No design de interfaces gráficas, metáforas ajudam a orientar os usuários: através de símbolos e ações, elas comunicam as funções e os usos possíveis do programa a partir de analogias feitas com o mundo material. Assim, pictogramas de lixeiras sinalizam o diretório onde se pode descartar arquivos que não são mais úteis, enquanto que pictogramas de lupas indicam a possibilidade de fazer pesquisas no conteúdo disponível.

A maioria dessas metáforas funciona mais como índices das ações possíveis, pois nem sempre representam a realidade das ações dos seus significantes no mundo real. Elas apenas acrescentam uma camada a mais de abstração no uso de dispositivos eletrônicos. O uso literal de algumas dessas representações pode ser tentador para o designer iniciante, mas também pode proporcionar uma experiência de uso pior em ambiente eletrônico, principalmente se esbarrar em alguma limitação da plataforma. Uma dessas metáforas tentadoras é a do page flip [1], que tenta simular o folhear de páginas de um códice impresso. O projeto de interfaces para web, no entanto, não precisa estar circunscrito ao formato de uma mídia que não comporta as suas características.

Isso não significa que o designer de interfaces não possa se valer das linguagens da mídia impressa — e do repertório e do conhecimento prévio dos usuários — na manipulação de outras mídias. É preciso conhecer as possibilidades da mídia para usar com sabedoria e criatividade essas ferramentas.

No início dos anos 2000, muitas limitações — incluindo aí a menor capacidade de tráfego de dados na rede e a falta (do uso) de padrões de desenvolvimento influenciavam os projetos nos meios digitais, reduzindo as possibilidades de designers e desenvolvedores. Com o tempo, o design para web foi cada vez mais emprestando a linguagem da mídia impressa conforme o uso de imagens e novas tipografias foi se tornando possível.

Essa viragem se deu a partir de meados da primeira década dos anos 2000 e se consolidou em fins desse mesmo período, quando os designers gráficos começaram a experimentar com a linguagem visual de seus blogs pessoais. Eu mesma participei desse movimento, me inspirando em outros blogs que também embarcaram na onda dos art directed blog posts [2] ou blogazines.

Infelizmente, na época, foi um recurso difícil de manter: exigia a instalação de um plugin bugado desenvolvido por um único programador e o projeto gráfico levava muito mais tempo para ser construído, uma vez que exigia conhecimentos razoáveis de HTML e CSS. Além disso, nenhum designer está a fim de perder horas desenvolvendo layout para um conteúdo ruim, principalmente em se tratando de um blog pessoal com o objetivo de divulgar o trabalho desse designer. Isso levava-nos a só diagramar conteúdo especial de vez enquando, ou a criar uma folha de estilo mais simples para os posts sem tanta exigência.

Em fins da década passada, essa linguagem começou a sair dos “guetos” das comunidades de designers e desenvolvedores e passou a ser adotada em matérias especiais de grandes veículos de mídia. Isso culminou no chamado “Efeito Snowfall“, por causa de um especial jornalístico homônimo publicado em 2012, que influenciou jornais de todo o mundo [3] a publicarem conteúdo especial na web com o mesmo cuidado na linguagem gráfica que esses conteúdos recebiam quando eram publicados nos cadernos impressos.

Essa linguagem gráfica, ainda que trabalhosa de ser aplicada pela vasta maioria dos usuários, influenciou e motivou o surgimento de novos serviços. O usuário leigo agora pode ampliar as possibilidades de seus conteúdos com serviços como o Medium ou o editor Gutenberg. Sem nenhum conhecimento de código, é possível usar os blocos compositivos dessas ferramentas para criar elementos tipográficos tradicionais da mídia impressa, como por exemplo boxes, títulos, gravatas, vinhetas e olhos. Mesmo os sites sem foco em conteúdo textual agora possuem ferramentas de construção automáticas, que permitem a qualquer um desenvolver um site pessoal com aspecto profissional.

Em pouco mais de dez anos, o Estilo Tipográfico da web se desenvolveu e consolidou. Qualquer usuário em posse de uma conta em um serviço de publicação de conteúdo pode ter acesso às “manhas” de um designer, sem ter de recorrer a qualquer tipo de treinamento ou conhecimento prévio maior que o do uso de uma interface gráfica, sem precisar apelar à contratação dos serviços de um profissional. O designer que trabalha na web migrou para atividades mais específicas e voltadas às plataformas. E os blogs pessoais em plataformas independentes… o meu acho que continuará aqui por mais algum tempo. 🙂


Este texto foi baseado nas reflexões que apresentei em sala de aula em 2018 na disciplina de “Webdesign” do curso de Tecnologia em Design Gráfico da UTFPR.


Notas

[1] Caso você queira passar por esta não tão agradável experiência de uso, clique aqui. Há quem argumente que possa funcionar em alguns contextos, como por exemplo na visualização de documentos PDF. Mas aí eu argumento de volta que o PDF está mais próximo do impresso que uma interface mais flexível.

[2] Note como alguns desses layouts não sobreviveram a mudanças mais profundas que inevitavelmente acontecem ao longo do tempo em um site. O único que manteve a mesma estrutura de quando foi publicado foi o do Jason Santa Maria, que mantém arquivos de versões separadas dos seus sites pessoais conforme eles foram mudando ao longo do tempo.

[3] Na Gazeta do Povo, tivemos o nosso próprio Snowfall. Participei diretamente do projeto, mas infelizmente o especial agora está disponível somente através da Wayback Machine. Levamos um Malofiej de infografia online por causa desse projeto em 2014, mas a própria listagem da edição do prêmio desse ano não está disponível no site.

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