Escrevo isso porque não aguento mais ouvir a palavra “socialização” e precisava rabiscar contra ela. De modo algum quero esgotar o assunto, e até convido quem me leia para jogar pedra nesse conceito também, para que todas nós em conjunto possamos cobrir muito bem todas as bases da crítica. “Socialização” é um jeito preguiçoso de explicar a razão de os homens continuarem violentando mulheres mesmo depois de tantos pedidos suplicantes nossos para que eles, por favor, parem de nos matar. Homens, criados assim, forjados no seio do patriarcado, perpetuam sua dominação através do software de “masculinidade” que instalam em suas próprias cabeças em contato com o mundo exterior. Eles chegam em um mundo que já estava assim e se valem das regras que já existiam previamente para desfrutar de vantagens sociais que só são perpetuadas porque, a qualquer momento, na pior de todas as hipóteses, qualquer um deles pode erguer o tom de voz, tirar o pinto das calças (literal e/ou figurativamente) e exercer a sua autoridade de homem ganhada através da “socialização” sem nenhuma penalidade.
As pessoas se valem desse conceito de “socialização”, esse software irremovível que larga bibliotecas espalhadas por toda a árvore de diretórios do sistema operacional do indivíduo macho ocupando espaço e fazendo peso no seu disco rígido, para justificar que homens podem mudar e se converter dos seus maus caminhos e, supostamente, evitar explicações ditas “biologizantes”. O problema é que, apesar de homens poderem mudar em vários outros contextos e de termos exemplos disso a todo o momento e em todos os lugares — afinal, “nem todo homem”, assim como “nem todo ganso” é branco se houver pelo menos um outro ganso de outra cor no planeta —, homens percebem desde muito cedo que possuem inegáveis vantagem físicas e sexuais sobre mulheres. Eles sabem que, só de gritarem alto o bastante com a desculpa correta e mais insincera do mundo, já conseguem alguns favores. Cada um deles sabe que é capaz de manter para sempre uma mulher, um outro ser humano inteirinho, sob o seu olhar se conseguir se perpetuar através dela. Eles sabem que, em termos sexuais, uma mulher pode muito pouco se ele quiser mesmo enfiar dentro dela a sua semente e ela estiver vulnerabilizada o suficiente para isso. Eles sabem, como sabiam e aprenderam observando os cabritos nas campinas do Cáucaso, que é pela inoculação de seu próprio poder reprodutivo que o poder reprodutivo de uma mulher se manifesta. Ele pode então fazer uso deste poder através do uso da mulher, um poder vicário que pode ser mantido através de violência em seus vários graus e amplas manifestações, e pela terceirização de qualquer tipo de consequência.
Que os homens cultivem entre si esse conhecimento ancestral parece causar espanto em algumas mulheres que justamente acreditam na hipótese da “socialização”. Não devia ser assim! Eles poderiam ser melhores se quisessem, se não fossem inebriados pelas possibilidades que se abrem a eles por controlar uma mulher, possibilidades essas que nem mesmo elas têm muita noção. Ter um ser humano completo dedicado a te agradar e proteger, se importando se você comeu e dormiu bem? Tem quem nem com a mãe tenha experimentado uma coisa dessas. Algumas dessas mulheres parecem ter se convencido de que homens não fazem o que fazem por mal e, por essa consciência ingênua, podem ser perdoados e “ressocializados”… Por elas, claro! (não contem comigo), dispostas a esse trabalho de porta de cadeia ou de funcionária de creche de seres humanos adultos.
O problema é que, não apenas a explicação da “socialização” não explica nada, sendo apenas uma hipótese provisória, como trabalha para evitar de se chegar na resposta. Embora, para o feminismo, de fato seja irrelevante de onde vem a dominação masculina porque o que importa de verdade é o seu fim, talvez seja interessante pensar sobre isso mesmo assim, e é por isso que tantas estudiosas o fizeram. Porém, a explicação da “socialização” é usada para propósitos antifeministas, como, por exemplo, tornar a própria submissão das mulheres aos homens mais palatável, em pequena e grande escala. Olha aí, deixou a toalha molhada em cima da cama de novo, guardou só as próprias roupas e não também a da esposa e dos filhos, agiu com estupidez na intimidade, virou para o lado e dormiu: a socialização não falha mesmo! Se não existe nenhuma “essência dominadora” nos homens (e não estou dizendo que exista), de onde vem essa contaminação? Quem socializa os socializadores? Estando, em geral, sob a tutela de mulheres durante a primeira infância, não seriam então as mulheres as responsáveis diretas pela dominação masculina?
Até há quem diga que sim, em uma interpretação um tanto curta dos estudos que mostram que lá nos tempos muito antigos, entre uma dinastia egípcia ou persa e outra, as rainhas-sacerdotisas passaram a gradualmente dividir o trono com seus irmãos-esposos, e toda a nossa desgraça atual teria advindo daí[1]. O que será que fez nessa briga familiar o irmão levar a melhor fica a critério dos defensores dessa hipótese. Talvez tenham mudado em algum tempo oportuno a eles o conteúdo programático do currículo da “socialização” das mulheres, e elas então passaram a agir contra suas próprias semelhantes. Afinal, o preço da traição para obtenção de vantagens pessoais, para as mulheres, sempre foi a obrigação de trabalhar no recrutamento das demais.
Mas mesmo essa explicação deixa de fora a responsabilidade masculina. Muito conveniente! Então, quando homens fazem o que fazem contra mulheres, eles o fazem de caso pensado ou são levados pelas circunstâncias? São eles tragados pelas oportunidades que as mulheres próprias deixaram ali para que eles pudessem se aproveitar delas? É tão grande a tentação pelo poder e tão fraca a sua força de resistência à chamada “socialização masculina” que são muito poucos os que poderiam resistir a ponto de mudar todo esse sistema de castas e fazer ruir tudo? Se são justamente as mulheres que lhe oferecem o fruto proibido, estarão os homens cometendo algum pecado assim tão grave quando o tomam da mão delas e o exercem enquanto poder?
Compreendida de forma tanto vaga como um fato social nos posts do Instagram pela repetição acrítica, a “socialização” é como um hábito praticado pelo indivíduo na sua descoberta do mundo, que o pratica através das próprias referências de que tem à sua disposição. É o processo de formação de si próprio do sujeito a partir do que existe em seu contexto e entorno. Transpondo essa compreensão do que “socialização” significa para a construção e manutenção da dominação masculina sobre as mulheres, um monte de mulher desinformada adota a explicação de um homem[2] — bem intencionado, vá lá, mas incompleto como sempre — para evitar enxergar a realidade diante dos próprios olhos. O poder se mascara nas relações, é verdade, mas até os críticos mais suaves dessa ideia são capazes de reconhecer que ela não deixa o espaço para mudanças intencionado pelos seus defensores. É engraçado como uma compreensão tão totalizante de como ocorre o convencimento dos homens de que devem dominar mulheres é manejada o tempo todo em uma suposta tentativa de não se “biologizar” ou “essencializar” a questão!
A “socialização” não explica a dominação masculina e, quando explica, a explicação não satisfaz. Afinal, mulheres rompem com a sua “socialização” o tempo todo. Se isso não fosse verdade, seríamos todas cordeirinhas obedientes; a violência constante e em vários níveis que os homens precisam exercer sobre nós para manter esse estado de terror já prova essa realidade. Não existe quantidade suficiente de argumentos para convencer homens a abrir mão de um poder que lhe é intrínseco e que não é compensado por nenhum outro: o poder de impôr a própria presença às mulheres[3] e de impôr os seus interesses diametralmente opostos aos das mulheres no que se refere a sexo e reprodução, onde o ônus é todo delas. Se o foco urgente é o fim da dominação masculina, é bom a gente entender logo que não vai ser pela conversa e pelo convencimento que isso vai acontecer.
Homens cometem grandes e pequenas atrocidades contra mulheres porque são programados socialmente para isso ou essa programação vem do seu sexo, da natureza, dos seus genes? E qual exatamente é a diferença real entre essas duas posições, se ambas permitem que homens, esses seres que se gabam das façanhas de outros homens para as quais nunca contribuíram, dizendo que construíram em coletivo grandes obras e atravessaram oceanos motivados puramente pela Vontade, justifiquem qualquer ação sua com um “foi inevitável, eu não estava suficientemente consciente”?
Encontrar o motivo pelo qual os homens são assim pode até ajudar a combater a causa e resolver o problema, mas não vai torná-los muito melhores do que eles já são hoje. A realidade é essa, eles são assim e ponto: se trocar o nome da rosa, eles confessam os maiores absurdos. Eles são isso aí, lide como achar que deve, e saiba que é sim por vontade própria que homens fazem o que fazem contra as mulheres. Qualquer explicação diz mais respeito ao potencial que nós, mulheres, insistimos em enxergar neles, do que uma possibilidade honesta de um futuro vindouro onde homens voluntariamente se absterão de exercer o que eles acreditam lhes ser de direito, declarem isso em voz alta ou não. Eles fazem o que fazem porque querem, porque podem, porque adquirem vantagens, porque têm vontade, têm oportunidade e mínimas chances de serem responsabilizados.
O importante mesmo é lembrar sempre que socialização não obriga ninguém a nada — nem mesmo as mulheres.
- Minhas referências nesse assunto são Rosalind Miles (Who Cooked the Last Supper. Nova York: Three Rivers Press, 1988) e Merlin Stone (When God Was a Woman. Nova York: Dial Press, 1976). Li ambas tem muito tempo, mas recordo que são livros ótimos para dar perspectiva das coisas e matar umas ilusões.↩︎
- Para escrever este texto e me certificar de que o que me parecia à primeira vista uma ideia Bourdieana era mesmo uma ideia Bourdieana — já que ninguém parece interessado em saber as origens das ideias que propaga, e existe uma espécie de saber sociológico vago não atribuído a ninguém em específico que habita os corações dos especialistas do Instagram —, consultei esse artigo aqui, da professora Doutora Maria da Graça Sethon, da USP. Vale bem a leitura.↩︎
- Que o diga a nossa atual necessidade constante de labutar para preservar os nossos espaços separados por sexo (e de criar outros ainda), construídos pelas mulheres que vieram antes, onde poderíamos prescindir da presença deles. O que deixa os homens putos é justamente o fato de que, se estivermos sãs, não nos sentimos “perdedoras” sem eles, mas aliviadas.↩︎