complicado de resolver, dado que o livro consiste dessas centenas de depoimentos e é realmente difícil individualizar personagens desse jeito [*]. Depois do primeiro parágrafo de cada depoimento, que existe ali mais pra contextualizá-lo, tudo parece muito mais do mesmo, independente de o fato narrado ter se passado na China ou em uma base militar na Sibéria. O uso de termos específicos de algum idioma não salva o texto dessa voz mono, o que me fez adotar a estratégia da “leitura dinâmica” (hehe!) para me forçar a terminar o negócio; chegar ao fim foi questão de honra mesmo.

Brooks é mais um daqueles autores que conseguem criar um mundo bem interessante, mas na hora de povoá-lo com personagens a coisa não anda. Talvez a versão cinematográfica (2013) seja melhorzinha nesse sentido de construção de personagens: Hollywood tem ferramentas razoavelmente competentes para esse tipo de adaptação, vamos ver se tenho saco pra ver no que deu.


[*] Um livro do escritor chileno Roberto Bolaño conseguiu essa proeza, de certa forma, em um formato semelhante e sem deixar o texto maçante: a sátira La Literatura Nazi en America usa o formato de “enciclopédia” para contar a vida de uma série de personagens.

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